A notícia de que havia terra do outro lado do Atlântico chegou primeiro a uma pequena ilha portuguesa. Os ilhéus deram graças a Deus e mandaram galinhas e pão fresco à caravela. Na manhã seguinte, prenderam metade da tripulação, em camisa, a meio de uma oração.

Foi na ilha de Santa Maria, nos Açores, a 18 de fevereiro de 1493. Durante onze dias, a única terra da Europa onde se sabia do Novo Mundo foi uma ilha pequena do extremo sudeste dos Açores, com uma vila, um lugar-tenente e uma ermida junto ao mar. Baiona, na Galiza, só ouviu a notícia a que a história viria a chamar a descoberta da América a 1 de março, quando lá entrou a Pinta; Lisboa a 4, quando uma tormenta lá meteu Colombo; Palos, o porto andaluz de onde a expedição saíra em agosto de 1492, a 15. O que a ilha fez com a notícia é esta história. E é também, como se verá, uma história sobre a maneira como as notícias mudam de tamanho conforme quem as ouve.

Quinze dias de tormenta

O regresso da primeira viagem de Colombo foi muito pior do que a ida. A Niña e a Pinta deixaram a Hispaniola em janeiro de 1493 e apanharam, à altura dos Açores, aquele que a gente de Santa Maria haveria de descrever como o pior temporal de que havia memória na ilha. Na noite de 13 para 14 de fevereiro, as duas caravelas perderam-se de vista: a Pinta, de Martín Alonso Pinzón, desapareceu na escuridão, e cada uma seguiu sozinha, sem saber se a outra existia ainda.

A bordo da Niña, conta o diário de bordo, fizeram-se votos. Meteram num barrete tantos grãos-de-bico quantos os homens a bordo, um deles marcado a canivete com uma cruz: a quem o tirasse caberia uma romaria a Nossa Senhora de Guadalupe, com um círio de cinco libras de cera. O primeiro a meter a mão foi Colombo, e saiu-lhe o grão da cruz. Sortearam segunda romaria, a Loreto, em terras do Papa: calhou a um marinheiro do Puerto de Santa María chamado Pedro de Villa, a quem o Almirante prometeu pagar as despesas. Sortearam uma terceira, uma vigília com missa em Santa Clara de Moguer: saiu outra vez a Colombo. E, por fim, juraram todos um voto comum: na primeira terra onde houvesse casa de Nossa Senhora, sairiam em camisa, em procissão, a rezar.

Na madrugada de 15 de fevereiro viram terra. Conta o filho de Colombo que quem a avistou foi um Ruy García, de Santoña. Os pilotos e os marinheiros, feitas as suas contas, julgavam-se já à vista da Roca de Sintra, ou da Madeira; só Colombo sustentava que aquilo eram os Açores. Tinha uma vantagem sobre eles, que o próprio diário regista sem cerimónia: durante a viagem, Colombo falseara de propósito a conta do caminho andado, para que nenhum piloto além dele ficasse senhor da rota das Índias. Os homens que discutiam com ele a posição do navio estavam a navegar com números que ele lhes tinha viciado.

Levaram ainda três dias a conseguir fundear. Na costa norte de Santa Maria, a 18, com uma âncora já perdida, a barca falou finalmente com gente da ilha. E aqui o diário regista duas coisas. Primeiro, o espanto: nunca ali se vira tormenta como a daqueles quinze dias, e ninguém entendia como é que a caravela tinha escapado. Depois, a alegria: ao saberem o que ela trazia, os ilhéus deram graças a Deus e fizeram grandes alegrias pela notícia. A primeira celebração europeia da descoberta da América, a haver alguma, foi essa: gente de uma ilha dos Açores, à beira-mar, a festejar uma caravela castelhana.

Na noite de 18 de fevereiro de 1493, três homens da ilha de Santa Maria vieram numa barca até à Niña com galinhas, pão fresco e recados do capitão João da Castanheira, que mandava dizer que conhecia Colombo muito bem. Os ilhéus tinham sido os primeiros da Europa a ouvir a notícia do que a caravela trazia, e o diário regista que deram graças a Deus e fizeram grandes alegrias. Pintura.
FIG. 02Na noite de 18 de fevereiro de 1493, três homens da ilha de Santa Maria vieram numa barca até à Niña com galinhas, pão fresco e recados do capitão João da Castanheira, que mandava dizer que conhecia Colombo muito bem. Os ilhéus tinham sido os primeiros da Europa a ouvir a notícia do que a caravela trazia, e o diário regista que deram graças a Deus e fizeram grandes alegrias. Pintura.

Galinhas e pão fresco

À noite chegaram três homens da vila numa barca, com galinhas, pão fresco e outras coisas de comer, mandados pelo capitão da ilha, João da Castanheira. Mandava dizer que conhecia Colombo muito bem, e que só não vinha vê-lo por ser noite; ao amanhecer viria, com mais refresco, e traria consigo os três homens da caravela que estavam em terra desde o primeiro contacto. Não os devolvia já, mandava dizer, pelo grande prazer que tinha em ouvi-los contar as coisas da viagem.

O «conhecia muito bem» não era necessariamente cortesia vazia. Antes desta viagem, Colombo vivera no arquipélago da Madeira: casou com Filipa Moniz Perestrelo, filha do primeiro capitão-donatário do Porto Santo, e viveu algum tempo naquela ilha; já aqui contámos essa história. No pequeno mundo atlântico português da década de 1480, um estrangeiro casado com a filha de um capitão-donatário não era um desconhecido.

Colombo respondeu à gentileza com gentileza: mandou receber os três mensageiros com todas as honras e deu-lhes camas a bordo, porque a vila era longe e a noite já ia alta. Do lado da caravela, o dia fechou assim: a barca dos presentes atracada, os mensageiros a dormir, e um voto por cumprir.

Manhã de Entrudo

Na manhã seguinte, terça-feira, 19 de fevereiro, era dia de Entrudo. Confiado, escreve o diário, «na paz que Portugal tinha com Castela» e nas ofertas do capitão, Colombo mandou metade da gente a terra, em camisa, cumprir o voto numa pequena ermida que se via junto ao mar. Ele próprio iria depois, com a outra metade. O diário não dá nome à ermida: diz apenas «uma casinha que estava junto ao mar, como ermida». O filho de Colombo acrescenta que os da terra disseram ser casa da Virgem, e que os romeiros iam também descalços. A tradição açoriana aponta, desde sempre, a ermida de Nossa Senhora dos Anjos, que já lá estava, reerguida em pedra poucas décadas antes.

Na manhã de terça-feira de Entrudo, 19 de fevereiro de 1493, metade da tripulação foi a terra cumprir um voto, em camisa e descalça, numa pequena ermida junto ao mar. Estavam em oração quando o povo da ilha, a cavalo e a pé, com o capitão, os prendeu a todos. O diário não dá nome à ermida; a tradição açoriana aponta a dos Anjos. A ermida aqui pintada é uma evocação genérica: o edifício atual dos Anjos é uma reconstrução do século XVII. Pintura.
FIG. 03Na manhã de terça-feira de Entrudo, 19 de fevereiro de 1493, metade da tripulação foi a terra cumprir um voto, em camisa e descalça, numa pequena ermida junto ao mar. Estavam em oração quando o povo da ilha, a cavalo e a pé, com o capitão, os prendeu a todos. O diário não dá nome à ermida; a tradição açoriana aponta a dos Anjos. A ermida aqui pintada é uma evocação genérica: o edifício atual dos Anjos é uma reconstrução do século XVII. Pintura.

Estavam em oração quando o povo da ilha saltou sobre eles, a cavalo e a pé, com o capitão, e prendeu-os a todos. O filho de Colombo conta que a gente da vila estava escondida em emboscada, e que tomou também a barca: sem barca, calculava o capitão, o Almirante não podia fugir.

Colombo esperou os seus até ao meio-dia. A ermida ficava atrás de uma ponta de terra, fora do alcance da vista, e da caravela não se percebia nada. Quando levantou âncora e pôs a Niña defronte da ermida, viu homens armados a cavalo apearem-se e entrarem na barca. Vinham prendê-lo. Seguiu-se um diálogo improvável, gritado por cima da água entre uma barca e uma caravela: o capitão a pedir seguro, sem se atrever a subir a bordo; Colombo a apresentar-se como Almirante do Mar Oceano e Vice-Rei das Índias, a mostrar de longe as cartas dos Reis de Castela, assinadas e seladas, a lembrar que os dois reinos estavam em paz. A resposta do lado da barca ficou registada no diário: ali não conheciam Rei nem Rainha de Castela, nem as suas cartas, nem lhes tinham medo; antes lhe haviam de dar a saber o que era Portugal.

Colombo respondeu à altura, e com fúria: jurou, tomando por testemunhas os que estavam na caravela, não descer do navio até levar cem portugueses presos para Castela e despovoar a ilha inteira. As ameaças ficaram nisso, em palavras, dos dois lados. Nenhum português foi levado; a ilha ficou onde estava.

Treze anos antes

É fácil ler a cena como comédia, e a cena tem essa camada: as galinhas à noite, a emboscada de madrugada, homens em camisa presos a meio da oração. Mas vale a pena perguntar o que via João da Castanheira daquela praia.

Não era o capitão da ilha. Era o lugar-tenente de João Soares, dito de Albergaria, o capitão do donatário, que estava então ausente no Continente. Quem mandava em Santa Maria naquele fevereiro era um substituto, sozinho, na ilha do extremo sudeste de um arquipélago que era, ele próprio, o extremo do reino.

Sem conseguir reaver os seus homens, Colombo pôs a caravela defronte da ermida e mostrou de longe as cartas dos Reis de Castela, assinadas e seladas. Do lado da barca responderam que ali não conheciam Rei nem Rainha de Castela, nem as suas cartas, e que lhe haviam de dar a saber o que era Portugal. As ameaças ficaram em palavras, dos dois lados. Pintura. o rosto é uma evocação, não um retrato.
FIG. 04Sem conseguir reaver os seus homens, Colombo pôs a caravela defronte da ermida e mostrou de longe as cartas dos Reis de Castela, assinadas e seladas. Do lado da barca responderam que ali não conheciam Rei nem Rainha de Castela, nem as suas cartas, e que lhe haviam de dar a saber o que era Portugal. As ameaças ficaram em palavras, dos dois lados. Pintura. o rosto é uma evocação, não um retrato.

E a ilha tinha memória recente de caravelas castelhanas. Conta a crónica açoriana, as Saudades da Terra de Gaspar Frutuoso, escritas no século seguinte, que no tempo da guerra entre Portugal e Castela (1475-1479) um navio castelhano veio ter a Santa Maria; que o capitão João Soares se defendeu dois ou três dias «com um negro e quatro ou cinco homens»; que o cativaram por fim e o levaram para Castela; e que lá se resgatou, pouco antes de se fazerem as pazes, no fim de 1480. O próprio Frutuoso introduz o episódio com um «outros dizem», e outra versão da história conta um desembarque rechaçado; é tradição de crónica, não documento. Mas o essencial não depende da variante: na memória da ilha, a última visita castelhana tinha acabado com o capitão de Santa Maria cativo em Castela.

Treze anos depois, sai da pior tormenta de que há memória uma caravela castelhana, comandada por um homem que diz ser Almirante de Castela e Vice-Rei de umas ilhas que ninguém conhece, e pede para mandar gente a terra. Para quem estava na praia, aquilo não era a maior notícia do século. Era o regresso de um problema conhecido.

A ordem que ninguém viu

Resta a pergunta que atravessa o episódio: quem mandou prender?

As fontes são três, e nenhuma é neutra. O diário de bordo de Colombo perdeu-se; o que chegou até nós é o resumo que dele fez Bartolomé de las Casas, com longos trechos em discurso direto. Tudo o que «diz o Almirante» é, portanto, a versão de Colombo, resumida por um terceiro. A segunda fonte é a Historia del Almirante, atribuída ao filho, Hernando Colón, escrita entre 1537 e 1539 e impressa em Veneza em 1571: um filho a defender a memória do pai. A terceira é a Historia de las Indias do próprio Las Casas, escrita no século XVI e publicada só três séculos mais tarde, em 1875, onde o frade já não resume: comenta.

Sobre a ordem de prender, cada uma diz coisa diferente. No diário, o capitão grita de longe que tudo o que fazia lho mandara «o Rei seu senhor»; e três dias depois os tripulantes libertados contam ter ouvido o mesmo. Hernando escreve outra coisa: que se dizia na ilha que o Rei de Portugal avisara todos os vassalos para prenderem o Almirante por qualquer meio que pudessem. Las Casas vai mais longe e conclui por conta própria que a ordem tinha de existir, «porque não se atreveriam a fazer o que fizeram os daquela ilha se o Rei assim não lho tivesse mandado». Três versões: uma frase gritada, um boato de ilha, uma inferência de historiador. Nenhuma cita documento algum. A ordem de D. João II é, até hoje, uma frase por cima da água.

Na noite de 21 de fevereiro, quando a Niña voltou de São Miguel para tentar recuperar a tripulação, um homem acenou-lhe de umas rochas junto ao mar, a pedir que não partissem. No dia seguinte, tudo se resolveria. Pintura.
FIG. 05Na noite de 21 de fevereiro, quando a Niña voltou de São Miguel para tentar recuperar a tripulação, um homem acenou-lhe de umas rochas junto ao mar, a pedir que não partissem. No dia seguinte, tudo se resolveria. Pintura.

O mesmo Las Casas acrescenta, aliás, um veredicto seu à alegria dos ilhéus de dia 18: «na verdade, era tudo fingido», escreve, anunciando o capítulo seguinte. O diário, que é a fonte mais próxima, regista alegria e graças a Deus, sem reservas. Escolha o leitor; nós limitamo-nos a mostrar as duas mãos.

Até a cena da libertação tem duas versões que não coincidem no pormenor. Entretanto o mau ancoradouro cortara as amarras à Niña, que perdeu as âncoras e teve de correr para São Miguel, mal tripulada: segundo Hernando, não restavam a bordo senão três marinheiros de ofício e alguns grumetes, sendo o resto gente de terra e os índios que Colombo levava consigo, sem prática de velas. Voltou no dia seguinte. Na noite de 21, um homem acenou das rochas a pedir que não partissem; veio depois uma barca com uma delegação que pediu seguro e dormiu a bordo. O diário diz cinco marinheiros, dois clérigos e um escrivão; Hernando diz cinco marinheiros e um notário, sem clérigos. De manhã, a delegação pediu para ver os poderes dos Reis de Castela. Colombo mostrou a carta geral de recomendação. Os portugueses foram-se a terra contentes, e devolveram todos os homens, com a barca. Dos libertados, Colombo soube ainda uma coisa que o diário guarda: se o tivessem apanhado a ele, nunca o teriam soltado.

A 24 de fevereiro, domingo, sem ter conseguido meter lenha nem lastro por causa do mar, a Niña largou para Castela.

Lisboa, com trombetas

Não chegou a Castela. Uma nova tormenta, na noite de 3 de março, obrigou-a a entrar no rio de Lisboa, a 4, fundeando no Restelo. No auge dessa tormenta fizeram-se, outra vez, votos: sorteou-se um romeiro para Santa Maria de la Cinta, em Huelva, e a sorte, regista Hernando com espanto quase divertido, voltou a cair em Colombo, como se, «com tantos votos como lhe calhavam, Deus glorioso quisesse mostrar que lhe eram mais gratas as promessas dele do que as dos outros».

Em Lisboa repetiu-se, por instantes, a cena de Santa Maria, agora com um pano de fundo muito maior. O patrão de uma nau de guerra portuguesa surta no Restelo, que o diário nomeia «Bartolomé Díaz, de Lisboa» (se é o Bartolomeu Dias que dobrara o cabo da Boa Esperança, o diário não o diz, e nós também não), veio de batel armado exigir que Colombo fosse prestar contas aos oficiais do Rei. Colombo recusou: um Almirante de Castela antes morreria do que sairia do seu navio. Mostrou as cartas régias. E a nau de guerra mudou de tom: o capitão dela, Álvaro Damán, veio à caravela «com atabales e trombetas e anafis, fazendo grande festa», e ofereceu-se para tudo o que o Almirante mandasse.

Na manhã de 22 de fevereiro, uma delegação da ilha, vinda com um escrivão, quis ver os poderes dos Reis de Castela. Colombo mostrou a carta geral de recomendação; os portugueses foram-se a terra contentes e devolveram todos os homens, com a barca. O episódio inteiro se abriu e fechou sobre documentos: valeu o que valia o papel para quem o tinha na mão. Pintura.
FIG. 06Na manhã de 22 de fevereiro, uma delegação da ilha, vinda com um escrivão, quis ver os poderes dos Reis de Castela. Colombo mostrou a carta geral de recomendação; os portugueses foram-se a terra contentes e devolveram todos os homens, com a barca. O episódio inteiro se abriu e fechou sobre documentos: valeu o que valia o papel para quem o tinha na mão. Pintura.

Seguiu-se o gesto que fecha o arco desta história. D. João II, que estava no vale do Paraíso, mandou escrever a Colombo convidando-o; ordenou aos seus oficiais que dessem de graça à caravela tudo o que precisasse; recebeu-o a 9 de março «com muita honra», mandou-o sentar, falou-lhe «muito bem». Levantou, de passagem e com cortesia, a questão de aquela conquista lhe pertencer pelo tratado com Castela, e disse confiar que se resolveria entre reis, sem terceiros. A 11 de março despediu-o com honras, ofereceu-lhe passagem por terra se a quisesse, e mandou dar-lhe uma mula, e outra ao piloto. No caminho de volta, Colombo ainda parou num mosteiro para cumprimentar a Rainha, a pedido dela.

O rei em cujo nome, dizia-se, uma vila inteira saltara de emboscada sobre homens em camisa, teve o Almirante das Índias três dias em sua casa, e deixou-o ir com duas mulas e uma disputa diplomática por abrir.

O que resta nos Anjos

O lugar da oração interrompida chama-se Anjos, uma baía larga na costa norte da ilha, e é apontado como o povoado mais antigo de Santa Maria, que terá sido, por sua vez, a primeira ilha dos Açores a ser avistada, por volta de 1427; a atribuição tradicional é ao navegador Diogo de Silves, e o «terá sido» é obrigatório, porque o próprio avistamento é matéria discutida. Hoje a ilha inteira tem 97,4 quilómetros quadrados e pouco mais de cinco mil habitantes.

A ermida de Nossa Senhora dos Anjos, essa, tem biografia própria. Erguida ainda em 1439, primitivamente em madeira com cobertura de palha, foi refeita em alvenaria de pedra entre 1460 e 1474; é essa ermida de pedra que a tradição diz ter recebido, a 19 de fevereiro de 1493, a missa do voto dos marinheiros de Colombo. O edifício que hoje lá está já não é esse: foi reconstruído, com nova traça, entre 1673 e 1676, depois do século dos corsários.

Porque a história de Santa Maria continuou a ser feita de velas indesejadas no horizonte. Em julho de 1616, uma força argelina saqueou e incendiou os lugares costeiros durante cerca de uma semana e levou mais de duzentas pessoas para vender em Argel; é a mesma vaga corsária que um ano depois haveria de esvaziar o Porto Santo, e já contámos essa história. Em 1675, corsários desembarcaram de noite nos Anjos e levaram onze pessoas, mulheres e crianças, das casinhas vizinhas da ermida. Dentro da ermida guarda-se um açoite desses atacantes, com uma inscrição que o explica «para memória do sucesso»; a mesma inscrição garante que os mouros na ermida «não tocaram, passando de todo por junto dela», e a tradição atribui o facto a milagre. Uma história local diz o contrário, que a ermida foi saqueada; registamos a divergência e deixamos a inscrição falar por si.

A 9 de março de 1493, D. João II recebeu Colombo no vale do Paraíso «com muita honra»: mandou-o sentar, falou-lhe «muito bem», ordenou que dessem de graça à caravela tudo o que precisasse. A 11 despediu-o com honras e mandou dar-lhe uma mula, e outra ao piloto. Pintura. evocação de época, sem retrato do rei.
FIG. 07A 9 de março de 1493, D. João II recebeu Colombo no vale do Paraíso «com muita honra»: mandou-o sentar, falou-lhe «muito bem», ordenou que dessem de graça à caravela tudo o que precisasse. A 11 despediu-o com honras e mandou dar-lhe uma mula, e outra ao piloto. Pintura. evocação de época, sem retrato do rei.

Do episódio de 1493 ficaram os sinais que uma vila pequena consegue erguer: um monumento aos 500 anos da passagem de Colombo, posto em 1993, e uma estátua do Almirante junto à ermida. E ficou uma relíquia possível, com a honestidade de um «presumivelmente» pendurado: em 1960 foram resgatadas âncoras na baía do Cura, na costa de Santa Maria, que se conservam no Museu de Marinha, em Lisboa, atribuídas presumivelmente à Niña. O diário regista, preto no branco, as âncoras que a caravela ali perdeu em fevereiro de 1493. Se são as mesmas, nenhum documento o pode dizer.

A mesma notícia

Volte-se uma última vez à escada das datas: Santa Maria a 18 de fevereiro, Baiona a 1 de março, Lisboa a 4, Palos a 15. A notícia foi a mesma em todos os pontos da escada; não mudou uma palavra. Mudou o tamanho de quem a ouvia. Numa vila com memória de um capitão levado cativo, coube numa emboscada de Entrudo e resolveu-se com um escrivão a ler cartas. Numa corte com o tratado de Castela na gaveta, mereceu trombetas, honras de corte e o princípio de uma longa disputa entre as duas coroas.

O Novo Mundo chegou à Europa duas vezes em três semanas: a segunda vez com trombetas, a primeira ao tamanho de uma vila.

Fontes

Fontes narrativas do episódio (as três lidas na íntegra, nas passagens de fevereiro e março de 1493)

A ermida de Nossa Senhora dos Anjos, na ilha de Santa Maria, onde a tradição situa a missa do voto de 19 de fevereiro de 1493. Já existia nessa data, reerguida em pedra entre 1460 e 1474; o edifício atual resulta da reconstrução de 1673-1676, depois do século dos corsários. Pintura a partir de fotografia real (domínio público, Carlos Luis M C da Cruz, Wikimedia Commons); a arquitetura foi preservada.
FIG. 08A ermida de Nossa Senhora dos Anjos, na ilha de Santa Maria, onde a tradição situa a missa do voto de 19 de fevereiro de 1493. Já existia nessa data, reerguida em pedra entre 1460 e 1474; o edifício atual resulta da reconstrução de 1673-1676, depois do século dos corsários. Pintura a partir de fotografia real (domínio público, Carlos Luis M C da Cruz, Wikimedia Commons); a arquitetura foi preservada.

- Diario de a bordo da primeira viagem de Colombo, no resumo de Bartolomé de las Casas; edição digital em castelhano. O diário original perdeu-se: tudo o que «diz o Almirante» chega-nos em resumo de terceiro, e é a versão do próprio Colombo. - Hernando Colón, Historia del Almirante, capítulos XXXVIII a XL. Escrita entre 1537 e 1539, impressa em Veneza em 1571. O filho a defender a memória do pai; acrescenta a emboscada, os romeiros descalços e a versão «dizia-se na ilha» da ordem régia. - Bartolomé de las Casas, Historia de las Indias, livro I, capítulos LXX a LXXII. Escrita no século XVI, publicada só em 1875. Nomeia o capitão «Juan de Castañeda» e acrescenta os comentários próprios, incluindo o «era tudo fingido» sobre a alegria dos ilhéus.

Contexto açoriano

- Gaspar Frutuoso, Saudades da Terra, livro III, sobre o cativeiro do capitão João Soares no tempo da guerra com Castela; citado através das transcrições publicadas nas páginas açorianas da Wikipédia em português (História da Ilha de Santa Maria; João Soares de Albergaria; Ermida de Nossa Senhora dos Anjos), com as anotações de Manuel Monteiro Velho Arruda. - Wikipédia em português, artigos «História da Ilha de Santa Maria», «Ilha de Santa Maria», «Ermida de Nossa Senhora dos Anjos (Vila do Porto)» e «João Soares de Albergaria», com a bibliografia açoriana neles citada. - Jacinto Monteiro, Atentado contra Colombo nos Açores, Angra do Heroísmo, 1994. A monografia açoriana de referência sobre o episódio; não a conseguimos consultar, e nenhum facto deste texto assenta nela; fica o registo para quem quiser ir mais fundo. - Legenda museológica das âncoras da baía do Cura, Museu de Marinha, Lisboa, conforme reproduzida no Wikimedia Commons. - Sobre a chegada da Pinta a Baiona e as datas de março: Wikipédia em inglês, artigo «Martín Alonso Pinzón», com as fontes nele citadas.

Notas de honestidade

- Não escrevemos que D. João II mandou prender Colombo. As três fontes dão três versões (uma frase gritada pelo capitão, um «dizia-se na ilha», uma inferência de Las Casas) e nenhuma cita documento. No texto, a ordem aparece sempre atribuída a quem a afirma. - Não demos um número de tripulantes detidos. Nenhuma das fontes o dá: o diário diz «metade da gente», mais os três homens que já estavam em terra. Qualquer número que circule por aí não vem destas fontes. - A ermida do voto não é nomeada no diário («uma casinha que estava junto ao mar, como ermida»). A identificação com Nossa Senhora dos Anjos é tradição e historiografia açoriana; o edifício atual é uma reconstrução de 1673-1676. - «Era tudo fingido» é um veredicto de Las Casas, não um facto. O diário, fonte mais próxima, regista alegria sem reservas. Mostrámos as duas mãos e não escolhemos. - O cativeiro do capitão João Soares em 1480 é tradição de crónica, contada por Frutuoso com um «outros dizem» e com variantes; tratámo-la como memória, não como documento. - Sobre o número de cativos de 1616, as fontes divergem entre 202 e 222; escrevemos «mais de duzentas pessoas», verdadeiro em qualquer das leituras. - Sobre o assalto de 1675, a inscrição da própria ermida diz que os corsários lhe não tocaram; uma história local diz que a saquearam. Citámos a inscrição e registámos a divergência, sem a resolver. - As âncoras do Museu de Marinha são «atribuídas presumivelmente» à Niña, e é assim que as apresentamos; a coincidência com as âncoras perdidas em 1493 é sugestiva, não provada. - O «Bartolomé Díaz, de Lisboa» do Restelo pode ou não ser o Bartolomeu Dias do cabo da Boa Esperança; o diário não o diz, e nós também não. - A composição da delegação que libertou a tripulação diverge entre o diário (cinco marinheiros, dois clérigos e um escrivão) e Hernando (cinco marinheiros e um notário); demos as duas.