O homem que acusaram de atacar a fé tirou a aparição de Ourique do seu livro por a achar irreverente de mais para com Cristo.

Chamava-se Alexandre Herculano. O livro era o primeiro tomo da História de Portugal, saiu em 1846, e a razão coube numa nota de rodapé. Onze anos depois ainda se escrevia sobre ela.

A cena que ele deixou de fora é a que o documento descreve: Afonso Henriques de joelhos, descalço e sem as armas, e Cristo crucificado no céu, à sua direita, rodeado de anjos. Um folheto impresso em 1753 resumia no próprio título o que se seguiu: venceu cinco reis e quatrocentos mil mouros.

São três coisas diferentes, e chegam-nos coladas. A batalha deu-se em julho de 1139. A lenda da aparição forma-se, por camadas, a partir do século XV. E o Juramento, o papel que diz registar as palavras de Cristo, só aparece impresso em 1598: quatrocentos e cinquenta e nove anos depois.

A cena que o documento descreve acabou por gerar imagens. Uma gravura de Agostinho Soares, publicada em Lisboa em 1632, mostra o príncipe ajoelhado em oração, descalço e sem armas, e Cristo crucificado no céu, à sua direita, rodeado de anjos. Esta pintura evoca essa composição tal como foi descrita; não é a reprodução da gravura. Pintura.
FIG. 02A cena que o documento descreve acabou por gerar imagens. Uma gravura de Agostinho Soares, publicada em Lisboa em 1632, mostra o príncipe ajoelhado em oração, descalço e sem armas, e Cristo crucificado no céu, à sua direita, rodeado de anjos. Esta pintura evoca essa composição tal como foi descrita; não é a reprodução da gravura. Pintura.

Esta é a história desse papel.

As primeiras referências à batalha são do século XV. Daí em diante a tradição foi-se acumulando como um palimpsesto, camada sobre camada: primeiro um rei herói à maneira medieval, depois o que lhe foram acrescentando. O sonho de Afonso Henriques, por exemplo, é elemento novo, que não está nas crónicas quinhentistas.

O papel chega ainda mais tarde. Quem o imprime pela primeira vez é Pedro de Mariz, na segunda edição dos Diálogos de Vária História, saída em Coimbra em 1598. Sai em latim, como suposto original, e traduzido para o vernáculo. E mesmo aí não está no corpo do livro. Está no fim, como apêndice ao diálogo sobre o primeiro rei de Portugal.

O Juramento aparece impresso pela primeira vez em 1598, na segunda edição dos «Diálogos de Vária História», de Pedro de Mariz, saída em Coimbra, e mesmo aí só como apêndice ao diálogo sobre o primeiro rei de Portugal. Evocação pintada de uma oficina tipográfica da época. Pintura.
FIG. 03O Juramento aparece impresso pela primeira vez em 1598, na segunda edição dos «Diálogos de Vária História», de Pedro de Mariz, saída em Coimbra, e mesmo aí só como apêndice ao diálogo sobre o primeiro rei de Portugal. Evocação pintada de uma oficina tipográfica da época. Pintura.

Cinco anos depois, em 1603, sai a Primeyra Parte da Chronica de Cister, do monge alcobacense Frei Bernardo de Brito. É com ela que o Juramento deixa de ser um apêndice e passa a estar dentro da narrativa do próprio acontecimento, ligado à ordem cisterciense e à casa a que o autor pertencia. Foi ali, e não antes, que o texto se tornou canónico.

Século e meio depois, já não precisava de defesa. Tinha certificação.

Em 1753 saiu a Relaçam verdadeira da appariçam de Christo Senhor Nosso, no Campo de Ourique, de Dionísio Teixeira de Aguiar, familiar do Santo Ofício. Para se imprimir, um folheto precisava de licenças, e uma delas era a do Paço. Assinou-a o censor régio Filipe José da Gama, membro da Academia Real da História, e a razão que deu para a autorizar foi a de que a obra celebrava «hum dos pontos mais certos e infalliveis da nossa Historia».

Em 1603, a «Primeyra Parte da Chronica de Cister», do monge alcobacense Frei Bernardo de Brito, pôs o Juramento dentro da narrativa do próprio acontecimento. Quem terá forjado o texto não se sabe: nenhuma das fontes citadas o atribui a Brito, e o documento já estava impresso cinco anos antes. Evocação pintada de um escritório monástico cisterciense; não é um retrato. Pintura.
FIG. 04Em 1603, a «Primeyra Parte da Chronica de Cister», do monge alcobacense Frei Bernardo de Brito, pôs o Juramento dentro da narrativa do próprio acontecimento. Quem terá forjado o texto não se sabe: nenhuma das fontes citadas o atribui a Brito, e o documento já estava impresso cinco anos antes. Evocação pintada de um escritório monástico cisterciense; não é um retrato. Pintura.

Sete anos antes, em 1746, Luís António Verney tinha posto em causa, em letra de forma, a veracidade da aparição. A dúvida já andava impressa. A certificação veio depois.

Foi este o edifício que Herculano encontrou quando chegou ao capítulo de Ourique, em 1846. Era já a referência maior da historiografia portuguesa, e sabia bem onde se estava a meter: abriu o volume com um aviso, «Não ignoro o risco da situação em que me coloquei».

Contou a batalha. A aparição, não. E despachou-a na nota 16, em duas frases: discutir todas as fábulas de Ourique seria processo infinito, e a da aparição de Cristo «estriba-se em um documento tão mal forjado que o menos instruído aluno de diplomática o rejeitará como falso ao primeiro aspecto».

Em 1753 saiu uma «Relaçam verdadeira» da aparição que anunciava no próprio título a vitória sobre cinco reis e quatrocentos mil mouros. A licença do Paço que autorizou a impressão justificou-a por a obra celebrar «hum dos pontos mais certos e infalliveis da nossa Historia». Assinou-a o censor régio Filipe José da Gama, da Academia Real da História. Sete anos antes, Verney já contestara a aparição em letra de forma. Evocação pintada; não é um retrato de Filipe José da Gama. Pintura.
FIG. 05Em 1753 saiu uma «Relaçam verdadeira» da aparição que anunciava no próprio título a vitória sobre cinco reis e quatrocentos mil mouros. A licença do Paço que autorizou a impressão justificou-a por a obra celebrar «hum dos pontos mais certos e infalliveis da nossa Historia». Assinou-a o censor régio Filipe José da Gama, da Academia Real da História. Sete anos antes, Verney já contestara a aparição em letra de forma. Evocação pintada; não é um retrato de Filipe José da Gama. Pintura.

A resposta veio nesse mesmo ano, e não é a de um ignorante. No primeiro opúsculo contra ele, António Lúcio Maggessi Tavares chamou a Ourique «a pedra angular em que repouzão os cimentos da Monarchia» e «a arca Santa do Paiz». Havia objetos, escreveu, que «devem ficar alem da critica dos homens mais instruidos». O argumento dele não era o documento. Era o que uma nação deve fazer com a sua história fundadora.

Quem lhe respondeu leu a nota como um ataque à fé. A razão que Herculano deu foi outra.

Omitira a aparição por a considerar «cousa indigna da gravidade da historia, e sob certo aspecto demasiado irreverente para com o sublime Fundador do Christianismo».

Em 1846, Herculano contou a batalha, deixou a aparição de fora e despachou a razão na nota 16, em duas frases. Omitira-a, escreveria depois, por a achar «cousa indigna da gravidade da historia, e sob certo aspecto demasiado irreverente para com o sublime Fundador do Christianismo». Evocação pintada de um gabinete de trabalho da época, com a figura de rosto desviado: não é um retrato de Herculano, e nenhum texto na imagem é legível. Pintura.
FIG. 06Em 1846, Herculano contou a batalha, deixou a aparição de fora e despachou a razão na nota 16, em duas frases. Omitira-a, escreveria depois, por a achar «cousa indigna da gravidade da historia, e sob certo aspecto demasiado irreverente para com o sublime Fundador do Christianismo». Evocação pintada de um gabinete de trabalho da época, com a figura de rosto desviado: não é um retrato de Herculano, e nenhum texto na imagem é legível. Pintura.

Era anticlerical, e nunca o escondeu. Antirreligioso não era. Cinco anos antes daquele volume, em 1841, defendera por escrito que o clero precisava de «uma reforma e não uma anniquilação».

Tinha esperado um debate científico sobre um livro que era um dado novo na historiografia do país. O que teve foi Ourique, uma questão que aos seus olhos era menor e que se sobrepôs a tudo o que a obra levantava de efetivamente importante.

Depois calou-se durante quatro anos. Achava o assunto irrelevante e respeitava a liberdade de imprensa de quem lhe respondia.

A contenda correu pelos jornais e pelos folhetos, do legitimista «A Nação» à «Revolução de Setembro», ao «Patriota» e à «Semana», e os textos prolongaram-se até 1857. Quem respondeu a Herculano foram autores e periódicos com nome. Evocação pintada de uma sala de leitura de Lisboa. Pintura.
FIG. 07A contenda correu pelos jornais e pelos folhetos, do legitimista «A Nação» à «Revolução de Setembro», ao «Patriota» e à «Semana», e os textos prolongaram-se até 1857. Quem respondeu a Herculano foram autores e periódicos com nome. Evocação pintada de uma sala de leitura de Lisboa. Pintura.

Falou a 30 de junho de 1850, na carta Eu e o Clero, dirigida ao cardeal-patriarca, e a partir daí a questão passou a escândalo público. Escreveu cinco opúsculos até março de 1851. A contenda correu pelos jornais, do legitimista A Nação à Revolução de Setembro, ao Patriota e à Semana, e os textos ainda se prolongaram até 1857.

O que ele exigia era simples, e podia ter sido contrariado. Uma tradição verdadeira, escreveu, tem de poder mostrar-se ao longo de todos os séculos, e sobretudo naqueles em que desaparece, «os três immediatos ao supposto successo». Ninguém lha mostrou.

Os investigadores que desde então estudaram a questão deram-lhe razão, e o Juramento é hoje tratado como prova documental forjada para legitimar o milagre. Por quem, não se sabe. Pedro de Mariz imprimiu-o e Frei Bernardo de Brito pô-lo no centro da narrativa, mas nenhuma das fontes que lemos aponta um deles, ou quem quer que seja, como autor do texto.

Quanto ao objeto, Herculano registou em 1850 que o Juramento «ainda existe no supposto original». Onde esse papel está hoje, não conseguimos apurar.

Nesse mesmo ano saiu um opúsculo sem nome de autor, O Clero e o Sr. Alexandre Herculano. Sabe-se hoje que era do jovem Camilo Castelo Branco.

Camilo não defendeu o documento. Concedeu que a aparição era absurda, por historicamente infundada, e escreveu que isso não a tornava inútil: era querida de um povo sempre apaixonado pelo maravilhoso, e pertencia à sua herança de crenças.

Herculano pedira que lhe mostrassem a tradição nos três séculos em que não aparece. Camilo respondeu a partir dos séculos em que aparecia em toda a parte.

«Afonso Henriques, prostrado em face de Cristo, recebendo alento do Céu para o desbarate de cinco reis mouros: é tudo o que o povo contava de história de oito séculos.»

Fontes3 referências

Fontes principais:

  • BUESCU, Ana Isabel (2010), «Alexandre Herculano e a polémica de Ourique. Anticlericalismo e iconoclastia», Faculdade de Letras da Universidade do Porto. `ler.letras.up.pt. A autora assina a monografia de referência sobre esta polémica (O milagre de Ourique e a História de Portugal de Alexandre Herculano. Uma polémica oitocentista, Lisboa, INIC). Dela vêm a nota 16, o opúsculo de Maggessi Tavares, o de Camilo, a licença régia de 1753, a introdução de 1876 e o argumento contra a leitura dominante.
  • HERCULANO, Alexandre (1850), Eu e o Clero. Carta ao Emm.º Cardeal-Patriarcha, Lisboa. `archive.org. Fonte primária. É daqui que vêm a razão da omissão, a exigência dos três séculos e o «supposto original».
  • LIMA, Luís Filipe Silvério (2007), «Imagens e figuras de um rei sonhador: representações do milagre de Ourique e do juramento de Afonso Henriques no século XVII», História (São Paulo), v. 26, n. 2, pp. 311-339. `scielo.br. Daqui vêm a datação do documento, a edição de Mariz, a Chronica de Cister e a gravura de 1632.