Descobrimentos · episódio 14

Em Santarém há um túmulo gótico que, segundo um frade de 1656, guardava apenas um dente. Em cima está deitado um cavaleiro de pedra, armado, de espada na mão, numa igreja que hoje é museu. O frade, que foi guardião do convento onde o túmulo então estava, escreveu sobre ele: «não diremos sepulchro, porque não encerra dentro senão sómente um dente que sua mulher nas despedidas guardou».

O túmulo de D. Duarte de Meneses desenhado por Bordallo para o Archivo Pittoresco em 1860, quando ainda estava no extinto Convento de São Francisco de Santarém: o arcossólio gótico, o jacente armado de espada erguida e, por baixo, o letreiro e os brasões (Archivo Pittoresco, t. III, Internet Archive, domínio público).
FIG. 02O túmulo de D. Duarte de Meneses desenhado por Bordallo para o Archivo Pittoresco em 1860, quando ainda estava no extinto Convento de São Francisco de Santarém: o arcossólio gótico, o jacente armado de espada erguida e, por baixo, o letreiro e os brasões (Archivo Pittoresco, t. III, Internet Archive, domínio público).

Um túmulo inteiro para um dente. Para chegar aí, é preciso ir a uma serra do Norte de Marrocos, num janeiro em que um corpo ficou para trás.

A frase de um frade de 1656, tal como o Archivo Pittoresco a imprimiu em 1860: «não encerra dentro senão sómente um dente que sua mulher nas despedidas guardou» (Archivo Pittoresco, t. III, p. 106, Internet Archive, domínio público).
FIG. 03A frase de um frade de 1656, tal como o Archivo Pittoresco a imprimiu em 1860: «não encerra dentro senão sómente um dente que sua mulher nas despedidas guardou» (Archivo Pittoresco, t. III, p. 106, Internet Archive, domínio público).

O cavaleiro é D. Duarte de Meneses, conde de Viana e primeiro capitão de Alcácer Ceguer, a vila da costa marroquina que D. Afonso V tomou em 1458 e que hoje se chama Ksar es-Seghir. Morreu em janeiro de 1464, perto dos cinquenta anos, a cobrir a retirada do rei.

D. Duarte de Meneses numa gravura de 1817, retrato imaginado, não feito do natural (desenho de Cunha, gravura de Fontes, «Retratos e elogios dos varões e donas que illustraram a nação portugueza»; Wikimedia Commons, domínio público).
FIG. 04D. Duarte de Meneses numa gravura de 1817, retrato imaginado, não feito do natural (desenho de Cunha, gravura de Fontes, «Retratos e elogios dos varões e donas que illustraram a nação portugueza»; Wikimedia Commons, domínio público).

Era filho natural de D. Pedro de Meneses, o mesmo fidalgo que esteve na tomada de Ceuta em 1415 e ficou depois a governar a cidade. O rapaz cresceu lá. Em criança, diz o cronista, não falava «senom em cauallos e armas», e o pai desviou-o da carreira da Igreja para a das armas.

Pintura do desembarque de D. Isabel de Castro em Alcácer Ceguer a 2 de julho de 1459, no dia em que começava o segundo cerco: os fidalgos levam-na a pé até às portas da couraça enquanto o marido, a cavalo, faz frente na praia, como conta Rui de Pina (evocação, não vista do lugar; figuras genéricas, não retratos).
FIG. 05Pintura do desembarque de D. Isabel de Castro em Alcácer Ceguer a 2 de julho de 1459, no dia em que começava o segundo cerco: os fidalgos levam-na a pé até às portas da couraça enquanto o marido, a cavalo, faz frente na praia, como conta Rui de Pina (evocação, não vista do lugar; figuras genéricas, não retratos).

Em Alcácer, D. Duarte aguentou dois cercos do rei de Fez. Nas contas do próprio rei, escritas na carta em que o fez conde, a vila foi combatida com mais de três mil pedras de bombarda; o capitão saiu muitas vezes a pelejar fora dos muros e ficou ferido no rosto logo no primeiro cerco.

Pintura da serra de Benacofu, em janeiro de 1464: o cunhado, o conde de Monsanto, tenta pôr D. Duarte de Meneses noutro cavalo, mas o loro do estribo é mais comprido do que as suas pernas curtas pediam, como conta Zurara (evocação a partir da gravura de 1817, não retrato).
FIG. 06Pintura da serra de Benacofu, em janeiro de 1464: o cunhado, o conde de Monsanto, tenta pôr D. Duarte de Meneses noutro cavalo, mas o loro do estribo é mais comprido do que as suas pernas curtas pediam, como conta Zurara (evocação a partir da gravura de 1817, não retrato).

O segundo começou a 2 de julho de 1459, e nesse mesmo dia chegou ao porto, de navio, a mulher, D. Isabel de Castro. Rui de Pina conta o desembarque: o marido andou a cavalo pela praia, com gente armada, a fazer frente aos mouros, até que muitos fidalgos a pé a meteram, segura, pelas portas da couraça. Durante o cerco, os feridos e os doentes passaram pelas mãos dela. O cerco levantou-se a 24 de agosto de 1459.

A morte do conde na crónica de Zurara, aqui na edição impressa pela Academia Real das Sciencias: «cujo loro era mais comprido que as suas pernas requeriaõ» e «Senhor irmaõ, […] salvay vossa vida» (Collecção de livros inéditos de historia portugueza, t. III, p. 367; Internet Archive, domínio público).
FIG. 07A morte do conde na crónica de Zurara, aqui na edição impressa pela Academia Real das Sciencias: «cujo loro era mais comprido que as suas pernas requeriaõ» e «Senhor irmaõ, […] salvay vossa vida» (Collecção de livros inéditos de historia portugueza, t. III, p. 367; Internet Archive, domínio público).

Em janeiro de 1464, D. Afonso V foi fazer uma correria à serra de Benacofu, e os homens da serra apertaram-no. Zurara conta a ordem que o rei deu ao capitão: «ficai com estes Mouros porque lhe conheces as manhas, e acaudelai esta gente». D. Duarte respondeu que ali não tinha nenhum dos seus, mas que dava por bem empregado tudo o que lhe acontecesse.

Pintura de D. Isabel de Castro de luto, numa igreja de Alcácer: ao receber a notícia, escreve Zurara, recolheu os filhos, os criados e as criadas e foi visitar mosteiros e igrejas (figura genérica, não retrato).
FIG. 08Pintura de D. Isabel de Castro de luto, numa igreja de Alcácer: ao receber a notícia, escreve Zurara, recolheu os filhos, os criados e as criadas e foi visitar mosteiros e igrejas (figura genérica, não retrato).

Mataram-lhe o cavalo. O cunhado, o conde de Monsanto, quis pô-lo noutro, mas D. Duarte tinha as pernas curtas e o loro do estribo era mais comprido do que elas pediam. O cavalo atirou-o ao chão. Ao cunhado disse apenas: «salvay vossa vida, pois já na minha senaõ pode poer remedio».

Pintura do túmulo de D. Duarte de Meneses a partir da gravura de Bordallo de 1860, com o painel da frente ainda liso, antes do letreiro pintado no princípio do século XIX, e uma mulher de luto ajoelhada aos pés (figura genérica, não retrato).
FIG. 09Pintura do túmulo de D. Duarte de Meneses a partir da gravura de Bordallo de 1860, com o painel da frente ainda liso, antes do letreiro pintado no princípio do século XIX, e uma mulher de luto ajoelhada aos pés (figura genérica, não retrato).

Rui de Pina escreve que os mouros «leixaram alli seu corpo sem vida». O corpo ficou na serra. Logo depois, o rei fez conde o filho, D. Henrique de Meneses, e disse-lhe, segundo Zurara, que o pai «morreo por salvar minha vida».

Santarém vista do Tejo, numa gravura colorida publicada na imprensa inglesa em 1846, com soldados desse ano na margem (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).
FIG. 10Santarém vista do Tejo, numa gravura colorida publicada na imprensa inglesa em 1846, com soldados desse ano na margem (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).

A crónica do conde foi escrita entre 1464 e 1468 por Gomes Eanes de Zurara, o mesmo cronista a quem D. Afonso V mandara fazer a crónica das viagens da Guiné, e que foi ao Norte de África ouvir as gentes e ver a terra. Acaba em Alcácer, com a condessa a receber a notícia. A dor dela, escreve Zurara, foi tão grande «como cada hum em si pode cuidar». Mas ela, acrescenta, atendeu mais «aa verdade do que lhe compria fazer» do que às «mostranças de fora»: recolheu os filhos, os criados e as criadas, e foi visitar mosteiros e igrejas.

Nem a crónica de Zurara nem a de Rui de Pina, tal como chegaram até nós, falam de dente, de corpo recuperado ou de túmulo.

A mais antiga menção escrita do dente que encontrámos está num livro de 1627: uma vida do conde, em castelhano, que Agostinho Manuel de Vasconcelos escreveu para um descendente dele. Ali se lê que do corpo «se alcançó solamente un diente, que ella tenia guardado», e que foi depois levado para Santarém, para o Convento de São Francisco.

Em 1656, o frade acrescenta um pormenor: o dente fora guardado «nas despedidas». E em 1852, um visitante de Santarém anotou em inglês uma terceira versão, a de um dente que o conde mandara tirar antes de partir para a guerra.

Guardado por ela, guardado nas despedidas, tirado antes da guerra. Três versões, nenhuma do século XV. O que chegou até hoje é uma história que se foi contando de livro em livro, e que o turismo oficial apresenta com um «conta-se que».

O túmulo, esse, é bem real. Segundo o historiador António Martins Costa, foi a viúva quem o mandou fazer, para a capela dos Meneses no Convento de São Francisco: obra gótica do século XV, pedra lavrada, baldaquino, o jacente armado de espada, na linguagem dos túmulos da Batalha. Em 1860, o convento, já extinto, servia de quartel, e o túmulo ainda lá estava. Mais tarde saiu para a igreja de São João de Alporão, monumento nacional desde 1910, onde hoje se vê. Em 1656, segundo o mesmo frade, não tinha elogios escritos, «nem fallam as pedras mudas», e D. Isabel de Castro estava sepultada aos pés do marido, debaixo de uma pedra que só pelo brasão dizia quem era.

O cronista que contou a morte elogiou a condessa por atender mais à verdade do que às mostranças de fora. O túmulo que lhe levantaram é todo de fora: pedra trabalhada, baldaquino, uma espada na mão. A verdade, conta-se, ficou lá dentro, e cabe numa mão fechada: o que ela guardou na despedida.

Fontes14 referências
  • Gomes Eanes de Zurara, Chronica do Conde D. Duarte de Menezes, em Collecção de livros inéditos de historia portugueza, t. III, Lisboa, Academia Real das Sciencias (archive.org).
  • Gomes Eanes de Zurara, Chronica do Conde Dom Duarte de Meneses, cópia manuscrita do século XVII (Biblioteca Nacional Digital).
  • Gomes Eanes de Zurara, Chronica do descobrimento e conquista de Guiné, Paris, J. P. Aillaud (archive.org).
  • Rui de Pina, Chronica de el-rei D. Affonso V, vols. II e III (Project Gutenberg, a partir das imagens da Biblioteca Nacional de Portugal).
  • Agostinho Manuel de Vasconcelos, Vida de Don Duarte de Meneses, tercero Conde de Viana, Lisboa, Pedro Craesbeeck, 1627 (Project Gutenberg).
  • Archivo Pittoresco, t. III, 1860, n.os 14 e 15, com a gravura do túmulo desenhada por Bordallo e a transcrição de Frei Manuel da Esperança, Historia Seraphica, 1656 (archive.org; gravura em Wikimedia Commons, domínio público).
  • F. F. de la F., Notes taken during a trip to Santarem, Batalha and Alcobaça, 1852 (Biblioteca Nacional Digital).
  • António Martins Costa, «D. Duarte de Meneses: o sangue e as armas no final da Idade Média», e-Stratégica, n.º 2.
  • Maria M. B. de Magalhães Ramalho, «"Memórias sepulcrais" do Convento de S. Francisco de Santarém», Revista Portuguesa de Arqueologia.
  • Património Cultural, ficha «Igreja de São João de Alporão».
  • Visit Portugal, «Cenotáfio de D. Duarte de Menezes» e «Igreja da Graça».
  • Santarém Cultura, «Igreja Nossa Senhora da Graça».
  • Placido Zurla, Il mappamondo di Fra Mauro camaldolese descritto ed illustrato, Veneza (archive.org); Museo Galileo, Fra Mauro's world map (exposição digital).
  • Wikipedia, «Duarte de Meneses, Conde de Viana», «Convento de São Francisco (Santarém)», «Igreja de São João de Alporão», «Igreja da Graça (Santarém)».