Quatro antigos templários estavam no Convento de Tomar depois de a Ordem do Templo ter sido abolida em toda a Europa.
Chamavam-se Afonso Esteves, Vicente Martins, Estêvão Peres e Pero de Pena. Estavam a pedir dinheiro.
O papa mandara prendê-los. Escreveu duas vezes a D. Dinis. D. Dinis tomou-lhes os bens; de prisões, não há notícia.
Não se escondiam. Uma bula de 6 de maio de 1312 previra uma pensão para os antigos freires, tirada dos rendimentos dos bens da própria Ordem, e foi na década seguinte que eles a reclamaram, por escrito, aos Hospitalários da Coroa de Aragão.
Semanas antes daquela bula, a 22 de março de 1312, Clemente V decretara a abolição da Ordem do Templo, e os bens passavam para a Ordem do Hospital em toda a parte, exceto nos reinos de Portugal, Castela, Aragão e Maiorca. Em Portugal, D. Dinis mandou tomá-los para a Coroa: as vilas, os castelos, as terras, as rendas. Ficou com tudo, e ao fim de anos devolveu as vilas e os castelos.

O que não fez foi prender os homens: não há notícia de que se tenham feito prisões destes cavaleiros em Portugal. Os templários e os seus mestres tinham feito menagem e juramento aos reis de Portugal pelas coisas que tinham no reino: estavam dentro da estrutura de poder do rei, e é aí que a explicação está.
Estavam ali havia muito. A primeira doação é de 1128, antes de haver reino de Portugal: a condessa D. Teresa entregou-lhes o castelo de Soure, na fronteira entre os territórios cristão e muçulmano, a sul de Coimbra, que guardava a cidade e a estrada romana. Em 1147 combateram ao lado de D. Afonso Henriques em Santarém, a 15 de março, e em Lisboa, tomada a 25 de outubro. A 1 de março de 1160 começaram o castelo de Tomar, de raiz, para albergar a sede da ordem, e a torre de menagem que ali levantaram é, escreve o inventário do Estado, a mais antiga do país. O mestre em Portugal chamava-se Gualdim Pais. Onze anos depois, numa ilha rochosa do Tejo, ergueram Almourol.
O processo começou longe. A 13 de outubro de 1307, Filipe IV mandou prender os templários do seu reino. Em dezembro, Eduardo II de Inglaterra escreveu aos reis de Portugal, de Castela, da Sicília e de Aragão a expor reservas quanto às acusações: nelas, escreve o historiador que resume a carta, o monarca inglês entrevia «não o recto zelo da justiça, mas antes o maligno espírito da cupidez e da inveja».
As duas cartas do papa são de 1308: a primeira de Toulouse, em janeiro, a pedir a D. Dinis que fizesse em Portugal o que se fizera em França; a segunda em dezembro, aos três reis peninsulares ao mesmo tempo, a lamentar que, um ano depois, as suas determinações não tivessem sido seguidas.

A 4 de fevereiro de 1308, a chancelaria régia registou a posição do rei. O mestre e os comendadores de Pombal e de Soure tinham-se ido dos seus reinos «com medo daquela em que os aculpavam», e ele já lhes tomara tudo o que ali possuíam; por isso mesmo, não os podia julgar por revéis de direito. Que o feito ficasse como estava, até que passassem pelo seu direito perante o papa.
Ficou assim menos de dois anos. A 27 de novembro de 1309, uma comissão de cinco homens do rei entregou-lhe Soure, Pombal, Ega e Redinha por sentença. Os freires contestaram a própria instituição da comissão, por não a acharem imparcial. A comissão ignorou-os.
Em abril de 1314, com a ordem abolida havia dois anos, o rei mandou inquirir em Soure, Castelo Branco, Montalvão e Nisa: vinte e cinco artigos, conduzidos por João Pais de Soure, sobre os bens, sobre a dependência deles face à Coroa e sobre as pessoas dos cavaleiros. Era o ano em que, em Coimbra, a mulher do rei se empenhava na refundação do mosteiro de Santa Clara.
O que os artigos descrevem é um arranjo. Nenhum mestre entrava no reino para o ser senão por mandado do rei, nem o era senão por vontade dele. E as rendas das terras não podiam sair para o mestre de além-mar sem licença, «ca diziam os reys de Portugal que queriam que as dictas rendas e averes se despendessem na sa terra».

Uma testemunha, o cavaleiro Duram Canelas, ouvido em Coimbra, repetiu o que os freires diziam ao rei quando ele lhes tomava uma vila ou um castelo: «Senhor, vosso he quanto nos avemos, ca vos e vossos avoos no-lo destes, e em vos he de no-lo dardes ou de no-lo filhardes. Ca de vossa mão teemos nos todo e por vosso o teemos.» Aquele inquérito era do rei, lavrado pelos oficiais do rei, e o que ficou nas atas é, escreve o historiador que as editou, «bastante favorável ao legado templário».
Entre os ouvidos havia antigos freires professos. Um deles era André Gonçalves de Pombal, que estivera em Acre em 1291, quando a fortaleza caiu. Tinha estado em Acre quando a fortaleza caiu, e depunha agora num inquérito régio, numa vila portuguesa, sobre rendas e direitos de umas terras.
A 14 de março de 1319, em Avinhão, o papa João XXII instituiu uma milícia a pedido de D. Dinis. Sede em Castro Marim. Regra de Calatrava. Primeiro mestre, Gil Martins, que fora mestre de Avis. E, entregues à casa nova, os bens do Templo: Castelo Branco, Longroiva, Almourol, Tomar. O abade de Alcobaça receberia do mestre eleito, diante do rei, o juramento de fidelidade ao papa.
Nos papéis da fundação, a coisa criada é sempre nova. O tabelião de Santarém, ao lavrar a versão portuguesa da bula no ano seguinte, traduz o conceito por «noua caualaria». A bula escreve novi ordinis, novam Christi miliciam. E a ordenação que o próprio primeiro mestre promulgou em 1321 diz que a Ordem era «feyta nouamente».

A 24 de junho de 1319, dia de São João, em Lisboa, o rei assinou outro papel. Devolvia dez vilas, castelos e lugares, Soure e Pombal e as duas Idanhas entre eles. Escreveu que, ao tempo em que as sentenças saíram, o mestre e os freires «non poderão seguir esta demanda, nem mostrar ho seu direito». E que entendia não ter direito naqueles lugares.
E ali a ordem criada em março não é nova. É a que «se fez em reformação daquela que se desfez que foy do Tempre».
Mandou-a selar com o selo de chumbo. A última linha é «Eu elRey dom Dinis soescrevi aqui».
Isso não quer dizer que os homens tenham passado de uma casa para a outra em bloco. A Ordem de Cristo, escreve Saul Gomes, «plausivelmente» terá visto reingressar nos seus claustros antigos cavaleiros templários; a ficha do inventário do Estado afirma-o sem hesitar. Quantos entraram não está estabelecido: é, escreve o mesmo historiador, «uma matéria a necessitar de ulterior investigação». E o último mestre, Vasco Fernandes, nem estava no reino quando a Ordem foi extinta: andava por Castela, e foi Fernando IV de Castela quem o mandou prender.

O que existe, e é pouco e é firme, são quatro nomes num pedido de pensão, e o documento regista onde estavam. Quatro nomes não são uma ordem. Mas são o que o registo tem.
A casa ficou. A sede da ordem nova passaria para Tomar décadas mais tarde, ainda no século XIV, e ali está a Charola, de planta redonda, com o Santo Sepulcro de Jerusalém por modelo, um dos raros templos em rotunda da Europa medieval. A entrada era virada a nascente até que as obras de D. Manuel I abriram a nova entrada a sul.
A ordem, essa, voltou a ser extinta. Em 1910, a República extinguiu algumas das ordens vigentes sob o regime deposto. Em 1918, no final da Guerra Mundial, a mesma República restabeleceu a Ordem Militar de Cristo como ordem honorífica, e entregou a função de Grão-Mestre ao Presidente.
A 18 de novembro de 1319, no paço régio de Santarém, o primeiro mestre da ordem nova recebeu das mãos do prior de Alcobaça os Evangelhos e jurou. A bula tinha determinado que o fizesse na presença do rei, e foi ali, diante dele, que o fez.
O mestre era outro. A ordem tinha outro nome. O juramento fez-se diante do mesmo rei.
Fontes7 referências
- GOMES, Saul António, «A Extinção da Ordem do Templo em Portugal», Revista de História da Sociedade e da Cultura, n.º 11 (2011), pp. 75-116. Universidade de Coimbra / CHSC. Inclui a edição integral da inquirição de 1314 de João Pais de Soure (Torre do Tombo, Gaveta VII, mç. 2, doc. 4; Leitura Nova, Livro de Mestrados, fls. 143v-150). Publicado sob licença Creative Commons Atribuição 4.0.
- ROSSI VAIRO, Giulia, «A extinção da Ordem do Templo e a criação da Ordem de Cristo à luz das fontes arquivísticas», Cadernos de Estudos Leirienses, n.º 15 (2017), pp. 35-57. Instituto de Estudos Medievais, NOVA/FCSH. Inclui a transcrição integral da carta de restituição de D. Dinis de 24 de junho de 1319 (Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Ordem de Cristo-Convento de Tomar, mss. 234/2, fl. 136r-136v).
- DGPC / SIPA, Os Castelos da Ordem do Templo em Portugal, estudo temático do Inventário do Património Arquitetónico.
- MUSEUS E MONUMENTOS DE PORTUGAL, E.P.E., Convento de Cristo.
- UNESCO, World Heritage List, Convent of Christ in Tomar (n.º 265).
- CHANCELARIA DAS ORDENS HONORÍFICAS PORTUGUESAS, Presidência da República, «Antigas Ordens Militares» e «Ordem Militar de Cristo».
- FERNANDES, Fabiano, e MARCHINI NETO, Dirceu, «As inquirições gerais no reinado de D. Afonso IV e a intervenção régia nas comendas de Soure e Pombal da Ordem de Cristo em 1335», História Revista, vol. 30, n.º 1 (2025), pp. 312-331. Universidade Federal de Goiás.
