Em Almeida mostra-se hoje uma cratera onde esteve um castelo medieval. Não sobrou muito mais: fundações, um arco em ogiva, o desenho do que foi um paço. É o que ficou de uma explosão que, numa noite de agosto de 1810, apagou o centro da vila em dois segundos.

Essa é a história que se conta todos os anos, na recriação histórica de Almeida, com bombas de fumo e figurantes fardados. É uma boa história, e é verdadeira. Mas não é toda a história. Dois anos depois da explosão, num dia de agosto de 1812, o exército português encostou o seu próprio segundo-comandante, na praça, a um paredão, e fuzilou-o. O crime de que o acusavam: ter ajudado a entregar a fortaleza, na noite em que ela desapareceu.

Nenhuma recriação encena isto. E, ao contrário da explosão, ninguém concorda sobre o que realmente aconteceu.

O fuzilamento

Chamava-se Francisco Bernardo da Costa e Almeida, coronel, comandante do Regimento de Milícias de Viseu e tenente-rei da praça de Almeida, o segundo posto de comando a seguir ao do governador. A 12 de agosto de 1812, foi fuzilado por ordem de um tribunal militar, a Junta de Inconfidência, criada pela Regência portuguesa para julgar os oficiais que tinham servido o lado francês durante a invasão. A sentença de morte foi confirmada pelo marechal Beresford.

O processo original, um documento de cinquenta páginas com a confirmação final da sentença, sobreviveu e foi vendido em leilão como peça de coleção; sobreviveu também, publicada setenta e um anos depois pela viúva e pela filha do coronel, uma defesa biográfica de trezentas páginas escrita por João da Silva Mendes. Duas famílias de documentos, um século e meio de intervalo, e ainda hoje nenhum resolve a pergunta que os separa: o que fez Bernardo da Costa, na noite em que Almeida caiu, para merecer um pelotão de fuzilamento?

A última fortaleza

Para responder, é preciso recuar a 1810, ao ano da 3.ª Invasão Francesa. O exército de Napoleão, sob o comando do marechal André Massena, avançava sobre Portugal pela raia da Beira, e Almeida era o último grande obstáculo fortificado antes de Coimbra e de Lisboa: uma praça-forte em estrela, construída para resistir a cercos longos.

As ruínas do castelo de Almeida, hoje — destruído pela explosão do paiol de pólvora em 1810. Pintura a partir de fotografia real das ruínas, de Dinah Raphael (Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0).
FIG. 02As ruínas do castelo de Almeida, hoje — destruído pela explosão do paiol de pólvora em 1810. Pintura a partir de fotografia real das ruínas, de Dinah Raphael (Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0).

Comandava-a o coronel William Cox, oficial inglês ao serviço português, cunhado do marechal Beresford. O segundo-comandante, com o posto tradicional de tenente-rei, era Bernardo da Costa. Defendiam a praça cerca de 4.700 homens: o Regimento de Linha n.º 24 (perto de 1.200), três regimentos de milícias de Arganil, Trancoso e Viseu (cerca de 3.000 ao todo), um corpo de artilharia (por volta de 400) e um esquadrão de cavalaria (cerca de 60). Cercava-os o VI Corpo do marechal Ney, entre 16.000 e 18.000 homens, com mais de cem peças de artilharia. Antes do cerco propriamente dito, a 24 de julho, as tropas francesas já tinham combatido a retaguarda britânica e portuguesa junto ao rio Côa, perto da própria Almeida.

O bombardeamento intensificou-se a partir de meados de agosto. A praça aguentava.

Dois segundos

Às 19 horas de 26 de agosto de 1810, a porta do paiol principal, dentro do castelo, estava aberta: saía dali um carregamento de pólvora rumo aos baluartes do sul, onde a artilharia trabalhava desde manhã. Um barril mal vedado, ao ser retirado, deixou atrás de si um rasto de pólvora pelo chão. Nesse preciso instante, uma bomba francesa caiu no pátio do castelo. Ao rebentar, incendiou o rasto; a faísca correu até um segundo barril, encostado à porta ainda aberta do paiol. Foi o suficiente.

«Em dois segundos», escreveu o historiador britânico Charles Oman, na sua história clássica da Guerra Peninsular, «o castelo, a catedral ao seu lado, e toda a parte central da vila tinham sido varridos da existência.» Uma testemunha francesa, citada pelo mesmo Oman, descreveu o momento: «A terra tremeu, e vimos erguer-se do meio da praça um imenso turbilhão de fogo e fumo. Foi como o rebentar de um vulcão, uma das coisas que nunca mais poderei esquecer, em vinte e seis anos. Enormes blocos de pedra foram atirados para as trincheiras, onde mataram e feriram alguns dos nossos homens. Peças de calibre pesado foram levantadas das muralhas e arremessadas para fora delas. Quando o fumo se dissipou, grande parte de Almeida tinha desaparecido, e o resto era um monte de escombros.»

Às 19 horas de 26 de agosto de 1810, uma bomba francesa incendiou um rasto de pólvora e fez explodir o paiol principal da fortaleza de Almeida. «Em dois segundos, o castelo tinha sido varrido da existência» (Charles Oman). Pintura.
FIG. 03Às 19 horas de 26 de agosto de 1810, uma bomba francesa incendiou um rasto de pólvora e fez explodir o paiol principal da fortaleza de Almeida. «Em dois segundos, o castelo tinha sido varrido da existência» (Charles Oman). Pintura.

As fontes divergem sobre o número exato de mortos: Oman, a Wikipédia portuguesa e o site especializado fortalezas.net falam em cerca de quinhentos; a Wikipédia inglesa, citando os compêndios estatísticos de Bodart (1908) e Clodfelter (2008), fala em seiscentos mortos e trezentos feridos. O que não varia entre as fontes é a proporção: morreram quase todos os cerca de duzentos artilheiros que serviam os canhões na frente do ataque. Divergem também sobre quantas casas ficaram de pé com telhado: cinco, segundo Oman; seis, segundo o site capeiaarraiana.pt. Restaram poucas, seja qual for o número certo.

Ao amanhecer, Cox percorreu o que restava. As muralhas e as cortinas tinham sofrido pouco; era o interior da fortaleza que estava destruído. As ruas estavam bloqueadas de escombros, a ponto de só se poder circular pelas próprias muralhas. O oficial de artilharia reportou-lhe o inventário: restavam trinta e nove barris de pólvora e umas centenas de tiros nos pequenos depósitos das muralhas, insuficientes para sustentar sequer um dia de resposta ao cerco. Restavam também 600.000 cartuchos de infantaria, inúteis para as peças pesadas. E, de cerca de cem canhões ainda utilizáveis, restavam apenas duzentos artilheiros vivos para os servir.

O blefe

Cox decidiu, ainda assim, tentar ganhar tempo. Às nove da manhã do dia 27, Massena enviou o seu ajudante-de-campo, Pelet, para exigir a rendição. Cox mandou vendar-lhe os olhos e recebeu-o dentro de uma casamata, para que o francês não pudesse avaliar a verdadeira extensão do desastre. À explosão, chamou-lhe «o deplorável acidente»; insistiu que as muralhas continuavam intactas e que a sua capacidade de resistir pouco tinha diminuído. Era um blefe, feito para ganhar horas: nas muralhas ocidentais, o semáforo ótico transmitia a Wellington, durante toda a manhã, mensagens desesperadas com a verdade que Cox escondia do inimigo.

O blefe falhou por uma razão que Cox não podia controlar. Oficiais portugueses que já serviam Massena, entre eles o general d'Alorna, aproximaram-se do pé das muralhas durante a própria conferência e chamaram pelos antigos companheiros, pedindo-lhes que aceitassem os termos e não arriscassem a vida por Wellington, que os abandonaria como tinha abandonado o defensor de Ciudad Rodrigo. O major Barreiros, que Cox enviara para negociar, revelou ao marechal francês o verdadeiro estado da praça e nunca regressou.

Abrir os portões

Massena recusou os termos de Cox e ordenou a retoma do bombardeamento às sete da tarde. Foi então que, dentro da própria fortaleza, uma delegação de oficiais portugueses, liderada pelo próprio Bernardo da Costa, foi ter com o governador: continuar a resistir era loucura, disseram, e se ele não hasteasse a bandeira branca de imediato, abririam eles próprios os portões ao inimigo. Cox foi forçado a ceder. Capitulou às 23 horas dessa noite de 27 de agosto.

Na manhã seguinte à explosão, o governador William Cox percorre as muralhas: o centro da vila estava reduzido a escombros. Pintura. evocação, não retrato.
FIG. 04Na manhã seguinte à explosão, o governador William Cox percorre as muralhas: o centro da vila estava reduzido a escombros. Pintura. evocação, não retrato.

Os termos previam que as tropas regulares seguissem prisioneiras para França e que as três milícias fossem dispensadas para casa, sob palavra de não voltarem a combater. Massena quebrou o acordo quase de imediato: em vez de cumprir os termos, tentou recrutar toda a guarnição para o serviço francês, oferecendo aos oficiais a manutenção dos postos. Quase todos os regulares e cerca de seiscentos milicianos aceitaram, à pressa, para escapar ao cativeiro. Mas, nos três dias seguintes, começaram a desertar em grupos de duzentos e trezentos homens, e ao longo de uma semana foram-se apresentando, um grupo atrás do outro, nos postos avançados de Wellington e do general Silveira.

O caminho para o Buçaco

A queda de Almeida abriu a Massena o caminho para o interior de Portugal. A ação seguinte da campanha foi a Batalha do Buçaco, a 27 de setembro de 1810, depois da qual Wellington recuou o exército para trás das Linhas de Torres Vedras, a rede de fortificações erguida a norte de Lisboa durante 1809 e 1810. Já contámos aqui a história de um desses fortes, na Malveira: guarnecido por milícias portuguesas, nunca chegou a disparar um único tiro sobre o inimigo, e venceu pela fome que a terra queimada em redor impôs ao exército francês. O paiol de Almeida disparou tudo o que tinha, de uma só vez, numa só noite, e perdeu a praça nessa mesma noite.

Isto devia ser o fim desta história. Dois anos depois, não foi.

A Junta de Inconfidência

Em dezembro de 1810, a Junta de Inconfidência, o tribunal especial criado pela Regência para julgar a traição, reuniu-se em Lisboa e incluiu numa única acusação de alta traição os nomes de todos os oficiais portugueses que, de uma forma ou de outra, tinham servido o lado francês depois da queda de Almeida: desde o general d'Alorna, que de facto tinha desertado e chegou a organizar uma brigada ao serviço do Imperador, até Bernardo da Costa, pelo papel que tivera na noite da rendição. Todos foram condenados à morte à revelia, a 22 de dezembro de 1810.

Cox mandou vendar os olhos ao enviado francês antes de o receber, para que não visse a real extensão do desastre. Pintura. evocação, não retrato.
FIG. 05Cox mandou vendar os olhos ao enviado francês antes de o receber, para que não visse a real extensão do desastre. Pintura. evocação, não retrato.

Apenas dois viriam a ser capturados. João de Mascarenhas, ajudante-de-campo de d'Alorna, foi apanhado pela Ordenança em 1810, a transportar despachos de Massena, e morreu garrotado. Bernardo da Costa evitou a captura durante quase dois anos, até 1812. Julgado, foi condenado e fuzilado a 12 de agosto desse ano, com a sentença capital confirmada pelo marechal Beresford. Os restantes réus nunca regressaram a Portugal, ou foram perdoados, em datas diferentes, entre 1816 e 1820.

Duas leituras

Charles Oman regista o nome de Bernardo da Costa entre os traidores da campanha, sem outra nuance: para ele, foi o oficial que, à frente de uma delegação, forçou Cox a render-se.

Mas há outra leitura, sustentada por outras fontes. Em 1883, setenta e um anos depois do fuzilamento, a viúva e a filha do coronel mandaram publicar no Porto uma «Memória Biográfica» de trezentas páginas, escrita por João da Silva Mendes e revista por um descendente, António Ribeiro da Costa e Almeida: uma defesa da sua memória, decénios depois de já não haver nada a fazer pela sua vida. E em maio de 2018, um evento de recriação histórica promovido pelas Aldeias Históricas de Portugal, em Almeida, descreveu o processo de 1812 como «pouco transparente e com foros de premeditação», falando abertamente na procura de um bode expiatório para uma catástrofe que precisava de um culpado, e apresentando o coronel como alguém que tinha servido o país com zelo e dedicação.

Nenhuma fonte lida para este texto, incluindo uma pesquisa feita em agosto de 2026, resolve a divergência com um documento novo, uma revisão judicial ou um consenso historiográfico. O que existe são três posições, cada uma sustentada pela sua própria fonte: o relato britânico que o inclui entre os traidores; a defesa da família, publicada quando já ninguém podia salvá-lo; e a leitura local, mais recente, que fala em bode expiatório. O mesmo gesto, dizer a Cox que se rendesse ou abririam eles os portões, é lido, consoante quem conta, como o ato que entregou a praça ou como o ato que, pelas desistências que se seguiram, ajudou a devolver centenas de homens a casa.

Na noite de 27 de agosto de 1810, uma delegação de oficiais liderada por Bernardo da Costa disse a Cox que se rendesse, ou abririam eles próprios os portões. Pintura a partir do retrato de img_01 (mesma personagem, dois anos mais jovem); evocação, não retrato.
FIG. 06Na noite de 27 de agosto de 1810, uma delegação de oficiais liderada por Bernardo da Costa disse a Cox que se rendesse, ou abririam eles próprios os portões. Pintura a partir do retrato de img_01 (mesma personagem, dois anos mais jovem); evocação, não retrato.

O que fica

Todos os anos, no fim de agosto, Almeida recria o cerco de 1810: as bombas de fumo, o assalto, a explosão do paiol. A edição de 2026 é a vigésima segunda, a maior recriação histórica do período napoleónico em Portugal. Tem um enredo certo, uma causa que ninguém disputa, e por isso pode ser encenada todos os anos, com figurantes e público.

O que aconteceu a Bernardo da Costa dois anos depois, ninguém recria. Não há, ainda, um enredo em que todos concordem.

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Fontes primárias e académicas

- Charles Oman, A History of the Peninsular War, vol. III (1908), capítulo do cerco de Almeida (texto integral, domínio público, lido no Project Gutenberg) - Andrew Jackson, "The Siege of Almeida, Portugal: 24 July - 28 August 1810", napoleon-series.org - Southampton Archives (Wellington Papers), ficha de William Cox

Duas leituras sobre o mesmo caso: o processo de 1812 contra Bernardo da Costa e a defesa biográfica que a família publicou, 71 anos depois. Pintura.
FIG. 07Duas leituras sobre o mesmo caso: o processo de 1812 contra Bernardo da Costa e a defesa biográfica que a família publicou, 71 anos depois. Pintura.

Enciclopédias e sites especializados

- Wikipédia PT, "Cerco de Almeida (1810)" - Wikipédia EN, "Siege of Almeida (1810)" (cita Bodart 1908 e Clodfelter 2008) - fortalezas.net, "Cerco de Almeida" - capeiaarraiana.pt, "O desastre de Almeida" (2010) - historyofwar.org, "Siege of Almeida, 25 July-27 August 1810"

O caso Bernardo da Costa e Almeida

- Bestnet Leilões, duas listagens independentes: o "Processo do Tenente-rei da praça de Almeida" (documento original, 50 páginas) e a "Memória Biográfica do Coronel Francisco Bernardo da Costa e Almeida" (João da Silva Mendes, Porto, 1883) - Aldeias Históricas de Portugal, reportagem da recriação "1810 e os Mistérios da Queda de Almeida" (maio de 2018)

Atualidade

- cm-almeida.pt, evento "22º Cerco de Almeida" (2026)

Notas de honestidade

- O número de mortos na explosão não é fixado. As fontes divergem entre cerca de quinhentos (Oman, Wikipédia PT, fortalezas.net) e cerca de seiscentos (Wikipédia EN, citando compêndios estatísticos). Este texto regista os dois números e a respetiva fonte, sem escolher um. - A causa da explosão está bem documentada e não é apresentada como mistério. A versão sobre um soldado português negligente, encontrada numa única fonte local, contradiz três fontes convergentes com melhor lastro e não foi usada. - O caso de Bernardo da Costa e Almeida não é adjudicado. Este texto não decide se foi traidor ou bode expiatório: apresenta o processo, a condenação, o fuzilamento, e as leituras divergentes, cada uma atribuída à sua fonte. - Não foi possível ler, em texto corrido, o processo original de 1812 nem a "Memória Biográfica" de 1883. A sua existência, autoria e conteúdo geral vêm de descrições de leilão, corroboradas por duas listagens independentes do mesmo espólio; não usadas para além disso.