Há quem se lembre do Palácio da Pena sem cor nenhuma nas paredes. Escuro, manchado, com hera a subir pelos muros.
Lembra-se bem. Há uma fotografia a cores tirada a 2 de agosto de 1967 em que o palácio está exatamente assim: os panos de parede rebocados, cinzentos e escurecidos, a hera alastrada em torno do arco de entrada, e o azul e o verde dos azulejos e das cúpulas a segurarem, sozinhos, toda a cor do edifício.
Hoje o corpo antigo é vermelho e o corpo novo é amarelo.

A diferença não é um mistério. É uma propriedade do material. As paredes exteriores da Pena são alvenaria de pedra revestida a reboco de cal e acabada a caiação, que é o acabamento tradicional da construção portuguesa, e uma parede caiada tem um defeito honesto: não guarda a cor. Tem de a receber outra vez. O que se fotografa hoje ao subir a serra é, portanto, uma coisa reposta.
E repô-la tem este aspeto.

A última campanha geral das fachadas ficou concluída em janeiro de 2015: cerca de dez mil metros quadrados de superfície caiada, à volta de trezentos mil euros, dois anos de projeto e oito meses de obra. Há zonas onde não se consegue montar andaimes, porque o muro assenta em escarpa. Para essas contrataram-se pintores alpinistas, uma equipa de trabalhos verticais, que descem pendurados em arnês, com os baldes de cal presos com mosquetões. Dois homens, a caiar um palácio no alto de uma serra.
Convém dizer o que é o palácio, porque são dois. Em 1838, D. Fernando II comprou o antigo Mosteiro de Nossa Senhora da Pena, no cume da serra, abandonado desde a extinção das ordens religiosas em 1834, e entregou a obra ao barão Wilhelm Ludwig von Eschwege, engenheiro de minas alemão então residente em Portugal. Ao mosteiro do século XVI acrescentou um palácio inteiramente novo, e ainda hoje se distinguem as duas épocas no recorte do edifício. A casa estava a ser feita para dois. D. Maria II morreu em 1853, aos trinta e quatro anos, sem a ver acabada; o marido mudou-se então para o lado velho, o mosteiro, e foi lá que passou a viver.

Naquela mesma serra, em setembro de 1966, o maior incêndio de que há memória lavrou durante uma semana e matou vinte e cinco militares do Regimento de Artilharia Antiaérea Fixa de Queluz, mandados subir uma vertente a arder sem meios para a combater. É uma história que já contámos aqui, e é deles que ela fala. Os relatos da época incluem o Parque da Pena entre os lugares que estiveram em risco elevado.
Quanto às cores em si, há uma sequência de decisões, e essas decisões têm nome. O antigo Instituto Português do Património Arquitectónico escreveu, na ficha que mantinha do monumento, que o seu programa permitira, entre outros objetivos, «a pintura integral do conjunto com as cores originais». A Parques de Sintra, que gere o palácio desde 2007, disse depois de onde saíram esses tons: de amostras históricas guardadas no arquivo do próprio palácio, recolhidas na campanha anterior. Quando as fachadas voltaram a ser caiadas, registou que a aplicação de cor «seguiu as opções tomadas nos anos 90».

Duas coisas ficam por dizer. Nas fontes citadas, essa campanha não está datada: escreve-se «nos anos noventa» porque é o que a instituição escreve. E essas fontes não publicam o resultado das análises, ou seja, de que cor eram exatamente as tais amostras.
E é aqui que a história vira, porque por dentro do palácio o gesto é ao contrário. Lá fora acrescenta-se uma camada de cal. Cá dentro tiram-se camadas de tinta, à mão, com utensílios de pequenas dimensões, um bisturi de lâmina pequena, com cuidado para não ferir o estuque que está por baixo.

E desde 2006 que estes trabalhos decorrem à vista de quem visita: provavelmente já passou ao lado de alguém a tirar tinta de uma parede com uma lâmina, sem saber o que estava a ver.
O que aparece por baixo não estava previsto. Na Sala dos Veados, as equipas apuraram que, pelo menos até ao final de 1938, o espaço tinha tons de pedra nos estuques e emolduramentos em azul-ultramarino, que intervenções posteriores anularam: a investigação diz até quando a cor lá estava, não quando foi coberta. Na Segunda Sala de Passagem havia um revestimento liso, em tom cinzento-azulado, e por baixo dele, nas paredes e no teto, estava uma pintura decorativa que terá sido feita na década de 1860, por pintores contratados pela firma Barbosa e Costa.

Em dezembro de 2025 chegou a vez do Quarto das Damas. Sob uma pintura de amarelo intenso aplicada no século XX, as sondagens encontraram vestígios de um azul-seco que a investigação histórica dá como a cor escolhida para aquele espaço na última campanha decorativa do tempo em que a família real ali viveu. Removeu-se a camada do século passado, e o azul voltou às paredes.
Aquele compartimento tinha sido o quarto de cama de D. Fernando II, e mais tarde o toucador da futura condessa d'Edla. O azul que ali voltou é a cor do quarto onde dormia o homem que mandou fazer o palácio. Ninguém vivo o tinha visto.
A leitura do edifício não está terminada. Em agosto de 2026, a instalação das caixilharias do claustro continuava marcada até outubro, e a conservação dos revestimentos interiores do piso nobre estava prevista para continuar, sala a sala.
Da fotografia de 2 de agosto de 1967 sabe-se exatamente como era o palácio nesse dia.
Do teto daquela sala de passagem, escondido debaixo de um revestimento liso até voltar a aparecer em 2025, não se conhece nenhum registo fotográfico.
Esteve lá em cima o tempo todo.
Fontes9 referências
- Parques de Sintra, Monte da Lua, comunicado «Concluída a recuperação das fachadas, cantarias e azulejos do Palácio Nacional da Pena», 11 de fevereiro de 2015. A fonte da frase «a aplicação de cor nesta intervenção seguiu as opções tomadas nos anos 90» e das amostras históricas guardadas no arquivo do Palácio.
- Parques de Sintra, «Obras de recuperação e conservação no Palácio da Pena: fachadas, muros, azulejos e cantarias» (2014). As tintas plásticas de intervenções anteriores, as análises de cor com a DGPC e os pintores alpinistas.
- Parques de Sintra, «Sala dos Veados do Palácio Nacional da Pena recupera as cores originais» (2022); «Trabalhos de restauro no Palácio da Pena revelam pinturas decorativas originais» (2025); «Quarto das Damas do Palácio da Pena volta a ser azul como na época da monarquia» (2025); «Restauro das fachadas sudeste e nordeste» (2024); «Aberto para Obras» e a página de história do monumento.
- Instituto Português do Património Arquitectónico, ficha do Palácio Nacional da Pena no sítio do instituto, lida na captura do Arquivo.pt, o arquivo nacional da web, de 26 de setembro de 2009. O mesmo texto consta hoje do inventário da Direção-Geral do Património Cultural.
- Nuno Gil e António Lamas, «Restoration studies of the rendering of historical buildings in Parque da Pena (Sintra, Portugal)», Transactions on the Built Environment, vol. 26, WIT Press, 1997. Usado apenas para a descrição técnica dos revestimentos: o artigo tem erros de data (dá 1895 para a morte de D. Fernando II, que foi em 1885, e 1996 para a classificação da UNESCO, que foi em 1995), pelo que nenhuma data aqui usada vem dele.
- VISÃO Se7e, «Os palácios também vão para obras… mas ficam abertos», 26 de abril de 2012. A visita guiada pela arquiteta responsável pelo projeto de recuperação; a remoção de tinta a bisturi e o episódio do gabinete de D. Amélia.
- PÚBLICO, «O maior fogo de sempre na serra de Sintra foi há 52 anos. Morreram 25 militares» (2018). O jornal atribui a um relato publicado no sítio Bombeiros de Portugal a lista de lugares em risco elevado, na qual figura o Parque da Pena.
- Observador, «Sintra em cinco séculos: Parque e Palácio Nacional da Pena», 24 de abril de 2024.
- A fotografia de 2 de agosto de 1967 é de Daniel Villafruela, publicada no Wikimedia Commons sob licença CC BY-SA 4.0.