Um engenheiro traçou um risco na areia molhada com o bico da bota. Eram sete horas da noite de 3 de abril de 1808, na restinga que fecha a ria de Aveiro. Todo o dia acorrera povo a ver; a hora tardia foi escolhida de propósito, regista o auto oficial, «para evitar que perecesse alguma parte do povo», por ser «de recear que não pudesse fugir á rapidez do rompimento». Do outro lado do risco esperava a ria inteira, com dois meses de cheias lá dentro, mais de dois metros acima do mar. Os que ficaram viram o engenheiro e o desembargador Verney, superintendente da obra, arrancar com as próprias mãos as estacas e fachinas que seguravam a areia, e dar as primeiras cavadelas de enxada. A abertura rompeu «como tiro de pólvora».

Atrás daquele risco estava uma cidade que levava dois séculos a definhar porque a porta para o mar se entupira, e meio século de engenheiros do reino que não a conseguiram reabrir. Em 1791, a própria Coroa pôs a desistência por escrito: um aviso régio mandava pôr a obra de parte, «removendo por ora toda a ideia de abertura da Barra ou canal para entrada de navios», porque havia tantos anos que «se tem trabalhado debalde». Dezassete anos depois, a barra abriu-se numa noite. E uma pista ficou à vista: Aveiro não tem muralhas medievais. Muita dessa pedra está dentro da barra. As duas coisas explicam-se uma à outra.

Luís Gomes de Carvalho tinha trinta e seis anos e seis anos de obra atrás de si. Evocação pintada — não é um retrato nem uma semelhança.
FIG. 02Luís Gomes de Carvalho tinha trinta e seis anos e seis anos de obra atrás de si. Evocação pintada — não é um retrato nem uma semelhança.

A idade de ouro do porto de Aveiro

Aveiro tinha sido rica do mar: a memória do engenheiro que abriu a barra conta que a vila chegou a armar, nalguns anos, dezenas de navios só para o bacalhau da Terra Nova; tinha então mais de cento e cinquenta embarcações próprias e doze mil habitantes. A porta dessa riqueza era a barra, e a barra andava: o cordão de areia que a separa do mar crescia para sul, e a abertura fugia com ele, cada década mais longe e com menos fundo. Um temporal entupiu-a no inverno de 1575, e a vila ainda se recompôs mais do que uma vez; mas em 1687 o licenciado Pinho Queimado já profetizava que, sem remédio, «daqui a pouco mais de meio século não terá esta vila por moradores senão os que se ocupam da pesca». Enganou-se por baixo. No século seguinte, o livro da Alfândega regista os navios despachados: de 1736 a 1740, cinco; em 1744, um; de 1745 a 1760, nenhum.

A abertura rompeu «como tiro de pólvora», e a torrente saiu arrastando massas enormes de areia. A hora tardia foi escolhida de propósito, «para evitar que perecesse alguma parte do povo». E ainda assim ficaram pessoas a ver. Pintura.
FIG. 03A abertura rompeu «como tiro de pólvora», e a torrente saiu arrastando massas enormes de areia. A hora tardia foi escolhida de propósito, «para evitar que perecesse alguma parte do povo». E ainda assim ficaram pessoas a ver. Pintura.

Meio século de tentativas falhadas

Em 1756, com a barra fechada de todo e a «serpear nos areais de Mira», D. José criou uma Superintendência só para ela, com impostos próprios; a provisão descrevia uma barra «totalmente areada em forma que por ela não podia entrar nem sair o mais pequeno barco». No ano seguinte, o capitão-mor de Ílhavo, João de Sousa Ribeiro, abriu à sua custa um canal na Vagueira, aproveitando uma grande cheia: serviu uns oito anos. De resto, entre 1756 e 1791, aviso régio atrás de aviso régio, falharam todos: Carlos Mardel, o inglês Guilherme Elsden, o italiano Iseppi, o marechal Valleré, o professor Estêvão Cabral. «Nada havia, e nada existia em 1802», escreveu quem viria a abri-la. Nesse ano, dos doze mil habitantes antigos restavam «uns 3 para 4.000 no maior abatimento», doentes de febres grande parte do ano, e da antiga marinha não sobrava «nem sequer um iate».

No bairro baixo, no inverno de 1808, entrava-se em casa pelas janelas. Pintura.
FIG. 04No bairro baixo, no inverno de 1808, entrava-se em casa pelas janelas. Pintura.

Oudinot e Gomes de Carvalho: a água como ferramenta

O aviso que mudou tudo saiu a 2 de janeiro de 1802, da secretaria de D. Rodrigo de Sousa Coutinho. Encarregava dois engenheiros militares: o coronel Reinaldo Oudinot, um francês da Lorena com décadas de obras em rios portugueses atrás de si, e o capitão Luís Gomes de Carvalho, de trinta anos, genro do primeiro. Sogro e genro viviam na mesma casa, no Porto; a 22 de janeiro estavam em Aveiro, a medir no próprio dia. Cada um apresentou o seu plano, e o Príncipe Regente aprovou ambos a 5 de julho. A ideia, cujo desenho se atribui a Oudinot, era o contrário de tudo o que se tinha tentado: em vez de cavar um canal contra o mar, construir um dique a partir da Gafanha, através da laguna inteira, separar as águas do sul e obrigar todo o corpo norte da ria, engrossado pelas cheias do Vouga, a carregar contra um único ponto do cordão de areia. A barra havia de ser aberta pela água represada, e por mais nada. O historiador da engenharia Carlos Martins escreveu que a genialidade do projeto estava em abrir o canal «tendo como único agente a corrente das águas».

A ideia: um dique da Gafanha através da laguna inteira, para que toda a água represada carregasse contra um único ponto do cordão de areia. Esquema pintado a partir da descrição documental — não é a reprodução do plano original de 1802.
FIG. 05A ideia: um dique da Gafanha através da laguna inteira, para que toda a água represada carregasse contra um único ponto do cordão de areia. Esquema pintado a partir da descrição documental — não é a reprodução do plano original de 1802.

As muralhas de Aveiro, dentro da barra

A pedra dos paredões saiu de dentro da própria cidade: o Príncipe Regente doou às obras «todas as muralhas do recinto da fortificação antiga» de Aveiro e mandou-as demolir. A muralha que o infante D. Pedro erguera a partir de 1418, com as suas nove portas, já então meio arruinada, desceu pedra a pedra para os molhes. Parte da cerca medieval de Aveiro ainda existe: está deitada dentro do mar, a segurar a barra.

A muralha que o infante D. Pedro erguera a partir de 1418, já meio arruinada, desceu pedra a pedra para os molhes da barra nova. Pintura.
FIG. 06A muralha que o infante D. Pedro erguera a partir de 1418, já meio arruinada, desceu pedra a pedra para os molhes da barra nova. Pintura.

Seis anos separaram as primeiras medições do risco na areia, e foram anos duros, porque a obra agravou primeiro o mal que vinha curar. O dique represava o rio antes de o poder soltar: o fabrico do sal estava parado desde 1803, as cheias demoravam mais a escoar, e os donos das marinhas, a quem a obra tirava o sustento antes de o devolver, acusavam o engenheiro e ameaçavam cortar o dique. Carvalho abriu-lhe comportas em 1805, as «portas de água», quase sem resultado; em 1806, o povo tentou abrir a barra à força. Uma vistoria às obras examinou o procedimento de Carvalho e de Verney, e foi-lhes favorável.

A foz hoje, no sítio onde a barra foi aberta em 1808 e onde ficou. O farol é muito posterior: construído entre 1885 e 1893. Pintura a partir de uma fotografia real do local (foto: TiagoHeavydrums, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0).
FIG. 07A foz hoje, no sítio onde a barra foi aberta em 1808 e onde ficou. O farol é muito posterior: construído entre 1885 e 1893. Pintura a partir de uma fotografia real do local (foto: TiagoHeavydrums, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0).

O inverno de 1808

Oudinot já lá não estava: as grandes cheias da Madeira de 1803 tinham-no levado, feito brigadeiro, a reconstruir o Funchal. Morreu lá em fevereiro de 1807, catorze meses antes da abertura. Desde fins de 1803 que o genro dirigia a obra sozinho. E em fevereiro e março de 1808 vieram cheias enormes: no bairro baixo de Aveiro entrava-se em casa pelas janelas, e as obras corriam «risco iminente de um assalto». Carvalho resolveu não esperar mais.

3 de abril de 1808: a abertura da Barra de Aveiro

Foi assim que se chegou às sete da noite de 3 de abril, Domingo de Lázaro, ao risco na areia, à torrente que saiu «arrastando massas enormes de areia». As cavadelas dadas «pelas suas próprias mãos» estão no auto oficial; o risco com o bico da bota registou-o Adolfo Loureiro, o engenheiro que um século depois escreveu a história dos portos portugueses. E o que veio a seguir, o auto conta-o em prosa seca de cartório: as águas que cobriam as ruas de Aveiro «abaixaram trez palmos de altura dentro de vinte e quatro horas», sessenta e seis centímetros, «e outro tanto» no dia seguinte, apesar da distância da cidade à barra. Em menos de três dias não havia água nas ruas, lavadas do lodo por uma chuva que calhou vir nesses dias. Havia casas que tinham tido dentro de si sete e oito palmos de água.

As sondagens seguintes mediram na barra nova vinte a trinta palmos de fundo e cento e vinte braças de largura: mais de duzentos e sessenta metros. Cinquenta anos de comissões não tinham conseguido abrir um canal para barcos; a água represada abriu um para navios em três dias.

A corte já não estava em Lisboa: partira para o Brasil em novembro de 1807, como aqui já contámos, e foi para o Rio de Janeiro que Carvalho escreveu, a 30 de setembro de 1808, a dar conta do êxito de uma obra que fora «em certo modo, um segundo dia de criação»: «este país onde há pouco a febre e a morte faziam o seu assento é hoje saudável». Do Rio, o Príncipe Regente respondeu, a 10 de janeiro de 1809, que Carvalho «não podia ter dado uma notícia que lhe fosse mais agradável».

Entre as duas cartas, a guerra: o Governo Provisional do Porto suspendeu em 1808 as obras públicas todas, e excetuou expressamente uma, a barra de Aveiro, equiparada ao serviço do próprio Exército; Carvalho, nomeado quartel-mestre-general em julho, foi dirigindo-a por carta, de campanha em campanha. O preço veio logo: a torrente da abertura derrubou duzentos metros da própria muralha-guia, e as obras de defesa continuaram durante décadas; mas a barra ficou onde os engenheiros a tinham posto, e nunca mais mudou de sítio. A prova de mar chegou em maio de 1809: um comboio de dezenas de transportes britânicos, com mantimentos e munições para a ofensiva que retomou o Porto, entrou pela barra nova «no espaço breve de uma hora».

As marés da Ria de Aveiro

Antes das obras, quase não se sentiam as marés na ria: a água salgada só chegava às marinhas nas marés grandes do equinócio, e no resto do ano a maré era pouco mais do que uma ondulação. A ria de Aveiro sobe e desce duas vezes por dia. Começou a fazê-lo às sete horas da noite de um domingo de abril, atrás de um risco aberto na areia com o bico de uma bota.