Gaspar Corte-Real navegou para o Atlântico Norte em 1501 e nunca mais voltou. O irmão foi à procura dele, e desapareceu também. Quando o terceiro irmão pediu ao rei uma nau para ir atrás dos dois, o rei disse que não.
Os três eram filhos de João Vaz Corte-Real, capitão donatário de Angra, na ilha Terceira, cargo que a coroa lhe confiara em 1474. Gaspar e Miguel tinham posto os olhos na Terra Nova do Bacalhau, a costa fria a norte que os navegadores portugueses queriam ver reclamada; o rei prometera a quem a encontrasse o direito de a governar. Vasco Anes, o mais velho, ficara em terra: sucedera ao pai como capitão de Angra e ajudara a financiar as viagens dos irmãos, sem nunca embarcar nelas.

Em 1500, Gaspar avistou terra que os cartógrafos do seu tempo registaram como «Ponta d'Asia», ao largo da Gronelândia. O gelo, ou o mau tempo, não o deixou desembarcar. No ano seguinte tentou de novo, com três caravelas. Chegaram a uma costa de pinheirais e frutos silvestres, subiram um rio à procura de porto. Em outubro de 1501, duas das três caravelas voltaram a Lisboa. A de Gaspar, não. Nunca mais se soube dela nem dele.

Miguel não hesitou. Tinha pago as duas viagens do irmão sem nunca ter ido nelas; agora ia ele. Passou o inverno a organizar a busca, e em maio de 1502 partiu de Lisboa com três naus, decidido a encontrar Gaspar onde quer que estivesse. Chegaram à mesma costa, e separaram-se para vasculhar mais depressa, com regresso combinado a um ponto de encontro em 20 de agosto. Duas naus lá chegaram, à hora marcada. A de Miguel, outra vez, não. Também dele nunca mais se soube nada.

Restava o mais velho. Vasco Anes Corte-Real, já capitão donatário confirmado, pediu em 1503 ao rei D. Manuel I licença para navegar ele próprio até à Terra Nova, atrás dos dois irmãos perdidos.

O rei recusou-lha. Não por falta de vontade de procurar: mandou duas naus nesse mesmo ano, sem Vasco Anes a bordo. Recusou-lha a ele, pessoalmente, com um único motivo registado: temia perder o último varão daquela linhagem. As naus regressaram no outono. Não encontraram rasto de nada.

Vasco Anes nunca mais pediu para ir. Mas também nunca abandonou o direito da família àquela terra sem nome certo, que o rei lhe voltou a confirmar mais de uma vez nos anos seguintes. Mais de quatro séculos depois, Fernando Pessoa devolveria a cena a este país, em verso, na Mensagem: um rei que nega a um homem a licença para procurar os próprios irmãos, e a resposta que o poema lhe dá: «Mas Deus não dá licença que partamos.»

Do que aconteceu a Gaspar e a Miguel, ninguém voltou a saber nada de certo. Em 1912, um professor de psicologia da Universidade Brown, Edmund Delabarre, acreditou ter encontrado a resposta gravada numa pedra à beira de um rio, no Massachusetts: um nome, uma data, «1511», que leu como prova de que Miguel sobrevivera ao naufrágio, se tornara chefe entre povos nativos e ainda vivia dez anos depois de ter desaparecido. A descoberta correu o mundo. Décadas depois, os historiadores Samuel Eliot Morison, em 1971, e Douglas Hunter, em 2017, desfizeram a leitura, risco a risco: a pedra não diz o que ele quis que dissesse.
Vasco Anes, esse, teve o fim que aos irmãos faltou. Distinguiu-se em armas em Marrocos, foi vedor da Fazenda Real, sentou-se no conselho do rei. Casou, teve seis filhos. Morreu em Évora a 26 de fevereiro de 1537, num tempo em que chegar a essa idade já era, por si só, uma sorte rara.
Gaspar e Miguel ficaram sem data de morte, sem sepultura, sem versão final, mesmo depois de uma pedra na América ter tentado dar-lhes uma que não era verdadeira. Vasco Anes, a quem o rei nunca deixou embarcar, é o único dos três irmãos Corte-Real cuja história se consegue contar até ao fim.