O maior palácio alguma vez erguido em Portugal ficou às escuras numa só noite de novembro de 1807. Durante dois anos fora a casa de um rei; depois a corte inteira partiu de uma vez, e o Palácio-Convento de Mafra esvaziou-se. Os homens que lá dormiram a seguir tinham as fardas em farrapos.

Entre 1806 e 1807, o príncipe regente D. João instalara ali a corte. Era um colosso de pedra, erguido uma geração antes para deslumbrar a Europa, e tornou-se, sem que ninguém o planeasse, a última casa habitada da família real antes do exílio. O que quase ninguém conta é o que estava em jogo. Napoleão não queria apenas os portos portugueses fechados aos navios ingleses. Queria a própria família real.

Aqui viveu uma corte. A 26 de novembro de 1807, já não vivia ninguém.
FIG. 02Aqui viveu uma corte. A 26 de novembro de 1807, já não vivia ninguém.

O cerco apertara depressa. Em agosto de 1807, os representantes da França e da Espanha em Lisboa entregaram ao regente as exigências de Napoleão: aderir ao Bloqueio Continental, fechar os portos à navegação britânica, declarar guerra à Grã-Bretanha e prender os cidadãos ingleses que viviam no reino. D. João jogou nos dois tabuleiros. A 22 de outubro, em Londres, Portugal assinava em segredo uma convenção com a Grã-Bretanha que previa a transferência da corte para o Brasil sob protecção da marinha britânica. Dois dias antes, segundo o estudo da Academia Portuguesa de História, terá sido no próprio palácio de Mafra que se assinou o decreto que mandava encerrar os portos aos navios ingleses. A mesma casa onde a corte vivia era também onde a armadilha se fechava.

Diz-se que foi aqui, a 20 de outubro, que se fecharam os portos a Inglaterra. No mesmo dia, em Londres, decidia-se a fuga.
FIG. 03Diz-se que foi aqui, a 20 de outubro, que se fecharam os portos a Inglaterra. No mesmo dia, em Londres, decidia-se a fuga.

As notícias chegaram tarde. A 23 de novembro de 1807, soube o regente que as tropas franco-espanholas já tinham entrado em território português. Convocou de imediato o Conselho de Estado, que decidiu o que, no fundo, já estava decidido: embarcar quanto antes toda a família real e o governo. Segundo o mesmo estudo, D. João ainda foi de Mafra a Queluz reunir a família e a Mafra voltou antes de descer ao porto: foi o último palácio onde a corte dormiu. Ficou nomeado um Conselho de Regência para permanecer no reino, com a instrução de receber bem as tropas do imperador.

«Queria mover-se e, convulso, não acertava a dar um passo.» Assim partiu o regente, à chuva, do seu último palácio.
FIG. 04«Queria mover-se e, convulso, não acertava a dar um passo.» Assim partiu o regente, à chuva, do seu último palácio.

O embarque foi um caos de chuva e lama. A família real subiu a bordo a partir de 27 de novembro, mas o tempo virou-se logo contra ela. A 28, o vento soprava de sul e prendeu a esquadra ao porto: durante um dia inteiro, a coroa em fuga ficou ancorada e impotente, à espera de que o vento mudasse, enquanto o exército francês se aproximava da capital. Só a 29, quando o vento virou para nordeste, é que os navios largaram do cais de Belém, com quatro naus britânicas, sob o comando do comodoro Graham Moore, a reforçar a escolta até ao Brasil. Levavam os arquivos do Estado, o tesouro real e parte do acervo das casas reais; na pressa, ficaram esquecidos no cais os caixotes com a prataria das igrejas, que os franceses haviam de confiscar e fundir. Partiram milhares de pessoas, num número que ainda hoje se disputa. E no meio do tumulto ia o regente, um homem que via desabar tudo o que conhecia: dele o cronista José Acúrsio das Neves deixou uma frase que ainda hoje arrepia: «queria falar e não podia; queria mover-se e, convulso, não acertava a dar um passo.»

Milhares de pessoas, quinze navios e a coroa inteira: tudo o que restava de Portugal partia pelo mar.
FIG. 05Milhares de pessoas, quinze navios e a coroa inteira: tudo o que restava de Portugal partia pelo mar.

Na manhã seguinte, 30 de novembro, o general Junot entrou em Lisboa à frente de um exército esgotado pela travessia da Beira: sem artilharia, sem cavalaria, de fardas em farrapos. A coroa atravessara o mar horas antes de a rede se fechar.

O palácio mais grandioso do país virou caserna. Segundo as crónicas locais, foi a divisão de Loison que aqui se aquartelou.
FIG. 06O palácio mais grandioso do país virou caserna. Segundo as crónicas locais, foi a divisão de Loison que aqui se aquartelou.

O palácio de Mafra ficou para os soldados. Segundo as crónicas locais, foi a 2.ª divisão de infantaria do general Loison que se aquartelou na ala sul do edifício, com as tropas espanholas na ala norte. Menos de um ano depois, a 2 de setembro de 1808, era a vez do exército britânico: os aliados montaram nos mesmos espaços o quartel-general das operações da região. A conta coube à terra. Mafra viu os impostos triplicarem, perdeu bens e propriedades, e na Tapada Real, entre as duas ocupações, metade do arvoredo e dos animais desapareceu.

Chamaram-lhe fuga, e durante muito tempo soou a vergonha. Mas vale a pena olhar para o que Napoleão de facto queria: aprisionar a família real e forçar uma abdicação, como faria pouco depois aos Bourbon de Espanha. Em Baiona, Fernando VII e Carlos IV foram atraídos, cercados e obrigados a abdicar. A casa de Bragança não abdicou. Foi a única coroa que escapou à armadilha. O centro de gravidade do império mudou de continente, intacto, e atravessou um oceano que Napoleão nunca poderia cruzar.

Ficou o colosso vazio, transformado em caserna. O palácio que uma geração antes custara mil vidas a erguer servia agora de dormitório a soldados de passagem, primeiro franceses, depois ingleses. A grandeza barroca, pensada para deslumbrar embaixadores, guardava agora homens esfomeados que dormiam no chão das salas de pedra, enquanto a corte que ali vivera chegava, do outro lado do Atlântico, ao Rio de Janeiro.

Hoje, dentro do palácio, uma sala guarda a memória de tudo isto. Chama-se Sala das Invasões Napoleónicas, e nela pendem quatro telas pintadas em 1821 com batalhas da Guerra Peninsular. A um canto há uma credença discreta: pertenceu à nau que levou a família real para o Brasil e a trouxe de volta. O objecto que fugiu pelo mar voltou ao palácio de onde partira.

Não seria a última vez que um rei português partiria por mar. Mas isso é outra história.