Há quem se lembre do Palácio da Pena sem cor nenhuma nas paredes. Escuro, manchado, com hera a subir pelos muros.

Lembra-se bem. Há uma fotografia a cores tirada a 2 de agosto de 1967 em que o palácio está exatamente assim: os panos de parede rebocados, cinzentos e escurecidos, a hera alastrada em torno do arco de entrada, e o azul e o verde dos azulejos e das cúpulas a segurarem, sozinhos, toda a cor do edifício.

Hoje o corpo antigo é vermelho e o corpo novo é amarelo.

O Palácio da Pena fotografado a cores a 2 de agosto de 1967: as paredes rebocadas cinzentas, escurecidas e cobertas de hera, sem vermelho nem amarelo. Os azulejos do arco mantinham o azul e o verde. Pintura a partir de uma fotografia real de Daniel Villafruela (Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0).
FIG. 02O Palácio da Pena fotografado a cores a 2 de agosto de 1967: as paredes rebocadas cinzentas, escurecidas e cobertas de hera, sem vermelho nem amarelo. Os azulejos do arco mantinham o azul e o verde. Pintura a partir de uma fotografia real de Daniel Villafruela (Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0).

A diferença não é um mistério. É uma propriedade do material. As paredes exteriores da Pena são alvenaria de pedra revestida a reboco de cal e acabada a caiação, que é o acabamento tradicional da construção portuguesa, e uma parede caiada tem um defeito honesto: não guarda a cor. Tem de a receber outra vez. O que se fotografa hoje ao subir a serra é, portanto, uma coisa reposta.

E repô-la tem este aspeto.

A mesma Torre do Relógio, cinquenta e cinco anos depois: o corpo antigo vermelho, o corpo novo amarelo. Aquela cor não é o que sobreviveu, é o que foi reposto, e tem de voltar a ser reposto, porque uma parede caiada não conserva a cor. Pintura a partir de uma fotografia real de Pakycassano, 2022 (Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0).
FIG. 03A mesma Torre do Relógio, cinquenta e cinco anos depois: o corpo antigo vermelho, o corpo novo amarelo. Aquela cor não é o que sobreviveu, é o que foi reposto, e tem de voltar a ser reposto, porque uma parede caiada não conserva a cor. Pintura a partir de uma fotografia real de Pakycassano, 2022 (Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0).

A última campanha geral das fachadas ficou concluída em janeiro de 2015: cerca de dez mil metros quadrados de superfície caiada, à volta de trezentos mil euros, dois anos de projeto e oito meses de obra. Há zonas onde não se consegue montar andaimes, porque o muro assenta em escarpa. Para essas contrataram-se pintores alpinistas, uma equipa de trabalhos verticais, que descem pendurados em arnês, com os baldes de cal presos com mosquetões. Dois homens, a caiar um palácio no alto de uma serra.

Convém dizer o que é o palácio, porque são dois. Em 1838, D. Fernando II comprou o antigo Mosteiro de Nossa Senhora da Pena, no cume da serra, abandonado desde a extinção das ordens religiosas em 1834, e entregou a obra ao barão Wilhelm Ludwig von Eschwege, engenheiro de minas alemão então residente em Portugal. Ao mosteiro do século XVI acrescentou um palácio inteiramente novo, e ainda hoje se distinguem as duas épocas no recorte do edifício. A casa estava a ser feita para dois. D. Maria II morreu em 1853, aos trinta e quatro anos, sem a ver acabada; o marido mudou-se então para o lado velho, o mosteiro, e foi lá que passou a viver.

Havia zonas onde não era possível montar andaimes, porque o muro assenta em escarpa. A campanha das fachadas levou dois anos de projeto e oito meses de obra, e custou à volta de trezentos mil euros. Evocação pintada do trabalho em cordas sobre uma parede caiada; não representa um troço identificado do palácio. Pintura.
FIG. 04Havia zonas onde não era possível montar andaimes, porque o muro assenta em escarpa. A campanha das fachadas levou dois anos de projeto e oito meses de obra, e custou à volta de trezentos mil euros. Evocação pintada do trabalho em cordas sobre uma parede caiada; não representa um troço identificado do palácio. Pintura.

Naquela mesma serra, em setembro de 1966, o maior incêndio de que há memória lavrou durante uma semana e matou vinte e cinco militares do Regimento de Artilharia Antiaérea Fixa de Queluz, mandados subir uma vertente a arder sem meios para a combater. É uma história que já contámos aqui, e é deles que ela fala. Os relatos da época incluem o Parque da Pena entre os lugares que estiveram em risco elevado.

Quanto às cores em si, há uma sequência de decisões, e essas decisões têm nome. O antigo Instituto Português do Património Arquitectónico escreveu, na ficha que mantinha do monumento, que o seu programa permitira, entre outros objetivos, «a pintura integral do conjunto com as cores originais». A Parques de Sintra, que gere o palácio desde 2007, disse depois de onde saíram esses tons: de amostras históricas guardadas no arquivo do próprio palácio, recolhidas na campanha anterior. Quando as fachadas voltaram a ser caiadas, registou que a aplicação de cor «seguiu as opções tomadas nos anos 90».

Por dentro, o gesto é ao contrário: em vez de se acrescentar uma camada de cal, tiram-se camadas de tinta. A remoção é feita à mão, com utensílios de pequenas dimensões, um bisturi de lâmina pequena, com cuidado para não danificar o estuque por baixo, até chegar ao relevo original. Evocação pintada da técnica; não retrata uma sala determinada. Pintura.
FIG. 05Por dentro, o gesto é ao contrário: em vez de se acrescentar uma camada de cal, tiram-se camadas de tinta. A remoção é feita à mão, com utensílios de pequenas dimensões, um bisturi de lâmina pequena, com cuidado para não danificar o estuque por baixo, até chegar ao relevo original. Evocação pintada da técnica; não retrata uma sala determinada. Pintura.

Duas coisas ficam por dizer. Nas fontes citadas, essa campanha não está datada: escreve-se «nos anos noventa» porque é o que a instituição escreve. E essas fontes não publicam o resultado das análises, ou seja, de que cor eram exatamente as tais amostras.

E é aqui que a história vira, porque por dentro do palácio o gesto é ao contrário. Lá fora acrescenta-se uma camada de cal. Cá dentro tiram-se camadas de tinta, à mão, com utensílios de pequenas dimensões, um bisturi de lâmina pequena, com cuidado para não ferir o estuque que está por baixo.

No Quarto das Damas, as sondagens nas paredes mostraram que, sob uma pintura de amarelo intenso aplicada no século XX, persistiam vestígios do azul-seco que a investigação histórica dá como a cor escolhida para o espaço na última campanha decorativa do tempo em que a família real habitou o palácio. A camada do século passado foi removida e o azul reposto. Aquele compartimento tinha sido o quarto de cama de D. Fernando II. Evocação pintada de uma sondagem; não retrata uma pessoa real. Pintura.
FIG. 06No Quarto das Damas, as sondagens nas paredes mostraram que, sob uma pintura de amarelo intenso aplicada no século XX, persistiam vestígios do azul-seco que a investigação histórica dá como a cor escolhida para o espaço na última campanha decorativa do tempo em que a família real habitou o palácio. A camada do século passado foi removida e o azul reposto. Aquele compartimento tinha sido o quarto de cama de D. Fernando II. Evocação pintada de uma sondagem; não retrata uma pessoa real. Pintura.

E desde 2006 que estes trabalhos decorrem à vista de quem visita: provavelmente já passou ao lado de alguém a tirar tinta de uma parede com uma lâmina, sem saber o que estava a ver.

O que aparece por baixo não estava previsto. Na Sala dos Veados, as equipas apuraram que, pelo menos até ao final de 1938, o espaço tinha tons de pedra nos estuques e emolduramentos em azul-ultramarino, que intervenções posteriores anularam: a investigação diz até quando a cor lá estava, não quando foi coberta. Na Segunda Sala de Passagem havia um revestimento liso, em tom cinzento-azulado, e por baixo dele, nas paredes e no teto, estava uma pintura decorativa que terá sido feita na década de 1860, por pintores contratados pela firma Barbosa e Costa.

Na Sala dos Veados, a investigação apurou que, pelo menos até ao final de 1938, o espaço exibia tons de pedra nos elementos de estuque e emolduramentos em azul-ultramarino, e que intervenções posteriores anularam essas cores. A reposição exigiu a remoção manual das camadas de tinta que as ocultavam. A sala é circular, ocupa todo o torreão, e a cúpula descarrega sobre a coluna central, em redor da qual foi montada a mesa. Evocação pintada da sala devolvida a essas cores. Pintura.
FIG. 07Na Sala dos Veados, a investigação apurou que, pelo menos até ao final de 1938, o espaço exibia tons de pedra nos elementos de estuque e emolduramentos em azul-ultramarino, e que intervenções posteriores anularam essas cores. A reposição exigiu a remoção manual das camadas de tinta que as ocultavam. A sala é circular, ocupa todo o torreão, e a cúpula descarrega sobre a coluna central, em redor da qual foi montada a mesa. Evocação pintada da sala devolvida a essas cores. Pintura.

Em dezembro de 2025 chegou a vez do Quarto das Damas. Sob uma pintura de amarelo intenso aplicada no século XX, as sondagens encontraram vestígios de um azul-seco que a investigação histórica dá como a cor escolhida para aquele espaço na última campanha decorativa do tempo em que a família real ali viveu. Removeu-se a camada do século passado, e o azul voltou às paredes.

Aquele compartimento tinha sido o quarto de cama de D. Fernando II, e mais tarde o toucador da futura condessa d'Edla. O azul que ali voltou é a cor do quarto onde dormia o homem que mandou fazer o palácio. Ninguém vivo o tinha visto.

A leitura do edifício não está terminada. Em agosto de 2026, a instalação das caixilharias do claustro continuava marcada até outubro, e a conservação dos revestimentos interiores do piso nobre estava prevista para continuar, sala a sala.

Da fotografia de 2 de agosto de 1967 sabe-se exatamente como era o palácio nesse dia.

Do teto daquela sala de passagem, escondido debaixo de um revestimento liso até voltar a aparecer em 2025, não se conhece nenhum registo fotográfico.

Esteve lá em cima o tempo todo.

Fontes9 referências
  • Parques de Sintra, Monte da Lua, comunicado «Concluída a recuperação das fachadas, cantarias e azulejos do Palácio Nacional da Pena», 11 de fevereiro de 2015. A fonte da frase «a aplicação de cor nesta intervenção seguiu as opções tomadas nos anos 90» e das amostras históricas guardadas no arquivo do Palácio.
  • Parques de Sintra, «Obras de recuperação e conservação no Palácio da Pena: fachadas, muros, azulejos e cantarias» (2014). As tintas plásticas de intervenções anteriores, as análises de cor com a DGPC e os pintores alpinistas.
  • Parques de Sintra, «Sala dos Veados do Palácio Nacional da Pena recupera as cores originais» (2022); «Trabalhos de restauro no Palácio da Pena revelam pinturas decorativas originais» (2025); «Quarto das Damas do Palácio da Pena volta a ser azul como na época da monarquia» (2025); «Restauro das fachadas sudeste e nordeste» (2024); «Aberto para Obras» e a página de história do monumento.
  • Instituto Português do Património Arquitectónico, ficha do Palácio Nacional da Pena no sítio do instituto, lida na captura do Arquivo.pt, o arquivo nacional da web, de 26 de setembro de 2009. O mesmo texto consta hoje do inventário da Direção-Geral do Património Cultural.
  • Nuno Gil e António Lamas, «Restoration studies of the rendering of historical buildings in Parque da Pena (Sintra, Portugal)», Transactions on the Built Environment, vol. 26, WIT Press, 1997. Usado apenas para a descrição técnica dos revestimentos: o artigo tem erros de data (dá 1895 para a morte de D. Fernando II, que foi em 1885, e 1996 para a classificação da UNESCO, que foi em 1995), pelo que nenhuma data aqui usada vem dele.
  • VISÃO Se7e, «Os palácios também vão para obras… mas ficam abertos», 26 de abril de 2012. A visita guiada pela arquiteta responsável pelo projeto de recuperação; a remoção de tinta a bisturi e o episódio do gabinete de D. Amélia.
  • PÚBLICO, «O maior fogo de sempre na serra de Sintra foi há 52 anos. Morreram 25 militares» (2018). O jornal atribui a um relato publicado no sítio Bombeiros de Portugal a lista de lugares em risco elevado, na qual figura o Parque da Pena.
  • Observador, «Sintra em cinco séculos: Parque e Palácio Nacional da Pena», 24 de abril de 2024.
  • A fotografia de 2 de agosto de 1967 é de Daniel Villafruela, publicada no Wikimedia Commons sob licença CC BY-SA 4.0.