Descobrimentos · episódio 9

À boca do rio Gâmbia, no princípio de julho de 1455, a estrela do Norte apareceu uma única vez, muito baixa, quase a tocar o mar.

Primeira página do relato de Cadamosto na edição de Vicenza, 1507: «Essendo io Alouise da Ca da Mosto», ao serviço do «Infante Don Hurich» (Paesi novamente retrovati, Internet Archive, domínio público).
FIG. 02Primeira página do relato de Cadamosto na edição de Vicenza, 1507: «Essendo io Alouise da Ca da Mosto», ao serviço do «Infante Don Hurich» (Paesi novamente retrovati, Internet Archive, domínio público).

Do lado oposto, direitas ao sul pela agulha, havia seis estrelas grandes e claras. O homem que as desenhou, um mercador de Veneza que ia numa caravela do Infante D. Henrique, chamou-lhes o Carro do Sul. Há mais de dois séculos que alguns leem nelas o Cruzeiro do Sul.

Pintura do cabo de São Vicente com galés de Veneza fundeadas à espera de vento, como no verão de 1454, a partir de uma fotografia real de Rui Glória (CC BY-SA 4.0).
FIG. 03Pintura do cabo de São Vicente com galés de Veneza fundeadas à espera de vento, como no verão de 1454, a partir de uma fotografia real de Rui Glória (CC BY-SA 4.0).

Chamava-se Alvise Cadamosto. Quarenta e cinco anos depois, do outro lado do Atlântico, um físico do rei de Portugal, com uma chaga na perna e um navio sem lugar para nada, escreveu a D. Manuel sobre as estrelas do polo sul e pôs no papel a palavra Cruz. É o registo escrito mais antigo da Cruz de que há notícia, e está na Torre do Tombo.

O capítulo das seis estrelas na primeira edição impressa do relato, Vicenza, 1507: o texto anuncia a figura e, no lugar dela, deixa um espaço em branco (Paesi novamente retrovati, Internet Archive, domínio público).
FIG. 04O capítulo das seis estrelas na primeira edição impressa do relato, Vicenza, 1507: o texto anuncia a figura e, no lugar dela, deixa um espaço em branco (Paesi novamente retrovati, Internet Archive, domínio público).

No verão de 1454, Cadamosto embarcou nas galés de Veneza que iam para a Flandres. Os ventos contrários prenderam-nas muito tempo no cabo de São Vicente, perto de onde o Infante estava. D. Henrique mandou-lhes a bordo o seu secretário e um homem do seu serviço que se dizia veneziano, com amostras de açúcar da Madeira e de sangue-de-drago. Contavam eles que aquele senhor mandara navegar mares onde nunca outros tinham navegado, e descobrir terras de gentes estranhas, e que quem lá fora tinha feito grandes ganhos.

As seis estrelas na tradução latina impressa em Milão, 1508: quatro em fila e duas por baixo, a figura de um carro (Itinerarium Portugallensium, Internet Archive, domínio público).
FIG. 05As seis estrelas na tradução latina impressa em Milão, 1508: quatro em fila e duas por baixo, a figura de um carro (Itinerarium Portugallensium, Internet Archive, domínio público).

Cadamosto foi falar com o Infante, que lhe confirmou tudo, «e ainda muito mais», e lhe prometeu honra e proveito. Mais tarde, o veneziano explicou por que razão ficou: via-se moço, capaz de qualquer fadiga, desejoso de ver o mundo e coisas que ninguém da sua nação ainda tivesse visto. As galés seguiram para a Flandres sem ele.

A página de Ramusio, edição de 1588: na margem, as seis estrelas em cruz, desenhadas junto ao passo em que Cadamosto as julga «il carro dell'ostro» (Navigationi et Viaggi, vol. I, Veneza, 1588, Internet Archive, domínio público).
FIG. 06A página de Ramusio, edição de 1588: na margem, as seis estrelas em cruz, desenhadas junto ao passo em que Cadamosto as julga «il carro dell'ostro» (Navigationi et Viaggi, vol. I, Veneza, 1588, Internet Archive, domínio público).

O Infante mandou armar-lhe uma caravela nova. O patrão era Vicente Dias, de Lagos, o mesmo com quem fechámos a história das caravelas de Lagos. Partiram do cabo de São Vicente a 22 de março de 1455.

O mesmo passo na tradução da Academia Real das Ciências, Lisboa, 1812, com as estrelas impressas a meio da frase, «figuradas por este modo» (Collecção de Noticias para a Historia e Geografia das Nações Ultramarinas, t. II, Internet Archive, domínio público).
FIG. 07O mesmo passo na tradução da Academia Real das Ciências, Lisboa, 1812, com as estrelas impressas a meio da frase, «figuradas por este modo» (Collecção de Noticias para a Historia e Geografia das Nações Ultramarinas, t. II, Internet Archive, domínio público).

Para sul, a costa já não era segredo. Os portugueses tratavam havia anos com os senhores daquela terra, e por toda a parte Cadamosto achou quem o informasse. Na terra de Budomel, deu sete cavalos a troco de escravos.

Pintura de um físico do rei na armada de Cabral, a escrever a D. Manuel num navio pequeno e carregado, em 1500 (figura genérica, não retrato).
FIG. 08Pintura de um físico do rei na armada de Cabral, a escrever a D. Manuel num navio pequeno e carregado, em 1500 (figura genérica, não retrato).

Mais abaixo juntou-se a duas caravelas que encontrou pelo caminho, e seguiram as três, sem perder a costa de vista, até à boca do Gâmbia. Lá, a gente da terra não os quis receber.

Reprodução do desenho das estrelas do polo sul na carta de Mestre João a D. Manuel, «feita em Vera Cruz» a 1 de maio de 1500 (original na Torre do Tombo; Wikimedia Commons, domínio público).
FIG. 09Reprodução do desenho das estrelas do polo sul na carta de Mestre João a D. Manuel, «feita em Vera Cruz» a 1 de maio de 1500 (original na Torre do Tombo; Wikimedia Commons, domínio público).

Foi ali, nesses dias, que o céu se virou. A estrela do Norte só a viram uma vez, rente ao mar, e era preciso o tempo muito limpo para a ver. Do outro lado, baixas sobre a água, seis estrelas «claras, luzentes e grandes». Cadamosto tomou-lhes o rumo pela agulha: estavam direitas ao sul. Desenhou-as no relato, «figuradas por este modo», e escreveu: «julgamos ser o Carro do Sul». A estrela principal desse carro não se via, acrescenta, nem seria possível vê-la sem perder de todo a do Norte.

Carro era o nome antigo da Ursa. Julgava-se então que o céu do outro hemisfério teria mais ou menos as mesmas estrelas que o nosso, e Cadamosto procurou no céu de casa um nome para o que via. Uma caravela do Infante tinha-o levado até onde a estrela do Norte quase se perdia no mar.

Os marinheiros, «desejosos de voltar às suas casas», puseram-se todos a gritar que bastava o que tinham feito. No dia seguinte, voltaram para trás.

O desenho é que não ficou quieto. Do relato não ficou o original; ficaram cópias. No manuscrito mais antigo, guardado na Biblioteca Marciana, em Veneza, as seis estrelas formam uma cruz latina, segundo a historiadora Alessandra Mauro, que seguiu esse desenho de versão em versão. Na primeira edição impressa, em Vicenza, em 1507, o texto anuncia a figura e, a seguir, deixa um espaço em branco. Outras edições encheram esse branco, e não da mesma maneira. A tradução latina, em Milão, pôs lá quatro estrelas em fila e duas por baixo: um carro, como o texto dizia. Em Veneza, Giovanni Battista Ramusio voltou a pô-las em cruz.

Em Lisboa, em 1812, os tradutores da Academia Real das Ciências imprimiram as estrelas no meio da frase e escreveram em nota que a Ursa do Sul não existe e que aquelas eram «provavelmente o Cruzeiro», com mais duas ao lado. Ian Ridpath, que escreveu sobre a história das constelações, lê-as assim: as quatro principais do Cruzeiro, mais duas do Centauro. O historiador Damião Peres concluiu que nenhum dos desenhos conhecidos bate certo com o céu. Quais eram, ao certo, ninguém o pode jurar: o desenho de Cadamosto não chegou até nós.

A carta do físico é de 1 de maio de 1500. Mestre João, bacharel em Artes e Medicina, físico e cirurgião de D. Manuel, ia na armada de Cabral. Tinha uma perna com uma chaga maior que a palma da mão, e o navio era tão pequeno e tão carregado que não havia lugar para coisa nenhuma. Mesmo assim, mandou ao rei um desenho das estrelas do polo sul. A carta é «feita em Vera Cruz», e diz, a meio: «estas estrelas, principalmente as da Cruz, são grandes, quase como as do Carro». Fala da Cruz como de coisa já conhecida: o nome talvez não seja dele.

Cadamosto foi ao sul à espera de um céu parecido com o de casa e chamou Carro às seis estrelas que encontrou. Mestre João, na Vera Cruz, escreveu Cruz, e, para dizer a D. Manuel o tamanho delas, foi buscar o Carro.

Fontes11 referências
  • Alvise Cadamosto, «Navegações de Luiz de Cadamosto», em Collecção de Noticias para a Historia e Geografia das Nações Ultramarinas, t. II, n.º I, Academia Real das Sciencias, Lisboa, 1812. archive.org
  • Paesi novamente retrovati et Novo Mondo da Alberico Vesputio Florentino intitulato, Vicenza, 1507. archive.org
  • Itinerarium Portugallensium e Lusitania in Indiam et inde in occidentem et demum ad aquilonem, Milão, 1508. archive.org
  • Novus orbis regionum ac insularum veteribus incognitarum, Basileia, 1532. archive.org
  • Giovanni Battista Ramusio, Primo volume, & quarta editione delle Navigationi et Viaggi, Veneza, 1588. archive.org
  • Alessandra Mauro, «O "Carro do Austro" de Alvise da Ca' da Mosto: observações astronómicas e fortuna editorial», Revista da Universidade de Coimbra, vol. XXXIV, 1988. arquivo.pt
  • «Da Mosto, Alvise», Dizionario Biografico degli Italiani, Treccani. treccani.it
  • Gil Alves Silva, «A difusão do Cruzeiro do Sul na cartografia quinhentista», História da Astronomia no Brasil, vol. I, MAST. site.mast.br
  • Ian Ridpath, Star Tales, «Crux». ianridpath.com
  • Carta de Mestre João a D. Manuel I, 1 de maio de 1500, Arquivo Nacional Torre do Tombo, Corpo Cronológico, Parte III, maço 2, n.º 2 (transcrição). antt.dglab.gov.pt
  • Museu de Marinha, «Efeméride: a carta de Mestre João». cultura.marinha.pt