Levaram os sinos das igrejas para os navios e puseram fogo aos arquivos antes de partir. Isto foi só o início.
Nessa noite de agosto de 1617, uma frota argelina quase apagou do mapa uma ilha portuguesa inteira. Depois levaram as pessoas.

Porto Santo não é uma ilha qualquer. Foi descoberta por acaso em 1418, quando uma tempestade empurrou dois capitães portugueses para dentro do porto abrigado da ilha. E foi ali que Cristóvão Colombo, ainda antes de olhar para ocidente, viveu casado. A sua história está toda contada, com data e morada. A história de quase se apagar não está.

João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, ao serviço do Infante D. Henrique, foram os capitães que a tempestade trouxe até aqui. Poucas décadas depois, a ilha ganhou o primeiro capitão-donatário, Bartolomeu Perestrelo, em 1445. E foi a filha dele, Filipa Moniz Perestrelo, quem se casou com um navegador genovês que o mundo ainda não conhecia pelo nome: Cristóvão Colombo. Viveram os dois em Porto Santo. A casa é hoje um museu, com morada certa e visitas marcadas.

Essa é a Porto Santo que se conta em qualquer guia. A outra começou a formar-se em 1616, quando corsários argelinos atacaram Santa Maria, nos Açores, e descobriram que o Atlântico português estava por defender. No ano seguinte, chegou a vez de Porto Santo. Em agosto de 1617, uma frota de oito navios e oitocentos homens desembarcou na ilha. É este o número que a historiografia mais citada regista: mais de seiscentas pessoas de Porto Santo, e ainda perto de mil e duzentas da Madeira, escravizadas num só dia. Saquearam alfaias e sinos das igrejas. Queimaram os arquivos. Os cativos seguiram para Argel.

Um relato mais tardio, atribuído ao historiador madeirense Alberto Artur Sarmento, torna a cena ainda mais dura. Nele, o sargento-mor João de Viveiros comanda sozinho a defesa da ilha, dois dias inteiros, sem que lhe chegassem reforços ou meios de lado nenhum. Ao terceiro dia, sem homens nem armas para continuar, cede. Segundo esse relato, os argelinos terão levado novecentas pessoas dessa vez. Terão ficado na ilha apenas dezoito ou dezanove homens. E sete mulheres.

Porto Santo ficou, dizem as fontes, quase completamente despovoada. E os arquivos que poderiam confirmar ao certo quantos ficaram e quantos partiram arderam nessa mesma noite. A ilha não perdeu só gente: perdeu também o registo que ainda hoje permitiria fechar a conta.
Essa vaga corsária ainda não tinha esgotado o fôlego. Quatro anos depois, uma frota semelhante seria enfrentada ao largo da Ericeira, na costa continental portuguesa.
Hoje Porto Santo é a mais pequena ilha habitada do arquipélago da Madeira: 5 158 habitantes no censo de 2021, menos do que os 5 483 de 2011, uma pequena descida, como a de tantas outras povoações rurais do país, sem relação direta com o que aconteceu quatro séculos antes. Mais de quatrocentos anos depois de quase ter ficado sem ninguém, a ilha continua, simplesmente, habitada.
O museu de Porto Santo guarda um casamento com data, morada e nome. O quase-apagamento da ilha só guarda números que não concordam entre si. Fica a casa. Fica o porto. Fica, ainda, a ilha.