Descobrimentos · episódio 4

Os mareantes diziam que, para lá do cabo Bojador, a terra era como os desertos da Líbia: sem água, sem árvore, sem erva verde. Em 1434, Gil Eanes passou o cabo, saiu em terra e trouxe de lá umas ervas.

Pintura de uma barca a voltar para trás diante de uma costa baixa e de rebentação, evocação dos anos em que nenhum navio do Infante passava o cabo (figuras genéricas).
FIG. 02Pintura de uma barca a voltar para trás diante de uma costa baixa e de rebentação, evocação dos anos em que nenhum navio do Infante passava o cabo (figuras genéricas).

No reino, chamavam-lhes rosas de Santa Maria. Quem o conta é Gomes Eanes de Zurara, na crónica que escreveu sobre os feitos do Infante D. Henrique, uns vinte anos depois. Durante doze anos, escreve ele, o Infante mandou todos os anos navios àquela costa, e nenhum se atreveu a passar o cabo. Do lado de cá, ninguém sabia dizer como era a terra do outro lado.

Evocação pintada do Infante D. Henrique a chamar Gil Eanes à parte antes da viagem de 1434 (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 03Evocação pintada do Infante D. Henrique a chamar Gil Eanes à parte antes da viagem de 1434 (figuras genéricas, não retratos).

Zurara registou o que os mareantes diziam do cabo. Para lá dele, diziam, não havia gente nem povoação. A terra não era menos arenosa que os desertos da Líbia, «onde nom ha augua, nem arvor, nem herva verde». O mar era baixo mesmo longe da costa, e as correntes eram tamanhas que navio que lá passasse «jamais nunca podera tornar».

Pintura da costa rochosa junto de Bojador, a sul das Canárias, com uma barca de época sobre águas baixas; se o cabo de 1434 é este ou o Juby, os historiadores divergem. A partir de uma fotografia de Darymaister (CC BY-SA 4.0).
FIG. 04Pintura da costa rochosa junto de Bojador, a sul das Canárias, com uma barca de época sobre águas baixas; se o cabo de 1434 é este ou o Juby, os historiadores divergem. A partir de uma fotografia de Darymaister (CC BY-SA 4.0).

Os capitães voltavam para trás. E, para não chegarem de mãos vazias, uns iam assaltar a costa de Granada, outros corriam o mar do Levante, até trazerem presas. Zurara não os acusa de falta de coragem nem de vontade. A causa, escreve, era a novidade do caso, misturada com uma fama antiga que corria entre os mareantes da Península quase de geração em geração.

Evocação pintada, segundo João de Barros, do Infante a cheirar as ervas trazidas num barril de terra (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 05Evocação pintada, segundo João de Barros, do Infante a cheirar as ervas trazidas num barril de terra (figuras genéricas, não retratos).

Em 1433, o Infante deu a capitania de uma barca a Gil Eanes, seu escudeiro, natural de Lagos. Gil Eanes seguiu a viagem dos outros e, com o mesmo medo, não passou das Canárias. Voltou ao reino com alguns cativos que lá tomou.

Pormenor do Atlas Catalão de 1375, no fac-símile gravado para o atlas do Visconde de Santarém (Paris, 1841): a costa até ao cabo «buyetder» e, ao largo, o barco de Jaume Ferrer (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).
FIG. 06Pormenor do Atlas Catalão de 1375, no fac-símile gravado para o atlas do Visconde de Santarém (Paris, 1841): a costa até ao cabo «buyetder» e, ao largo, o barco de Jaume Ferrer (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).

No ano seguinte, o Infante mandou armar outra vez a mesma barca e chamou-o à parte. Conta Zurara que lhe disse que se maravilhava de um medo assente numa coisa tão incerta: a opinião de «quatro mareantes», vindos da carreira da Flandres, que nem sabiam usar agulha e carta de marear. Que fosse, e não temesse a opinião deles.

Pintura de marinheiros diante de rastos de homens e de camelos na areia, na viagem seguinte, de Afonso Gonçalves Baldaia e Gil Eanes (figuras genéricas).
FIG. 07Pintura de marinheiros diante de rastos de homens e de camelos na areia, na viagem seguinte, de Afonso Gonçalves Baldaia e Gil Eanes (figuras genéricas).

Gil Eanes decidiu não voltar à presença do Infante sem notícia certa. Dessa vez, «menospreçando todo perigoo, dobrou o cabo». Como o fez, nenhuma fonte diz.

Pintura da estátua de Gil Eanes em Lagos, de Canto da Maia (1969), vista de costas, com o barril e a planta. A partir de uma fotografia de Manuelvbotelho (CC BY-SA 3.0).
FIG. 08Pintura da estátua de Gil Eanes em Lagos, de Canto da Maia (1969), vista de costas, com o barril e a planta. A partir de uma fotografia de Manuelvbotelho (CC BY-SA 3.0).

Mandou lançar o batel e saiu em terra. Não achou gente, nem sinal de povoação. De volta a Portugal, disse ao Infante, nas palavras de Zurara: «me pareceo que devia trazer alguũ sinal de terra, pois que em ella sahya, apanhey estas hervas que aquy apresento aa vossa mercee, as quaaes nós em este regno chamamos rosas de sancta Marya.»

Para lá do cabo, escreveu Zurara, Gil Eanes achou as coisas «muyto pello contrairo» do que ele e os outros presumiam. E o próprio cronista deixou escrito que o feito, «quanto aa obra», fora pequeno, e que «soo pello atrevimento foe contado por grande».

Em 1552, mais de um século depois da viagem, João de Barros contou a mesma cena com outros pormenores. No relato dele, Gil Eanes diz ao Infante que a terra lhe parecera «mui fresca, e graciosa», e traz-lhe as ervas num barril cheio de terra, parecidas com outras que no reino davam flores e tinham aquele nome. O Infante, escreve Barros, cheirava-as e alegrava-se de as ver como se fossem fruto da terra da promissão.

Gil Eanes, segundo Zurara, foi muito bem recebido, e o Infante fê-lo cavaleiro.

Na viagem seguinte, o Infante mandou armar um barinel e entregou-o a Afonso Gonçalves Baldaia, o seu copeiro. Gil Eanes foi com ele, na sua barca. Passaram além do cabo e acharam terra sem casas, mas com «rastro dhomeẽs e de camellos». Bem parecia, disse o Infante, segundo Zurara, que a povoação não estava dali muito afastada.

Que ervas eram, não se sabe. O nome não o deu Gil Eanes: já corria no reino. Mas os grandes dicionários antigos não dizem que planta era. Em 1846, o francês Ferdinand Denis escreveu numa nota que seriam provavelmente a rosa de Jericó, uma planta do deserto que, depois de morta e seca, se enrola, e que volta a abrir-se quando a põem em água. Mais recentemente, a historiadora Patricia Seed propôs outra, a Fagonia cretica, de flor roxa. Nenhum dos dois apresentou prova, e das ervas não ficou nenhuma.

Em Lagos, no Jardim da Constituição, está desde 10 de maio de 1969 uma estátua de Gil Eanes, de Canto da Maia. Junto dele está um barril com uma planta, símbolo da terra achada para lá do cabo. Fica-lhe às costas. Quem a quiser ver tem de lhe dar a volta.

Fontes18 referências
  • Gomes Eanes de Zurara, Chronica do descobrimento e conquista de Guiné, caps. VII a X, XX, LI, LV e LXXXVII, ed. Paris, 1841 (archive.org, b33279639).
  • João de Barros, Ásia, Década I, liv. I, caps. IV e V (1.ª ed. Lisboa, 1552), ed. Lisboa, 1777.
  • Duarte Pacheco Pereira, Esmeraldo de situ orbis, liv. I, cap. 22, ed. Damião Peres, Lisboa, 1954.
  • Atlas Catalão de 1375, fac-símile em Visconde de Santarém, Atlas composé de cartes des XIVe, XVe, XVIe et XVIIe siècles, Paris, 1841 (Biblioteca Nacional Digital, 14420).
  • «Estudi raonat de les fonts documentals de l'Atles català de 1375», Treballs de la Societat Catalana de Geografia, 80, Institut d'Estudis Catalans, 2015.
  • Le Canarien, ed. Gabriel Gravier, Rouen, 1874, cap. LXXXIV.
  • Raymond Mauny, Les navigations médiévales sur les côtes sahariennes antérieures à la découverte portugaise (1434), Lisboa, 1960.
  • Peter Russell, Prince Henry 'the Navigator': a Life, New Haven, 2000.
  • Bailey W. Diffie e George D. Winius, Foundations of the Portuguese Empire, 1415-1580, Minneapolis, 1977.
  • Patricia Seed, «What Gil Eanes Achieved», 2007 (reed. Routledge, 2017), e Sails and Shadows, University of California Press.
  • Enciclopédia Virtual da Expansão Portuguesa (CHAM), «Gil Eanes» e «Cape Bojador», 2009.
  • Instituto Camões, Navegações Portuguesas: «Bojador, passagem do cabo» e «Eanes, Gil».
  • Ferdinand Denis, Portugal, Paris, 1846, p. 73.
  • J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal, Porto, 1882, § 232.
  • Félix de Avelar Brotero, Flora Lusitanica, Lisboa, 1804; A. X. Pereira Coutinho, A Flora de Portugal, Lisboa, 1913; António de Morais Silva, Diccionario da lingua portugueza, 1789 e 1813; Rafael Bluteau, Vocabulario portuguez e latino, 1712 a 1728.
  • M. Hegazy et al., Annals of Botany 97, 2005 (a rosa de Jericó); GBIF, Anastatica hierochuntica.
  • Câmara Municipal de Lagos, Fototeca, «Estátua Gil Eanes».
  • Padrão dos Descobrimentos, folheto oficial.