Uma sardinha está entre as primeiras radiografias de que há notícia em Portugal. A radiografia foi feita em Coimbra, em fevereiro de 1896, cerca de um mês depois de Röntgen anunciar os raios X, com uma bobina que já estava no Gabinete de Física havia anos. Essa bobina tem enrolados cerca de cem quilómetros de fio de cobre, segundo o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, que ainda a guarda.

Henrique Teixeira Bastos, professor de Física da universidade, fez as primeiras chapas a 3 de fevereiro de 1896 e deixou escrito como trabalhava, num texto que o Museu da Ciência cita. A bobina, alimentada por seis pilhas, mandava a descarga para um tubo de vidro, o tubo de Crookes. A uns dez centímetros do tubo ficava a chapa fotográfica, embrulhada em papel preto, e o objeto assentava em cima dela. «Obtiveram-se bons resultados», escreveu, «com exposições não inferiores a vinte minutos, nas radiografias de uma chave e de um dedo cortado do cadáver (o primeiro ensaio feito), de uma mão viva, de uma caixa de pesos, de uma sardinha.»

Evocação pintada de um professor de Física junto de uma bobina de indução, de pilhas e de um tubo de vidro luminoso, num gabinete universitário em 1896 (figura genérica, não retrato).
FIG. 02Evocação pintada de um professor de Física junto de uma bobina de indução, de pilhas e de um tubo de vidro luminoso, num gabinete universitário em 1896 (figura genérica, não retrato).

O primeiro ensaio foi um dedo de cadáver; dos outros, não se sabe a ordem. Cada objeto ficava deitado sobre o papel preto, e a sombra fazia-se do outro lado, onde ninguém a via.

Gravura de época de uma bobina de Ruhmkorff (1905), o tipo de aparelho usado em Coimbra; não é a bobina de Coimbra. (Wikimedia Commons, domínio público)
FIG. 03Gravura de época de uma bobina de Ruhmkorff (1905), o tipo de aparelho usado em Coimbra; não é a bobina de Coimbra. (Wikimedia Commons, domínio público)

Coimbra tinha entre mãos uma descoberta com poucas semanas. Wilhelm Conrad Röntgen, professor em Würzburg, na Alemanha, deu com ela a 8 de novembro de 1895, a fazer experiências com tubos de raios catódicos, e anunciou-a em dezembro. Chamou-lhes raios X porque não sabia o que eram. Atravessavam o que a luz não atravessa e deixavam a sombra numa chapa: era possível fotografar o interior de um corpo fechado. Como é que um gabinete de universidade, em Coimbra, conseguiu repetir a experiência cerca de um mês depois?

Gravura de um tubo de Crookes montado num suporte, de um livro de 1898; o tipo de aparelho, não o tubo de Coimbra. (Internet Archive / Wikimedia Commons, domínio público)
FIG. 04Gravura de um tubo de Crookes montado num suporte, de um livro de 1898; o tipo de aparelho, não o tubo de Coimbra. (Internet Archive / Wikimedia Commons, domínio público)

A primeira parte da resposta estava no próprio gabinete. Toda a instrumentação necessária já lá existia havia alguns anos, diz o museu, a começar pela bobina, capaz de produzir faíscas de cinquenta centímetros. O historiador Décio Ruivo Martins vai mais longe: quase todo o equipamento daquelas primeiras experiências tinha sido comprado em 1872, vinte e quatro anos antes.

Evocação pintada de um fotógrafo a embrulhar em papel preto uma chapa de vidro, em 1896 (figura genérica, não retrato).
FIG. 05Evocação pintada de um fotógrafo a embrulhar em papel preto uma chapa de vidro, em 1896 (figura genérica, não retrato).

A outra parte é mais antiga. Desde o princípio da década de 1850, explica o mesmo historiador, os professores de Física Experimental de Coimbra estudavam descargas elétricas em gases, e foi esse trabalho que deixou no gabinete os meios para fazer a experiência de imediato. Os historiadores da física de Coimbra atribuem o desenvolvimento do gabinete sobretudo a um homem, António dos Santos Viegas, professor durante mais de cinco décadas e reitor da universidade. Quando a notícia de Würzburg chegou, Coimbra tinha, sem o saber, tudo o que era preciso para uma experiência que ninguém imaginara.

Evocação pintada de uma mão viva pousada sobre uma chapa embrulhada em papel preto, sob um tubo luminoso (mão genérica, de pessoa não identificada).
FIG. 06Evocação pintada de uma mão viva pousada sobre uma chapa embrulhada em papel preto, sob um tubo luminoso (mão genérica, de pessoa não identificada).

A notícia saiu de Coimbra pela imprensa. A 1 de março de 1896, O Século pôs na primeira página uma longa reportagem, com o título «A photographia atravez dos corpos opacos» e várias radiografias das experiências de Coimbra. Uma delas tinha por título «Mão direita de um rapaz que sofre de tuberculose óssea». Segundo o jornal, fora tirada a pedido do catedrático de clínica cirúrgica, Daniel de Mattos, e o doente servia de estudo ao curso do quarto ano de Medicina. Quem operava a máquina, sob a direção de Teixeira Bastos, era um fotógrafo da cidade, Adriano da Silva e Sousa, dono da Photographia Academica. Segundo o Museu da Ciência, é essa a radiografia de fevereiro de 1896 que hoje mostra: uma mão com os dedos deformados.

Evocação pintada da espera diante do tubo luminoso, num gabinete de Física em 1896 (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 07Evocação pintada da espera diante do tubo luminoso, num gabinete de Física em 1896 (figuras genéricas, não retratos).

Em Lisboa, a primeira radiografia foi feita a 22 de março de 1896, no estúdio de Augusto Bobone, o fotógrafo da Casa Real, que trabalhava com o médico Virgílio Machado. Em Coimbra, depois da mão do rapaz, vieram em maio ensaios de diagnóstico clínico com os raios X, e a aplicação chegou cedo aos Hospitais da Universidade.

Radiografia da mão de Anna Bertha Röntgen, feita por Wilhelm Röntgen em dezembro de 1895; não é uma radiografia de Coimbra. (Wikimedia Commons, domínio público)
FIG. 08Radiografia da mão de Anna Bertha Röntgen, feita por Wilhelm Röntgen em dezembro de 1895; não é uma radiografia de Coimbra. (Wikimedia Commons, domínio público)

Em maio de 1897, um licenciado de Coimbra, Álvaro José da Silva Basto, apresentou a dissertação inaugural sobre os raios catódicos e os raios X de Röntgen. Escreveu que as aplicações cirúrgicas tinham feito da descoberta, «sem exaggêro», «uma das grandes conquistas do homem neste século», e que um hospital bem instalado já não podia passar sem um aparelho de radiografia. E escreveu que, com os tubos então em uso, «alguns segundos bastam para obter a sombra do esqueleto da mão».

Entrada da Universidade de Coimbra, postal de c. 1902; não mostra o gabinete de 1896. (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público)
FIG. 09Entrada da Universidade de Coimbra, postal de c. 1902; não mostra o gabinete de 1896. (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público)

A chapa pedia vinte minutos, pelo menos. A descoberta, Coimbra não a fez esperar.

Evocação pintada de um cirurgião a olhar para um ecrã luminoso com a sombra de uma mão, numa sala de hospital em 1897 (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 10Evocação pintada de um cirurgião a olhar para um ecrã luminoso com a sombra de uma mão, numa sala de hospital em 1897 (figuras genéricas, não retratos).
Fontes13 referências
  • Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, «Histórias com Objetos»: «Raios X em Coimbra», «A Experiência no "Gabinete de Physica"» e «A Primeira Radiografia em Portugal». museudaciencia.pt
  • Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, «Objeto do mês»: «100 Quilómetros de fio de cobre» (dezembro de 2023) e «O "X" do raio» (janeiro de 2022).
  • Décio Ruivo Martins, «As Ciências Físicas em Coimbra de 1850 a 1900», Ciência em Portugal: Episódios, Instituto Camões (versão no Arquivo.pt).
  • António José F. Leonardo, Décio R. Martins e Carlos Fiolhais, «A Física na Universidade de Coimbra de 1900 a 1960», Gazeta de Física, Sociedade Portuguesa de Física.
  • António Maria Reis Pereira, «Estudo do impacto da descoberta dos raios-X e das suas aplicações médicas em Portugal», dissertação de mestrado, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, 2012. repositorio.ulisboa.pt
  • Álvaro José da Silva Basto, «Os raios cathódicos e os raios X de Röntgen», Coimbra, Imprensa da Universidade, 1897 (Alma Mater, Universidade de Coimbra, CC BY 4.0).
  • «Novidades da sciencia: A photographia atravez dos corpos opacos», O Occidente, n.º 621, 25 de março de 1896 (Hemeroteca Digital de Lisboa).
  • Lídia Salgueiro, «Descoberta e natureza dos raios X», Gazeta de Física, setembro de 1995.
  • Filipe Caseiro Alves, «Cem anos de radiologia: morfologia e função», Gazeta de Física.
  • Unidade Local de Saúde do Médio Tejo, «8 de novembro, 128 anos da descoberta dos Raios-X».
  • Fundação EDP, «Foto-radiografias, 1896».
  • Carlos Fiolhais, «Egas Moniz, o nosso único Nobel em ciências», De Rerum Natura (excerto de «História da Ciência em Portugal»).
  • Arquivo da Universidade de Coimbra, «Egas Moniz 1874-1955: Nobel da Medicina», catálogo da exposição documental, 2024.