Descobrimentos · episódio 3

Quatro séculos depois de 1439, uns criados lavaram com vassouras o mapa que dizia quem tinha achado os Açores. Do mesmo ano ficou outro papel, uma licença do rei, e o que ela diz primeiro é que nas ilhas já andavam ovelhas.

Evocação pintada da licença régia de 2 de julho de 1439, passada em nome de D. Afonso V, então com sete anos, com a autoridade da rainha sua mãe (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 02Evocação pintada da licença régia de 2 de julho de 1439, passada em nome de D. Afonso V, então com sete anos, com a autoridade da rainha sua mãe (figuras genéricas, não retratos).

A licença foi passada em Lisboa, a 2 de julho de 1439, em nome de D. Afonso V, que tinha sete anos. Por isso saiu «com autoridade da Senhora Rajnha sua madre», sua tutora, e com o acordo do tio, o Infante D. Pedro, «defensor» dos reinos. Diz que o Infante D. Henrique «mandara lançar ovelhas nas ssete jlhas dos Açores» e que, se ao rei aprouvesse, as mandaria povoar. Aprouve. É o documento régio mais antigo que se conhece sobre o arquipélago, e não diz quem o achou, nem quando.

Pintura do tinteiro de cortiça que um criado pousou num canto do mapa de Gabriel de Vallseca, em Palma, no inverno de 1838 para 1839, no momento em que o pergaminho se enrola e o entorna, como contou George Sand.
FIG. 03Pintura do tinteiro de cortiça que um criado pousou num canto do mapa de Gabriel de Vallseca, em Palma, no inverno de 1838 para 1839, no momento em que o pergaminho se enrola e o entorna, como contou George Sand.

As ilhas ficam a cerca de mil e quatrocentos quilómetros de Lisboa, em pleno Atlântico. Não havia nelas mamíferos terrestres, a não ser morcegos. Uma legenda acrescentada depois da morte de Martim Behaim ao globo que ele fez em Nuremberga, em 1492, diz que os primeiros a desembarcar só encontraram mato e aves tão mansas que não fugiam de ninguém.

Pintura dos criados a lavar o mapa de Vallseca com baldes, esponjas e vassouras, na biblioteca do conde de Montenegro, em Palma, como contou George Sand, que assistiu com quem a acompanhava (figuras genéricas).
FIG. 04Pintura dos criados a lavar o mapa de Vallseca com baldes, esponjas e vassouras, na biblioteca do conde de Montenegro, em Palma, como contou George Sand, que assistiu com quem a acompanhava (figuras genéricas).

No episódio anterior, em Porto Santo, os animais chegaram com os povoadores: uma coelha prenhe, numa gaiola, segundo Zurara. Nos Açores, foram à frente.

Pintura dos penedos das Formigas, que segundo Gaspar Frutuoso foram tudo o que a primeira viagem de Gonçalo Velho encontrou (figura genérica).
FIG. 05Pintura dos penedos das Formigas, que segundo Gaspar Frutuoso foram tudo o que a primeira viagem de Gonçalo Velho encontrou (figura genérica).

E quem achou as ilhas? A resposta estava no mapa. Foi desenhado em Maiorca por Gabriel de Vallseca, num pergaminho de 75 por 112 centímetros, assinado e datado de 1439. Segundo um estudo de 1901, os Açores aparecem nele alinhados de noroeste para sudeste, tal como estão no mar, e não de norte para sul, como nos mapas anteriores. Junto das ilhas, uma legenda em catalão diz que foram «trobades», achadas, por um Diogo, piloto do rei de Portugal.

Santa Maria, São Miguel e os penedos das Formigas («Las Hormigas») no mapa dos Açores de Luís Teixeira, cosmógrafo do rei, de 1584 (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).
FIG. 06Santa Maria, São Miguel e os penedos das Formigas («Las Hormigas») no mapa dos Açores de Luís Teixeira, cosmógrafo do rei, de 1584 (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).

No inverno de 1838 para 1839, o mapa estava em Palma, na biblioteca do conde de Montenegro, e o capelão da casa desenrolou-o diante de George Sand e de quem a acompanhava. Foi ela que contou o resto, no livro Um Inverno em Maiorca. Para manter o pergaminho aberto, um criado pousou-lhe num canto um tinteiro de cortiça, cheio até às bordas. O pergaminho, habituado a estar enrolado, deu um salto e enrolou-se sobre o tinteiro. O tinteiro ficou vazio, e o mapa, inundado. Os criados acudiram com baldes de água e puseram-se a limpá-lo à esponja e à vassoura. Nenhum dos visitantes lhe tocou: estavam todos, escreveu Sand, a seis passos da mesa.

Pintura de ovelhas, vacas e porcos numa ilha dos Açores ainda sem povoadores, os animais que os cronistas dizem terem sido lançados nas ilhas.
FIG. 07Pintura de ovelhas, vacas e porcos numa ilha dos Açores ainda sem povoadores, os animais que os cronistas dizem terem sido lançados nas ilhas.

A parte estragada foi a do Atlântico, com o lugar dos Açores. O resto ficou intacto. Sobrou uma decalcagem feita em 1837 pelo francês Tastu, mas nem com ela os leitores se entendem. Conforme quem leu, o original ou a cópia, o piloto é Diogo de Silves, ou de Sevilha, de Senill, de Sunis, e o ano, danificado como o nome, foi lido ao longo de mais de uma década.

Pintura de gado levado de barco junto ao ilhéu de Vila Franca do Campo, em São Miguel, a ilha de onde, conta Diogo Gomes, todos os anos se trazia gado para Portugal. A partir de uma fotografia real de bDom (CC BY 2.0).
FIG. 08Pintura de gado levado de barco junto ao ilhéu de Vila Franca do Campo, em São Miguel, a ilha de onde, conta Diogo Gomes, todos os anos se trazia gado para Portugal. A partir de uma fotografia real de bDom (CC BY 2.0).

Onde o mapa se cala, falam os cronistas, todos mais tarde. Gaspar Frutuoso, no fim do século XVI, conta que a primeira viagem de Frei Gonçalo Velho só encontrou uns penedos no mar, a que chamaram Formigas, «ou por serem pequenos como formigas, em comparação das ilhas, ou porque ferve ali o mar». Na viagem seguinte, sempre segundo Frutuoso, avistaram uma ilha no dia da Assunção, 15 de agosto, e chamaram-lhe Santa Maria. Frutuoso dá um ano, e ele próprio regista outros dois. A licença de 1439 diz ao menos isto: foi antes dela.

A licença só fala de ovelhas. O navegador Diogo Gomes, no relato que ditou a Martim Behaim, conta que Gonçalo Velho levou caravelas com animais domésticos para cada uma das ilhas, e que na primeira, a que então chamavam ilha de Gonçalo Velho, lançaram porcos, vacas e ovelhas. A legenda acrescentada ao globo de Behaim fala de dezasseis navios carregados de animais mansos.

Frutuoso é o mais franco. «Não se sabe a certeza», escreve, quando foi que o Infante mandou deitar gado na ilha. Mas «de crer é», continua, que o Infante mandaria vacas, ovelhas, cabras, coelhos e aves domésticas, «para se criarem e multiplicarem na terra, entretanto que a não mandava povoar».

Segundo Frutuoso, os animais ficaram na ilha a multiplicar-se até chegarem os povoadores. Uma revisão publicada em 2023 na revista Plants conclui, por seu lado, que os animais soltos antes do povoamento se multiplicaram com êxito.

O que havia nas ilhas antes deles é outra pergunta. Em 2021, um estudo publicado na revista PNAS leu na lama de lagoas do Pico e do Corvo marcadores de fezes de ruminantes, desde cerca do ano 700 no Pico e do ano 850 no Corvo, e atribuiu-os a povoadores anteriores aos portugueses. No ano seguinte, outros investigadores contestaram, na mesma revista, as datas e a leitura. A questão continua em aberto.

Dez anos depois da primeira licença, a 10 de março de 1449, em Santarém, o rei passou outra, já sem tutores. A frase era quase a mesma: ovelhas lançadas nas sete ilhas, licença para as povoar. A essa altura já lá vivia gente: uma carta de 1443 fala dos «povoadores que estam e vivem nas ditas ilhas».

As ovelhas tinham ido à frente das pessoas. Mais tarde, segundo Diogo Gomes, o gado fez o caminho ao contrário: em São Miguel, décadas depois, havia tanto gado que todos os anos se trazia de lá para Portugal.

Fontes16 referências
  • Carta de D. Afonso V ao Infante D. Henrique, Lisboa, 2 de julho de 1439 (ANTT, Chancelaria de D. Afonso V, liv. 19, fl. 14), em Academia Real das Sciencias, Alguns documentos do Archivo Nacional da Torre do Tombo ácerca das navegações e conquistas portuguezas, Lisboa, 1892, pp. 6 e 7. Biblioteca Nacional Digital.
  • Archivo dos Açores, vol. I, Ponta Delgada: cartas de 5 de abril de 1443, 10 de março de 1449 e de janeiro de 1453, e a descrição das ilhas de Valentim Fernandes (1507).
  • Gaspar Frutuoso, Saudades da Terra, Livros III e IV, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1998.
  • Gomes Eanes de Zurara, Chronica do descobrimento e conquista de Guiné, cap. LXXXIII, Paris, 1841, com notas do Visconde de Santarém. Biblioteca Nacional Digital.
  • Diogo Gomes, As relações do descobrimento da Guiné e das ilhas dos Açores, Madeira e Cabo Verde, trad. de Gabriel Pereira, Lisboa, Sociedade de Geografia, 1899.
  • Globo de Martim Behaim, Nuremberga, 1492: legenda dos Açores, edição digital da Universidade de Erlangen-Nuremberga.
  • Carta náutica de Gabriel de Vallseca, 1439: ficha do Museu Marítimo de Barcelona.
  • Jules Mees, Histoire de la découverte des îles Açores, 1901. Biblioteca Nacional Digital.
  • George Sand, Un hiver à Majorque (Project Gutenberg).
  • Cortes Portuguesas. Reinado de D. Afonso V: Cortes de 1439, CEH / CHAM, Universidade Nova de Lisboa, 2016.
  • Enciclopédia Virtual da Expansão Portuguesa (CHAM): «D. Afonso V (1432-1481)».
  • Instituto Camões, Ciência em Portugal, Dicionário, «Volta da Mina», 2003 (arquivo.pt).
  • P. M. Raposeiro et al., «Climate change facilitated the early colonization of the Azores Archipelago during medieval times», PNAS 118 (41), 2021.
  • R. B. Elias et al., «Is there solid evidence of widespread landscape disturbance in the Azores before the arrival of the Portuguese?», PNAS 119 (4), 2022, e resposta de Raposeiro et al., no mesmo número.
  • V. Rull, «Settlement and anthropization of the Azores Islands», Journal of Biogeography, 2023; e Plants 12 (11), 2023.
  • J. M. Fernández-Palacios et al., PNAS Nexus 4 (8), 2025.