Durante quase dois séculos, todas as cartas que circularam em Portugal passaram pelas mãos de uma única família. O correio do reino comprava-se ao rei, deixava-se em testamento, herdava-se de pai para filho, como se herdava uma quinta ou um brasão. E tudo começou com um homem que tinha tudo o que o dinheiro comprava em Lisboa, menos uma coisa: um nome.
A venda do ofício de Correio-mor em 1606
A 19 de julho de 1606, D. Filipe II de Portugal vendeu o Ofício de Correio-mor do Reino a Luís Gomes Elvas Coronel, homem de negócios de família vinda de Espanha, que tratava em produtos orientais e emprestava dinheiro a juro. Preço: setenta mil cruzados. A carta ficou lançada na chancelaria régia, como qualquer outra escritura.
Mas repare-se no pormenor. Meses antes da venda, em fevereiro desse mesmo ano, o rei já o tinha feito fidalgo, com brasão e apelido novo. O apelido era Mata, e vinha de uma quinta que o comprador adquirira às freiras do Mosteiro de Odivelas: a quinta da Mata das Flores, em Loures. Uma família inteira ficou com o nome de uma quinta de Loures. O que Luís Gomes estava a comprar, com as cartas de todo o reino, era o degrau seguinte de uma escada que o dinheiro, sozinho, não subia.

A história dos correios em Portugal antes do selo
E valia a pena ver passar os homens que ele comprou. As cartas de nomeação descrevem-nos: as armas reais no vestuário, espada e punhal de dia e de noite, e ninguém os podia prender em viagem, salvo por crime. Iam a pé ou a cavalo, sobretudo ao serviço da Coroa, da nobreza e dos homens de negócios, por estradas em que uma carta de Lisboa a Braga levava, no mínimo, sete dias. O ofício em si era mais velho: criara-o D. Manuel I por carta régia de 6 de novembro de 1520, e o primeiro titular foi Luís Homem, cavaleiro da Casa Real. Pela primeira vez, o transporte das cartas de qualquer súbdito, mediante pagamento, ficava a cargo de um particular. Do que se cobrava, o Correio-mor guardava a décima parte; o resto era do pessoal, dos homens que faziam a estrada.
Luís Gomes teve pouco tempo para gozar a compra: morreu em dezembro de 1607, ano e meio depois. Mas o testamento que deixou fez o essencial: vinculou o ofício ao morgado da família, a passar sempre ao filho varão mais velho. O homem teve o correio dezoito meses. A família havia de o ter quase duzentos anos.

Uma herança de família: o correio de pai para filho
E fê-lo crescer. O 7.º Correio-mor publicou, em 1644, o regimento que mandava os correios andar oito léguas por dia; em 1657, a família juntou ao ofício o exclusivo das cartas do mar, a correspondência do ultramar inteiro, mercê dada em recompensa de serviços, entre eles um donativo para a guerra com Espanha; em 1663 já se nomeavam correios assistentes no Rio de Janeiro e na Baía.
Houve até um momento em que tudo isto ficou nas mãos de uma criança. Em 1696, o herdeiro do ofício tinha oito anos. Quem geriu o correio de todo o reino foi a mãe e tutora, D. Isabel de Caffaro, filha da nobreza de Messina. O negócio, esse, rendia: no ano de 1746, as receitas do correio foram calculadas em cem mil cruzados da correspondência nacional, mais sessenta mil da internacional.

O Palácio do Correio-Mor em Loures
O dinheiro fez-se pedra em Loures. Na quinta que dera o nome à família, gerações sucessivas de Correios-mores transformaram as casas simples do século XVI num palácio barroco: a torre da capela ostenta a data de 1744; a grande campanha de obras, impulsionada pelo 10.º Correio-mor, concluiu o palácio em 1766, e a decoração dos interiores arrastou-se até 1790. Planta em U, três pisos, dois arcos rasgados no corpo central para deixar passar as carruagens, uma cozinha forrada de azulejos com peças de caça, uma Sala da Caça com as Metamorfoses de Ovídio no teto. A ficha oficial do património compara-o, «de alguma forma», aos castelos dos Taxis, a família que montou o correio do império dos Habsburgos. Quem o desenhou, não se sabe: com o terramoto de 1755 desapareceram os arquivos do correio-mor, e o nome do arquiteto foi-se com eles.
Faltava sempre o mesmo. A corte da época murmurava que a família descendia de cristãos-novos, e houve Casas da Grande Nobreza que lhe recusaram casamentos por causa desses rumores de «sangue impuro». Quando o 10.º Correio-mor se tornou comendador da Ordem de Cristo, a sua «limpeza de sangue» ficou publicamente reconhecida; os salões murmuraram na mesma. Havia uma coisa que carta nenhuma entregava.

Janeiro de 1797: a Coroa extingue o Correio-mor
Até que, em janeiro de 1797, a Coroa desfez o negócio de 1606. Perante as críticas crescentes à qualidade do serviço e os custos que este representava, extinguiu o Ofício de Correio-mor, no reinado de D. Maria I, e incorporou diretamente as suas atribuições. E ao último Correio-mor, Manuel José da Maternidade da Mata de Sousa Coutinho, deu, pouco depois, aquilo por que a família esperava havia quase dois séculos: um título da Grande Nobreza. O 11.º e último Correio-mor tornou-se o 1.º Conde de Penafiel, «uma antiga ambição da família Mata», nas palavras da historiadora Ana Isabel Ribeiro, que regista também o resto da compensação: uma renda de quarenta mil cruzados por ano. Dezasseis mil deles saíam, em quartéis, das rendas dos próprios correios. Dois séculos de cartas nunca tinham comprado o título. Perdê-las comprou-o.
E a conta continuou a chegar. As atas da Câmara dos Deputados registam que em 1855, décadas depois do fim do ofício, os deputados ainda discutiam aqueles pagamentos, que alguns consideravam um privilégio de outro tempo. O antigo Correio-mor, feito par do Reino em 1826, morreu em 1859. Ainda no século XIX, a família acabou por vender a quinta de Loures.

Visitar o Palácio do Correio-Mor hoje
O palácio ainda lá está. A fachada rosa com os dois grandes arcos das carruagens, a imagem de Nossa Senhora da Oliveira no alto do frontão, os jardins de buxo, o tanque monumental forrado de azulejos; foi classificado Imóvel de Interesse Público em 1967 e visita-se com marcação. A família subiu por três nomes: Coronel, o que trouxe de Espanha; Mata, o da quinta de Loures; Penafiel, o do título por que esperou quase dois séculos. Quem hoje a procurar no mapa não a encontra por nenhum deles. Encontra-a pelo ofício: Palácio do Correio-Mor.