Não se via vivalma nas ruas de Vila Real de Santo António. Tinha sido inaugurada dois anos antes, com três dias de festa. Quem o diz é um livro de cartas impresso em Londres.

A vila tinha sido desenhada em Lisboa. A cantaria também veio de lá: lavrada na capital e mandada para o Algarve, pronta a assentar, para um areal na foz do Guadiana onde não havia nada construído. À vila faltava gente. Para a ter, o Marquês de Pombal deu ordem para a «transferência imediata da povoação de Monte Gordo», a aldeia de pescadores da praia vizinha.

No meio da praça ergue-se um obelisco coroado. No pedestal, uma inscrição a D. José I, que um impresso de Lisboa reproduziu em 1776, diz que a vila foi «levantada em sinco mezes» e que se ergueu «da inundação do oceano, em que seculos antes esteve submergida». Da antiga vila de Santo António de Arenilha, que ali houvera, já não restava uma parede.

Pintura de mãos sobre o desenho de uma planta. O plano de Vila Real de Santo António saiu da Casa do Risco das Obras Públicas, em Lisboa, e chegou ao Algarve em janeiro de 1774. Figura genérica, não retrato.
FIG. 02Pintura de mãos sobre o desenho de uma planta. O plano de Vila Real de Santo António saiu da Casa do Risco das Obras Públicas, em Lisboa, e chegou ao Algarve em janeiro de 1774. Figura genérica, não retrato.

A vila era para a sardinha. Na praia de Monte Gordo, a poente da foz, a pesca estava sobretudo nas mãos de armadores catalães e levantinos, instalados ali desde as primeiras décadas do século XVIII, e escapava ao fisco. Em 1773, uma carta régia mandou fazer a vila. Não era para ser uma cidade como as outras: era uma base de pesca e uma fábrica de salga, com câmara e igreja, as casas das sociedades de pesca, as salgas, os armazéns, uma alfândega, um destacamento militar e uma fachada de aparato virada ao rio e à outra margem, que era Espanha. O arquiteto Adelino Gonçalves escreve que foi, «pelo que se sabe, a primeira fundação urbana criada para desempenhar uma função económica específica».

O plano saiu da Casa do Risco das Obras Públicas, criada para a reconstrução de Lisboa depois do terramoto de 1755, e a planta chegou ao Algarve em janeiro de 1774, pronta a aplicar no terreno. No terreno, quem a implantou foi um engenheiro militar, José de Sande Vasconcelos. A primeira pedra foi lançada em março de 1774. Numa vista que Sande Vasconcelos tirou a 28 desse mês, já sobem, segundo o historiador Fernando Pessanha, as paredes de seis quarteirões da frente do rio, e a casa das Reais Pescarias parece acabada.

A inscrição do obelisco dedicada a D. José I, tal como a reproduziu o impresso de 1776 sobre as festas da inauguração: «levantada em sinco mezes». (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público.)
FIG. 03A inscrição do obelisco dedicada a D. José I, tal como a reproduziu o impresso de 1776 sobre as festas da inauguração: «levantada em sinco mezes». (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público.)

O desenho diz-se depressa: um retângulo voltado ao rio, ruas retas e iguais que se cortam em ângulo reto, a Rua da Rainha à beira do Guadiana, e casas térreas, todas do mesmo modelo. Em agosto de 1774, a alfândega estava inaugurada e lançava-se a primeira pedra da igreja. Em outubro, outra planta mostrava lotes onde os «homens ricos do Algarve», chamados a financiar as casas, nem tinham aberto alicerces. Alguns só construíram, escreve o historiador José Eduardo Horta Correia, «a muito custo e por que a tanto foram obrigados».

Segundo o impresso de 1776, as primeiras casas da Rua da Rainha foram levantadas por oito companhias e três particulares. Essas oito companhias formaram «em brevissimo tempo» uma frota de quarenta e oito barcas novas para lançar as redes, quarenta e oito barcos para levar o peixe à lota e quarenta e oito caíques, e essa frota ocupava «para sima de mil e quinhentos remeiros».

«Prospecto da V.ª de S. Antº d'Arenilha, tirada no dia 28 de Março», desenho a tinta-da-china de José de Sande Vasconcelos, 1774: as paredes da frente do rio a subir e a casa das Reaes Pescarias, à esquerda. (Arquivo Histórico Municipal António Rosa Mendes, Vila Real de Santo António; domínio público.)
FIG. 04«Prospecto da V.ª de S. Antº d'Arenilha, tirada no dia 28 de Março», desenho a tinta-da-china de José de Sande Vasconcelos, 1774: as paredes da frente do rio a subir e a casa das Reaes Pescarias, à esquerda. (Arquivo Histórico Municipal António Rosa Mendes, Vila Real de Santo António; domínio público.)

A pedra vinha lavrada e os barcos faziam-se. Os homens do mar não vinham no desenho.

Estavam na praia de Monte Gordo. Segundo a historiadora Sofia Costa Macedo, em 1758 moravam ali pouco mais de trezentas pessoas; na safra, entre agosto e dezembro, chegavam a contar-se na praia cerca de cinco mil homens e mil cabanas. Recusavam-se a levar o peixe até à vila nova. No outono de 1774, o Marquês de Pombal deu a ordem de transferência, com licença para os pescadores armarem na vila as suas cabanas enquanto não se acabavam as casas de pedra e cal.

A planta da vila de outubro de 1774, de José de Sande Vasconcelos, com a Praça Real ao centro e, nos lotes à volta, os nomes de quem os devia edificar. (Arquivo Histórico Municipal António Rosa Mendes, Vila Real de Santo António; domínio público.)
FIG. 05A planta da vila de outubro de 1774, de José de Sande Vasconcelos, com a Praça Real ao centro e, nos lotes à volta, os nomes de quem os devia edificar. (Arquivo Histórico Municipal António Rosa Mendes, Vila Real de Santo António; domínio público.)

Muitos não foram. Os armadores passaram o rio para a margem espanhola, para Isla Canela, La Higuerita e Ayamonte, e levaram consigo muitos marítimos portugueses.

No início de 1776, o governo mandou retirar as cabanas que se tinham juntado à volta da vila nova.

«Vista do Estalleiro», de José de Sande Vasconcelos, um dos três desenhos de 1774: tendas no areal e construtores navais a trabalhar nos esqueletos dos barcos. (Arquivo Histórico Municipal António Rosa Mendes, Vila Real de Santo António; domínio público.)
FIG. 06«Vista do Estalleiro», de José de Sande Vasconcelos, um dos três desenhos de 1774: tendas no areal e construtores navais a trabalhar nos esqueletos dos barcos. (Arquivo Histórico Municipal António Rosa Mendes, Vila Real de Santo António; domínio público.)

Macedo escreve também, citando o historiador Hugo Cavaco, que as cabanas da praia de Monte Gordo foram incendiadas e a povoação reduzida a cinzas. Não diz quem lhes pôs fogo, nem quando.

A 13 de maio de 1776, dia de anos do Marquês de Pombal e mais de dois anos depois da primeira pedra, a vila foi inaugurada. O programa, impresso em Lisboa, previa três dias de festa: fogueiras pela praia do rio «desde os Medos altos até onde findam os estaleiros», damasco nas janelas, as ruas juncadas, a Praça Real «semeada de flores», os clarins e as trompas nas escadas do obelisco. Quando o capitão-general aparecesse à janela, descobrir-se-ia «a Coroa Imperial, e Inscripção». As oito companhias ofereciam aos soldados, durante a festa, uma ração de carne ou de peixe e um quartilho de vinho, e a mesma ração, «e mais hum pão», aos presos da cadeia. Segundo o mesmo relato, acorreu «immenso Povo inferior, Portuguez, e Hespanhol». Parte dos quarteirões de casas térreas estava ainda por construir.

Evocação pintada da praia de Monte Gordo na época da safra, com as cabanas dos pescadores e as barcas da xávega. Figuras genéricas, não retratos.
FIG. 07Evocação pintada da praia de Monte Gordo na época da safra, com as cabanas dos pescadores e as barcas da xávega. Figuras genéricas, não retratos.

D. José I morreu em fevereiro de 1777 e Pombal foi afastado do governo. O livro de cartas de Londres saiu em 1787, assinado Arthur William Costigan, e descreve a vila numa carta datada de 1778: bem situada, as casas todas pelo mesmo plano, as ruas em ângulo reto. E, lá dentro, «not a living soul to be seen in the streets», nem uma alma viva nas ruas, tirando o juiz de fora e uma guarda de sargento, rendida todos os dias, que vinha de Castro Marim.

Segundo a memória de Lacerda Lobo, de 1791, dos cerca de dois mil e quinhentos pescadores da pesca de Monte Gordo restavam cerca de trezentos e sessenta; das cem xávegas que trabalhavam por volta de 1770, só nove estavam ativas em 1790.

Pintura de uma janela com damasco sobre uma rua juncada. O programa das festas de 13 de maio de 1776, impresso em Lisboa, previa damasco nas janelas e as ruas juncadas durante três dias. Figura genérica, não retrato.
FIG. 08Pintura de uma janela com damasco sobre uma rua juncada. O programa das festas de 13 de maio de 1776, impresso em Lisboa, previa damasco nas janelas e as ruas juncadas durante três dias. Figura genérica, não retrato.

A pesca voltou a crescer depois de 1830, quando a legislação liberal aboliu os impostos sobre o pescado, e em 1865 abriu na vila a primeira fábrica de conservas de atum em azeite. A cidade-fábrica foi, escreve Walter Rossa, «uma realidade funcional desde a sua fundação até há escassas décadas».

O obelisco continua no meio da praça. Em maio de 2026, a cidade assinalou os duzentos e cinquenta anos da fundação. Nas contas de Horta Correia, o desenho fixava também as alturas: o obelisco tem cinquenta palmos, as casas da praça trinta e a igreja oitenta.

Pintura da antiga Praça Real, hoje Praça Marquês de Pombal, com a igreja matriz e o obelisco coroado, a partir de uma fotografia de Vitor Oliveira (CC BY-SA 2.0). Figuras genéricas, não retratos.
FIG. 09Pintura da antiga Praça Real, hoje Praça Marquês de Pombal, com a igreja matriz e o obelisco coroado, a partir de uma fotografia de Vitor Oliveira (CC BY-SA 2.0). Figuras genéricas, não retratos.

A igreja tem a altura do obelisco e a de uma casa, somadas.

Fontes15 referências
  • Exposição das festividades, celebradas na reedificada Villa Real de Santo Antonio no mez de Maio do presente anno de 1776, Lisboa, Regia Officina Typografica, 1776. Biblioteca Nacional de Portugal, BND 78995. A inscrição do obelisco, o manifesto das festas, os edificantes e a frota. bndigital.bnportugal.gov.pt
  • COSTIGAN, Arthur William [assinatura], Sketches of Society and Manners in Portugal, Londres, 1787, vol. 1, carta datada de Beja, 1778. archive.org
  • ROSSA, Walter, «Cidades da razão: Vila Real de Santo António e arredores», Monumentos 30, dezembro de 2009, pp. 16-31. estudogeral.uc.pt
  • GONÇALVES, Adelino, «Vila Real de Santo António. Planeamento de pormenor e salvaguarda em desenvolvimento», Monumentos 30, 2009, pp. 40-53. estudogeral.uc.pt
  • FIDALGO, Andreia; GRILO, M.; SANTOS, Marco Sousa, «Centro Histórico de Vila Real de Santo António», Promontoria 10, 2012-2013. sapientia.ualg.pt
  • PESSANHA, Fernando, «Vila Real de Santo António na cartografia militar de José de Sande Vasconcelos à guarda do Arquivo Histórico Municipal ARM/VRSA», Promontoria 13, 2020-2021. As três vistas de 1774 e a planta de outubro de 1774. sapientia.ualg.pt
  • MACEDO, Sofia Costa; TETÉ GARCIA, Cristina, «Os marítimos de Monte Gordo e o veraneio na passagem do século XIX para o século XX», 2012. Cita a memória de Lacerda Lobo (1791), Horta Correia (1997) e Hugo Cavaco (2007). hdl.handle.net
  • Vila Real de Santo António e o Urbanismo Iluminista, catálogo da exposição, Câmara Municipal de Vila Real de Santo António, 2010. Resume José Eduardo Horta Correia, Vila Real de Santo António. Urbanismo e Poder na Política Pombalina, 1997. arquivo.pt
  • SIPA, ficha IPA.00001296, «Núcleo pombalino de Vila Real de Santo António», cópia do Arquivo.pt. arquivo.pt
  • Câmara Municipal de Vila Real de Santo António, páginas do obelisco e da igreja matriz. cm-vrsa.pt
  • Jornal do Algarve, «Descobertas as imagens mais antigas de Vila Real de Santo António», 22 de dezembro de 2013, e «Sessão solene assinala 250 anos de Vila Real de Santo António», 14 de maio de 2026. jornaldoalgarve.pt jornaldoalgarve.pt
  • Planetalgarve, «Exposição de desenhos inéditos de José Sande de Vasconcelos na Biblioteca Nacional em Lisboa», 31 de março de 2014. planetalgarve.com
  • Observador, recensão de José Carlos Barros, Os Filhos de Monte Gordo, 21 de setembro de 2025. observador.pt
  • Alvará de D. José I de confirmação das condições da Companhia Geral das Pescarias Reais do Reino do Algarve, 15 de janeiro de 1773. Pombalia, Universidade de Coimbra. am.uc.pt
  • Plantas e alçados de José de Sande Vasconcelos, litografados no século XIX. Biblioteca Nacional de Portugal, BND 38720 e 38967. bndigital.bnportugal.gov.pt