Durante anos, as redes de um pescador queniano traziam à superfície pequenos fragmentos de louça partida. Ele guardava-os, sem saber bem porquê. Não sabia que estava a puxar, aos poucos, um navio inteiro, nem que esse navio poderia ser um dos dois mais procurados da história marítima portuguesa.
Johnstone Albert Kahindi pesca ao largo de Ras Ngomeni, uma pequena aldeia na costa do Quénia, perto de Melinde (o atual Malindi). Nas imediações há vestígios de assentamentos suaíli dos séculos V ao XIII. Durante anos, sem dar por isso, as suas redes traziam à tona pequenos cacos de cerâmica, peças exóticas que ele foi acumulando. Em 2007, mostrou-as a Caesar Bita: num raio de 35 quilómetros até Melinde, dificilmente haveria pessoa mais bem preparada para compreender aquilo que Kahindi tinha nas mãos.
Bita é antropólogo de formação. Tornou-se arqueólogo de terra e, mais tarde, depois de um curso na China, arqueólogo subaquático. Foi mergulhar ao ponto que Kahindi indicava. «A zona estava coberta de pedras de lastro», contaria mais tarde. «Percebia-se que era um destroço, mas de que tipo de embarcação? Nos primeiros mergulhos, percebi que era um navio grande, com madeiras maiores do que aquelas que costumamos ter na nossa costa.»
Nos anos seguintes, Bita foi acumulando provas como um detetive forense: madeiras, fragmentos de cerâmica, presas de elefante, peças de metal. Ao mesmo tempo, explicava aos habitantes locais que não havia ali nenhum tesouro que justificasse a pilhagem. Em 2010, num dos mergulhos, encontrou uma peça do aparelho do navio, um cadernal. Em contexto subaquático, só existe mais uma peça semelhante no mundo com este nível de conservação. Foi, talvez, o momento em que percebeu que tinha diante de si um navio de construção europeia.
Quase vinte anos depois daquele primeiro caco de louça, o destroço de Ngomeni continua a ser investigado. E ninguém, ainda, sabe ao certo qual é o seu nome.

Dois navios, uma baía
Quando confirmou a origem europeia, e depois portuguesa, do naufrágio, pela tipologia das peças e pela cerâmica de início do século XVI, Bita procurou o arqueólogo náutico português Filipe Castro, do grupo História, Territórios e Comunidades do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra. Castro tinha passado a vida a caçar navios: nos anos 1990, escavara junto ao Forte de São Julião da Barra o Nossa Senhora dos Mártires, um destroço de 1606 já parcialmente pilhado por caçadores de tesouros; nas duas décadas seguintes, na Texas A&M University, nos Estados Unidos, tinha compilado um dos mapeamentos de naufrágios mais minuciosos alguma vez feitos.
A pergunta que os dois arqueólogos enfrentavam não tinha muitos candidatos possíveis. À viragem para o século XVI, as viagens transoceânicas ainda eram raras; os naufrágios, mais raros ainda. No início do projeto, a equipa testou oito navios portugueses conhecidos por se terem perdido nas águas do Quénia entre 1501 e 1619. A maioria foi eliminada: alguns porque vinham da Índia e a carga não batia certo (nunca se trariam de volta presas de elefante ou lingotes de cobre), outros porque a toponímia dos relatos apontava para águas diferentes, ou porque o tipo de navio não correspondia à dimensão das madeiras encontradas, que sugerem um grande galeão. Restaram dois.
O primeiro é o São Jorge. Em 1524, Vasco da Gama, já um homem idoso, vivia afastado da corte, na Vidigueira, depois de uma crise de credibilidade. O rei chamou-o para uma terceira viagem à Índia, desta vez como vice-rei, e o velho navegador aceitou. Partiu, segundo a investigação da equipa que hoje trabalha em Ngomeni, com quinze navios e cerca de três mil homens. Um deles era o São Jorge, nau ou galeão, não se sabe ao certo. Em março desse ano, um documento do mestre Fernando Afonso regista que o navio entregou um conjunto de equipamentos ao almoxarife, em Lisboa. A partir do momento em que passou pelo Forte de São Julião da Barra, as fontes diretas sobre ele praticamente desaparecem. Sabe-se apenas que se perdeu nas águas pouco profundas de Melinde, em localização incerta, sem baixas aparentes, e que a tripulação foi transferida para os restantes navios da armada, rumo à Índia. Vasco da Gama seguiu viagem, chegou a Goa em setembro, impôs ordem com mão pesada e morreu em Cochim a 24 de dezembro desse mesmo ano, um sábado, véspera de Natal.

O segundo candidato é a Santa Maria da Graça, nau do armador lisboeta Vicente Gil, comandada por Simão de Melo. Zarpou em 1544, vinte anos depois do São Jorge, integrada numa armada de cinco navios sob o comando de Fernão Peres de Andrade. Um erro de navegação de cerca de trezentas léguas desviou-a para a costa da Somália, junto a Mogadíscio, quando o piloto pensava estar próximo das Maldivas. O historiador José Virgílio Pissarra, que dedica a sua investigação à documentação administrativa quinhentista em vez de crónicas («as crónicas são pouco rigorosas e as relações das armadas são muito vagas», explica), localizou a carta em que Melo relata tudo ao rei. Ao chegar perto de Melinde, para onde rumava com a intenção de recrutar marinheiros locais que substituíssem os setenta e seis homens já mortos a bordo (restavam por volta de vinte de pé), a nau encalhou, provavelmente por erro de manobra, numa ponta de terra. «Nos fomos a perder em uma ponta de uma enseada que lançava muito ao mar», escreveu Melo. O abandono do navio foi ordeiro: tudo o que tinha valor e estava a seco foi levado para terra, e Melo contratou mergulhadores que, em apneia, recuperaram o que puderam durante três meses e meio. É talvez por isso, nota Pissarra, que o destroço está tão despojado: «levaram tudo o que puderam».
Um navio perdido no ano em que Vasco da Gama morreu. Um navio perdido vinte anos depois, já com quase toda a tripulação morta de doença. Ambos deram à costa perto de Melinde. Só um está no fundo, em Ngomeni.
O empate técnico
A primeira pista foi cartográfica. As relações de armadas situam o naufrágio da Santa Maria da Graça numa «baía Formosa». Se essa baía for a atual baía de Melinde, o local corresponde a Ngomeni; mas Caesar Bita defende que a baía Formosa fica mais a sul, o que desfaria a correspondência. Castro serve de árbitro: «A verdade é que a erosão costeira mudou por completo a região. Um hotel italiano que lá estava há trinta anos já está comido pelo mar. Não temos a certeza da correspondência entre os mapas, que aliás são bastante mais tardios do que os naufrágios, e a orla costeira. Terá de ser a arqueologia a desmistificar esse assunto.»

A arqueologia, por enquanto, empata. Um pequeno fragmento de porcelana chinesa, recuperado por Bita, foi analisado pela historiadora de arte Teresa Canepa: data dos reinados de Hongzhi (1488-1505) ou Zhengde (1506-1521), uma cronologia compatível com o São Jorge. Mas, como recorda Pissarra, «não deitamos fora a porcelana que foi da mãe ou da avó, poderia perfeitamente ainda estar em uso vinte anos mais tarde»: o que devolve a peça a um empate.
Em novembro de 2025, o fotógrafo e cineasta alemão Sascha Kellersohn, que acompanha o projeto há dois anos para um documentário das estações ZDF e ARTE, encontrou, num mergulho de apoio à investigadora italiana Beatrice Frabetti (que conduz a fotogrametria do sítio para o Museu Marítimo de Bergen, na Noruega), uma jarra cerâmica decorada com folhas de carvalho e bolotas, possivelmente pertença pessoal de um artilheiro do norte da Europa. A equipa reconheceu o mesmo tipo de decoração em registos de naufrágios nas Caraíbas, em 1544, e em Inglaterra, em 1545. «Fiquei assustado», reconhece Castro. «Depois, verificámos que há coleções de desenhos com este padrão a partir de 1520, o que não desqualifica nenhum dos dois candidatos. Mas diria que a jarra marcou um ponto a favor da Santa Maria da Graça.»
Já em fevereiro de 2026, depois de duas semanas de mergulhos, a equipa recuperou vários fragmentos de caçoilos, recipientes cerâmicos com decoração manuelina. Tânia Casimiro, especialista em cerâmicas da equipa, notou que aquele motivo decorativo teve vida efémera, pouco mais de dez anos, o que talvez marque um ponto a favor do São Jorge. Persiste, ainda assim, o empate técnico. Uma nova campanha está agendada para novembro de 2026, precisamente para tentar desfazê-lo.
Vale a pena registar como esta história chegou à imprensa portuguesa. Em dezembro de 2024, ainda antes de a jarra e os caçoilos serem encontrados, um arqueólogo subaquático consultado por vários órgãos de imprensa, Alexandre Monteiro (que não figura entre os três nomes que a reportagem mais recente e detalhada sobre o projeto, de maio de 2026, identifica como a equipa de Ngomeni), afirmou que havia provas de que o destroço era o São Jorge. A notícia correu vários jornais com esse tom de maior certeza. Cinco meses depois, a própria equipa que escava o sítio descrevia a questão, publicamente, como um empate técnico. As duas posições não se anulam, apenas mostram velocidades diferentes: a de quem comenta de fora e a de quem, no terreno, prefere não fechar um caso enquanto a prova não obrigar a isso.

O que estava no porão
Seja qual for o nome do navio, o que dele já saiu é, sobretudo, o retrato de uma vida comum a bordo. Entre 236 potes de cerâmica recuperados, contam-se doze com uma forma peculiar, de duas pequenas asas: são penicos, confirma um documento de 1522 do padre António de Herédia, que descreve como tratava os doentes a bordo e como estes os usavam para as suas necessidades.
Havia lingotes de cobre em formato de «pão», um deles com a marca dos banqueiros alemães Fugger, moeda de troca importante no comércio do Índico, trocada por especiarias. Restavam menos de dez no porão, mas o suficiente para perceber a sua função. Havia presas de elefante, cujo ADN a equipa pretende agora analisar, tal como já se fez com o marfim do naufrágio do Bom Jesus, na Namíbia, em 1533, para determinar de que floresta africana provinham. E havia um instrumento indiano para amassar chapati, um objeto que, segundo a equipa, dificilmente pertenceria a alguém na sua primeira viagem à Carreira da Índia.
As mós de pedra foram uma das surpresas da carga. Pesadas, podiam desestabilizar um navio se embarcadas em número e sem regra, e a documentação sugere que o seu transporte era proibido. Mesmo assim, alguns capitães arriscavam contrabandeá-las, porque na Índia podiam ser revendidas até oito vezes mais caras do que custavam em Portugal. E havia o fragmento de porcelana chinesa já mencionado, provavelmente parte da bagagem pessoal de um tripulante: um objeto que, se pertencia à família de alguém, já vinha de longe antes de chegar àquele porão.

Nenhuma destas peças é rara em si mesma. É o conjunto que fala: um prato talvez herdado, um utensílio de cozinha estranho ao Atlântico, uma moeda de metal falsificável em «pão», uma pedra proibida mas lucrativa, um recipiente para os doentes. É a bagagem de gente concreta, com hábitos, memórias e cálculos económicos próprios.
A equipa
O Projeto Ngomeni junta o National Museums of Kenya, o grupo História, Territórios e Comunidades do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra, e o Museu Marítimo de Bergen, na Noruega, com apoio do Laboratório de Património da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa para a fotogrametria do sítio. Está previsto decorrer entre 2024 e 2030.
Filipe Castro define a sua própria motivação sem rodeios: «Adorava que não se falasse só da escravidão e das selvajarias que os portugueses inegavelmente cometeram nesse século XVI, mas que se percebesse a qualidade intelectual das pessoas que fizeram os Descobrimentos. E isso passa muito pela maneira como se preparou o reino para o mar.» É uma opinião sua, que vale a pena registar exatamente como tal: um desejo pessoal de equilíbrio na forma como esta história é contada, não um veredicto sobre o período histórico em si.

O ritmo de escavação tem sido mais regular do que é habitual em campanhas subaquáticas, graças aos apoios que a equipa recebe, entre outros, do Município de Sines, interessado em aprofundar a história de Vasco da Gama, o seu filho mais célebre. (É a mesma vila que já contámos noutra história, a da sua glória e do seu fogo: Sines continua, séculos depois, a financiar quem procura o resto da história do navegador que a tornou conhecida.)
Team Caesar
As autoridades locais de Melinde estão envolvidas no projeto desde que classificaram o sítio arqueológico, em 2013. «Queremos que este espólio seja o núcleo de um novo centro interpretativo na própria aldeia», diz Bita. «Com a narrativa certa, pode ser um fator de desenvolvimento regional, de turismo e de identidade. As pessoas estão entusiasmadas.»
Os próprios pescadores tornaram-se guardiões do local. «Ninguém tira nada e ninguém deixa tirar», resume Bita. «As pessoas percebem que não há moedas, nem tesouros, mas a informação do que aqui aconteceu é o verdadeiro tesouro.» Peças que membros da comunidade tinham levado para casa ao longo dos anos estão agora a ser devolvidas; até apreensões feitas pela polícia local foram disponibilizadas para estudo. Ficaram para trás os dias em que alguém, na aldeia, se preparava para abrir uma bala de canhão concrecionada à procura de ouro lá dentro.

Bita tem formado mergulhadores entre a população local, que se autointitulam, com humor, «Team Caesar»: um apoio essencial para mergulhar contra a corrente e o vento que açoita regularmente aquelas águas. Entre eles está o filho de Johnstone Albert Kahindi, o pescador cujas redes, quase vinte anos antes, tinham começado tudo isto.
O que fica
Há um primeiro artigo académico sobre o destroço, publicado em 2024 na Journal of Maritime Archaeology, assinado por Castro, Bita e Pissarra, entre outros. Há já, também, um relatório preliminar de campo mais extenso, de 2026, com mais de trezentas páginas. A escavação, e a discussão sobre a identidade do navio, continuam.
Talvez nunca se saiba com certeza absoluta se o destroço de Ngomeni é o São Jorge ou a Santa Maria da Graça. As pistas, por enquanto, apontam em direções diferentes, e é bem possível que só a campanha de novembro de 2026, ou uma futura, resolva o empate. Mas o essencial desta história já não depende dessa resposta: depende de um pescador que, durante anos, sem saber bem porquê, guardou cacos de louça partida, e de um filho que hoje mergulha na mesma água à procura do que o pai encontrou por acaso.
O navio ainda não tem nome certo. A família que o encontrou, essa, já não precisa de ser identificada.
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Fontes: A reportagem National Geographic Portugal, «O navio português de Ngomeni» (publicada online a 11 de maio de 2026, da edição impressa de abril de 2026), construída a partir de entrevistas diretas aos três responsáveis do Projeto Ngomeni, é a fonte principal deste texto. Consultámos também a página do projeto na Universidade de Coimbra (cfe.uc.pt), a página oficial do National Museums of Kenya, as Wikipédias portuguesa e inglesa (para os dados sobre Vasco da Gama e sobre Ras Ngomeni), e o site oficial e-cultura.pt do Governo português. O artigo científico «The Ngomeni Shipwreck and Portuguese Indian Route Ships» (Castro, Bita, Pissarra et al., 2024, Journal of Maritime Archaeology) e o relatório de campo «Ngomeni Shipwreck 2025 Report» (2026) existem e estão referenciados, mas não puderam ser lidos na íntegra por estarem protegidos por acesso pago.