O corpo de Inês de Castro tirado da sepultura, sentado num trono, coroado, e a corte em fila a beijar-lhe a mão.
É a cena que temos todos na cabeça. Não está na crónica de Fernão Lopes.
O que lá está é uma coroa. D. Pedro mandou fazer para Inês de Castro um túmulo de pedra branca, todo ele finamente lavrado, e pôs sobre a campa a imagem dela, com uma coroa na cabeça. Lopes acrescenta então uma fórmula, em quatro palavras: «como se fora Rainha».
O que está na crónica tem data.
Inês de Castro foi morta em Coimbra em 1355. Quem o mandou foi o rei D. Afonso IV, pai de Pedro, persuadido por três conselheiros: Álvaro Gonçalves, meirinho-mor, Pero Coelho e Diogo Lopes Pacheco. O infante estava ausente.

Quanto a Diogo Lopes Pacheco, Pedro viria a ter por certo, já doente e no fim da vida, que não fora culpado; perdoou-lhe e mandou restituir-lhe todos os bens.
Em 1357, dois anos depois da morte dela, Pedro era rei.
Em 1360, no lugar de Cantanhede, mandou chamar um tabelião. Diante do mordomo-mor, do chanceler e de meia corte, jurou sobre os Evangelhos que recebera Inês por sua mulher legítima, em Bragança, havia uns sete anos. E declarou, no mesmo juramento, não se lembrar do dia nem do mês.
Foram chamadas as duas testemunhas do casamento. D. Gil, bispo da Guarda, contou a cena com pormenor, disse que os vira viver juntos até à morte dela, e acrescentou que também não se lembrava do dia nem do mês. Estêvão Lobato, criado do rei, contou a mesma cena e disse que fora num primeiro dia de janeiro.

Fernão Lopes dá um capítulo inteiro aos que não acreditaram, e cita-lhes o argumento: como pode um casamento tão notável esquecer o dia e o mês, ao próprio e a quem lá esteve? Depois recusa-se a decidir. Escreve que não está ali para determinar se foi assim ou não, apenas para juntar o que os antigos deixaram escrito, e entrega a escolha a quem o estiver a ler.
«Escolha qual quiser.»
O corpo dela jazia no mosteiro de Santa Clara de Coimbra, aquele de que já aqui falámos, o que o Mondego foi tomando até obrigar ao abandono. Foi de lá que saiu.
Vinha numas andas preparadas para a ocasião, que grandes cavaleiros levavam, com fidalgos atrás, e donas, e donzelas, e muita clerezia. Ao longo da estrada tinham-se posto homens de círio na mão, dispostos de tal maneira que o corpo nunca passou fora da luz. Dezassete léguas assim, de Coimbra até Alcobaça.

Lopes remata: foi a mais honrada trasladação que até àquele tempo em Portugal se tinha visto.
E a crónica acaba ali. É o último capítulo.
Convém dizer para quem Fernão Lopes escrevia. Segundo António Resende de Oliveira, que estudou a historiografia medieval deste caso, Lopes escrevia por encomenda da casa de Avis, e a tarefa era abalar a legitimidade dos filhos de Pedro e de Inês.
E havia motivo. Em 1383, o Mestre de Avis foi eleito regedor do reino, o cargo de quem governa enquanto não há rei. E foi eleito em nome de um desses filhos. O assunto ficou fechado pela boca de João das Regras, nas Cortes de Coimbra de 1385.

Um homem com essa tarefa não é testemunha desinteressada quando não põe uma coroa na cabeça de Inês.
Foi também esse homem que escreveu o capítulo dos que duvidavam, que lá pôs o melhor argumento deles e que mandou o leitor escolher.
Só que a resposta não vem do silêncio dele. Vem do que os outros escreveram depois.
Os cronistas seguintes passaram um século e meio a enfeitar esta história, e o que enfeitaram foi a morte. Em Rui de Pina, Inês já sai ao encontro do rei acompanhada pelos filhos e banhada em lágrimas. Na Crónica da Biblioteca Manizola, as lágrimas são tantas que ela não consegue dizer coisa nenhuma, e depois vêm as punhaladas. Cristóvão Rodrigues Acenheiro dedica-lhe quase uma página inteira, com diálogos que põe na boca das personagens.

Nenhum deles tem a coroação. Quem andava a inventar cenas comoventes não tinha esta para inventar.
A cena do trono tem data. E não é uma só.
Patrizia Botta, filóloga da Universidade de Roma, seguiu a cena obra a obra num estudo de 1993. Encontrou-a num corpo de textos escritos em castelhano que arranca em 1550, com dois romances. Romance, na altura, era um poema narrativo para cantar, não um livro. Esse corpo de textos atravessa depois o século seguinte inteiro, em tragédias e em mais romances, até dois já muito tardios. Inês morrera quase dois séculos antes do primeiro deles.
A obra que aqui interessa é a tragédia Nise laureada, de 1577, e o autor é um frade galego, Jerónimo Bermúdez. Saiu em Madrid, em verso castelhano, sob o nome de Antonio de Silva. Na dedicatória, lamenta ter escrito numa língua «alheia à minha natural».

As duas peças que fez sobre Inês terão sido representadas em Coimbra, a cidade onde ela foi morta. E o argumento da peça diz o resto: o rei vem coroar-se a Coimbra e, antes de receber a coroa, desenterra Inês de Castro, casa publicamente com ela e coroa-a rainha.
Dentro da peça é o próprio rei que o diz: que vai desenterrar aquele corpo frio e dar-lhe o seu cetro e a sua coroa. E o coro responde-lhe que olhe o sepulcro aberto, que a terra já lhe devolveu o corpo.
E os pormenores nunca assentaram. Numas obras o rei coroa-lhe a cabeça, noutras a caveira; numas manda beijar-lhe as mãos, noutras os ossos.
Nas obras de origem portuguesa, escreve Botta, passa-se outra coisa. D. Pedro não presta homenagem ao cadáver: presta-a à imagem de Inês representada numa estátua que ele próprio mandara construir. Assim num romance anterior a 1495 que se chama, em castelhano, Gritando va el caballero, e assim num poema de 1606. A divisão não é entre línguas.
Duas tradições. E, debaixo das duas coroas, dois objetos diferentes.
A cena que Portugal fixou para si, essa, era outra: a mãe com os filhos ao colo, a pedir misericórdia. É a de Rui de Pina. É a de Camões.
Os dois túmulos estão em Alcobaça, o dele mandado lavrar a par do dela para quando chegasse a vez. O Património Cultural chama-lhes obras-primas da escultura tumular europeia, e no de Inês está esculpido o Juízo Final.
Lopes escreveu também por que razão ela ali está. Escreveu que Pedro se lembrou de honrar os ossos dela, e escreveu porquê: pois já mais nada lhe podia fazer.
Foi por isso que mandou lavrar a pedra branca, e pôr a coroa na cabeça dela.
Fontes7 referências
- LOPES, Fernão, Crónica de D. Pedro I. Edição do Project Gutenberg (n.º 16633), feita a partir de imagens da Biblioteca Nacional Digital, com ortografia modernizada; edição do Projecto Vercial, em grafia medieval.
- BERMÚDEZ, Jerónimo, Nise laureada, na reimpressão de Eugenio de Ochoa, Tesoro del teatro español, Paris, 1838, tomo I. Internet Archive, domínio público.
- BOTTA, Patrizia, «El fantasma de Inés de Castro entre leyenda y literatura», AISO, Actas III (1993), Universidad de Roma, Centro Virtual Cervantes. A datação do corpus.
- OLIVEIRA, António Resende de, «As vidas de D. Pedro e de D. Inês de Castro na historiografia medieval portuguesa», GUARECER on-line, Universidade do Porto. A historiografia medieval.
- ARANJO, Daniel, «Inês de Castro (?-1355) au Portugal et en Espagne», Université du Sud, Toulon-Var. A difusão europeia do tema.
- GONZÁLEZ MONTAÑÉS, Julio I., ficha sobre Jerónimo Bermúdez, teatroengalicia.es.
- Património Cultural, I.P., e sítio oficial do Mosteiro de Alcobaça. O monumento.