As Antilhas, no mar das Caraíbas, têm o nome de uma ilha que nunca ninguém encontrou. Antes de Colombo, essa ilha já estava desenhada em cartas de marear, e reis de Portugal passaram cartas régias a quem a fosse procurar. A história que a explicava ficou escrita num globo alemão: um arcebispo do Porto e seis bispos teriam fugido para ela por mar, e fundado lá sete cidades.
Chamava-se Antília, e também lhe chamavam ilha das Sete Cidades. Desenharam-na em Veneza, prometeram-na em Portugal, contaram-na em Nuremberga. O nome dela está hoje em dois sítios bem reais: nas Antilhas e numa cratera de São Miguel, nos Açores, com duas lagoas no fundo.

A carta mais antiga que se conhece com o nome Antília foi feita em Veneza em 1424, por um cartógrafo que quase de certeza se chamava Zuane Pizzigano. É pintada à mão num único pergaminho, de 57 por 90 centímetros, e está hoje numa biblioteca da Universidade do Minnesota, que a adquiriu em 1954. A ocidente, no meio do Atlântico, há uma ilha grande pintada de vermelho, um retângulo de costa recortada, com o nome Antília. Mais a norte fica outra, azul, chamada Satanazes.

Não se sabe onde o cartógrafo foi buscar estas ilhas, nem o que representam. Desde que a carta chegou ao conhecimento dos estudiosos, em 1953, discute-se se são terras reais ou imaginárias. A pergunta continua em aberto.

Dos mapas, a ilha passou para a chancelaria. Numa carta passada em Zamora a 10 de novembro de 1475, D. Afonso V esclareceu uma mercê que fizera a Fernão Teles: as ilhas que ele achasse incluíam também as já povoadas, porque os seus navios podiam dar com «as Sete Cidades ou alguuas outras ylhas poboadas, que ao presemte nom som navegadas nem achadas». O rei contava encontrá-las com gente dentro.

Em 1486 foi a vez de D. João II. A 3 de março, em Santarém, passou carta a Fernão Dulmo, um flamengo que era capitão da parte norte da ilha Terceira. Dulmo oferecia-se para lhe dar achada, à sua própria custa, «huua gramde ylha ou ylhas ou terra firme per costa, que se presume seer a ylha das Sete Çidades». O rei fazia-lhe mercê dela, com jurisdição e com o título de honra que ele mesmo achasse justo, «tamto que elle estas ylhas ou terra firme achar».

A 12 de julho de 1486, em Lisboa, Dulmo cedeu metade da empresa a João Afonso do Estreito, morador no Funchal, que armaria à sua custa duas caravelas. Deviam estar prontas na Terceira em março do ano seguinte, providas para seis meses. Nos primeiros quarenta dias, Dulmo escolheria o rumo. Depois, Estreito, até voltarem a Portugal.

Da expedição não ficou rasto, nem nos mapas nem nos papéis portugueses conhecidos dos anos seguintes. Nem se sabe se as caravelas chegaram a largar da Terceira.

Até aqui há um nome, mas não há história. O texto mais antigo que conta a fuga dos bispos, e que se pode datar, é a legenda de um globo: o que Martin Behaim acabou em Nuremberga por volta de 1492, hoje o globo terrestre mais antigo que se conserva. É o mesmo globo de Behaim que conta as aves mansas que os primeiros a desembarcar encontraram nos Açores.

A legenda põe a fuga no ano de 734, quando toda a Hispânia foi ganha pelos pagãos de África. Diz que a ilha Antília, chamada Sete Cidades, foi então povoada por um arcebispo do Porto, em Portugal, com seis outros bispos e outros cristãos, homens e mulheres, que para lá fugiram de barco com o gado e os haveres. E acrescenta que, em 1414, um navio de Espanha esteve muito perto dela, sem correr perigo.

A história crescia com quem a contava. Fernando Colombo, filho do navegador, põe a fuga em 714 e fala de sete bispos, cada um com a sua cidade, que queimaram os navios para ninguém pensar em voltar. António Galvão conta que em 1447 um navio português, levado por uma tempestade para ocidente, deu numa ilha com sete cidades, onde a gente falava português e quis saber se os mouros ainda afligiam a Espanha. E o contramestre, segundo ele, trouxe um pouco de areia e vendeu-a a um ourives de Lisboa, que dela tirou bom ouro.
As ilhas que Colombo achou do outro lado do mar não eram as Sete Cidades, e no entanto foi a elas que o nome se colou. Numa carta portuguesa de 1502, a que Alberto Cantino levou às escondidas de Lisboa para Itália e que hoje está em Módena, já se lê junto delas, em letras grandes: «has antilhas del Rey de castella».
Em 1511, Pedro Mártir de Anghiera publicava em Sevilha a primeira das suas Décadas do Novo Mundo. Colombo, escreve ele, julgava ter achado a ilha de Ofir. Mas, consideradas as cartas dos cosmógrafos, aquelas e as outras ilhas vizinhas eram, para ele, as «Antiliae insulae». As ilhas Antílias.
A ilha nunca foi achada. O nome foi. E ficou também, mais perto de casa, numa cratera dos Açores.
Em São Miguel, no fim do século XVI, Gaspar Frutuoso descreveu uma grande concavidade com duas lagoas no fundo, «a que chama o povo Sete Cidades». Vista lá de cima, escreveu, parecia «outro mundo baixo e cidades ali abscondidas, segundo se diz de outras incógnitas de cristãos que estão ainda por descobrir». Hoje vive gente lá dentro, numa freguesia que se chama Sete Cidades, com as casas na margem da Lagoa Azul e uma ponte para a outra margem.
Fontes20 referências
- Alguns documentos do Archivo Nacional da Torre do Tombo acerca das navegações e conquistas portuguezas, Lisboa, 1892 (Biblioteca Nacional Digital): carta de D. Afonso V a Fernão Teles, Zamora; carta de D. João II a Fernão Dulmo, Santarém; contrato entre Fernão Dulmo e João Afonso do Estreito, Lisboa.
- E. G. Ravenstein, Martin Behaim, his life and his globe, Londres, 1908 (archive.org).
- Friedrich-Alexander-Universität Erlangen-Nürnberg, Martin Behaims Erdapfel, edição digital das legendas do globo.
- W. H. Babcock, Legendary Islands of the Atlantic, Nova Iorque, 1922 (archive.org).
- University of Minnesota, James Ford Bell Library, «1424 Nautical Chart», «The Islands on the 1424 Nautical Chart», «Cortesão's Islands» e «The Islands Debate»; M. Ragnow, «The Pizzigano Portolan: a cartographic mystery», UMN Libraries, 2024.
- Carta de marear de Zuane Pizzigano, 1424 (James Ford Bell Library; reprodução em Wikimedia Commons, domínio público).
- Planisfério de Cantino, 1502 (Biblioteca Estense, Módena; reprodução em Wikimedia Commons, domínio público).
- Pedro Mártir de Anghiera, De orbe novo decades, Alcalá, 1530 (archive.org); F. A. MacNutt, De Orbe Novo, tradução inglesa, 1912.
- Gaspar Frutuoso, Saudades da Terra, Livro IV, Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1998 (archive.org).
- Instituto Camões, Navegações Portuguesas, «Dulmo, Fernão» (arquivo.pt).
- Jacques Paviot, «Les Flamands au Portugal au XVe siècle (Lisbonne, Madère, Açores)», Anais de História de Além-Mar, VII.
- Encyclopædia Britannica, 1911, «Antilia» (Wikisource).
- Texas State Historical Association, Handbook of Texas, «Seven Cities of Cibola».
- UNESCO, Memória do Mundo, «Behaim Globe».
- U. Kueppers et al., estudo sobre o registo eruptivo do vulcão das Sete Cidades, Frontiers in Earth Science, 7, 2019.
- G. Queiroz et al., «Eruptive history and evolution of Sete Cidades Volcano», Geological Society Memoirs, 44, 2015.
- A. T. E. Vidal, San Miguel, carta do Almirantado britânico, levantamento de 1844 (Biblioteca Nacional Digital, domínio público).
- Governo dos Açores, Portal do Ordenamento do Território, Unidade de Paisagem «Sete Cidades».
- National Geographic Portugal, «A história da lagoa das Sete Cidades e das suas gentes», 2019.
- Wikipedia, «Gaspar Frutuoso», «Planisfério de Cantino», «Lenda da princesa e do pastor no reino das Sete Cidades», «Behaim Globe», «Decades of the New World».
