Descobrimentos · episódio 2
Numa gaiola, no barco que ia povoar a ilha de Porto Santo, seguia uma coelha prenhe. Tinha-a oferecido a Bartolomeu Perestrelo um amigo, que o cronista não nomeia. Pariu no mar.
Quem o conta é o cronista Gomes Eanes de Zurara, por volta de 1453, uns trinta anos depois. Um século mais tarde, João de Barros acrescentou que todos a bordo ficaram muito contentes e tomaram aquilo por bom prognóstico: as sementes que levavam ainda não tinham chegado à terra e já começavam a dar fruto.

Mais de quatro séculos depois da viagem, dois coelhos de Porto Santo viviam no Jardim Zoológico de Londres. Eram tão bravos que muita gente, ao vê-los, dizia que pareciam mais ratazanas grandes do que coelhos. Charles Darwin estudou-os e escreveu que, se não se conhecesse a sua história, a maioria dos naturalistas os teria classificado como uma espécie à parte.
Em 2003, uma tese da Universidade do Porto leu no ADN dos coelhos da ilha uma coisa que, tanto quanto os autores sabiam, nunca fora descrita num mamífero selvagem: uma população inteira que batia certo com uma só fêmea prenhe.

Como é que uma coelha numa gaiola chegou tão longe?
No episódio anterior, as ruas de Ceuta ficaram cobertas de canela. Esta viagem também começa ali. Poucos anos depois da tomada, a cidade foi cercada pelos reis mouros, e o Infante D. Henrique foi ao descerco. Quando voltou, conta Zurara, dois escudeiros da sua casa pediram-lhe com que ganhar honra: João Gonçalves Zarco, que tinha combatido nesse descerco, e Tristão Vaz. O Infante armou-lhes uma barca «contra os Mouros», a caminho da Guiné. O tempo contrário levou-os a uma ilha de sete léguas em roda onde nunca ninguém tinha vivido: Porto Santo.

Voltaram lá com o necessário para ficar, e juntou-se-lhes Perestrelo, fidalgo da casa do Infante D. João. A 1 de novembro de 1446, o Infante D. Henrique fá-lo-ia capitão da ilha. A filha dele, Filipa Moniz, haveria de casar com Cristóvão Colombo, um genro que Perestrelo nunca chegou a conhecer.
Chegados à ilha, por volta de 1420, soltaram a coelha com os filhos, «pera fazer criaçom». Conta Zurara que em muito pouco tempo se multiplicaram tanto que não se podia semear nada que eles não estragassem. No ano seguinte mataram muitíssimos, e não fizeram falta nenhuma. A esperança da multiplicação, escreveu Barros, não os enganou, «mas foi com mais pezar que prazer de todos». No tempo dele, num ilhéu pegado à ilha, os coelhos eram tantos «que parecem bichos», e numa só matança mataram-se mais de três mil.

No resto, os cronistas não concordam, nem sequer no ano. Para Zurara, deixaram a ilha por causa dos coelhos: Zarco e Tristão passaram à Madeira, e Perestrelo voltou ao reino até o Infante o mandar de volta. Barros diz que só Perestrelo se foi, ao fim de dois anos. Gaspar Frutuoso, no fim do século XVI, conhece as várias versões; na que conta como sua, ninguém se foi embora. Em 1455, um veneziano de passagem, Alvise Cadamosto, encontrou Perestrelo a governar a ilha e escreveu que ela tinha «infiniti conigli».
Mas tudo isto vem de crónicas. Seria mesmo uma só coelha? E de onde vinha ela, de uma capoeira ou do mato?

Darwin tinha uma resposta. Em 1868, no livro sobre a variação dos animais domésticos, dedicou páginas inteiras aos coelhos de Porto Santo. Atribuía a coelha a Zarco e escreveu que «tudo levava a crer» que era da raça doméstica comum: só um animal bem domesticado, pensava, pariria a bordo. Juntou sete exemplares, dois trazidos em álcool, três em salmoura e dois vivos. Eram muito mais pequenos do que o coelho bravo inglês, com quase metade do peso, mais ruivos, e sem a orla negra nas orelhas. Um dos dois de Londres chegou-lhe morto ao fim de menos de quatro anos, e o pelo já tinha recuperado a cor do coelho inglês. Eram ambos machos, e nunca se juntaram às fêmeas de várias raças que lhes foram pondo ao lado.
O alemão Ernst Haeckel foi mais longe. Numa edição de 1874 da História Natural da Criação, deu-lhes nome de espécie nova, Lepus Huxleyi, e escreveu que já não cruzavam com o coelho europeu de que descendiam. A coelha oferecida por um amigo tinha entrado na discussão de Darwin sobre o que é, afinal, uma espécie.

A resposta seguinte veio do Porto, e chegava para duas perguntas. Em novembro de 1995, uma equipa da Universidade do Porto recolheu coelhos de Porto Santo e analisou-os com 34 marcadores genéticos. O trabalho ficou numa tese de doutoramento de 2003, de Pedro Esteves, coorientada por Nuno Ferrand de Almeida.
A primeira pergunta era a de Darwin. Os coelhos da ilha descendiam de coelhos bravos do sudoeste da Península, com os parentes mais próximos em Portugal, e tinham uma linhagem de ADN que nunca aparecera em nenhuma das raças domésticas estudadas.

A segunda era a de Zurara. Das 38 variantes de um gene mitocondrial conhecidas na Península, em Porto Santo só havia uma, e noutros marcadores os números batiam com o que deixariam uma só mãe e o pai da ninhada que ela trazia. Os dados, escreveram os autores, apoiavam fortemente a hipótese de uma só fêmea prenhe: a coelha de Zurara. Até ali, notavam, uma população fundada assim só tinha sido descrita em moscas-da-fruta.
O que a chegada custou, custou-o à própria ilha. Em 2017, biólogos da Universidade da Madeira escreveram que Porto Santo perdera, no último século, dez tipos de plantas nativas, provavelmente por causa do pastoreio dos coelhos. O coelho-bravo, que é da Península Ibérica, vive hoje em mais de oitocentas ilhas do mundo, levado pelo homem. Em outubro de 2016, uma nova estirpe da doença hemorrágica viral matou, segundo os caçadores, cerca de 98 % dos coelhos de Porto Santo, e o Governo Regional tem criado e reintroduzido coelhos desde então.
As amostras do Porto foram recolhidas em novembro de 1995 e guardadas a vinte graus abaixo de zero. Dezassete anos depois, em 2012, a mixomatose chegou à ilha. A seguir, dizem as associações de caçadores, vieram coelhos de fora, domésticos e híbridos, soltos sem autorização, e o coelho bravo de Porto Santo ficou descaracterizado.
O retrato da coelha de Perestrelo foi tirado dezassete anos antes de chegarem os outros.
Fontes16 referências
- Gomes Eanes de Zurara, Chronica do descobrimento e conquista de Guiné, cap. LXXXIII, ed. Visconde de Santarém, Paris, 1841, pp. 385 a 391. archive.org
- Alvise Cadamosto, Navigazioni, cap. III, texto de Ramusio, Veneza, 1837. archive.org
- João de Barros, Ásia, Década I, liv. I, caps. II a IV, ed. Lisboa, 1778. archive.org
- Gaspar Frutuoso, As Saudades da Terra, liv. II, ed. Álvaro Rodrigues de Azevedo, Funchal, 1873. archive.org
- Carta de doação da capitania de Porto Santo a Bartolomeu Perestrelo, 1 de novembro de 1446, ANTT, Chancelaria de D. Afonso V, liv. 33, f. 85 (registo em Arquipélagos). arquipelagos.pt
- Elucidário Madeirense, «Perestrelo (Bartolomeu)». elucidariomadeirense.pt
- Charles Darwin, The Variation of Animals and Plants under Domestication, vol. I, Londres, John Murray, 1868, cap. IV. archive.org
- Ernst Haeckel, Natürliche Schöpfungsgeschichte, 5.ª ed., Berlim, 1874. archive.org
- Pedro José de Castro Esteves, Molecular and population genetic analysis of polymorphism at the antibody loci IgGCH2 and IgVH in lagomorphs, tese de doutoramento, Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, 2003, cap. 4. repositorio-aberto.up.pt
- Teresa Firmino, «Na Ilha do Porto Santo os coelhos descendem todos de um só casal», Público, 31 de janeiro de 2011. publico.pt
- Ricardo Rocha et al., «Extinctions of introduced game species on oceanic islands: curse for hunters or conservation opportunities?», Biodiversity and Conservation 26, 2017. doi.org
- Carina L. Carvalho et al., «Emergence of rabbit haemorrhagic disease virus 2 in the archipelago of Madeira, Portugal (2016-2017)», Virus Genes, 2017. doi.org
- «Associações de caçadores "apoiam sem reservas" introdução de coelhos de fora no Porto Santo», Funchal Notícias, 28 de janeiro de 2017. funchalnoticias.net
- «Governo vai repovoar Porto Santo de coelhos bravos», RTP Madeira, 26 de janeiro de 2017. madeira.rtp.pt
- «Cerca de 150 coelhos serão reintroduzidos no Porto Santo», DNoticias, 21 de abril de 2021. dnoticias.pt
- «IFCN vacina coelhos bravos no Porto Santo», DNoticias, 19 de abril de 2024. dnoticias.pt
