Descobrimentos · episódio 7

A caravela de Nuno Tristão andou dois meses no mar sem ver terra. O capitão estava morto.

O códice de Paris da Crónica da Guiné, fl. 137v: a rubrica (a vermelho no original) «Capitollo lxxxvj como foe morto Nuno trstam em terra de guinee & quaaes morrerõ com elle» e a capital pintada (Bibliothèque nationale de France, Portugais 41, domínio público).
FIG. 02O códice de Paris da Crónica da Guiné, fl. 137v: a rubrica (a vermelho no original) «Capitollo lxxxvj como foe morto Nuno trstam em terra de guinee & quaaes morrerõ com elle» e a capital pintada (Bibliothèque nationale de France, Portugais 41, domínio público).

Quem lhe dava o rumo, escreveu Zurara, era um moço da câmara do Infante, criado numa vila «muy afastada do mar».

Pintura da caravela a cortar as amarras debaixo das setas, ao largo de um rio a sul do Cabo Verde, como Zurara o conta (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 03Pintura da caravela a cortar as amarras debaixo das setas, ao largo de um rio a sul do Cabo Verde, como Zurara o conta (figuras genéricas, não retratos).

Foi em 1446. Nuno Tristão crescera desde pequeno na câmara do Infante D. Henrique, e era o mesmo que em 1441 chegara ao Cabo Branco. Desta vez seguiu numa caravela, sem se deter em parte nenhuma, para a terra a que então chamavam dos Negros, e passou o cabo a que chamavam Verde. Dos que nela iam, a maior parte não voltou. Como se traz um navio da costa da Guiné até Portugal, quando os homens que sabiam o caminho estavam mortos?

A costa a sul do Cabo Verde numa carta de marear de Grazioso Benincasa, de 1473, com nomes como «barbacis», «rio de lagos» e «Rio de Gamba» (British Library, Egerton MS 2855, f. 7r, domínio público).
FIG. 04A costa a sul do Cabo Verde numa carta de marear de Grazioso Benincasa, de 1473, com nomes como «barbacis», «rio de lagos» e «Rio de Gamba» (British Library, Egerton MS 2855, f. 7r, domínio público).

As viagens desses anos eram de descoberta e também de captura. Para lá do Cabo Verde, escreve Gomes Eanes de Zurara, o cronista destas viagens, acharam um rio, que ele não nomeia, onde lhes pareceu que haveria povoações. Arriaram os dois pequenos batéis que levavam, e neles entraram vinte e dois homens. Subiam com a maré a encher, em direção a umas casas na margem direita, quando da outra margem saíram uma dúzia de barcos, com setenta ou oitenta homens de arcos na mão. Eram os homens daquela terra, e defenderam a sua margem.

O códice de Paris da Crónica da Guiné, fl. 139v: Zurara escreve que Aires Tinoco era «nado & criado ẽ Olivenca que he hũa villa do sertãao muy afastada do mar» (Bibliothèque nationale de France, Portugais 41, domínio público).
FIG. 05O códice de Paris da Crónica da Guiné, fl. 139v: Zurara escreve que Aires Tinoco era «nado & criado ẽ Olivenca que he hũa villa do sertãao muy afastada do mar» (Bibliothèque nationale de France, Portugais 41, domínio público).

As setas eram envenenadas. Os barcos perseguiram os batéis até à caravela, que estava fora do rio, no mar largo. Debaixo das setas não conseguiram levantar as âncoras: cortaram as amarras, e não lhes ficou nenhuma, e fizeram-se à vela, deixando os batéis para trás.

Pintura da caravela no mar alto, com os cinco que, segundo Zurara, a trabalharam até Portugal, e os dois escudeiros feridos (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 06Pintura da caravela no mar alto, com os cinco que, segundo Zurara, a trabalharam até Portugal, e os dois escudeiros feridos (figuras genéricas, não retratos).

Dos vinte e dois que tinham ido nos batéis, conta Zurara, só escaparam dois, André Dias e Álvaro da Costa, escudeiros do Infante, de Évora, e vinham feridos. O veneno era tal que bastava uma pequena ferida que fizesse sangue. Mais de vinte haviam de morrer daquelas feridas, contando dois que tinham ficado na caravela. Entre os mortos, Nuno Tristão, «muy desejoso desta vida», escreveu Zurara: custava-lhe deixá-la sem ter tido ocasião de a vender cara, como homem valente. E com ele João Correia, Duarte d'Olanda, Estêvão d'Almeida e Diogo Machado, fidalgos novos que o Infante criara na sua câmara, com outros escudeiros, homens de pé e marinheiros.

O códice de Paris da Crónica da Guiné, fl. 140r: «em todos aquelles dous meses nũca ouverõ nhũa vista de terra», escreve Zurara de Aires Tinoco e da caravela (Bibliothèque nationale de France, Portugais 41, domínio público).
FIG. 07O códice de Paris da Crónica da Guiné, fl. 140r: «em todos aquelles dous meses nũca ouverõ nhũa vista de terra», escreve Zurara de Aires Tinoco e da caravela (Bibliothèque nationale de France, Portugais 41, domínio público).

Os dois escudeiros de Évora estiveram perto da morte, e durante uns vinte dias não puderam ajudar em nada. A caravela ficou nas mãos de cinco. Zurara di-los um a um: um grumete pouco sabedor da arte de marear; um moço da câmara do Infante chamado Aires Tinoco, que ia por escrivão; um rapaz da Guiné, cativo das primeiras viagens; e dois moços muito pequenos, que viviam com alguns dos escudeiros que ali morreram.

Pintura do Cabo de Sines visto de terra, com a caravela e, ao lado, a fusta armada do corsário galego Pero Falcão, ao largo, como conta Zurara. A partir de uma fotografia real de Vanbasten 23 (CC BY-SA 3.0).
FIG. 08Pintura do Cabo de Sines visto de terra, com a caravela e, ao lado, a fusta armada do corsário galego Pero Falcão, ao largo, como conta Zurara. A partir de uma fotografia real de Vanbasten 23 (CC BY-SA 3.0).

Todos punham a esperança no grumete. E o grumete, conta Zurara, disse-lhes a verdade: não sabia rotear, nem fazer coisa que aproveitasse. Se alguém o encaminhasse, faria o que lhe mandassem.

O códice de Paris da Crónica da Guiné, fl. 140v: a caravela passa por Sines, «E assy chegarom a lagos», e mostram ao Infante «a multidom das frechas» (Bibliothèque nationale de France, Portugais 41, domínio público).
FIG. 09O códice de Paris da Crónica da Guiné, fl. 140v: a caravela passa por Sines, «E assy chegarom a lagos», e mostram ao Infante «a multidom das frechas» (Bibliothèque nationale de France, Portugais 41, domínio público).

Encaminhou-o o escrivão. Zurara escreve que Deus deu esforço e engenho a um «tam pequeno moço», nascido e criado em Olivença, vila do interior «muy afastada do mar». Aires Tinoco mandou ao grumete que seguisse direito ao norte, abaixando-se um pouco para o levante, ao vento a que se chama nordeste, porque era para ali que ele entendia que ficava o reino de Portugal. Um moço de uma vila do interior, com o capitão ferido de morte e sem ninguém a bordo que soubesse o caminho, a dar a um navio o rumo de casa.

Pintura da chegada a Lagos, com as setas postas diante do Infante, como conta Zurara (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 10Pintura da chegada a Lagos, com as setas postas diante do Infante, como conta Zurara (figuras genéricas, não retratos).

Nesse mesmo dia foram ver Nuno Tristão e os outros feridos, e acharam-nos mortos. Lançaram os corpos ao mar.

Depois vieram os dois meses. Aires Tinoco encaminhou o navio dois meses seguidos, sem que soubessem qual seria o fim, e em todos aqueles dois meses, escreve Zurara, «nunca ouverom nhũa vista de terra».

Ao fim deles avistaram uma fusta armada, e tiveram muito medo, porque pensaram que era de mouros. Era de um corsário galego, Pero Falcão. Com ela veio-lhes uma alegria nova, conta Zurara, e muito maior quando lhes disseram que estavam na costa de Portugal, à altura de Sines.

Chegaram a Lagos. O Infante estava na vila, e foram contar-lhe a viagem. Puseram-lhe diante, escreve Zurara, a multidão de setas com que os companheiros tinham morrido. O Infante teve grande desgosto, porque criara quase todos aqueles homens, e depois cuidou em especial das mulheres e dos filhos deles.

Assim o conta Zurara. Outra memória, contada décadas depois por quem andou naquela costa, dá a esta caravela outro fim.

Um século mais tarde, o historiador João de Barros, que seguiu Zurara, voltou a contar o caso. E escreveu que o mais maravilhoso dele era isto: cortadas as amarras, um moço da câmara do Infante e quatro moços governaram o navio dois meses e trouxeram-no a Lagos, sem que nenhum deles, diz Barros, tivesse saber para isso.

Fontes11 referências
  • Gomes Eanes de Zurara, Chronica do descobrimento e conquista de Guiné, ed. J. P. Aillaud, Paris, 1841, cap. LXXXVI e cólofon. archive.org
  • Gomes Eanes de Zurara, Crónica dos feitos da Guiné, manuscrito, Bibliothèque nationale de France, Portugais 41, ff. 137v a 140v (Wikimedia Commons, domínio público).
  • João de Barros, Da Ásia, Década I, liv. I, cap. XIV, ed. Lisboa, 1778. archive.org
  • Diogo Gomes, As relações do descobrimento da Guiné e das ilhas dos Açores, Madeira e Cabo Verde, versão do latim por Gabriel Pereira, Lisboa, 1899. archive.org
  • Teresa Lacerda, «André Dias» e «Álvaro Costa», Enciclopédia Virtual da Expansão Portuguesa, CHAM, 2009. eve.fcsh.unl.pt
  • «Antão Gonçalves», Enciclopédia Virtual da Expansão Portuguesa, CHAM. eve.fcsh.unl.pt
  • Vitorino Magalhães Godinho, «Fontes quatrocentistas para a geografia e economia do Saara e Guiné», Revista de História, São Paulo, 1953. revistas.usp.br
  • C. R. Beazley e E. Prestage, The Chronicle of the Discovery and Conquest of Guinea, vol. II, Hakluyt Society, 1899. gutenberg.org
  • Grazioso Benincasa, carta da costa ocidental de África, 1473, British Library, Egerton MS 2855, f. 7r (Wikimedia Commons, domínio público).
  • Virgínia de Castro e Almeida, História da façanha de Aires Tinoco e da triste morte de Nuno Tristão, Lisboa, 1940. purl.pt
  • «Nuno Tristão», Wikipédia. pt.wikipedia.org