Por volta das cinco da tarde de 1 de fevereiro de 1908, o rei de Portugal atravessava a sua própria capital numa carruagem aberta. Tinha passado o último mês em Vila Viçosa, no Alentejo, longe de Lisboa; regressara nessa tarde de comboio e cruzara o Tejo num vapor, o «D. Luís», que o deixou no cais do Terreiro do Paço. Dali seguiu de carruagem, a descoberto, com a mulher e os dois filhos, pela praça mais aberta da cidade. Faltavam-lhe poucos minutos de vida.
Naqueles poucos minutos, uma monarquia que reinava em Portugal havia séculos recebeu a ferida de que viria a morrer. Costuma dizer-se que a monarquia portuguesa caiu em 1910, com a República. Mas 1910 foi o funeral. A ferida foi aqui, nesta praça, ao cair de uma tarde de inverno. E o rapaz de dezoito anos sentado naquela carruagem seria rei de Portugal antes do anoitecer, sem nunca o ter pedido.

Para se perceber por que alguém quereria matar aquele homem, é preciso recuar dois anos. Desde 1906, D. Carlos apoiara o governo de João Franco; e, a partir de maio de 1907, esse governo passou a governar sem parlamento, naquilo a que a época chamou «governar à turca»: governar de cima, sozinho, sem dar contas às cortes. Não nos compete, nesta história, dizer quem tinha razão; o que conta é o efeito: aos olhos de muitos, o rei deixara de estar acima da política e passara a ser o rosto de um regime odiado. Em certos meios republicanos, e numa sociedade secreta a que se chamava Carbonária, preparava-se mais do que um protesto.

Era uma tarde fria de inverno, e a praça tinha gente. Quando a carruagem entrou, junto ao lado poente, perto da esquina da Rua do Arsenal, um homem destacou-se da multidão. Ajoelhou-se, tirou de debaixo do capote uma carabina e fez pontaria a poucos metros. O primeiro tiro atravessou o pescoço do rei e matou-o quase de imediato. Um segundo atirador saltou para o estribo da carruagem e descarregou o revólver sobre o corpo já tombado. O príncipe real, Luís Filipe, de vinte anos, ainda se levantou e disparou a sua própria arma contra um dos atacantes, chegando a atingi-lo, antes de uma bala de grosso calibre lhe rasgar o rosto. A rainha, D. Amélia, bateu num dos homens com a única coisa que tinha à mão, um ramo de flores, gritando «Infames! Infames!». Tudo durou um punhado de minutos. Quando parou, o rei e o príncipe estavam mortos, e mortos estavam também os dois atiradores, abatidos ali mesmo: Manuel Buíça, antigo sargento expulso do exército e professor primário, e Alfredo Costa, empregado do comércio. No meio da multidão ficou ainda um transeunte morto e outros feridos.

E é aqui, diante do corpo, que vale a pena parar e perguntar quem era o homem que acabara de morrer. Porque o rei que tantos odiavam como rosto de uma ditadura era, longe do governo, outra coisa. D. Carlos nascera em Lisboa em 1863 e era rei desde 1889. Era, antes de tudo, um apaixonado pelo mar: mandara construir um iate a que deu o nome da mulher, o «Amélia», só para percorrer a costa em campanhas de oceanografia. E pintava. Pintava aguarelas, sobretudo de aves, e assinava-as não como rei, mas com um nome quase de anónimo: «Carlos Fernando». Os tiros do Terreiro do Paço não mataram uma ideia chamada Coroa. Mataram um homem que tinha um barco de ciência e um pincel.

O filho mais novo, D. Manuel, sobrevivera, ferido apenas num braço; o cocheiro levara um tiro numa mão. Nessa mesma tarde, esse rapaz de dezoito anos tornou-se rei, como D. Manuel II. Conta-se que o irmão, Luís Filipe, por ter sobrevivido ao pai uns instantes, terá sido «rei por vinte minutos», o reinado mais curto da história. É uma história bonita, mas não é bem verdade: a lei portuguesa não previa que a coroa passasse de forma automática no instante da morte, e por isso Luís Filipe nunca chegou, de direito, a reinar. Quem ficou rei, de facto, foi o irmão mais novo, contra a sua vontade e sobre o sangue da própria família. Já contámos nesta página como este rei-menino haveria de sair de Portugal: a fugir pelo mar, da praia dos pescadores da Ericeira, dois anos e meio mais tarde. Este foi o dia em que a coroa lhe caiu nas mãos.
A monarquia começou a morrer naquela tarde de fevereiro, a céu aberto, no meio de Lisboa, no tempo que uma carruagem leva a atravessar uma praça. A 5 de outubro de 1910 foi proclamada a República, e D. Manuel II partiu para um exílio de que nunca mais voltou em vida. O rapaz que entrou naquela praça ao lado do pai saiu dela rei de Portugal. Reinou dois anos e oito meses; e o mesmo mar que ao pai tinha dado campanhas de ciência levaria o filho, ao cabo desse reinado, para longe de casa, para sempre.