Durante anos, as redes de um pescador queniano traziam à superfície pequenos fragmentos de louça partida. Ele guardava-os. Não sabia que estava a puxar, aos poucos, um navio inteiro.

Johnstone Albert Kahindi pesca ao largo de Ras Ngomeni, uma pequena aldeia na costa do Quénia, perto de Melinde (o atual Malindi). Em 2007, mostrou os fragmentos a Caesar Bita, arqueólogo queniano que tinha começado como antropólogo e se formara, mais tarde, na China, em arqueologia subaquática. Bita foi mergulhar no ponto indicado. Encontrou o fundo coberto de pedras de lastro e madeiras maiores do que as habituais naquela costa. Ali estava, afinal, um navio grande, de construção europeia.

O Padrão de Vasco da Gama, erguido em Melinde na sua primeira viagem à Índia (1498 ou 1499) e ainda hoje de pé, a poucos quilómetros do destroço de Ngomeni. Pintura a partir de uma ilustração real de época; a forma do monumento é a documentada.
FIG. 02O Padrão de Vasco da Gama, erguido em Melinde na sua primeira viagem à Índia (1498 ou 1499) e ainda hoje de pé, a poucos quilómetros do destroço de Ngomeni. Pintura a partir de uma ilustração real de época; a forma do monumento é a documentada.

Ainda hoje, quase vinte anos depois, ninguém sabe ao certo qual.

O mesmo jovem mergulhador, já debaixo de água, à procura do que o pai encontrou por acaso. Pintura: evocação ilustrativa, não retrato de pessoa real.
FIG. 03O mesmo jovem mergulhador, já debaixo de água, à procura do que o pai encontrou por acaso. Pintura: evocação ilustrativa, não retrato de pessoa real.

Há dois candidatos. O primeiro é o São Jorge, que em 1524 integrou a terceira e última armada de Vasco da Gama. O navegador, já um homem idoso, vivia então afastado da corte, na Vidigueira, depois de um período de perda de prestígio; aceitou voltar à Índia como vice-rei. Partiu, segundo a equipa que hoje investiga o destroço, com quinze navios e cerca de três mil homens. Um deles era o São Jorge, nau ou galeão, não se sabe ao certo. Passou o Forte de São Julião da Barra e as fontes sobre o navio praticamente desaparecem: sabe-se apenas que se perdeu nas águas rasas de Melinde, sem baixas aparentes, e que a tripulação foi transferida para os restantes navios, rumo à Índia. Gama seguiu viagem. Morreu em Cochim a 24 de dezembro desse mesmo ano, véspera de Natal.

O primeiro mergulho no local: pedras de lastro e madeiras maiores do que as habituais naquela costa. Pintura: cena imaginada.
FIG. 04O primeiro mergulho no local: pedras de lastro e madeiras maiores do que as habituais naquela costa. Pintura: cena imaginada.

O segundo candidato é a Santa Maria da Graça, nau que partiu de Lisboa vinte anos depois, em 1544, sob o comando de Simão de Melo. Um erro de navegação de trezentas léguas desviou o navio para a costa da Somália, perto de Mogadíscio, em vez da Índia. Quando finalmente tentou rumar a Melinde, para recrutar marinheiros locais, já lhe tinham morrido setenta e seis homens; restavam por volta de vinte de pé. Encalhou, provavelmente por erro de manobra, junto a uma ponta de terra. «Fomos a perder em uma ponta de uma enseada que lançava muito ao mar», escreveu Melo ao rei.

Um prato de porcelana chinesa, guardado no porão, que bem pode já ter sido, nessa altura, um prato de família. Pintura: cena imaginada.
FIG. 05Um prato de porcelana chinesa, guardado no porão, que bem pode já ter sido, nessa altura, um prato de família. Pintura: cena imaginada.

Um navio perdido no ano em que Vasco da Gama morreu. Um navio perdido depois de quase toda a tripulação já ter morrido de doença. Por enquanto, as pistas arqueológicas não apontam claramente para nenhum dos dois. Uma jarra de cerâmica, encontrada num mergulho de 2025, pesa a favor da Santa Maria da Graça; fragmentos de louça recuperados em 2026 pesam a favor do São Jorge. «Isso não desqualifica nenhum dos dois candidatos», admite Filipe Castro, arqueólogo náutico da Universidade de Coimbra e um dos responsáveis pela escavação. É, para já, um empate técnico. Uma nova campanha está marcada para novembro de 2026, para tentar resolvê-lo.

Mós de pedra, cujo transporte a documentação sugere que era proibido, contrabandeadas porque valiam até oito vezes mais na Índia. Pintura: cena imaginada.
FIG. 06Mós de pedra, cujo transporte a documentação sugere que era proibido, contrabandeadas porque valiam até oito vezes mais na Índia. Pintura: cena imaginada.

Talvez não seja isso o que importa.

Uma jarra de cerâmica com folhas de carvalho e bolotas, recuperada num mergulho de 2025 — uma das pistas no empate técnico entre os dois candidatos ao nome do navio. Pintura: cena imaginada.
FIG. 07Uma jarra de cerâmica com folhas de carvalho e bolotas, recuperada num mergulho de 2025 — uma das pistas no empate técnico entre os dois candidatos ao nome do navio. Pintura: cena imaginada.

Porque o que já saiu do porão é, sobretudo, o retrato de uma vida comum a bordo. Um fragmento de porcelana chinesa, datado dos primeiros anos do século XVI, pode muito bem ter sido já, quando o navio se perdeu, um prato herdado de uma mãe ou de uma avó, ainda em uso décadas depois de fabricado. Um instrumento indiano para amassar chapati sugere alguém que já não estava na sua primeira viagem à Índia. Havia lingotes de cobre, moeda de troca no comércio do Índico, um deles com a marca dos banqueiros alemães Fugger. E havia mós de pedra, pesadas, cujo transporte a documentação sugere que era proibido, mas que alguns capitães arriscavam contrabandear porque, na Índia, valiam até oito vezes mais. Entre 236 potes de cerâmica recuperados, contam-se doze penicos; um documento de 1522 confirma que os doentes a bordo os usavam mesmo.

A comunidade piscatória local, guardiã do destroço desde 2013: peças que alguns tinham levado para casa estão hoje a ser devolvidas. Pintura: cena ilustrativa, figuras genéricas, não retratos de pessoas reais.
FIG. 08A comunidade piscatória local, guardiã do destroço desde 2013: peças que alguns tinham levado para casa estão hoje a ser devolvidas. Pintura: cena ilustrativa, figuras genéricas, não retratos de pessoas reais.

Isto é o que torna a história real: alguém ali levava a louça da família, e outro alguém arriscava a lei por um lucro maior.

O local foi classificado pelas autoridades de Melinde em 2013. Desde então, a comunidade piscatória tornou-se guardiã do destroço. Peças que alguns tinham levado para casa, ao longo dos anos, estão a ser devolvidas. Caesar Bita tem formado mergulhadores locais para o projeto, que se autointitulam, com humor, «Team Caesar».

Um deles é filho de Johnstone Albert Kahindi.

Dezanove anos depois de o pai puxar os primeiros cacos para a superfície, sem saber o que tinha nas mãos, o filho mergulha na mesma água já a saber exatamente o que procura. O navio ainda não tem nome certo. A família que o encontrou, essa, já não precisa de ser identificada.

Fontes

Fontes: A reportagem National Geographic Portugal, «O navio português de Ngomeni» (publicada online a 11 de maio de 2026, da edição impressa de abril de 2026), construída a partir de entrevistas diretas aos três responsáveis do Projeto Ngomeni, é a fonte principal. Completam o dossiê a página do projeto na Universidade de Coimbra (cfe.uc.pt), a página oficial do National Museums of Kenya, as Wikipédias portuguesa e inglesa (para os dados sobre Vasco da Gama e sobre Ras Ngomeni) e o site oficial e-cultura.pt do Governo português. O artigo científico «The Ngomeni Shipwreck and Portuguese Indian Route Ships» (Castro, Bita, Pissarra et al., 2024, Journal of Maritime Archaeology) e o relatório de campo «Ngomeni Shipwreck 2025 Report» (2026) estão referenciados, em acesso pago.