A notícia de que havia terra do outro lado do Atlântico chegou primeiro a uma pequena ilha portuguesa. Os ilhéus deram graças a Deus e mandaram galinhas e pão fresco à caravela. Na manhã seguinte, prenderam metade da tripulação, em camisa, a meio de uma oração.
Foi na ilha de Santa Maria, nos Açores, a 18 de fevereiro de 1493. Durante onze dias, a única terra da Europa onde se sabia do Novo Mundo foi uma ilha pequena do extremo sudeste dos Açores. Baiona, na Galiza, só ouviu a notícia a que a história viria a chamar a descoberta da América a 1 de março, quando lá entrou a Pinta; Lisboa a 4, quando uma tormenta lá meteu Colombo; Palos, o porto andaluz de onde a expedição saíra, a 15. O que a ilha fez com a notícia é esta história.

Na noite de 13 para 14 de fevereiro, a tormenta separou as duas caravelas do regresso: a Pinta, de Martín Alonso Pinzón, desapareceu na escuridão. A bordo da Niña, conta o diário de bordo, fizeram-se votos. Meteram num barrete tantos grãos-de-bico quantos os homens, um deles marcado a canivete com uma cruz: a quem o tirasse caberia a romaria a Guadalupe. O primeiro a meter a mão foi Colombo, e saiu-lhe o grão da cruz. Sortearam segunda romaria, a Loreto: calhou a um marinheiro chamado Pedro de Villa. Sortearam uma vigília com missa em Santa Clara de Moguer: saiu outra vez a Colombo. E juraram ainda todos um voto comum: na primeira terra com casa de Nossa Senhora, sairiam em camisa, em procissão, a rezar.

A primeira terra foi Santa Maria. Quando a barca falou com a gente da ilha, a 18, ninguém queria acreditar que a caravela tivesse sobrevivido: nunca ali se vira tormenta como a daqueles quinze dias. E, diz o diário, ao saberem o que ela trazia, os ilhéus deram graças a Deus e fizeram grandes alegrias pela notícia.

À noite chegaram três homens da vila com galinhas, pão fresco e recados do capitão da ilha, João da Castanheira. Mandava dizer que conhecia Colombo muito bem. E não era impossível: antes desta viagem, Colombo vivera no arquipélago da Madeira, casado com uma portuguesa, e já aqui contámos essa história. O capitão viria ao amanhecer com mais refresco, e traria os três homens da caravela que estavam em terra desde o primeiro contacto: não os devolvia ainda, mandava dizer, pelo grande prazer que tinha em ouvi-los contar as coisas da viagem. Colombo mandou dar camas aos três mensageiros.

Na manhã seguinte, terça-feira de Entrudo, metade da tripulação foi a terra cumprir o voto, em camisa, a uma pequena ermida junto ao mar. O diário não diz o nome dela; a tradição açoriana aponta a ermida de Nossa Senhora dos Anjos, que já lá estava, reerguida em pedra poucas décadas antes, e que, reconstruída no século XVII, ainda hoje lá está. Estavam em oração quando o povo da ilha saltou sobre eles, a cavalo e a pé, com o capitão, e prendeu-os a todos. O filho de Colombo conta que a gente da vila estava escondida em emboscada, e que lhes tomou também a barca: sem barca, o Almirante não podia fugir.

Ao meio-dia, sem sinal dos seus, Colombo levantou âncora e pôs a caravela defronte da ermida. Viu homens armados apearem-se, entrarem na barca, virem na sua direção. Seguiu-se um braço de ferro aos gritos, por cima da água. Colombo, que se apresentou como Almirante do Mar Oceano e Vice-Rei das Índias, mostrou de longe as cartas dos Reis de Castela, assinadas e seladas. A resposta do outro lado foi que ali não conheciam Rei nem Rainha de Castela, nem as suas cartas, e que lhe haviam de dar a saber o que era Portugal. Colombo jurou então não sair da caravela até levar cem portugueses presos para Castela e despovoar a ilha inteira. As ameaças ficaram nisso, em palavras, dos dois lados.

Vale a pena perguntar o que via Castanheira daquela praia. Não era o capitão da ilha: era o lugar-tenente, a decidir sozinho, com o capitão João Soares ausente no Continente. E a ilha tinha memória. Conta a crónica açoriana que treze anos antes, no tempo da guerra entre Portugal e Castela, um navio castelhano atacara Santa Maria e levara cativo o próprio capitão, que se teve de resgatar em Castela. Para quem estava na praia, uma caravela castelhana saída de uma tormenta não era a maior notícia do século. Era o regresso de um problema conhecido.

E quem mandou prender? O capitão gritou, de longe, que tudo o que fazia lho mandara «o Rei seu senhor». Na ilha, conta o filho de Colombo, dizia-se que D. João II avisara todos os vassalos para prenderem o Almirante por qualquer meio. Las Casas, mais tarde, concluiu que a ordem tinha de existir, porque ninguém se atreveria àquilo sem ela. São três versões, cada uma de seu autor; nenhum dos três cita documento algum. A ordem de D. João II é, até hoje, uma frase gritada por cima da água.
O desfecho coube a um escrivão. Entretanto a Niña, à qual o mau ancoradouro cortara as amarras, tivera ainda de correr uma noite a São Miguel e voltar. Na noite de 21, um homem acenou-lhe das rochas, a pedir que não partissem. Veio uma barca com marinheiros e um escrivão; pediram seguro, dormiram a bordo e, pela manhã de 22, quiseram ver os poderes dos Reis de Castela. Colombo mostrou a carta geral de recomendação. Os portugueses foram-se a terra contentes, e devolveram todos os homens, com a barca. A 24 de fevereiro, a Niña largou para Castela.
Falta o fim do arco. Nova tormenta empurrou-a para Lisboa, onde entrou a 4 de março, e onde uma nau de guerra portuguesa, vistas as mesmas cartas, acabou por lhe fazer grande festa, com trombetas e atabales. E D. João II, o rei em cujo nome Castanheira dissera estar a prender, mandou chamar Colombo ao vale do Paraíso e recebeu-o a 9 de março «com muita honra»: mandou-o sentar, falou-lhe «muito bem», ordenou que dessem de graça à caravela tudo o que precisasse. Levantou de passagem a questão de aquela conquista lhe pertencer pelo tratado com Castela, e disse confiar que se resolveria sem terceiros. A 11 de março despediu-o com honras e ofereceu-lhe passagem por terra. Mandou dar-lhe uma mula, e outra ao piloto.
A notícia era exatamente a mesma nos dois lugares. Em Santa Maria leu-a uma vila que tinha na memória um capitão levado cativo; no vale do Paraíso leu-a um rei com as cartas de Castela na mão. O Novo Mundo chegou à Europa duas vezes em três semanas: a segunda vez com trombetas, a primeira ao tamanho de uma vila.
Fontes8 referências
Fontes narrativas do episódio
- Diario de a bordo da primeira viagem de Colombo, no resumo de Bartolomé de las Casas; edição digital em castelhano. O diário original perdeu-se: tudo o que «diz o Almirante» chega-nos em resumo de terceiro, e é a versão do próprio Colombo.
- Hernando Colón, Historia del Almirante, capítulos XXXVIII a XL. Escrita entre 1537 e 1539, impressa em Veneza em 1571. O filho a defender a memória do pai; acrescenta a emboscada, os romeiros descalços e a versão «dizia-se na ilha» da ordem régia.
- Bartolomé de las Casas, Historia de las Indias, livro I, capítulos LXX a LXXII. Escrita no século XVI, publicada só em 1875. Nomeia o capitão «Juan de Castañeda» e acrescenta os comentários próprios, incluindo o «era tudo fingido» sobre a alegria dos ilhéus.
Contexto açoriano
- Gaspar Frutuoso, Saudades da Terra, livro III, sobre o cativeiro do capitão João Soares no tempo da guerra com Castela; citado através das transcrições publicadas nas páginas açorianas da Wikipédia em português (História da Ilha de Santa Maria; João Soares de Albergaria; Ermida de Nossa Senhora dos Anjos), com as anotações de Manuel Monteiro Velho Arruda.
- Wikipédia em português, artigos «História da Ilha de Santa Maria», «Ilha de Santa Maria», «Ermida de Nossa Senhora dos Anjos (Vila do Porto)» e «João Soares de Albergaria», com a bibliografia açoriana neles citada.
- Jacinto Monteiro, Atentado contra Colombo nos Açores, Angra do Heroísmo, 1994. A monografia açoriana de referência sobre o episódio.
- Legenda museológica das âncoras da baía do Cura, Museu de Marinha, Lisboa, conforme reproduzida no Wikimedia Commons.
- Sobre a chegada da Pinta a Baiona e as datas de março: Wikipédia em inglês, artigo «Martín Alonso Pinzón», com as fontes nele citadas.
