PORTUGAL
ESQUECIDO
O que Portugal esqueceu
Curiosidades
Sabia que há um lugar em Portugal onde, todos os Natais, se repartem pães que a lenda diz terem sido pedras?
A pedra que matou o santo virou o pão que alimenta a sua terra.
Sabia que a czarina Catarina II, a Grande, mandou pedir a Portugal uma «terra de Mafra» que se dizia curar o cancro?
De Mafra, a corte russa quis o que nenhum ouro comprava: uma cura.
Em destaque
A Prova de Ourique
A cena é conhecida: Afonso Henriques de joelhos, descalço e sem armas, e Cristo crucificado no céu antes da batalha de Ourique. O documento que diz registar as palavras de Cristo, o Juramento, só aparece impresso em 1598 — quatrocentos e cinquenta e nove anos depois. Esta é a biografia desse papel: quem o imprimiu, quem o pôs no centro da narrativa, o censor régio que em 1753 lhe chamou «um dos pontos mais certos e infallíveis da nossa Historia», e o que aconteceu ao país quando Alexandre Herculano o despachou numa nota de rodapé de duas frases. A melhor resposta contra ele foi de Camilo Castelo Branco, anónimo, em 1850.
A Ilha que Ficou Vazia
Em agosto de 1617, uma frota argelina de oito navios desembarcou em Porto Santo. Saquearam as igrejas, queimaram os arquivos e levaram as pessoas: mais de seiscentas da ilha, segundo a historiografia mais citada, e perto de mil e duzentas da Madeira. A ilha ficou quase despovoada. E os arquivos que permitiriam fechar a conta arderam nessa mesma noite — por isso a casa onde Colombo viveu casado tem data e morada, e o quase-apagamento da ilha só tem números que não concordam entre si.
As Gravuras Não Sabem Nadar
A barragem já estava a ser construída quando o país soube o que havia naquele vale: milhares de cavalos, auroques e veados gravados no xisto há mais de vinte mil anos. A revolta nasceu na escola secundária de Foz Côa, com um grito emprestado de uma canção — «as gravuras não sabem nadar». O que a memória nacional apagou é que, em janeiro de 1996, as sondagens já davam mais portugueses contra do que a favor. O Estado escolheu a pedra na mesma, e pagou 129,6 milhões de euros pela barragem que não se construiu.
Os Três Irmãos Corte-Real
Gaspar Corte-Real navegou para o Atlântico Norte em 1501 e nunca mais voltou. O irmão Miguel foi à procura dele no ano seguinte, e desapareceu também. Quando o terceiro irmão, Vasco Anes, pediu ao rei uma nau para ir atrás dos dois, D. Manuel I recusou-lha — com um único motivo registado: temia perder o último varão da linhagem. Quatro séculos depois, Pessoa devolveu a cena em verso. Vasco Anes, a quem nunca deixaram embarcar, é o único dos três cuja história se consegue contar até ao fim.
As Redes de Johnstone
Durante anos, as redes de um pescador queniano traziam à superfície pequenos fragmentos de louça partida. Ele guardava-os, sem saber que estava a puxar um navio inteiro. Quase vinte anos depois, ninguém sabe ao certo qual: ou o «São Jorge», da última armada de Vasco da Gama, em 1524, ou a «Santa Maria da Graça», perdida em 1544 com quase toda a tripulação já morta. O porão, esse, já devolveu o retrato de uma vida comum a bordo: a louça herdada que alguém levava consigo, e as mós de pedra que outro contrabandeava contra a lei.