Houve em Coimbra uma igreja onde se entrava pela janela. Lá dentro, o rés-do-chão era uma cisterna: água parada entre colunas góticas, do portal à capela-mor. E por cima da água, assente num andar construído dentro do próprio templo, continuava a haver vida, missa, refeitório, clausura. Durante gerações, foi assim que Coimbra teve uma das suas casas religiosas mais ilustres: a funcionar no primeiro andar de si mesma.

A casa era o Mosteiro de Santa Clara, na margem esquerda do Mondego, mesmo em frente da cidade. O rio explica tudo, e explica-o nos dois sentidos: como contam os arqueólogos do sítio, foi a água que ali pôs o mosteiro, porque o Mondego era a fonte de abastecimento e a estrada por onde chegavam as mercadorias; e foi a água que nunca mais o largou. Esta é a história de uma casa que, durante mais de três séculos, só conheceu uma resposta: subir.

A Rainha Santa Isabel e a refundação de 1314

Começou por ser um projeto atribulado: fundado por D. Mor Dias, dama de Coimbra, com licença de 1283, o convento consumiu-se na disputa do seu património com os cónegos de Santa Cruz e extinguiu-se em 1311. Foi a rainha D. Isabel de Aragão, mulher de D. Dinis, quem o refundou em 1314 e lhe dedicou, daí em diante, tempo e fortuna. A obra ficou a cargo do mestre Domingos Domingues, o mesmo que trabalhara no claustro de Alcobaça, e ficou depois a cargo de Estêvão Domingues.

Ficaram séculos sobre a água, de vigília ao túmulo da refundadora, a Rainha Santa Isabel, canonizada em 1625. Pintura. evocação de uma clarissa do período, não retrato.
FIG. 02Ficaram séculos sobre a água, de vigília ao túmulo da refundadora, a Rainha Santa Isabel, canonizada em 1625. Pintura. evocação de uma clarissa do período, não retrato.

O resultado foi um edifício fora de série: três naves de igual altura, abobadadas em pedra, coisa rara nas ordens mendicantes, duas rosáceas a iluminar o interior e o maior claustro gótico que se conhece em Portugal. A igreja foi sagrada em 1330. No ano seguinte, o Mondego entrou-lhe pela porta.

A cheia que cobriu o túmulo da rainha

A rainha ainda estava viva. D. Isabel, viúva desde 1325, recolhida junto ao mosteiro, tinha a sua arca tumular ao fundo da igreja; conta a arqueóloga Catarina Leal que a rainha a viu ficar coberta de água numa cheia e mandou construir um piso novo, mais alto, onde o túmulo ficasse em segurança. A primeira pessoa a fugir da água, dentro daquela igreja, foi uma rainha, e fugiu com o próprio túmulo. Morreu em Estremoz em 1336 e foi sepultada no mosteiro, como pedira no testamento.

Conta a arqueóloga do sítio que a rainha viu a própria arca tumular coberta de água numa cheia e mandou construir um piso mais alto para a pôr a salvo. Pintura. evocação, não retrato.
FIG. 03Conta a arqueóloga do sítio que a rainha viu a própria arca tumular coberta de água numa cheia e mandou construir um piso mais alto para a pôr a salvo. Pintura. evocação, não retrato.

O andar construído dentro da própria igreja

O que a rainha fez ao túmulo, o mosteiro inteiro passou séculos a fazer a si mesmo. A cada cheia respondia-se com um alteamento do piso térreo: o chão da igreja foi subindo, palmo a palmo, como subia o lodo lá fora. Até que as contas deixaram de fechar. No início do século XVII, as freiras viram-se forçadas a uma solução sem paralelo: construíram um andar corrido ao longo do templo, abandonaram o piso de baixo à água e mudaram a clausura para cima. O mesmo se fez nas outras dependências.

Segundo os arqueólogos do sítio, a configuração final era esta: a nave de baixo transformada em cisterna, a vida toda em pisos estendidos sobre arcos, os fiéis a entrar na igreja por uma janela e as religiosas por uma porta de madeira, ligada a um corredor construído sobre as abóbadas da galeria do claustro. Uma igreja dentro da igreja, por cima da água.

Na configuração final, segundo os arqueólogos, o piso térreo era uma cisterna e os fiéis entravam na igreja por uma janela. Pintura. evocação, não registo.
FIG. 04Na configuração final, segundo os arqueólogos, o piso térreo era uma cisterna e os fiéis entravam na igreja por uma janela. Pintura. evocação, não registo.

Porquê ficar? Havia uma razão com nome. No piso de baixo, entretanto alagado, estava sepultada a refundadora, beatificada em 1516 e canonizada pelo papa Urbano VIII em 1625: a Rainha Santa Isabel, padroeira de Coimbra. «Era o espaço que nasceu da mão dela e que ela escolheu para a acolher depois da morte», resume Catarina Leal. As clarissas viviam num andar suspenso sobre a água, de vigília ao túmulo de uma rainha santa.

A mudança para Santa Clara-a-Nova em 1677

Foi preciso a Coroa dar-se por vencida primeiro. Em 1649 começaram, no alto do vizinho Monte da Esperança, as obras de um mosteiro novo, Santa Clara-a-Nova, com projeto de João Turriano, frade beneditino e engenheiro-mor do reino, e o patrocínio de D. João IV. Em 1677, a comunidade abandonou definitivamente a casa velha; mas a ordem dos acontecimentos é que conta. A 27 de outubro de 1677, o corpo da Rainha Santa foi trasladado do túmulo de pedra onde jazia desde 1336 e levado encosta acima; só depois partiram as freiras. A resposta de sempre, subir, chegava à conclusão lógica: desta vez subiu a comunidade inteira, com a rainha à frente. A igreja nova seria sagrada em 1696.

Entre 1995 e 2000, com bombagem constante das águas, a escavação devolveu à luz o que o lodo guardara: porcelanas, rosários, anéis. Pintura. evocação, não registo.
FIG. 05Entre 1995 e 2000, com bombagem constante das águas, a escavação devolveu à luz o que o lodo guardara: porcelanas, rosários, anéis. Pintura. evocação, não registo.

A casa velha ficou entregue ao rio, e o rio foi minucioso. O mosteiro e a cerca passaram a exploração agrícola; a parte de cima do templo serviu de habitação, de palheiro e de curral. Os sedimentos foram subindo até deixar à vista pouco mais do que o topo da igreja, e aquilo a que a DGPC chama «a imagem de uma ruína romântica» instalou-se durante gerações: um telhado gótico a sair de um campo, do outro lado do rio. Foi classificada como Monumento Nacional em 1910, teve restauros do Estado a partir dos anos trinta, e continuou à mercê das águas.

A escavação do mosteiro submerso (1995-2000)

A resposta contrária começou em 1991, com um projeto de recuperação coordenado pelo arqueólogo Artur Côrte-Real. Entre 1995 e 2000, uma vasta campanha arqueológica, condicionada por uma bombagem constante das águas, pôs a descoberto o que o lodo guardava: a parte de baixo da igreja e o claustro, o tal maior claustro gótico do país, outra vez à luz do dia, mantido em seco atrás de uma cortina periférica de contenção.

As ruínas hoje: o portal, a rosácea e o piso escavado abaixo do nível do rio, protegido por uma cortina de contenção. Pintura a partir de fotografia real do monumento, de José Luis Filpo Cabana (Wikimedia Commons, CC BY 3.0).
FIG. 06As ruínas hoje: o portal, a rosácea e o piso escavado abaixo do nível do rio, protegido por uma cortina de contenção. Pintura a partir de fotografia real do monumento, de José Luis Filpo Cabana (Wikimedia Commons, CC BY 3.0).

E do lodo saiu o mundo de cima, caído lá para baixo e conservado: porcelanas raras, faianças, vidros de fino recorte, rosários, anéis, brincos. Saiu também, conta a coordenadora Manuela Fonseca, o esqueleto de um jovem com esporas de ouro, provavelmente um militar. Ninguém sabe, até hoje, quem era.

Visitar o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha hoje

O sítio abriu ao público em 2009, já com um centro interpretativo. O rio não se deu por vencido: em janeiro e fevereiro de 2016 voltou a inundar tudo, e o mosteiro só reabriu em 2023, depois de novas obras. A equipa não alimenta ilusões, porque o monumento está numa cota inferior à do rio e as bombas trabalham em permanência. «Se houver uma cheia no rio, não temos como a evitar», diz Manuela Fonseca.

Durante mais de três séculos, tudo nesta história subiu: o chão, o túmulo, as freiras, o mosteiro inteiro pela encosta acima. Descer é um privilégio inteiramente nosso. Quem hoje visita Santa Clara-a-Velha desce até às lajes que a rainha conheceu e fica ali, em seco, com as rosáceas por cima e o Mondego a correr mais alto do que a cabeça. E entra, finalmente, pela porta.