O homem que acusaram de atacar a fé tirou a aparição de Ourique do seu livro por a achar irreverente de mais para com Cristo.

Chamava-se Alexandre Herculano. O livro era o primeiro tomo da História de Portugal, saiu em 1846, e a razão coube numa nota de rodapé. Onze anos depois ainda se escrevia sobre ela.

A cena que ele deixou de fora é a que o documento descreve: Afonso Henriques de joelhos, descalço e sem as armas, e Cristo crucificado no céu, à sua direita, rodeado de anjos. Um folheto impresso em 1753 resumia no próprio título o que se seguiu: venceu cinco reis e quatrocentos mil mouros.

Três coisas que chegam coladas

São três coisas diferentes, e chegam-nos coladas.

A batalha deu-se em julho de 1139. A lenda da aparição forma-se, por camadas, a partir do século XV. E o Juramento, o papel que diz registar as palavras de Cristo, só aparece impresso em 1598: quatrocentos e cinquenta e nove anos depois.

Esta é a história desse papel. De onde veio, quem o imprimiu, quem o pôs no centro da narrativa, quem o certificou como facto de Estado, e o que aconteceu ao país no dia em que um historiador escreveu duas frases sobre ele ao fundo de uma página.

Não vamos aqui contar o milagre nem desmenti-lo. O que se segue é a biografia de um documento, e as pessoas que nela entram estão todas identificadas, com nome, ofício e data.

A lenda cresce por camadas

As primeiras referências à batalha de 1139 são do século XV. É daqui que parte toda a investigação, e é isto que determina tudo o resto: entre o acontecimento e o primeiro registo que dele se conhece medeiam cerca de três séculos.

Daí em diante, a tradição não aparece feita. Vai-se acumulando como um palimpsesto, camada sobre camada. Num primeiro momento, aquele a que a historiografia chama lenda épica ou cavaleiresca, o rei é caracterizado como herói medieval. Outros elementos entram depois. O sonho de Afonso Henriques, por exemplo, é elemento novo, que não está nas crónicas quinhentistas.

Convém guardar esta observação, porque é ela que reaparece, no século XIX, no argumento que fez explodir a questão: uma tradição que se vai construindo por acrescento não é a mesma coisa que uma tradição transmitida desde o princípio.

1598: o papel aparece, e aparece no fim do livro

Quem imprime o Juramento pela primeira vez é Pedro de Mariz, na segunda edição dos Diálogos de Vária História, saída em Coimbra em 1598. Sai em latim, apresentado como o suposto original, e traduzido para o vernáculo.

A cena que o documento descreve acabou por gerar imagens. Uma gravura de Agostinho Soares, publicada em Lisboa em 1632, mostra o príncipe ajoelhado em oração, descalço e sem armas, e Cristo crucificado no céu, à sua direita, rodeado de anjos. Esta pintura evoca essa composição tal como foi descrita; não é a reprodução da gravura. Pintura.
FIG. 02A cena que o documento descreve acabou por gerar imagens. Uma gravura de Agostinho Soares, publicada em Lisboa em 1632, mostra o príncipe ajoelhado em oração, descalço e sem armas, e Cristo crucificado no céu, à sua direita, rodeado de anjos. Esta pintura evoca essa composição tal como foi descrita; não é a reprodução da gravura. Pintura.

E mesmo aí não está no corpo do livro. Está no fim, como apêndice ao diálogo sobre o primeiro rei de Portugal.

Vale a pena parar neste pormenor de arrumação. Um texto que diz conter as palavras de Cristo ao fundador do reino entra na literatura portuguesa como anexo de um capítulo.

1603: Frei Bernardo de Brito põe-no dentro da história

Cinco anos depois, em 1603, sai a Primeyra Parte da Chronica de Cister, do monge alcobacense Frei Bernardo de Brito. É com ela que o Juramento deixa de ser um apêndice e passa a estar incorporado na narrativa do próprio acontecimento, que o parafraseia.

E é também com ela que se desenvolve por completo, pela primeira vez, o carácter missionário e imperial da lenda: Ourique como eleição, e essa eleição como fundação e manutenção do reino, ligada agora à trajetória da ordem cisterciense e do mosteiro de Alcobaça em Portugal, a casa a que o próprio autor pertencia. A historiografia trata este momento como o terceiro e definitivo passo na construção da legenda.

Uma precisão que importa, e que este artigo não vai deixar implícita: nenhuma das fontes lidas atribui a Brito a autoria do Juramento. O documento já estava impresso em 1598, cinco anos antes da Chronica de Cister. O que as fontes sustentam é que foi ele quem o tornou canónico. São duas afirmações diferentes, e a segunda não autoriza a primeira.

1632: a cena ganha imagem

Um documento que descreve uma cena acaba, mais cedo ou mais tarde, por dar origem a imagens dela.

A primeira imagem que segue a narrativa do Juramento é, provavelmente, uma gravura de Agostinho Soares publicada em Lisboa em 1632, no Triumpho Lusitano, hoje na Biblioteca Nacional. O advérbio é do investigador que a estudou e fica aqui como ele o escreveu.

Nela está quase tudo o que o documento descreve: Afonso Henriques ajoelhado, em posição de oração, descalço e sem as armas, que estão pousadas no chão; e Cristo crucificado no céu, à direita do príncipe, rodeado de anjos que trazem as armas portuguesas e a coroa.

Aquele conjunto de gestos, o rei descalço e desarmado, a cruz no ar à direita, os anjos com as quinas, ajuda a explicar por que razão a cena parece familiar a portugueses que nunca leram uma linha do texto que a descreve. A imagem terá circulado muito mais do que o papel.

1701 e 1746: as primeiras dúvidas

A dúvida não começa no século XIX.

O Juramento aparece impresso pela primeira vez em 1598, na segunda edição dos «Diálogos de Vária História», de Pedro de Mariz, saída em Coimbra, e mesmo aí só como apêndice ao diálogo sobre o primeiro rei de Portugal. Evocação pintada de uma oficina tipográfica da época. Pintura.
FIG. 03O Juramento aparece impresso pela primeira vez em 1598, na segunda edição dos «Diálogos de Vária História», de Pedro de Mariz, saída em Coimbra, e mesmo aí só como apêndice ao diálogo sobre o primeiro rei de Portugal. Evocação pintada de uma oficina tipográfica da época. Pintura.

O caso mais antigo que a investigação regista, e o mais raro, é um manuscrito de 1701: a Verdade das historias por questões problematicas, de Luís Nunes Tinoco, contador do Tribunal dos Contos do Reino, que inclui a aparição entre mais de cem questões controversas. Não é um clérigo nem um académico: é um funcionário do Estado a arrumar a aparição na gaveta das coisas discutíveis.

Depois, em 1746, e agora em letra de forma, Luís António Verney põe em causa, no Verdadeiro Método de Estudar, a veracidade da aparição e a pertinência da tradição de Ourique.

Fixemos esta data.

1753: o Paço certifica o milagre

Sete anos depois de Verney, sai a Relaçam verdadeira da appariçam de Christo Senhor Nosso, no Campo de Ourique, ao Santo Rey Dom Affonso Henriques, e da Batalha, em que venceo cinco Reis, e quatrocentos mil Mouros. O autor é Dionísio Teixeira de Aguiar, familiar do Santo Ofício.

Para se imprimir, um folheto precisava de licenças. A terceira, a do Paço, justificava a aprovação com o facto de o conteúdo da obra corresponder à celebração de «[…] hum dos pontos mais certos e infalliveis da nossa Historia».

Quem escreveu esse parecer foi Filipe José da Gama, na sua qualidade de censor régio, membro da Academia Real da História, dos Árcades de Roma e de várias sociedades literárias do país.

Vale a pena ler as duas datas juntas. Em 1746, a tradição é contestada em livro impresso. Em 1753, sete anos depois, a autoridade civil do reino, pela pena de um académico, certifica-a como um dos pontos mais certos e infalíveis da história nacional.

Isto basta, sozinho, para deitar abaixo a versão simples desta história. Não havia de um lado a Igreja e do outro a razão. Havia um funcionário do Tribunal dos Contos a duvidar em 1701, um pedagogo a duvidar em 1746, e o censor do Paço a certificar em 1753.

1846: uma nota de rodapé

Em 1846, Alexandre Herculano (1810-1877) publicou o primeiro tomo da História de Portugal. Era já, em vida, a referência maior da historiografia portuguesa, além de romancista, poeta e figura pública de forte projeção cívica.

E sabia o que estava a fazer. Abriu a obra com uma advertência ao leitor: «Não ignoro o risco da situação em que me coloquei».

Contou a batalha de julho de 1139, reduzida às dimensões que julgava exatas. A aparição, não. E a razão ficou remetida para uma nota de rodapé, a célebre nota 16, despachada em duas frases:

Em 1603, a «Primeyra Parte da Chronica de Cister», do monge alcobacense Frei Bernardo de Brito, pôs o Juramento dentro da narrativa do próprio acontecimento. Quem terá forjado o texto não se sabe: nenhuma das fontes lidas o atribui a Brito, e o documento já estava impresso cinco anos antes. Evocação pintada de um escritório monástico cisterciense; não é um retrato. Pintura.
FIG. 04Em 1603, a «Primeyra Parte da Chronica de Cister», do monge alcobacense Frei Bernardo de Brito, pôs o Juramento dentro da narrativa do próprio acontecimento. Quem terá forjado o texto não se sabe: nenhuma das fontes lidas o atribui a Brito, e o documento já estava impresso cinco anos antes. Evocação pintada de um escritório monástico cisterciense; não é um retrato. Pintura.

> «Discutir todas as fábulas que se prendem à jornada de Ourique fora processo infinito. A da aparição de Cristo ao príncipe antes da batalha estriba-se em um documento tão mal forjado que o menos instruído aluno de diplomática o rejeitará como falso ao primeiro aspecto.»

São essas duas frases. Não há um capítulo, não há um ensaio, não há uma tese. Há uma nota ao pé de uma página, e ainda se escrevia sobre ela onze anos depois.

A resposta veio no mesmo ano de 1846, e não é a de um ignorante. No primeiro opúsculo contra ele, a Demonstração historica e documentada da apparição de Christo nos campos de Ourique, contra a opinião do Snr. Alexandre Herculano, António Lúcio Maggessi Tavares escreveu:

> «Muito era para desejar que a apparição do Campo d'Ourique, no começo quasi sobrenatural da Monarchia, fosse para nós o livro fechado a sete sellos, de que nos falla o Apocalypse, e não quizera que por forma alguma tentassem abri-lo, he a arca Santa do Paiz, tocar-lhe he mancha-la, porque objectos ha […] que devem ficar alem da critica dos homens mais instruidos.»

Para ele, Ourique era «a pedra angular em que repouzão os cimentos da Monarchia».

Repare-se no que este argumento é e no que não é. Maggessi Tavares não está a apresentar prova documental contra Herculano. Está a dizer outra coisa, e a dizê-la com clareza: que há objetos que uma nação faz mal em submeter à crítica, mesmo à crítica dos mais instruídos. É uma posição sobre a função da história pública, não um desconhecimento da diplomática. Quem a quiser recusar tem de a recusar por aí.

A razão que Herculano deu

Quem lhe respondeu leu a nota como um ataque à fé.

A razão que Herculano deu, quando por fim falou, foi outra, e as palavras são dele. Escreveu que omitira a aparição

> «como cousa indigna da gravidade da historia, e sob certo aspecto demasiado irreverente para com o sublime Fundador do Christianismo».

É a frase que desfaz a leitura fácil de toda esta história. O homem acusado de atacar a religião argumenta, nas suas próprias palavras, que a lenda é irreverente para com Cristo.

E não é um argumento isolado nem de circunstância. Herculano era anticlerical e nunca o escondeu; antirreligioso não era, e a distinção entre as duas não é nossa: é a que a historiografia faz a seu respeito. No âmago do seu pensamento esteve sempre a aliança entre a religião e a liberdade. Em 1841, cinco anos antes daquele volume, escrevera sobre o clero português que era necessária «uma reforma e não uma anniquilação», e no mesmo opúsculo deixara escrito: «ai dos que abominam a Cruz, porque a cruz é eterna!»

Quatro anos de silêncio

Entre a nota e a resposta passam quatro anos.

Em 1753 saiu uma «Relaçam verdadeira» da aparição que anunciava no próprio título a vitória sobre cinco reis e quatrocentos mil mouros. A licença do Paço que autorizou a impressão justificou-a por a obra celebrar «hum dos pontos mais certos e infalliveis da nossa Historia». Assinou-a o censor régio Filipe José da Gama, da Academia Real da História. Sete anos antes, Verney já contestara a aparição em letra de forma. Evocação pintada; não é um retrato de Filipe José da Gama. Pintura.
FIG. 05Em 1753 saiu uma «Relaçam verdadeira» da aparição que anunciava no próprio título a vitória sobre cinco reis e quatrocentos mil mouros. A licença do Paço que autorizou a impressão justificou-a por a obra celebrar «hum dos pontos mais certos e infalliveis da nossa Historia». Assinou-a o censor régio Filipe José da Gama, da Academia Real da História. Sete anos antes, Verney já contestara a aparição em letra de forma. Evocação pintada; não é um retrato de Filipe José da Gama. Pintura.

Herculano tinha esperado um debate científico sobre uma obra que era um dado novo na historiografia do país, e não o teve: a questão que polarizou as atenções foi a de Ourique, sobrepondo-se aos problemas que o livro levantava e que ele considerava efetivamente importantes.

Quis deixar cair o assunto, e as duas razões que se lhe reconhecem são estas: a irrelevância que a questão tinha aos seus olhos, e o respeito pela liberdade de imprensa de quem lhe respondia.

1850: o escândalo

Falou a 30 de junho de 1850, com o opúsculo Eu e o Clero. Carta ao Emm.º Cardeal-Patriarcha. A partir daí, a questão passou a escândalo público.

Ao todo foram cinco textos, entre junho de 1850 e março de 1851:

1. Eu e o Clero. Carta ao Emmo. Cardeal-Patriarcha, de 30 de junho de 1850. 2. Considerações pacificas sobre o opusculo “Eu e o Clero”. Carta ao redactor do periódico “A Nação”, de 25 de julho. 3. Cartas ao muito reverendo em Christo Padre Francisco Recreio […] Por um moribundo, de 8 de outubro. 4. Solemnia Verba. Cartas ao Senhor A. L. Maggessi Tavares sobre a questão actual entre a verdade e uma parte do clero, de 20 de outubro e 6 de novembro. 5. A Batalha de Ourique e a Sciencia Arabico-Academica. Carta ao redactor da Semana, de 5 de março de 1851.

A polémica correu sobretudo na imprensa. Do legitimista A Nação à Revolução de Setembro, ao Patriota e à Semana, foram muitos os periódicos que lhe deram colunas, e houve textos que saíram primeiro em jornal e só depois em folheto, como as cartas de Luís Augusto Rebello da Silva n'A Revolução de Setembro, ou o último texto de Herculano, publicado n'A Semana. No conjunto, os escritos da controvérsia balizam-se entre 1846 e 1857.

A Nação merece uma nota à parte. O seu primeiro número saiu a 15 de setembro de 1847, e a filiação em Ourique e nas Cortes de Lamego, tomada como bandeira ideológica, é flagrante nos primeiros números. Registamos o facto da apropriação; não avaliamos o campo político que a fez.

O argumento: os três séculos que faltam

Por baixo do ruído está um argumento, e é um argumento que podia ter sido derrubado.

Herculano invocou o critério clássico para distinguir uma tradição verdadeira de uma falsa, o de Vicente de Lerins: quod semper, quod ubique, quod ab omnibus creditum est, aquilo em que sempre, em toda a parte e por todos se acreditou. E daí tirou a exigência:

> «Era-lhe necessário mostrar-me essa tradição através de todos os séculos, e sobre tudo dos séculos onde ella desapparece, os três immediatos ao supposto successo

Em 1846, Herculano contou a batalha, deixou a aparição de fora e despachou a razão na nota 16, em duas frases. Omitira-a, escreveria depois, por a achar «cousa indigna da gravidade da historia, e sob certo aspecto demasiado irreverente para com o sublime Fundador do Christianismo». Evocação pintada de um gabinete de trabalho da época, com a figura de rosto desviado: não é um retrato de Herculano, e nenhum texto na imagem é legível. Pintura.
FIG. 06Em 1846, Herculano contou a batalha, deixou a aparição de fora e despachou a razão na nota 16, em duas frases. Omitira-a, escreveria depois, por a achar «cousa indigna da gravidade da historia, e sob certo aspecto demasiado irreverente para com o sublime Fundador do Christianismo». Evocação pintada de um gabinete de trabalho da época, com a figura de rosto desviado: não é um retrato de Herculano, e nenhum texto na imagem é legível. Pintura.

É uma exigência falsificável. Bastaria produzir a tradição nesses três séculos para a destruir. Ninguém a produziu, e a investigação posterior foi em sentido contrário: as primeiras referências à batalha continuam a datar-se do século XV, e a lenda continua a mostrar-se construída por camadas.

Os investigadores que desde então estudaram a questão deram-lhe razão. O Juramento é hoje tratado, na literatura sobre o assunto, como prova documental forjada para legitimar o milagre, ponto de partida de toda uma narrativa de augúrios, visões e previsões que se lhe segue.

Por quem foi forjado, e quando, é outra questão, e é preciso dizer com todas as letras que não está respondida. Pedro de Mariz imprimiu-o em 1598; Frei Bernardo de Brito pô-lo no centro da narrativa em 1603. Nenhuma das fontes lidas para este artigo aponta qualquer deles, ou quem quer que seja, como autor do texto, nem propõe uma data para a sua composição. Deixar o sujeito em branco ao lado do nome de um monge seria insinuar o que as fontes não dizem; por isso fica escrito assim.

Quanto ao objeto físico, não estava perdido. Na mesma carta, Herculano registou que o juramento «ainda existe no supposto original». A formulação é dele e preserva-se: o que existia era o objeto que se dizia ser o original. Onde esse objeto está hoje, não o conseguimos estabelecer a partir de nenhuma fonte primária.

1876: o mesmo diagnóstico

Trinta anos depois da nota, ao reunir os seus textos sobre Ourique no terceiro tomo dos Opúsculos, em 1876, Herculano não tinha mudado de opinião nem de tom:

> «Contem este volume diversos escriptos sobre duas questões historicas. A primeira, que se refere às tradições fabulosas àcerca da batalha de Ourique, quasi que não tem valor algum à luz da sciencia. Expôr semelhantes tradições era, por assim dizer, refutá-las, e perante a historia tal refutação seria de sobra.»

Expor era refutar. Para ele, a questão nunca tinha sido difícil. Foi por isso que a resposta que melhor lhe resistiu não veio da diplomática.

O que a leitura de Herculano não explica

Herculano deixou a sua própria interpretação do que lhe acontecera: a questão de Ourique era, acima de tudo, a questão do clero. Se à luz da história o milagre não tinha sustentação, então as razões do ataque de que fora alvo eram outras.

Essa leitura tornou-se dominante, em particular com a historiografia republicana. E é aqui que a especialista da questão, Ana Isabel Buescu, autora da monografia de referência sobre esta polémica, argumenta contra essa leitura.

A polémica de Ourique, escreve, não é apenas a questão do clero. Vem também demonstrar que em meados do século XIX a tradição fundadora, longe de ser mero pretexto de controvérsia, correspondia ainda a uma representação das origens efetivamente operatória, fortemente ideologizada e apropriada por círculos políticos determinados, mas a funcionar.

Dito de outro modo: em pleno século XIX coexistiam duas «verdades» possíveis sobre Ourique. Os defensores da tradição sustentavam-na mesmo independentemente da historicidade do facto, em virtude do que consideravam ser a sua utilidade social.

A contenda correu pelos jornais e pelos folhetos, do legitimista «A Nação» à «Revolução de Setembro», ao «Patriota» e à «Semana», e os textos prolongaram-se até 1857. Quem respondeu a Herculano foram autores e periódicos com nome. Evocação pintada de uma sala de leitura de Lisboa. Pintura.
FIG. 07A contenda correu pelos jornais e pelos folhetos, do legitimista «A Nação» à «Revolução de Setembro», ao «Patriota» e à «Semana», e os textos prolongaram-se até 1857. Quem respondeu a Herculano foram autores e periódicos com nome. Evocação pintada de uma sala de leitura de Lisboa. Pintura.

A questão documental está fechada. A outra questão, a de saber o que era aquela tradição para as pessoas que a tinham, não é uma questão documental, e a autora que mais trabalhou o assunto diz expressamente que a resposta de Herculano não a esgota.

A resposta do anónimo

Voltemos a 1850. Nesse ano saiu um opúsculo sem nome de autor, O Clero e o Sr. Alexandre Herculano. Sabe-se hoje que era do jovem Camilo Castelo Branco.

Camilo não defendeu o documento. Sem crispação e com alguma ironia, deu-lhe razão nesse ponto e mudou a pergunta.

Herculano tinha chamado ao episódio o milagre absurdo e inútil do aparecimento de Cristo. Absurdo, respondeu Camilo, talvez fosse, porque historicamente infundado. Inútil não era: era funcional, era querido de um povo sempre apaixonado pelo maravilhoso, e pertencia à sua herança de crenças.

Herculano pedira que lhe mostrassem a tradição nos três séculos em que não aparece. Camilo respondeu a partir dos séculos em que aparecia em toda a parte.

> «Afonso Henriques, prostrado em face de Cristo, recebendo alento do Céu para o desbarate de cinco reis mouros: é tudo o que o povo contava de história de oito séculos.»

Fontes e notas de honestidade

Apêndice documental. O texto termina acima.

Fontes principais, todas obtidas e lidas na íntegra:

- BUESCU, Ana Isabel (2010), «Alexandre Herculano e a polémica de Ourique. Anticlericalismo e iconoclastia», Faculdade de Letras da Universidade do Porto. `https://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/12605.pdf`. A fonte mais forte do dossiê. A autora assina a monografia de referência sobre esta polémica (O milagre de Ourique e a História de Portugal de Alexandre Herculano. Uma polémica oitocentista, Lisboa, INIC). Dela vêm a nota 16, o opúsculo de Maggessi Tavares, o de Camilo, a licença régia de 1753, a introdução de 1876 e o argumento contra a leitura dominante. - HERCULANO, Alexandre (1850), Eu e o Clero. Carta ao Emm.º Cardeal-Patriarcha, Lisboa. `https://archive.org/details/eueoclerocartaao00herc`. Fonte primária, lida diretamente para não depender de citação de terceiros nas passagens de maior peso. É daqui que vêm a razão da omissão, a exigência dos três séculos e o «supposto original». - LIMA, Luís Filipe Silvério (2007), «Imagens e figuras de um rei sonhador: representações do milagre de Ourique e do juramento de Afonso Henriques no século XVII», História (São Paulo), v. 26, n. 2, pp. 311-339. `https://www.scielo.br/j/his/a/M5xNNVDGMhdvfpBFrsZtZbP/?lang=pt`. Daqui vêm a datação do documento, a edição de Mariz, a Chronica de Cister e a gravura de 1632.

Notas de honestidade:

- Proveniência. O artigo de Silvério Lima foi lido no espelho da Redalyc (`https://www.redalyc.org/pdf/2210/221014798016.pdf`), que reproduz o PDF integral com a paginação da revista, porque o portal SciELO recusou a nossa leitura direta. É a cópia de um terceiro e não a fonte em primeira mão. - O dia e o lugar da batalha não são afirmados. As fontes lidas dizem «julho de 1139». A data corrente de 25 de julho e a localização do campo não foram verificadas em nenhuma delas. Por isso não aparecem em lado nenhum deste texto. - Herculano não foi o primeiro a duvidar, e nunca o dissemos. Verney fê-lo em 1746 e há o manuscrito de Tinoco de 1701. - Herculano não foi destruído pela polémica. Em 1876 ainda estava a reunir os próprios textos da contenda para os Opúsculos. - Frei Bernardo de Brito não é aqui apontado como autor do Juramento. Nenhuma fonte lida lho atribui, e o documento já estava impresso em 1598. - Por ler, e assumidamente. CINTRA, Luís Filipe Lindley (1957), «Sobre a formação e evolução da lenda de Ourique (até à Crónica de 1419)»; e NASCIMENTO, Aires Augusto (1978), «O milagre de Ourique num texto latino-medieval de 1416». O segundo fixaria a atestação mais antiga conhecida da lenda, que é exatamente o tipo de facto que este género de história exige. Ficam aqui nomeados para que se saiba o que falta. - Uma normalização declarada. As citações oitocentistas conservam a grafia da época, exceto a nota 16, citada pela edição moderna a que a nossa fonte recorre; corrigiram-se apenas erros evidentes de digitalização no texto de 1850. Na frase final de Camilo, o travessão da transcrição foi substituído por dois pontos, por regra tipográfica desta casa; nenhuma palavra foi alterada.