Numa liteira fechada, perto da Chamusca, uma jovem de vinte e dois anos chora sozinha. Tem nas mãos as cartas do irmão. Despediu-se dele há dois dias. Só um homem a vê chorar assim.

Chama-se Isabel de Portugal. Vai a caminho da fronteira, para casar com Carlos V, rei de Espanha e imperador do Sacro Império, o homem sobre cujos domínios se dizia que o sol nunca se punha. Nunca mais volta a Portugal.

Elvas, a última grande vila portuguesa antes da fronteira: as suas fortificações, Património Mundial da UNESCO desde 2012, guardam ainda hoje a memória da passagem da comitiva, em fevereiro de 1526. Pintura a partir de fotografia real de um baluarte de Elvas, de Alessandro Bonvini (Wikimedia Commons, CC BY 2.0).
FIG. 02Elvas, a última grande vila portuguesa antes da fronteira: as suas fortificações, Património Mundial da UNESCO desde 2012, guardam ainda hoje a memória da passagem da comitiva, em fevereiro de 1526. Pintura a partir de fotografia real de um baluarte de Elvas, de Alessandro Bonvini (Wikimedia Commons, CC BY 2.0).

Tudo começara anos antes, por escrito. D. Manuel I, o pai, morrera em 1521 sem ver o casamento fechado, mas deixara o desejo registado: que a filha casasse com o primo, Carlos de Habsburgo, rei de Espanha e já eleito imperador. Coube ao irmão, D. João III, concluir o que o pai começara. No outono de 1525, em Torres Novas, fechou-se o contrato: um dote de novecentos mil cruzados, uma soma capaz de sustentar exércitos. A 1 de novembro desse ano, no Paço Real de Almeirim, Isabel casou por procuração. O noivo nem estava presente. Foi um representante quem disse o sim por ele, diante da corte, num paço de caça que os reis de Avis usavam desde o século XV e a que chamavam «a Sintra de Inverno»: um complexo de salões, capela e jardins que D. Manuel I mandara ampliar, e onde a corte inteira de Portugal passava, por temporadas, os invernos.

A 1 de novembro de 1525, no Paço Real de Almeirim, Isabel casou por procuração com Carlos V. O noivo nem estava presente: foi um representante quem disse o sim por ele. Pintura. evocação, não retrato.
FIG. 03A 1 de novembro de 1525, no Paço Real de Almeirim, Isabel casou por procuração com Carlos V. O noivo nem estava presente: foi um representante quem disse o sim por ele. Pintura. evocação, não retrato.

A 30 de janeiro de 1526, partiu do mesmo Paço a comitiva que a levaria até à raia: fidalgos, damas, carros, uma corte inteira em marcha, com paragens cerimoniais marcadas em cada vila do trajeto. O papel que lhe cabia era o de infanta que se torna imperatriz diante de todos, e representou-o.

A 30 de janeiro de 1526, partiu do Paço Real de Almeirim a comitiva que levaria Isabel até à fronteira. Nunca mais voltaria a Portugal. Pintura. evocação, não retrato.
FIG. 04A 30 de janeiro de 1526, partiu do Paço Real de Almeirim a comitiva que levaria Isabel até à fronteira. Nunca mais voltaria a Portugal. Pintura. evocação, não retrato.

Foi perto da Chamusca, dois dias depois de deixar D. João III, que representou outra coisa. Quem o conta é o marquês de Vila Real, D. Pedro de Meneses, o fidalgo a quem o rei confiara a tarefa de escoltar a irmã até à fronteira e de zelar por ela até à entrega formal ao marido. Nas cartas que foi escrevendo ao rei ao longo da viagem, mais tarde publicadas pelo historiador Anselmo Braamcamp Freire, o marquês regista, sem grande alarde, o que viu naquela liteira: as lágrimas que a jovem não conseguiu conter enquanto relia, uma e outra vez, as cartas que o irmão lhe escrevera. Um relatório de Estado, feito para dar conta de uma entrega, guardou sem querer o único momento da viagem em que ela não estava a representar nada.

A 7 de fevereiro de 1526, junto à ponte sobre o rio Caia, cumpriu-se a entrega formal da infanta à embaixada castelhana. Do lado de cá, ainda era a infanta de Portugal. Do lado de lá, já não. Pintura. evocação, não retrato.
FIG. 05A 7 de fevereiro de 1526, junto à ponte sobre o rio Caia, cumpriu-se a entrega formal da infanta à embaixada castelhana. Do lado de cá, ainda era a infanta de Portugal. Do lado de lá, já não. Pintura. evocação, não retrato.

A comitiva seguiu. Ponte de Sor, Alter do Chão, Monforte: em cada paragem, o mesmo ritual de receção, o mesmo peso crescente de uma despedida que se ia tornando definitiva. A 5 de fevereiro chegou a Elvas, a última grande vila portuguesa antes da raia, praça forte que guardava a fronteira havia séculos. Dois dias depois, junto à ponte sobre o rio Caia, a poucos quilómetros da cidade, cumpriu-se o ato que fechava a viagem: a entrega formal da infanta à embaixada castelhana, chefiada pelos duques de Calábria e de Béjar e pelo arcebispo de Toledo, que a esperava do outro lado para a escoltar até ao encontro com o marido. Do lado de cá da ponte, ainda era a infanta de Portugal. Do lado de lá, já não.

Do Paço Real de Almeirim, demolido no século XIX, quase nada sobrevive. Este fogão de mármore, oferecido pelo Papa Leão X a D. Manuel I em 1515, é uma exceção: está hoje na Sala das Pegas, no Palácio Nacional de Sintra. Pintura a partir de fotografia real do objeto, de Heribert Bechen (Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0).
FIG. 06Do Paço Real de Almeirim, demolido no século XIX, quase nada sobrevive. Este fogão de mármore, oferecido pelo Papa Leão X a D. Manuel I em 1515, é uma exceção: está hoje na Sala das Pegas, no Palácio Nacional de Sintra. Pintura a partir de fotografia real do objeto, de Heribert Bechen (Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0).

Em março desse ano, em Sevilha, casou-se de novo, agora diante do próprio Carlos V, nos Reales Alcázares. Durante os anos seguintes, com o marido frequentemente ausente em guerra, foi ela quem governou Castela em nome dele. Seria mãe do futuro Filipe II. Nunca voltaria a pisar solo português. Essa vida mais longa, o poder, a regência, já a contámos noutra história. Esta é só a semana em que começou.

Do Paço Real de Almeirim, onde tudo aquilo começou, não sobrevive praticamente nada. O terramoto de 1755 deixou-o em ruínas; a demolição, ordenada décadas depois, só se completou no século XIX. Dele fica um lugar, uma memória guardada por quem escreve a história da vila, e pouco mais.

Mas fica também aquela carta.

> Do lado de cá do Caia, uma infanta ainda podia ser apanhada a chorar. Do lado de lá, já ia composta.

Fontes

Fontes principais: Wikipédia PT, «Isabel de Portugal, Imperatriz Romano-Germânica»; Wikipédia EN, «Royal Palace of Almeirim»; Real Academia de la Historia (Espanha), Historia Hispánica, «Isabel de Portugal»; Biblioteca da Ajuda, nota sobre o V Centenário do casamento; Câmara Municipal de Almeirim, Cronologia Histórica de Almeirim; programa oficial das Comemorações do V Centenário do Matrimónio da Infanta D. Isabel de Portugal com o Imperador Carlos V (Academia Portuguesa da História, com os municípios de Lisboa, Torres Novas, Almeirim, Chamusca, Ponte de Sor, Alter do Chão, Monforte e Elvas); Anselmo Braamcamp Freire, Ida da Imperatriz D. Isabel para Castela (1920), conhecido através da leitura e citação da historiadora Manuela Gonzaga; UNESCO World Heritage Centre, «Garrison Border Town of Elvas and its Fortifications».