Descobrimentos · episódio 8

O chapeirão negro, o bigode: o rosto que hoje se dá ao Infante D. Henrique estava num livro que, em Portugal, deixou de se saber onde parava.

O códice de Paris, f. 6r, a página em frente do retrato: a rubrica com que o texto começa, a capital pintada e, em baixo, as armas do Infante (Bibliothèque nationale de France, Portugais 41, domínio público).
FIG. 02O códice de Paris, f. 6r, a página em frente do retrato: a rubrica com que o texto começa, a capital pintada e, em baixo, as armas do Infante (Bibliothèque nationale de France, Portugais 41, domínio público).

Até esse livro ser impresso, em 1841, o Infante aparecia geralmente de barbas, com espada e armadura, escreveu um antigo conservador do Museu Nacional de Arte Antiga. Foi pela semelhança com a figura daquele livro que, depois, se reconheceu o Infante num dos Painéis de São Vicente: o homem do chapeirão.

Pintura de um escrivão a acabar o volume na livraria do rei, em Lisboa, como diz a última página do códice (figura genérica, não retrato).
FIG. 03Pintura de um escrivão a acabar o volume na livraria do rei, em Lisboa, como diz a última página do códice (figura genérica, não retrato).

O livro apareceu em Paris, na Biblioteca Real, arrumado entre os manuscritos franceses.

A última página do códice de Paris, f. 160r: a obra acabou-se «na livrarya que este Rey dom Affonso fez em Lixboa», escrita naquele volume por João Gonçalves, «scudeiro e scrivam dos livros» do rei; o ano vem por extenso, e depois «Deo gracias» (Bibliothèque nationale de France, Portugais 41, domínio público).
FIG. 04A última página do códice de Paris, f. 160r: a obra acabou-se «na livrarya que este Rey dom Affonso fez em Lixboa», escrita naquele volume por João Gonçalves, «scudeiro e scrivam dos livros» do rei; o ano vem por extenso, e depois «Deo gracias» (Bibliothèque nationale de France, Portugais 41, domínio público).

Era a crónica das viagens da Guiné, que D. Afonso V mandou fazer a Gomes Eanes de Zurara. São noventa e sete capítulos, do cabo Bojador até 1448. As ervas que Gil Eanes trouxe de lá do cabo, o escudeiro que viveu sete meses no Saara, a caravela que um moço da câmara do Infante trouxe a Lagos depois de morto o capitão: tudo isso está neste livro. Estão também as presas e os cativos que essas viagens fizeram. O historiador Barradas de Carvalho chamou-lhe, em 1953, a «única obra contemporânea do Infante D. Henrique em que se relatam os seus descobrimentos africanos».

Numa folha do fim do códice, a nota em castelhano: «Esta coronica de Guinea fue de la Libreria del señor Don Juan Lucas Cortes…», «Año de 1702»; por baixo, o carimbo redondo da biblioteca do rei de França (Bibliothèque nationale de France, Portugais 41, domínio público).
FIG. 05Numa folha do fim do códice, a nota em castelhano: «Esta coronica de Guinea fue de la Libreria del señor Don Juan Lucas Cortes…», «Año de 1702»; por baixo, o carimbo redondo da biblioteca do rei de França (Bibliothèque nationale de France, Portugais 41, domínio público).

Zurara era cronista do rei e guardava-lhe a livraria. A partir de 1454 foi também guarda-mor da Torre do Tombo, o arquivo do reino, no lugar de Fernão Lopes, que estava, diz a carta do rei, velho e fraco. A última página do livro diz que a obra se acabou na livraria que o rei fizera em Lisboa, a 18 de fevereiro de 1453, e diz quem a escreveu naquele volume: «Joham Goncalvez, scudeiro e scrivam dos livros» do rei. O ano vem por extenso, e depois duas palavras em latim: Deo gracias.

Pintura do achado na Biblioteca Real de Paris, no princípio de 1837: um leitor abre o códice na página do retrato (figura genérica, não retrato de Ferdinand Denis).
FIG. 06Pintura do achado na Biblioteca Real de Paris, no princípio de 1837: um leitor abre o códice na página do retrato (figura genérica, não retrato de Ferdinand Denis).

No século seguinte, em Portugal, já só se lhe conheciam pedaços. O historiador João de Barros, que tirou de Zurara a maior parte do que escreveu sobre o tempo do Infante, contou o trabalho que lhe custou juntar «cousas derramadas, e per papeis rotos», coisas dispersas, em papéis rasgados. Damião de Góis lembrava que Zurara dizia ter composto uma história da Guiné, «de que não ha noticia». Em 1623, Frei Luís de Sousa escreveu que vira em Valência um livro do Infante que se dizia enviado a um rei de Nápoles.

Ferdinand Denis, o francês que deu com o códice em Paris no princípio de 1837, numa fotografia tirada anos depois (Bibliothèque nationale de France, domínio público).
FIG. 07Ferdinand Denis, o francês que deu com o códice em Paris no princípio de 1837, numa fotografia tirada anos depois (Bibliothèque nationale de France, domínio público).

No próprio códice, numa folha do fim, alguém escreveu em castelhano que aquela crónica da Guiné fora da livraria de D. Juan Lucas Cortés, do Conselho de Castela. E pôs o ano: 1702. Logo por baixo está o carimbo redondo da biblioteca do rei de França, com a coroa e as flores-de-lis. O Visconde de Santarém, o historiador português que havia de prefaciar a primeira edição, procurou saber quando o livro passara para França, e não o conseguiu.

O Visconde de Santarém, que procurou o códice em Paris sem o encontrar e escreveu a introdução e as notas da edição de 1841, num retrato a óleo (Sociedade de Geografia de Lisboa, domínio público).
FIG. 08O Visconde de Santarém, que procurou o códice em Paris sem o encontrar e escreveu a introdução e as notas da edição de 1841, num retrato a óleo (Sociedade de Geografia de Lisboa, domínio público).

No princípio de 1837, um francês que estudava a literatura portuguesa, Ferdinand Denis, deu com ele na Biblioteca Real de Paris. O manuscrito não tinha título; o catálogo chamava-lhe Chronique de la Conquête de Guinée e punha-o entre os suplementos franceses, com o número 236. Em 1839, Denis anunciou o achado: uma crónica do século XV que se julgava perdida «même en Portugal», até em Portugal. O poeta Castilho chamou a Denis «francês por nascimento e português pelo coração».

Evocação pintada do Visconde da Carreira, enviado de Portugal em França, a copiar o livro à mão, como conta Santarém (figura de costas, não retrato).
FIG. 09Evocação pintada do Visconde da Carreira, enviado de Portugal em França, a copiar o livro à mão, como conta Santarém (figura de costas, não retrato).

Santarém tinha encontrado naquela biblioteca perto de trezentos manuscritos portugueses, ou que diziam respeito a Portugal. Este escapara-lhe, e ele próprio explicou porquê: estava «classificado entre os supplementos francezes».

A folha de rosto da primeira edição, Paris, 1841: «fielmente trasladada do manuscrito original contemporaneo, que se conserva na Bibliotheca Real de Pariz», dada à luz por diligência do Visconde da Carreira, com introdução e notas do Visconde de Santarém (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).
FIG. 10A folha de rosto da primeira edição, Paris, 1841: «fielmente trasladada do manuscrito original contemporaneo, que se conserva na Bibliotheca Real de Pariz», dada à luz por diligência do Visconde da Carreira, com introdução e notas do Visconde de Santarém (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).

O livro trazia, logo no prólogo, a razão de ter sido escrito. Zurara conta que os antigos puseram sinais que durassem e se habituaram a escrever o que doutra forma não se podia lembrar, porque «a lembrança das injuryas sempre he tenra, e o bem fazer per esqueecimento asinha perece». A lembrança das injúrias está sempre viva, e o bem que se faz, esquecido, depressa morre.

Pormenor dos Painéis de São Vicente (Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa): o «homem do chapeirão», em quem se reconheceu o Infante pela semelhança com a iluminura do códice de Paris (domínio público).
FIG. 11Pormenor dos Painéis de São Vicente (Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa): o «homem do chapeirão», em quem se reconheceu o Infante pela semelhança com a iluminura do códice de Paris (domínio público).

Era esse o livro de que, em Portugal, se perdera o rasto.

O enviado de Portugal em França, o Visconde da Carreira, copiou-o inteiro. Conta Santarém que o fez «pelo seu proprio punho», com receio de que uma cópia tirada por outros saísse alterada. O prospeto da edição anunciava que um monumento das primeiras descobertas portuguesas, «que ha seculos se julgava perdido», ia ser «restituido a nação». Saiu em 1841, em Paris, em casa de J. P. Aillaud, com introdução e notas de Santarém. José Inácio Roquete reviu as provas pelo original e fez um glossário das palavras que já ninguém usava.

À cabeça da edição vinha a miniatura do códice. Um homem em busto, de chapeirão negro e bigode, numa moldura de folhas de carvalho e bolotas, e por baixo a divisa do Infante, «talant de bien faire». Não tem nome escrito; na página em frente estão as armas do Infante. Santarém chamou-lhe «o unico authentico» retrato que se possuía. O crítico Joaquim de Vasconcelos contou que, em São Vicente de Fora, um raio de luz caiu sobre os quadros e três visitantes exclamaram ao mesmo tempo: «O Infante!» Há quem duvide que seja ele, e quem tenha concluído, num exame do manuscrito feito pela Biblioteca Nacional de França, que a página é do livro original. A dúvida não está fechada.

O códice está hoje nessa biblioteca, com a cota Portugais 41, e pode ver-se em linha, folha a folha, em domínio público.

Na edição de 1841, a crónica acaba como acaba no códice: com o dia, o lugar e o nome de quem a escreveu naquele volume. João Gonçalves, escudeiro, na livraria do rei, em Lisboa. Quase quatro séculos depois, conta Santarém, outra mão copiou o mesmo livro de ponta a ponta: a de um enviado de Portugal em Paris.

Fontes12 referências
  • Gomes Eanes de Zurara, Chronica do descobrimento e conquista de Guiné, introdução e notas do Visconde de Santarém, glossário de J. I. Roquete, ed. J. P. Aillaud, Paris, 1841. archive.org
  • Gomes Eanes de Zurara, Crónica dos feitos da Guiné, manuscrito, Bibliothèque nationale de France, Portugais 41 (antigo Suppl. français 236), e a sua notícia de catálogo. gallica.bnf.fr
  • Ferdinand Denis, Chroniques chevaleresques de l'Espagne et du Portugal, t. II, Paris, 1839, pp. 43 a 49, com o prospeto da edição de 1841. archive.org
  • João de Barros, Da Ásia, Década I, ed. Lisboa, 1778. archive.org
  • Damião de Góis, Chronica do Principe D. Joam, 1567, ed. Lisboa, 1790. archive.org
  • Frei Luís de Sousa, Primeira parte da Historia de S. Domingos, 1623. archive.org
  • C. R. Beazley e E. Prestage, The Chronicle of the Discovery and Conquest of Guinea, vol. I, Hakluyt Society, 1896. archive.org
  • Joaquim Barradas de Carvalho, artigos na Revista de História, São Paulo, 1953 e 1965. revistas.usp.br · revistas.usp.br
  • Jorge de Sena, «Os painéis ditos de Nuno Gonçalves», Revista de História, São Paulo, 1963. revistas.usp.br
  • José Alberto Seabra Carvalho, «Quem está retratado nos "Painéis de S. Vicente"?», Público, 7 de fevereiro de 2021. publico.pt
  • Jorge Filipe de Almeida, «O Infante D. Henrique. O rosto esclarecedor do "Homem de Chapeirão" (2)», SOL, 4 de junho de 2020. sol.iol.pt
  • Daniel Estudante Protásio, «Denis, Jean Ferdinand», Dicionário de Historiadores Portugueses, Biblioteca Nacional de Portugal. dichp.bnportugal.gov.pt