Descobrimentos · episódio 9
À boca do rio Gâmbia, no princípio de julho de 1455, a estrela do Norte apareceu uma única vez, muito baixa, quase a tocar o mar.

Do lado oposto, direitas ao sul pela agulha, havia seis estrelas grandes e claras. O homem que as desenhou, um mercador de Veneza que ia numa caravela do Infante D. Henrique, chamou-lhes o Carro do Sul. Há mais de dois séculos que alguns leem nelas o Cruzeiro do Sul.

Chamava-se Alvise Cadamosto. Quarenta e cinco anos depois, do outro lado do Atlântico, um físico do rei de Portugal, com uma chaga na perna e um navio sem lugar para nada, escreveu a D. Manuel sobre as estrelas do polo sul e pôs no papel a palavra Cruz. É o registo escrito mais antigo da Cruz de que há notícia, e está na Torre do Tombo.

No verão de 1454, Cadamosto embarcou nas galés de Veneza que iam para a Flandres. Os ventos contrários prenderam-nas muito tempo no cabo de São Vicente, perto de onde o Infante estava. D. Henrique mandou-lhes a bordo o seu secretário e um homem do seu serviço que se dizia veneziano, com amostras de açúcar da Madeira e de sangue-de-drago. Contavam eles que aquele senhor mandara navegar mares onde nunca outros tinham navegado, e descobrir terras de gentes estranhas, e que quem lá fora tinha feito grandes ganhos.

Cadamosto foi falar com o Infante, que lhe confirmou tudo, «e ainda muito mais», e lhe prometeu honra e proveito. Mais tarde, o veneziano explicou por que razão ficou: via-se moço, capaz de qualquer fadiga, desejoso de ver o mundo e coisas que ninguém da sua nação ainda tivesse visto. As galés seguiram para a Flandres sem ele.

O Infante mandou armar-lhe uma caravela nova. O patrão era Vicente Dias, de Lagos, o mesmo com quem fechámos a história das caravelas de Lagos. Partiram do cabo de São Vicente a 22 de março de 1455.

Para sul, a costa já não era segredo. Os portugueses tratavam havia anos com os senhores daquela terra, e por toda a parte Cadamosto achou quem o informasse. Na terra de Budomel, deu sete cavalos a troco de escravos.

Mais abaixo juntou-se a duas caravelas que encontrou pelo caminho, e seguiram as três, sem perder a costa de vista, até à boca do Gâmbia. Lá, a gente da terra não os quis receber.

Foi ali, nesses dias, que o céu se virou. A estrela do Norte só a viram uma vez, rente ao mar, e era preciso o tempo muito limpo para a ver. Do outro lado, baixas sobre a água, seis estrelas «claras, luzentes e grandes». Cadamosto tomou-lhes o rumo pela agulha: estavam direitas ao sul. Desenhou-as no relato, «figuradas por este modo», e escreveu: «julgamos ser o Carro do Sul». A estrela principal desse carro não se via, acrescenta, nem seria possível vê-la sem perder de todo a do Norte.
Carro era o nome antigo da Ursa. Julgava-se então que o céu do outro hemisfério teria mais ou menos as mesmas estrelas que o nosso, e Cadamosto procurou no céu de casa um nome para o que via. Uma caravela do Infante tinha-o levado até onde a estrela do Norte quase se perdia no mar.
Os marinheiros, «desejosos de voltar às suas casas», puseram-se todos a gritar que bastava o que tinham feito. No dia seguinte, voltaram para trás.
O desenho é que não ficou quieto. Do relato não ficou o original; ficaram cópias. No manuscrito mais antigo, guardado na Biblioteca Marciana, em Veneza, as seis estrelas formam uma cruz latina, segundo a historiadora Alessandra Mauro, que seguiu esse desenho de versão em versão. Na primeira edição impressa, em Vicenza, em 1507, o texto anuncia a figura e, a seguir, deixa um espaço em branco. Outras edições encheram esse branco, e não da mesma maneira. A tradução latina, em Milão, pôs lá quatro estrelas em fila e duas por baixo: um carro, como o texto dizia. Em Veneza, Giovanni Battista Ramusio voltou a pô-las em cruz.
Em Lisboa, em 1812, os tradutores da Academia Real das Ciências imprimiram as estrelas no meio da frase e escreveram em nota que a Ursa do Sul não existe e que aquelas eram «provavelmente o Cruzeiro», com mais duas ao lado. Ian Ridpath, que escreveu sobre a história das constelações, lê-as assim: as quatro principais do Cruzeiro, mais duas do Centauro. O historiador Damião Peres concluiu que nenhum dos desenhos conhecidos bate certo com o céu. Quais eram, ao certo, ninguém o pode jurar: o desenho de Cadamosto não chegou até nós.
A carta do físico é de 1 de maio de 1500. Mestre João, bacharel em Artes e Medicina, físico e cirurgião de D. Manuel, ia na armada de Cabral. Tinha uma perna com uma chaga maior que a palma da mão, e o navio era tão pequeno e tão carregado que não havia lugar para coisa nenhuma. Mesmo assim, mandou ao rei um desenho das estrelas do polo sul. A carta é «feita em Vera Cruz», e diz, a meio: «estas estrelas, principalmente as da Cruz, são grandes, quase como as do Carro». Fala da Cruz como de coisa já conhecida: o nome talvez não seja dele.
Cadamosto foi ao sul à espera de um céu parecido com o de casa e chamou Carro às seis estrelas que encontrou. Mestre João, na Vera Cruz, escreveu Cruz, e, para dizer a D. Manuel o tamanho delas, foi buscar o Carro.
Fontes11 referências
- Alvise Cadamosto, «Navegações de Luiz de Cadamosto», em Collecção de Noticias para a Historia e Geografia das Nações Ultramarinas, t. II, n.º I, Academia Real das Sciencias, Lisboa, 1812. archive.org
- Paesi novamente retrovati et Novo Mondo da Alberico Vesputio Florentino intitulato, Vicenza, 1507. archive.org
- Itinerarium Portugallensium e Lusitania in Indiam et inde in occidentem et demum ad aquilonem, Milão, 1508. archive.org
- Novus orbis regionum ac insularum veteribus incognitarum, Basileia, 1532. archive.org
- Giovanni Battista Ramusio, Primo volume, & quarta editione delle Navigationi et Viaggi, Veneza, 1588. archive.org
- Alessandra Mauro, «O "Carro do Austro" de Alvise da Ca' da Mosto: observações astronómicas e fortuna editorial», Revista da Universidade de Coimbra, vol. XXXIV, 1988. arquivo.pt
- «Da Mosto, Alvise», Dizionario Biografico degli Italiani, Treccani. treccani.it
- Gil Alves Silva, «A difusão do Cruzeiro do Sul na cartografia quinhentista», História da Astronomia no Brasil, vol. I, MAST. site.mast.br
- Ian Ridpath, Star Tales, «Crux». ianridpath.com
- Carta de Mestre João a D. Manuel I, 1 de maio de 1500, Arquivo Nacional Torre do Tombo, Corpo Cronológico, Parte III, maço 2, n.º 2 (transcrição). antt.dglab.gov.pt
- Museu de Marinha, «Efeméride: a carta de Mestre João». cultura.marinha.pt
