A 12 de agosto de 1812, o exército português encostou o seu próprio segundo-comandante, em Almeida, a um paredão, e fuzilou-o.
O crime de que o acusavam: ter ajudado a entregar a praça, dois anos antes.
Para perceber porque é que isso custou a um homem um pelotão de fuzilamento, é preciso voltar a uma noite dois anos mais cedo, a uma fortaleza que desapareceu em dois segundos.

Em 1810, na 3.ª Invasão Francesa, Almeida era o último grande obstáculo fortificado antes de Coimbra e de Lisboa: uma praça-forte na raia da Beira, comandada pelo coronel inglês William Cox, cunhado do marechal Beresford. O segundo-comandante, o tenente-rei da praça, era o coronel Francisco Bernardo da Costa e Almeida, à frente de um regimento de milícias de Viseu. Defendiam a praça uns 4.700 homens. Cercava-os o VI Corpo do marechal Ney, entre 16 e 18 mil.
Às 19 horas de 26 de agosto de 1810, a porta do paiol principal, no castelo, estava aberta: saía dali um carregamento de pólvora para os baluartes do sul. Um barril mal vedado deixou, ao ser retirado, um rasto de pólvora pelo chão. Nesse instante, uma bomba francesa caiu no pátio do castelo. Ao rebentar, incendiou o rasto; a faísca correu até um segundo barril, junto à porta ainda aberta do paiol. Bastou isso. «Em dois segundos», escreveu o historiador britânico Charles Oman, «o castelo tinha sido varrido da existência.» Morreram várias centenas de homens da guarnição, quase todos os artilheiros que serviam os canhões na frente do ataque. O castelo, a catedral ao lado e a maior parte do centro da vila desapareceram; ficaram de pé cinco ou seis casas com telhado.

Cox tentou ganhar tempo. Ao ajudante-de-campo francês que veio exigir a rendição, vendou-lhe os olhos e recebeu-o numa casamata, para que não visse a extensão real do desastre; chamou-lhe «o deplorável acidente» e insistiu que as muralhas continuavam intactas. Enquanto isso, o semáforo ótico das muralhas ocidentais transmitia a Wellington, toda a manhã, a verdade que Cox escondia do francês.
O blefe não chegou a durar um dia. À noite, uma delegação de oficiais portugueses, liderada pelo próprio Bernardo da Costa, foi ter com Cox: continuar era loucura, disseram, e se ele não hasteasse a bandeira branca abririam eles próprios os portões ao inimigo. Restavam à guarnição trinta e nove barris de pólvora e duzentos artilheiros vivos para cerca de cem canhões: não havia com que responder a mais um dia de bombardeamento. Cox capitulou às 23 horas.

Massena violou os termos assinados quase de imediato: em vez de mandar os regulares presos para França e dispensar as milícias, tentou recrutá-los para o serviço francês. Quase todos aceitaram, à pressa, para escapar ao cativeiro. Nos três dias seguintes desertaram em grupos de duzentos e trezentos, e ao longo de uma semana foram-se apresentando, um a um, nos postos avançados de Wellington e de Silveira.
A queda de Almeida abriu a Massena o caminho para o Buçaco, e desse recuo nasceriam as Linhas de Torres Vedras, a norte de Lisboa. Já contámos a história de um dos fortes dessa linha, na Malveira: guarnecido por milícias, nunca disparou um tiro, e venceu pela fome do inimigo. O paiol de Almeida disparou tudo o que tinha, de uma só vez, numa só noite, e perdeu a praça nessa mesma noite.

Isto devia ser o fim da história. Não foi.
Dois anos depois, a Junta de Inconfidência, tribunal criado pela Regência para julgar os oficiais que tinham servido o lado francês, incluiu Bernardo da Costa entre os acusados de alta traição pela rendição de Almeida, ao lado de generais que tinham desertado para os franceses. Condenado à morte à revelia em dezembro de 1810, escapou à captura durante quase dois anos. Capturado em 1812, foi julgado e fuzilado a 12 de agosto, com a sentença confirmada pelo marechal Beresford.

O historiador Oman regista o seu nome entre os traidores: para ele, à frente de uma delegação, forçou Cox a render-se. Mas em 1883, setenta e um anos depois do fuzilamento, a viúva e a filha de Bernardo da Costa mandaram publicar, no Porto, uma defesa biográfica de trezentas páginas. E em 2018, uma recriação histórica promovida pelas Aldeias Históricas de Portugal, em Almeida, chamou ao processo de 1812 «pouco transparente» e falou, sem rodeios, na procura de um bode expiatório para uma catástrofe que precisava de um culpado.
Ninguém, até hoje, resolveu a divergência. O mesmo ato (dizer a Cox que se rendesse, ou abririam os portões) é lido, consoante a fonte, como traição consumada ou como o gesto que salvou o que restava dos seus homens.

Todos os anos, no fim de agosto, Almeida recria o cerco: as bombas, o fogo, a explosão do paiol. Tem um enredo certo e uma causa acordada, por isso pode ser encenada. O que aconteceu a Bernardo da Costa dois anos depois, ninguém recria. Não há, ainda, um enredo em que todos concordem.
Fontes11 referências
Fontes primárias e académicas
- Charles Oman, A History of the Peninsular War, vol. III (1908), capítulo do cerco de Almeida (texto integral, domínio público, lido no Project Gutenberg)
- Andrew Jackson, "The Siege of Almeida, Portugal: 24 July - 28 August 1810", napoleon-series.org
- Southampton Archives (Wellington Papers), ficha de William Cox
Enciclopédias e sites especializados
- Wikipédia PT, "Cerco de Almeida (1810)"
- Wikipédia EN, "Siege of Almeida (1810)" (cita Bodart 1908 e Clodfelter 2008)
- fortalezas.net, "Cerco de Almeida"
- capeiaarraiana.pt, "O desastre de Almeida" (2010)
- historyofwar.org, "Siege of Almeida, 25 July-27 August 1810"
O caso Bernardo da Costa e Almeida
- Bestnet Leilões, duas listagens independentes: o "Processo do Tenente-rei da praça de Almeida" (documento original, 50 páginas) e a "Memória Biográfica do Coronel Francisco Bernardo da Costa e Almeida" (João da Silva Mendes, Porto, 1883)
- Aldeias Históricas de Portugal, reportagem da recriação "1810 e os Mistérios da Queda de Almeida" (maio de 2018)
Atualidade
- cm-almeida.pt, evento "22º Cerco de Almeida" (2026)