Uma liteira fechada, depois de Almeirim

Numa liteira fechada, perto da Chamusca, uma jovem de vinte e dois anos chora sozinha. Tem nas mãos as cartas do irmão. Despediu-se dele há dois dias. Só um homem a vê chorar assim.

Chama-se Isabel de Portugal. Vai a caminho da fronteira, para casar com Carlos V, rei de Espanha e imperador do Sacro Império, o homem sobre cujos domínios se dizia que o sol nunca se punha. Nunca mais volta a Portugal.

O episódio sobreviveu por acaso. Não é um poema, nem um diário. É um relatório de Estado, escrito para dar conta de uma entrega, e que guardou, sem se dar conta, o único momento documentado da viagem em que a infanta não estava a representar nenhum papel.

Uma infanta prometida por testamento

Tudo começara anos antes, e por escrito.

D. Manuel I, rei de Portugal e pai de Isabel, morreu em Lisboa a 13 de dezembro de 1521, sem ver o casamento da filha concluído. Deixara, porém, o desejo registado: que Isabel casasse com o primo, Carlos de Habsburgo, rei de Espanha e já eleito imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Coube ao filho e sucessor, D. João III, levar adiante o que o pai deixara encaminhado.

Elvas, a última grande vila portuguesa antes da fronteira: as suas fortificações, Património Mundial da UNESCO desde 2012, guardam ainda hoje a memória da passagem da comitiva, em fevereiro de 1526. Pintura a partir de fotografia real de um baluarte de Elvas, de Alessandro Bonvini (Wikimedia Commons, CC BY 2.0).
FIG. 02Elvas, a última grande vila portuguesa antes da fronteira: as suas fortificações, Património Mundial da UNESCO desde 2012, guardam ainda hoje a memória da passagem da comitiva, em fevereiro de 1526. Pintura a partir de fotografia real de um baluarte de Elvas, de Alessandro Bonvini (Wikimedia Commons, CC BY 2.0).

No outono de 1525 (as fontes divergem sobre o dia exato de outubro), fechou-se em Torres Novas o contrato matrimonial. O dote acordado foi de novecentos mil cruzados portugueses, uma soma capaz de sustentar exércitos inteiros: e sustentaria, de facto, parte das campanhas que Carlos V travava então contra França. Não é um pormenor lateral. É a razão prática, ao lado da dinástica, que tornava aquele casamento urgente para os dois lados.

O contrato não é, por si só, indecoroso nem incomum: era assim que se fechavam alianças entre coroas no século XVI, e Isabel não é a única infanta da época cuja mão selou um tratado. O que distingue a sua história não é o contrato. É o que aconteceu depois, numa liteira, longe dos notários.

O casamento sem noivo

A 1 de novembro de 1525, no Paço Real de Almeirim, Isabel casou por procuração com Carlos V. O noivo nem estava presente: foi um representante quem disse o sim por ele, diante da corte reunida.

O Paço Real de Almeirim, hoje quase esquecido, era então um dos grandes palácios da coroa portuguesa. Erguido a partir de 1411 por ordem de D. João I, primeiro rei da dinastia de Avis, foi ampliado no século XVI por D. Manuel I até se tornar um complexo com cerca de cem metros de largura: paços, capela real, cavalariças, hortas e jardins de recreio, entre eles um labirinto acrescentado já no século seguinte. A proximidade ao Tejo, a facilidade de acesso a Lisboa e a riqueza dos campos de caça fizeram dele o refúgio de inverno preferido dos reis de Avis, tal como o vizinho Paço de Salvaterra de Magos. Ganhou por isso a alcunha de «a Sintra de Inverno», em eco ao palácio de verão na serra. D. Manuel I passou ali, nalguns anos, meses inteiros: quase o ano inteiro de 1510, parte de 1513, o Natal de 1514, os meses entre outubro de 1515 e maio de 1516. O filho, D. João III, manteve o hábito.

Um dos ornamentos do Paço tornou-se, com o tempo, mais conhecido do que o próprio edifício: um fogão de sala em mármore, obra atribuída a Miguel Ângelo, oferecido pelo papa Leão X a D. Manuel I em 1515. Sobreviveu à ruína do palácio e está hoje instalado na Sala das Pegas do Palácio Nacional de Sintra, o único fragmento do Paço de Almeirim que qualquer visitante ainda pode ver com os próprios olhos.

A 1 de novembro de 1525, no Paço Real de Almeirim, Isabel casou por procuração com Carlos V. O noivo nem estava presente: foi um representante quem disse o sim por ele. Pintura. evocação, não retrato.
FIG. 03A 1 de novembro de 1525, no Paço Real de Almeirim, Isabel casou por procuração com Carlos V. O noivo nem estava presente: foi um representante quem disse o sim por ele. Pintura. evocação, não retrato.

A partida

A 30 de janeiro de 1526, partiu do Paço Real de Almeirim a comitiva que levaria Isabel até à raia: fidalgos, damas, carros, uma corte inteira em marcha, com paragens cerimoniais marcadas em cada vila do trajeto. O papel que lhe cabia, a cada paragem, era o de infanta que se torna imperatriz diante de todos. E representou-o.

Foi só dois dias depois, longe dos olhares da corte, que representou outra coisa.

As lágrimas na liteira

Quem conta o episódio é o marquês de Vila Real, D. Pedro de Meneses, o fidalgo a quem D. João III confiara a tarefa de escoltar a irmã até à fronteira e de zelar por ela até à entrega formal ao marido. Ao longo da viagem, D. Pedro foi escrevendo cartas ao rei, dando conta do andamento da comitiva e do estado da infanta. Essas cartas, publicadas séculos depois pelo historiador Anselmo Braamcamp Freire em Ida da Imperatriz D. Isabel para Castela (1920), registam, perto da Chamusca, o que o marquês viu naquela liteira: as lágrimas que Isabel não conseguiu conter enquanto relia, uma e outra vez, as cartas que o irmão lhe escrevera antes da despedida.

Uma segunda passagem do mesmo corpo de cartas, citada pela historiadora Manuela Gonzaga a partir do exemplar de Braamcamp Freire que possui, mostra que o registo do marquês não se ficou por um único tom: «No recato da sua liteira e a sós com o circunspecto Pedro Menezes, dona Isabel mostra-se ao mesmo tempo alegre e comovida. É o próprio marquês que informa João III, já de Badajoz.» Alegre e comovida ao mesmo tempo: nem só lágrimas, nem só resignação. Uma jovem a sentir, em simultâneo, o peso da despedida e a excitação do que vinha a seguir.

A 30 de janeiro de 1526, partiu do Paço Real de Almeirim a comitiva que levaria Isabel até à fronteira. Nunca mais voltaria a Portugal. Pintura. evocação, não retrato.
FIG. 04A 30 de janeiro de 1526, partiu do Paço Real de Almeirim a comitiva que levaria Isabel até à fronteira. Nunca mais voltaria a Portugal. Pintura. evocação, não retrato.

Uma nota de honestidade. Nem o livro de Braamcamp Freire, nem as cartas originais do marquês de Vila Real, foram lidos por nós em texto corrido: o volume de 1920, uma separata de 140 páginas da Academia das Ciências de Lisboa, não se encontra digitalizado em acesso público. O episódio chega até este texto através da descrição pormenorizada e citada de Manuela Gonzaga, historiadora e escritora que possui o exemplar e publicou, ela própria, uma biografia da imperatriz. O corpo de correspondência do marquês de Vila Real a D. João III sobre esta mesma viagem está, de resto, catalogado numa universidade portuguesa (Repositório da Universidade NOVA de Lisboa), o que confirma que a fonte é real e arquivística, mesmo que não tenhamos localizado uma versão digitalizada da carta específica sobre a Chamusca.

O que ali aconteceu não é mistério: um relatório escrito para documentar uma entrega diplomática guardou, sem intenção, o único retrato que temos de Isabel fora do palco.

Sete dias de fronteira

A comitiva seguiu viagem. Passou por Ponte de Sor e por Alter do Chão, terras da margem esquerda do Tejo onde a paisagem se abre para as planícies do Alentejo, e por Monforte, já próxima da linha histórica de defesa da fronteira. A 4 de fevereiro chegou a Monforte; no dia seguinte, a 5 de fevereiro, a Elvas, a última grande vila portuguesa antes da raia.

Elvas não era uma paragem qualquer. Era, havia séculos, a praça forte que guardava esta fronteira: um sistema de muralhas e baluartes construído e reconstruído ao longo de gerações, pensado precisamente para o que a cidade fazia naquela semana, receber quem partia e quem chegava no ponto mais vigiado do reino.

A entrega no Caia

A 7 de fevereiro de 1526, junto à ponte sobre o rio Caia, a poucos quilómetros de Elvas, cumpriu-se o ato que fechava a viagem em solo português: a entrega formal da infanta à embaixada castelhana, chefiada pelos duques de Calábria e de Béjar e pelo arcebispo de Toledo, que a esperava do outro lado para a escoltar até ao encontro com o marido.

A 7 de fevereiro de 1526, junto à ponte sobre o rio Caia, cumpriu-se a entrega formal da infanta à embaixada castelhana. Do lado de cá, ainda era a infanta de Portugal. Do lado de lá, já não. Pintura. evocação, não retrato.
FIG. 05A 7 de fevereiro de 1526, junto à ponte sobre o rio Caia, cumpriu-se a entrega formal da infanta à embaixada castelhana. Do lado de cá, ainda era a infanta de Portugal. Do lado de lá, já não. Pintura. evocação, não retrato.

Do lado de cá da ponte, Isabel ainda era a infanta de Portugal, irmã de um rei, filha de um rei morto. Do lado de lá, já não era. No dia seguinte entrou em Badajoz, a primeira cidade castelhana da viagem.

O que veio depois

Em março desse ano, em Sevilha, Isabel casou-se de novo, agora diante do próprio Carlos V, nos Reales Alcázares. Já não foi a cerimónia de um representante: foi o encontro que o contrato de Torres Novas e a procuração de Almeirim tinham preparado, um ano e meio antes.

Durante os anos seguintes, com o marido frequentemente ausente em guerra por toda a Europa, foi Isabel quem governou Castela em nome dele. Seria mãe do futuro Filipe II de Espanha, o mesmo que, décadas mais tarde, se tornaria também rei de Portugal. Nunca voltaria a pisar solo português. Essa vida mais longa, o poder, a regência, já a contámos noutra história. Esta é só a semana em que começou.

O que resta

Do Paço Real de Almeirim não sobrevive praticamente nada. O terramoto de 1755 deixou-o gravemente danificado; um relato de 1758, do vigário local Coelho da Silva, descreve-o já «muito danificado» e «principiando a cair». A demolição, ordenada em 1792, arrastou-se ao longo de todo o século seguinte: a última parede caiu só em 1891. Hoje, no local, resta uma memória guardada por quem escreve a história da vila, e pouco mais. Dois fragmentos sobrevivem, mas nenhum ficou em Almeirim: um azulejo com a imagem do palácio antes da ruína está no Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa; o fogão de mármore de Miguel Ângelo está em Sintra.

Do Paço Real de Almeirim, demolido no século XIX, quase nada sobrevive. Este fogão de mármore, oferecido pelo Papa Leão X a D. Manuel I em 1515, é uma exceção: está hoje na Sala das Pegas, no Palácio Nacional de Sintra. Pintura a partir de fotografia real do objeto, de Heribert Bechen (Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0).
FIG. 06Do Paço Real de Almeirim, demolido no século XIX, quase nada sobrevive. Este fogão de mármore, oferecido pelo Papa Leão X a D. Manuel I em 1515, é uma exceção: está hoje na Sala das Pegas, no Palácio Nacional de Sintra. Pintura a partir de fotografia real do objeto, de Heribert Bechen (Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0).

De Elvas, pelo contrário, sobrevive quase tudo: a Cidade-Quartel Fronteiriça de Elvas e as suas Fortificações, o maior sistema de fortificações abaluartadas do mundo, foi classificada Património Mundial da UNESCO em 2012. Quem visita hoje a cidade caminha sobre as mesmas muralhas que, em fevereiro de 1526, guardaram a última noite portuguesa de uma infanta.

E fica, sobretudo, aquela carta: um relatório de Estado escrito para dar conta de uma entrega, catalogado num arquivo universitário, publicado uma vez em 1920 e quase esquecido desde então, que guarda a única imagem que temos de Isabel sem o papel de infanta ou de futura imperatriz. Do lado de cá do Caia, uma infanta ainda podia ser apanhada a chorar. Do lado de lá, já ia composta.

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Fontes principais: Wikipédia PT, «Isabel de Portugal, Imperatriz Romano-Germânica»; Wikipédia EN, «Royal Palace of Almeirim»; Real Academia de la Historia (Espanha), Historia Hispánica, «Isabel de Portugal»; Biblioteca da Ajuda, nota sobre o V Centenário do casamento; Câmara Municipal de Almeirim, Cronologia Histórica de Almeirim; programa oficial das Comemorações do V Centenário do Matrimónio da Infanta D. Isabel de Portugal com o Imperador Carlos V (Academia Portuguesa da História, com os municípios de Lisboa, Torres Novas, Almeirim, Chamusca, Ponte de Sor, Alter do Chão, Monforte e Elvas); Anselmo Braamcamp Freire, Ida da Imperatriz D. Isabel para Castela (1920), conhecido através da leitura e citação da historiadora Manuela Gonzaga; UNESCO World Heritage Centre, «Garrison Border Town of Elvas and its Fortifications».