Segundo a sociedade que o entrega, é o prémio científico mais antigo dos Estados Unidos, e foi pago por um homem de Aveiro. Chama-se Magellanic Premium, e o Magalhães do nome não é o navegador.
Os criadores do GPS receberam-no em 1997. Jocelyn Bell Burnell, pelos primeiros pulsares, em 2000. Fabiola Gianotti, pelo bosão de Higgs, em 2018.

O homem de Aveiro chamava-se João Jacinto de Magalhães. Tinha o apelido do navegador e, segundo a genealogia que os editores da sua correspondência reconstituíram nos arquivos portugueses, descendia de um irmão mais novo dele. A 17 de setembro de 1785, de Londres, ofereceu à Sociedade Filosófica Americana, em Filadélfia, duzentos guinéus. Os juros pagariam todos os anos um prémio à melhor descoberta ou ao melhoramento mais útil na navegação ou na filosofia natural.

As regras foram impressas em 1786. Na frase que a medalha de ouro havia de levar gravada, depois de «The donation of», onde devia ir o nome de quem a pagava, ficou apenas um traço. A seguir vinha «of London». O nome não era segredo para a Sociedade: o cabeçalho das atas que as trazem nomeia «Mr. J. H. de Magellan, of London». O traço estava só na frase destinada ao ouro.

O resto das regras tinha o mesmo cuidado com os nomes. Podiam concorrer «Persons of any nation, sect, or denomination whatever». Cada candidato mandava o trabalho sob um mote, e o nome verdadeiro numa carta lacrada, que só se abria depois de decidido o prémio. As cartas dos que não ganhassem eram queimadas sem se quebrar o lacre.

Magalhães nasceu em Aveiro em novembro de 1722. A mãe morreu cinco dias depois do parto, o pai antes de ele fazer um ano. Aos onze anos entrou no Colégio da Sapiência, do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, dos cónegos de Santo Agostinho, uma casa conhecida pelo ensino exigente e por uma biblioteca onde se podiam ler os livros científicos mais modernos. Fez os votos com o nome de Frei João de Nossa Senhora do Desterro e foi ordenado padre.

Em meados da década de 1750, obteve do Papa Bento XIV um breve para sair da congregação. Deixou Santa Cruz, mas continuou padre. Demorou-se em Paris, junto do médico português Ribeiro Sanches, e em novembro de 1763 já ia às sessões da Royal Society, em Londres, onde ficou o resto da vida.

Ali, fez-se correio da ciência. Quando Joseph Priestley começou as suas experiências com os gases, foi Magalhães, a pedido do próprio Priestley, quem as fez chegar aos químicos de França, a Lavoisier entre eles. Descrevia e aperfeiçoava instrumentos de navegação e de física. A 21 de abril de 1774, a Royal Society elegeu-o membro, e entre os que assinaram a proposta estavam Benjamin Franklin, Joseph Priestley e Joseph Banks.

Numa carta a Ribeiro Sanches, em 1777, escreveu que a América, separada da Inglaterra, seria o único asilo dos espíritos filosóficos. Noutra, no ano seguinte, contou que dez ou doze anos antes tinha querido ir para lá. Sanches desaconselhara-o, e ele não foi.

Em vez dele, foi o dinheiro. Em janeiro de 1784, a sociedade de Filadélfia que Franklin fundara elegeu-o membro; em janeiro de 1786, a carta dos duzentos guinéus, comunicada por um dos vice-presidentes, foi aceite, e Franklin, então presidente, escreveu-lhe a agradecer. A recompensa seria uma placa oval de ouro maciço, no valor de dez guinéus.

A 7 de julho de 1786, no sexagésimo quarto ano da sua vida, escreveu à Sociedade a pedir que o nome não se tornasse público «during the time of my existence, which cannot be long». Bastava, para o anunciar, o título de «a Lover of usefull knowledge», um amante do conhecimento útil. Falava de razões «various and weighty». Não disse quais.

Escondeu o nome do prémio, mas não escondeu a terra. Em 1788, em Londres, preparou uma nova edição inglesa da Mineralogia do sueco Cronstedt. Na folha de rosto assinou «John Hyacinth de Magellan, Talabrico Lusitanus». Talábriga era o nome romano que os eruditos davam a Aveiro.

Também deixou um prémio em Portugal. A renda que a congregação lhe devia pela saída esteve mais de vinte anos por pagar; quando finalmente a recebeu, entregou-a à Academia das Ciências de Lisboa, para um prémio de agricultura.

Morreu em Londres a 7 de fevereiro de 1790. Em dezembro desse ano, a Sociedade deu a primeira medalha a Francis Hopkinson, de Filadélfia, um dos que tinham assinado a Declaração de Independência, pela descrição de um bloco de molas destinado a ajudar um navio a velejar. O homem que pagara o prémio não chegou a ver nenhuma.

Em 1793, quando as regras voltaram a ser impressas, a frase da medalha já não tinha traço.

Depois do bloco de molas vieram um para-raios melhorado, um leme de recurso, uma carta náutica nova, e, dois séculos mais tarde, o GPS. Em 2026, o prémio voltou a ser entregue.

Numa das medalhas que a Sociedade guarda em Filadélfia, uma placa oval de ouro entregue em 1887, onde a regra de 1786 deixava um traço, está o nome. Ao centro, dentro de uma coroa de louros, lê-se: «The Premium of John Hyacinth De Magellan of London. Established in the year 1786.»
Fontes12 referências
- Transactions of the American Philosophical Society, vol. 2, Filadélfia, 1786 («Extracts from the Minutes of the American Philosophical Society, respecting a Donation proposed by Mr. J. H. de Magellan, of London», pp. xix-xxii).
- Transactions of the American Philosophical Society, vol. 3, Filadélfia, 1793 (Francis Hopkinson, «Description of a Spring-Block», p. 331; lista de doações, p. 352; anúncio das condições do prémio, pp. 357-358).
- A. F. Cronstedt, An Essay towards a System of Mineralogy, 2.ª ed., por J. H. de Magellan, Londres, Charles Dilly, 1788.
- Manuel F. Thomaz e Isabel M. Malaquias, «João Jacinto de Magalhães e a American Philosophical Society de Filadélfia», Gazeta de Física, 13 (2), 1990.
- Manuel Fernandes-Thomaz, «The private life and character of physicist John Hyacinth de Magellan (1722-1790)», Revista Brasileira de História da Ciência, 2 (2), 2009.
- R. W. Home, I. M. Malaquias e M. F. Thomaz (eds.), For the Love of Science. The Correspondence of J. H. de Magellan (1722-1790), Peter Lang, 2017.
- Isabel Malaquias, «A comunicação científica entre João Jacinto de Magalhães e Antoine-Laurent Lavoisier», Boletim da Sociedade Portuguesa de Química, 1994.
- Isabel Malaquias, «Aspects of John Hyacinth de Magellan's Scientific Network Between Britain, Flanders and France», 6th International Conference on the History of Chemistry.
- Fundação João Jacinto de Magalhães (Universidade de Aveiro), «Biografia» e «Cronologia».
- Royal Society, catálogo de Fellows, «Magellan; John Hyacinth de (1722 - 1790)».
- American Philosophical Society, «The Magellanic Premium of the American Philosophical Society» e exposição «The Magellanic Premium»; medalha de 1887 (objeto 2009.29).
- F. Ferreira Neves, «Talábriga e a ara de Esturãos», Arquivo do Distrito de Aveiro, XV.
