A barragem já estava a ser construída quando o país soube o que havia naquele vale: milhares de cavalos, auroques e veados gravados no xisto há mais de vinte mil anos. Faltava acabar a obra. Depois, seria tudo fundo de albufeira.

O Côa desce para o Douro pelo interior do distrito da Guarda, entre encostas de xisto partido em painéis verticais, prontos a gravar. Foi nesses painéis que caçadores do Paleolítico picotaram, ao longo de milénios, a galeria que a Fundação Côa Parque apresenta hoje como a maior concentração de arte paleolítica ao ar livre do mundo. Se a obra se concluísse, calculava o arqueólogo João Zilhão, as rochas gravadas ficariam submersas a profundidades que chegariam aos cem metros. Salvá-las parece hoje uma escolha óbvia. Na altura, não foi.

O vale que Portugal pagou uma fortuna para deixar exatamente como estava há vinte mil anos. Hoje é Património Mundial da UNESCO. Pintura a partir de uma fotografia real do vale do Côa junto ao Douro — foto de referência de Jaimegxy (CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons, creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/). Pintura derivada partilhada sob CC BY-SA 4.0.
FIG. 02O vale que Portugal pagou uma fortuna para deixar exatamente como estava há vinte mil anos. Hoje é Património Mundial da UNESCO. Pintura a partir de uma fotografia real do vale do Côa junto ao Douro — foto de referência de Jaimegxy (CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons, creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/). Pintura derivada partilhada sob CC BY-SA 4.0.

A primeira rocha, na Canada do Inferno, terá sido identificada nos finais de 1991 por Nelson Rebanda, o arqueólogo que acompanhava a construção da barragem da EDP. Durante três anos, a descoberta não saiu do vale. Só em novembro de 1994 uma equipa de arqueólogos veio a público revelar a existência e a importância das gravuras, com as câmaras da SIC a levar o Côa a todo o país; nessa altura, o paredão já crescia sobre o rio. No final desse ano, o vale que quase ninguém sabia apontar no mapa era notícia no New York Times, e Jean Clottes, então presidente do comité internacional de arte rupestre, veio vê-lo com os próprios olhos.

Parte da galeria já estava debaixo de água antes de alguém a conhecer: desde 1983 que a albufeira do Pocinho cobria painéis gravados da Canada do Inferno. Concluída, a barragem do Côa poria rochas a profundidades que chegariam aos cem metros. Pintura.
FIG. 03Parte da galeria já estava debaixo de água antes de alguém a conhecer: desde 1983 que a albufeira do Pocinho cobria painéis gravados da Canada do Inferno. Concluída, a barragem do Côa poria rochas a profundidades que chegariam aos cem metros. Pintura.

E havia um pormenor que quase ninguém guardou: parte da galeria já se tinha afogado. Desde 1983 que a albufeira da barragem do Pocinho, no Douro, cobria painéis gravados da Canada do Inferno. Quando a arte foi descoberta, um pedaço dela estava já debaixo de água.

«As gravuras não sabem nadar.» O grito nasceu na escola secundária de Vila Nova de Foz Côa, em 1995, emprestado de uma canção dos Black Company. A luta saltou os limites do concelho e juntou estudantes de todo o país. Pintura (figuras anónimas).
FIG. 04«As gravuras não sabem nadar.» O grito nasceu na escola secundária de Vila Nova de Foz Côa, em 1995, emprestado de uma canção dos Black Company. A luta saltou os limites do concelho e juntou estudantes de todo o país. Pintura (figuras anónimas).

A revolta nasceu onde ninguém esperava: na escola secundária de Vila Nova de Foz Côa. Em janeiro de 1995, o professor José Ribeiro, presidente do conselho diretivo, levou a questão a uma reunião geral de professores, alunos e funcionários; a escola decidiu bater-se pelas gravuras e escreveu ao Presidente da República, Mário Soares. Dos corredores saiu um grito de guerra emprestado de uma música dos Black Company: «As gravuras não sabem nadar». Quando Soares visitou a escola, em fevereiro de 1995, os estudantes receberam-no a cantá-lo em coro. Dalila Correia, então aluna do décimo segundo ano, guarda a resposta do Presidente: «E não sabem». A luta saltou depois os limites do concelho: debates, idas à Assembleia da República, assinaturas recolhidas em escolas de todo o país e, segundo os registos do movimento, um acampamento que na Páscoa juntou perto de dois mil estudantes.

As duas ensecadeiras da barragem que nunca se acabou continuam no leito do Côa, ao lado das gravuras. A água ainda tenta, de vez em quando. Pintura.
FIG. 05As duas ensecadeiras da barragem que nunca se acabou continuam no leito do Côa, ao lado das gravuras. A água ainda tenta, de vez em quando. Pintura.

Do outro lado havia contas, e eram contas a sério. A obra prometia receita e trabalho a um dos concelhos mais pobres do país, e a EDP tinha já milhões enterrados no paredão. Em julho de 1995, conta João Zilhão, a empresa divulgou resultados provisórios de estudos de datação que encomendara a peritos estrangeiros, e esses números foram usados para pôr em causa a própria idade das gravuras. A refutação chegou em setembro, no congresso mundial de arte rupestre de Turim; a confusão, essa, ficou.

Há mais de vinte mil anos, mãos do Paleolítico picaram estes animais no xisto, painel a painel, ao longo de milénios. Pintura (reconstituição; figura anónima).
FIG. 06Há mais de vinte mil anos, mãos do Paleolítico picaram estes animais no xisto, painel a painel, ao longo de milénios. Pintura (reconstituição; figura anónima).

E é aqui que a memória nacional falha. A história que se conta é a de um país unido a salvar as gravuras. Os números dizem outra coisa. Em junho de 1995, uma sondagem da revista Visão dava 55 por cento a favor de preservar a arte e abandonar a obra. A 16 de janeiro de 1996, com a decisão já anunciada, uma sondagem televisiva registava 28 por cento a favor e 39 por cento contra, segundo os números reunidos por João Zilhão. O país tinha mudado de ideias. O governo saído das eleições de outubro de 1995, liderado por António Guterres, com Manuel Maria Carrilho na Cultura, não recuou: no dia seguinte, 17 de janeiro de 1996, a suspensão da barragem ficou formalizada em Diário da República. Um Estado escolheu a pedra contra a opinião do dia.

A conta chegou depois, e diz tudo sobre o tamanho da escolha: em junho de 2000, o Estado pagou à EDP 26 milhões de contos, 129,6 milhões de euros, pela barragem que não se construiu. Portugal pagou uma fortuna para que um vale ficasse exatamente como estava há vinte mil anos. O reconhecimento, esse, veio depressa: o Parque Arqueológico do Vale do Côa abriu em agosto de 1996, com 190 rochas gravadas então identificadas; em 1997, o conjunto foi classificado Monumento Nacional; e a 2 de dezembro de 1998, em Quioto, a UNESCO inscreveu a arte do Côa na lista do Património Mundial, por nela ver, escreveu o comité, um exemplo notável do súbito florescimento do génio criador na alvorada do desenvolvimento cultural humano.

O vale ainda não acabou de falar. No passado dia 5 de julho de 2026, a Fundação Côa Parque anunciou novas gravuras na Rocha 9 do Fariseu, com mais de 23 mil anos: bois, cervas, cavalos, cabras e a cena de uma fêmea de auroque com a sua cria, repetida na mesma pedra. Para as encontrar, explicou o coordenador científico Thierry Aubry, foi preciso remover seis anos de sedimentos deixados pelas cheias do rio; no leito do Côa continuam, ao lado, as duas ensecadeiras da barragem que nunca se acabou. A água ainda tenta, de vez em quando. As gravuras não sabem nadar. Em mais de vinte mil anos, nunca precisaram.