Há uma casa em ruínas na Serra da Estrela onde não chega estrada nenhuma. Está encaixada entre fragas, a mais de mil e seiscentos metros, e sobre a construção assenta uma única laje de granito. Chega-se lá por uma fenda na rocha.

Sobre a porta está gravado, e ainda hoje se lê: «Dr. J. Matos, Barca Hirminius, 1910».

Nave da Mestra: o vale suspenso e a talisca

O sítio chama-se Nave da Mestra, no concelho de Manteigas. É um vale suspenso de fundo plano, cercado por muralhas de granito, e até a fenda por onde se entra tem nome próprio: talisca. O Estrela Geopark Mundial da UNESCO inscreveu o vale na lista de geossítios. Quem lá vai, vai a pé.

Durante muitos anos a construção serviu de abrigo a pastores e rebanhos, como aquele vale já fazia desde tempos idos. Pintura. evocação, não registo.
FIG. 02Durante muitos anos a construção serviu de abrigo a pastores e rebanhos, como aquele vale já fazia desde tempos idos. Pintura. evocação, não registo.

Quem leva uma casa para um sítio destes, e para quê? Corre nas redes uma versão. O inventário da Câmara Municipal de Manteigas guarda outra, e essa traz fonte.

Como se levou uma casa para ali: mulas e macacos de elevação

Conta-se na terra que os materiais e a mão de obra subiram de Manteigas em cima de mulas, por um caminho que ainda hoje existe, e que foram precisos macacos de elevação para erguer as pedras maiores, incluindo a que ficou a servir de telhado. As paredes aproveitaram as reentrâncias das próprias fragas: a construção encostou-se à rocha em vez de a vencer.

Não chega estrada nenhuma à Nave da Mestra: quem lá vai, vai a pé. As paredes aproveitaram as reentrâncias das próprias fragas. Pintura a partir de fotografia real do local, de Dulundum (Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0).
FIG. 03Não chega estrada nenhuma à Nave da Mestra: quem lá vai, vai a pé. As paredes aproveitaram as reentrâncias das próprias fragas. Pintura a partir de fotografia real do local, de Dulundum (Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0).

E há um pormenor que ninguém inventaria. A laje colossal esteve primeiro ao alto, de pé, espetada no meio do vale e visível a quilómetros de distância. Só mais tarde foi deitada.

A lenda das reuniões republicanas na Nave da Mestra

Sobre o resto, corre uma história. Conta-se que aquele vale isolado, onde só se chega a pé, serviu de palco a reuniões republicanas clandestinas nos anos finais da monarquia constitucional, e há quem ponha nelas o nome de Afonso Costa.

Conta-se na terra que foram precisos macacos de elevação para erguer as pedras maiores, incluindo a que ficou a servir de telhado à construção. Pintura. evocação, não registo.
FIG. 04Conta-se na terra que foram precisos macacos de elevação para erguer as pedras maiores, incluindo a que ficou a servir de telhado à construção. Pintura. evocação, não registo.

Quem guarda esta tradição é a própria autarquia, numa ficha de paisagem, dessas que as câmaras mandam fazer para inventariar o que têm. E guarda-a com todas as cautelas: «segundo relatos populares», escreve, «terá sido».

A data gravada sobre a porta ajudou a lenda a pegar, porque em Portugal 1910 é um ano com um significado só: foi o ano em que o último rei saiu do país pela Ericeira, e já aqui contámos essa madrugada. A tradição fala dos anos finais da monarquia; a data gravada é a do último deles.

Conta-se que materiais e mão de obra subiram de Manteigas em cima de mulas, por um caminho que ainda hoje existe. Pintura. evocação, não retrato.
FIG. 05Conta-se que materiais e mão de obra subiram de Manteigas em cima de mulas, por um caminho que ainda hoje existe. Pintura. evocação, não retrato.

A Casa do Juiz, na ficha da Câmara de Manteigas

A ficha seguinte, do mesmo inventário, chama àquelas ruínas outra coisa: «Edificação na Nave da Mestra, Casa do Juiz». E explica.

Era o Dr. José Pereira de Matos, juiz de direito, natural de Manteigas: um homem da terra, que conhecia aquele vale desde pequeno. A razão que o inventário cita, tirada de Caminhos da Serra, de J. M. Vieira, nada tem de conspirativo. O juiz «parece ter sofrido de tuberculose e nesse local da Serra encontrou a cura para o seu sofrimento». Daí, escreve a ficha, a razão que o levou a construir ali a casa, onde passava regularmente as férias de verão.

Segundo o registo da autarquia, a laje esteve primeiro ao alto, de pé e visível a quilómetros de distância; só mais tarde foi deitada. Pintura. evocação, não registo.
FIG. 06Segundo o registo da autarquia, a laje esteve primeiro ao alto, de pé e visível a quilómetros de distância; só mais tarde foi deitada. Pintura. evocação, não registo.

Se a ficha tem razão, aquela obra era uma receita médica, construída em pedra.

Até o nome, o juiz foi buscá-lo ao sítio. Julga-se que Hermínios seja o nome que os tratadistas romanos da Antiguidade davam àquela serra: Montes Hermínios, Herminius Mons. E a Nave da Mestra também é conhecida por Nave da Barca, por causa de um enorme penedo com forma de embarcação. Barca Hirminius é a montanha a assinar a própria casa.

Num alto ermo onde não vivia ninguém foram aparecendo barracas de madeira com doentes lá dentro; daquele amontoado nasceram as Penhas Douradas. Pintura. evocação, não registo.
FIG. 07Num alto ermo onde não vivia ninguém foram aparecendo barracas de madeira com doentes lá dentro; daquele amontoado nasceram as Penhas Douradas. Pintura. evocação, não registo.

Alfredo César Henriques, o tísico da serra

Houve quem fizesse o mesmo antes dele, e com o próprio corpo. Alfredo César Henriques, amigo e doente do médico Sousa Martins, tinha ido à Madeira à procura de cura e regressara sem ela. Instalou-se no observatório meteorológico da serra e mandou depois construir casa própria, aproveitando uns blocos megalíticos de granito. Ao fim de dois anos de tratamento pelo clima, declarou-se curado. Ficou conhecido como o tísico da serra.

À volta do observatório e da casa dele, num alto ermo onde não vivia ninguém, foram aparecendo barracas de madeira com doentes lá dentro. Daquele amontoado nasceram as Penhas Douradas.

Sobre a porta está gravado, e ainda hoje se lê, «Dr. J. Matos, Barca Hirminius, 1910»; nesta pintura a inscrição não é legível, porque as palavras exatas vivem aqui, na legenda. Pintura a partir de fotografia real do local, de Dulundum (Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0).
FIG. 08Sobre a porta está gravado, e ainda hoje se lê, «Dr. J. Matos, Barca Hirminius, 1910»; nesta pintura a inscrição não é legível, porque as palavras exatas vivem aqui, na legenda. Pintura a partir de fotografia real do local, de Dulundum (Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0).

Por trás dos dois homens estava a medicina do tempo. No século XIX, a tuberculose tornou-se uma das doenças mais difundidas da Europa, e a meio de Oitocentos um tratamento novo veio mudar tudo: o regime sanatorial, feito de exposição ao ar, de baixas pressões atmosféricas e de alimentação reforçada. O primeiro sanatório de montanha abriu em 1854, na Silésia, pela mão do médico Hermann Brehmer. A Europa encheu-se de estabelecimentos do género, e Portugal quis o seu.

Sousa Martins e os sanatórios de altitude da Serra da Estrela

Em 1881, a Sociedade de Geografia de Lisboa, por iniciativa de Sousa Martins, subiu à Serra da Estrela para medir o clima, o terreno e a humidade, e escolher ali o lugar para um sanatório de montanha. Foi dessa expedição que nasceu o movimento português dos sanatórios de altitude. À serra chamavam a Suíça portuguesa. Em 1890, Sousa Martins publicou, pela Imprensa Nacional, A tuberculose pulmonar e o clima de altitude da serra da Estrela.

A 18 de maio de 1907, D. Carlos e D. Amélia inauguraram na Guarda o Sanatório Sousa Martins, projetado por Raul Lino, o primeiro edifício do género construído de raiz no país.

Quando o juiz de Manteigas mandou subir as mulas, portanto, a ideia já tinha vinte e nove anos de campanha pública, e a poucas dezenas de quilómetros estava o sanatório que os reis tinham inaugurado três anos antes. Seguia a receita da medicina do seu tempo, à maneira de um homem de Manteigas: pedra da terra, mulas da terra, e o mesmo gesto do tísico da serra, encostar uma casa a blocos de granito do tamanho que a montanha dá.

Do juiz não sabemos se sarou. Sabemos que voltava, todos os verões.

Visitar a Nave da Mestra hoje

A casa ficou ao abandono e hoje está em ruínas. A laje continua lá, agora deitada, a cobrir o que resta das paredes. Durante muitos anos a ruína serviu de abrigo a pastores e rebanhos, como aquele vale já fazia desde tempos idos, com as muralhas de granito a cortar o vento, muito antes de alguém pensar em construir ali seja o que fosse. Hoje abriga também caminhantes. A Rota do Carvão passa por lá.

A medicina daquele tempo mandava procurar ar longe: a Madeira, a montanha estrangeira, a Suíça. A Suíça deste homem ficava a uma manhã de subida da vila onde tinha nascido. Passou a talisca, encostou uma casa às fragas e pôs-lhe uma pedra por cima.