Nas Capelas Imperfeitas, no Mosteiro da Batalha, está gravada em pedra uma palavra em latim: perfectum. Acabado.
É o edifício que o país conhece por não estar acabado. Não tem teto: quem lá entra levanta os olhos e vê o céu.
E o mestre que fez o portal está debaixo do chão, à entrada da igreja.

A frase inteira é perfectum fuit anno domini, e a data, 1509. Está no alto da edícula sul do átrio, em letra gótica, e não fala do edifício: diz que aquela edícula ficou pronta naquele ano. Publicaram-na em 2015 Orlindo Jorge e Pedro Redol, técnico do próprio mosteiro.
No século XIX o Cardeal Saraiva ainda leu a mesma inscrição repetida na edícula do lado oposto, em letras romanas. Nos restauros de Oitocentos instalaram ali uma porta de madeira, e a pedra ficou por trás dela.

Aquele edifício está coberto de escrita em pedra. Uma parte lê-se. A maior parte, não.
O panteão é de D. Duarte. As obras, diz o diretor do monumento, ter-se-ão iniciado ainda no primeiro ano do reinado, e em 1437 comprou-se o chão em frente à capela-mor para fazer «huã capella». Em 1438 morreram os dois homens de quem aquilo dependia, o rei e o mestre Huguet, e as paredes tinham subido até ao arranque das abóbadas dos absidíolos. É uma sala que o dono nunca chegou a ver levantada.

Daí em diante atravessou reinados. Continuou-a, tanto quanto é possível presumir, o infante D. Pedro, depois D. Afonso V, depois D. Manuel. E entre 1477 e 1490 quem dirigiu o estaleiro da Batalha foram mestres vidreiros: fazia-se vitral, não se fazia pedra.
Em 1480, uma ordem régia tirou o cargo de mestre das obras a um homem chamado Mateus Fernandes e entregou-o a João Rodrigues. As fontes divergem sobre qual dos reis a assinou, e as causas do afastamento não são claras. É esse o primeiro papel em que o nome dele aparece: o papel que lho tira.

Durante dez anos desaparece dos documentos. Os investigadores do próprio mosteiro escreveram, em 2015, que desconhecem por completo onde é que ele se formou; dois anos depois, a ficha oficial do monumento dá esses anos como passados, certamente, no estaleiro da Capela do Condestável, em Burgos. Volta em 1490, e é para lhe darem um moio de trigo por ano, sessenta alqueires, por carta passada em Santarém a 8 de julho de 1491 e confirmada em Évora a 17 de julho de 1497. Ficou ali até morrer.
Segundo Jorge e Redol, deitou abaixo o portal que existia para fazer aquele que hoje se vê, datado de 1509, e levou todas as paredes até ao nível das abóbadas. Cobriu capelas com chaves pendentes que os mesmos autores dizem serem únicas em Portugal. E para fechar o octógono desenhou uma torre lanterna, de janelões amplos entre contrafortes, com um caminho de ronda a atravessá-los. Esse teto nunca se fez. Mas continua desenhado na pedra que lá está: os arranques das nervuras, cortados a meio, dizem que abóbada é que havia de ser.

Entretanto ia ver obra alheia. Em 1508 foi a Almeida ver obra no castelo; em 1510 a Coimbra, com o mestre Boitaca. Em 1503 comprara um chão junto à ponte do Juncal por mil réis, e é por essa escritura que se sabe o nome da mulher: Isabel Guilherme, filha, ao que parece, do mestre que dirigira aquelas obras antes dele. Uma filha casou com Boitaca. Um filho sucedeu-lhe no cargo. Outro foi trabalhar para a Sé da Guarda e para Belém.
O portal está coberto de escrita. A empresa de D. Duarte, hera entrelaçada em nó duplo, desce pela pedra abaixo, na descrição de quem a estudou, «centenares de vezes», deixando ver entre os caules um lema. No topo lê-se leaute feray, ou leau te staray. Daí para baixo, tan ya saray.

Ninguém sabe ao certo o que aquilo diz, e não é por falta de quem tentasse. Frei Luís de Sousa e o Cardeal Saraiva acharam que estava em grego. Carolina Michaëlis de Vasconcelos deitou abaixo a tese grega, identificou uma legenda em português, e atribuiu a divisa a D. Manuel. Foi Brito Rebelo, em 1905, quem mostrou que era de D. Duarte, e apontou para o francês: tant que serai, que leu como serei leal enquanto existir. Em 2014 uma leitura epigráfica pedida a Laurent Hablot devolveu ainda outras formas possíveis para as mesmas letras.
E há um dado que altera a natureza do problema. O «Livro da Virtuosa Benfeitoria», próximo da vida do próprio D. Duarte, traz o lema escrito de outra maneira: tanc que seray. Miguel Metelo de Seixas deduz daí que as ornamentações do portal, já manuelinas, terão esbarrado na leitura do mote original e produzido uma variante que não parece deliberada, mas fruto de incompreensão da mensagem. Setenta anos depois de o rei morrer, é possível que os homens que lavraram aquela frase centenas de vezes não soubessem o que estavam a lavrar.
Mateus Fernandes morreu a 10 de abril de 1515. D. Manuel acabou por desistir de se fazer sepultar ali, mas deixou em testamento que a obra se concluísse, e D. João III cumpriu-o em parte: em 1528 chamou João de Castilho, que fez a abóbada do vestíbulo e mais nada, e em 1533 levantou-se sobre o portal a varanda renascentista. O diretor do monumento resume o que veio depois: «após esta data os trabalhos foram abandonados».
No alto de uma caixa de escada, a carvão, alguém deixou «1548 anos». Jorge e Redol admitem que seja da autoria de um obreiro. São duas datas escritas à mão naquele edifício: a primeira diz que uma parte ficou pronta, a segunda vem quinze anos depois de a obra ter parado.
O túmulo duplo de D. Duarte e da rainha D. Leonor só foi posto na capela axial nos anos quarenta do século XX, cinco séculos depois de se abrirem os caboucos. Em 2025 a Câmara Municipal da Batalha aprovou um concurso de 1,2 milhões de euros para revestir de zinco o cimo dos torreões nunca acabados e impedir que a água continue a entrar.
Onde ele nasceu não está documentado. Onde está enterrado sabe-se ao centímetro. A campa é rasa, no pavimento da igreja, ao fundo dos degraus que descem da porta principal para dentro, e tem letras à volta, e delas consta o dia em que ele morreu. Está no chão, por onde toda a gente entra.
No portal está lavrada uma frase que ninguém decifra, e no mesmo átrio, no alto de uma parede, em letra gótica, está a única frase daquele edifício que se lê sem disputa nenhuma: começa pela palavra acabado.
Fontes14 referências
- JORGE, Orlindo, e REDOL, Pedro, «As Capelas Imperfeitas do Mosteiro da Batalha. Arqueologia e história da sua construção», Cadernos de Estudos Leirienses, n.º 5, setembro de 2015, pp. 301-316. Lido na cópia conservada pelo Arquivo.pt, o arquivo nacional da web.
- SEIXAS, Miguel Metelo de, «Elementos de uma cultura dinástica e visual: os sinais heráldicos e emblemáticos do rei D. Duarte», in D. Duarte e a sua Época: Arte, Cultura, Poder e Espiritualidade, Instituto de Estudos Medievais, FCSH/NOVA, Lisboa, 2014.
- PEREIRA, António dos Santos, «Mateus Fernandes e os motivos têxteis na arquitetura», Ubimuseum, revista online do Museu de Lanifícios da Universidade da Beira Interior, n.º 4, pp. 43-55.
- SILVA, Ricardo Jorge Nunes da, «A obra Tardo-Gótica do Mestre Mateus Fernandes nos finais do século XV e os primeiros anos do século XVI», Revista Convergências, Escola Superior de Artes Aplicadas do Instituto Politécnico de Castelo Branco, artigo 86.
- DIREÇÃO-GERAL DO PATRIMÓNIO CULTURAL, ficha do Mosteiro da Batalha, nota histórico-artística de Pedro Redol, 2017.
- MUNICÍPIO DA BATALHA, ficha «Capelas Imperfeitas ou Inacabadas».
- Agência Lusa, «Capelas Imperfeitas. Aprovado concurso para obras», 11 de fevereiro de 2025, com declarações do diretor do Mosteiro da Batalha, Joaquim Ruivo.
- VITERBO, Francisco de Sousa, Diccionario Histórico e Documental dos Architectos, Engenheiros e Construtores Portugueses, vols. I e III, Lisboa, através das transcrições de António dos Santos Pereira e do verbete do eViterbo (FCSH/NOVA), que indexa as cotas do Corpo Cronológico da Torre do Tombo.
- SARAIVA, Cardeal (Fr. Francisco de S. Luís), «Memoria historica sobre as obras do Real Mosteiro de Santa Maria da Victoria chamado vulgarmente da Batalha», Memorias da Academia Real das Sciencias, t. X, 1827, através das citações de Jorge e Redol e de Seixas.
- REBELLO, J. I. de Brito, A Divisa d'El-Rei D. Duarte nas capellas imperfeitas da Batalha, Porto, 1905, através das citações de Seixas. Exemplar digitalizado na Biblioteca Nacional Digital.
- SENOS, Nuno, «João de Castilho e Miguel de Arruda no Mosteiro da Batalha», Murphy. Revista de História e Teoria da Arquitectura e do Urbanismo, n.º 2, através das citações de Jorge e Redol, por onde é aqui lido.
- FERREIRA, G. L. Santos, A tenção de D. Duarte, separata do Boletim da Real Associação dos Archeologos Portuguezes, Lisboa, 1910, através das citações de Seixas.
- FERREIRA, António Luís, O mosteiro de Santa Maria da Vitória no século XVI: as Capelas Imperfeitas e o Renascimento em Portugal, dissertação de mestrado, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2014.
- A fotografia de referência da campa de Mateus Fernandes é de Georges Jansoone (CC BY 2.5) e a do interior visto através do portal é de Waugsberg (CC BY-SA 3.0), ambas no Wikimedia Commons.
