Descobrimentos · episódio 11
Há um país em África que se chama como uma serra a que marinheiros portugueses deram o nome de Leoa, há mais de quinhentos e sessenta anos.
Num mapa português de 1502, ao lado desse nome, está pintado um leão de pé, de dentes à mostra, a segurar a bandeira de Portugal. Poucos anos depois, Duarte Pacheco Pereira, que diz ter ouvido a razão do nome da boca de quem o pôs, escreveu que muitos julgavam que era por haver ali leões, «e isto é falso».

Quem o pôs, dizem os dois textos mais antigos, foi Pêro de Sintra, homem da casa do Infante, capitão de duas caravelas mandadas, no início da década de 1460, a correr mais adiante pela costa da Guiné e descobrir terras novas.
Já falámos aqui de Cadamosto, o veneziano que navegara ao serviço do Infante. Não foi nesta viagem, mas foi ele quem a contou. Quando as caravelas voltaram, estava em Lagos. Um jovem português, amigo dele, que já navegara com ele como escrivão e desta vez fora com Sintra, veio a sua casa e contou-lhe, ponto por ponto, as terras que tinham descoberto e os nomes que lhes tinham posto.

É sobretudo por esse relato, impresso em Itália em 1507, que sabemos como se batizou uma costa inteira.
Primeiro, um cabo a que chamaram da Verga. Depois, um cabo tão alto que os marinheiros diziam nunca ter visto outro assim, e puseram-lhe o nome de Sagres, em memória da fortaleza que o Infante mandara fazer numa das pontas do Cabo de São Vicente. Os portugueses passaram a chamar-lhe Cabo de Sagres de Guiné. Mais adiante, um cabo de terra tão verde e viçosa que lhes pareceu toda alegre e risonha: ficou Cabo Ledo, «ou alegre». E depois uma montanha altíssima, coberta de árvores sempre verdes, com três ilhotas defronte, às quais chamaram Selvagens.

À montanha deram o nome de Serra Leoa.
Porquê Leoa? Na primeira edição impressa do relato, a de 1507, o nome aparece sem explicação nenhuma: a «montagna Liona», e a frase seguinte já fala da costa baixa. Na edição de Ramusio, em Veneza, em 1550, vem uma razão, que a tradução portuguesa de 1812 verte assim: chamaram-lhe Serra Leoa «pelo grande rugido» que ali se ouvia sem parar, por causa das trovoadas no cume, sempre cercado de nuvens.

As trovoadas eram verdadeiras. Duarte Pacheco Pereira, que escreveu o Esmeraldo por volta de 1505, avisa o piloto que for àquela terra de que leve boa vela no navio, porque ali entram trovoadas muito grandes, com grande força de vento, e o remédio é amainar até que a trovoada passe. Chama-lhe «a fermosa serra lyoa».
Mas a razão do nome, essa, conta-a de outra maneira. Muitos cuidam, escreve, que se chama assim por haver ali leões, e isso é falso: Pêro de Sintra pôs-lhe o nome de Leoa por ver uma terra tão áspera e brava, e não por outra causa. E acrescenta, para que ninguém duvidasse: «porque ele mo disse assim».

E, no entanto, o mapa de 1502, hoje em Módena, pintou-lhe um leão com a bandeira de Portugal.
Os trovões da edição de Ramusio, a terra áspera e brava de Duarte Pacheco, o leão do mapa. Ficam as três.
![A frase continua na página seguinte: Pêro de Sintra pôs-lhe o nome «por ver huma terra tam aspera e brava […] porq elle mo disse asim» (Esmeraldo de Situ Orbis, cód. 888, Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).](images/img_07.jpg)
As caravelas seguiram, e os nomes também: Vermelhos pela cor, Santa Ana pelo dia, das Palmas pelas palmeiras, e um rio dos Fumos, porque em toda aquela costa não se via outra coisa senão o fumo das fogueiras da gente da terra.
Depois, um cabo com um monte alto por cima, a que chamaram Cabo do Monte: está hoje na Libéria e chama-se, em inglês, Cape Mount. Mais adiante, outro cabo, a que chamaram Cortês e que no tempo de Duarte Pacheco já se chamava Mesurado. Foi nele que, em 1821, se fundou a colónia que deu origem a Monróvia, a capital da Libéria.

Na primeira noite diante desse cabo, os marinheiros viram muitos fogos, nas árvores e pela praia, acesos pela gente da terra ao avistar navios que nunca tinha visto. Um pouco adiante havia um grande bosque, a que chamaram arvoredo de Santa Maria. Foi o último lugar da viagem: para lá dele, escreve Cadamosto, nenhum navio tinha passado até ao dia em que ele próprio partiu de Espanha, no primeiro dia de fevereiro de 1463.
Ali, três homens subiram de umas almadias a uma das caravelas, e os portugueses retiveram um deles, escreve Cadamosto, porque o rei mandara trazer da última terra alguém da gente dela, para se saber da terra por meio de intérpretes. O rei teve-o consigo alguns meses, mandou mostrar-lhe muitas coisas do reino, deu-lhe roupas e mandou-o de volta à sua terra numa caravela.

O nome da serra começou então a viajar. Segundo o historiador P. E. H. Hair, que lhe seguiu o rasto, o relato mais antigo escreve-o «Montagna Liona»; vieram depois Serra Lioa, Sierra Liona, Sierra Lione, e em 1791 o nome inglês já era Sierra Leone. Quatrocentos anos depois da viagem, o Almirantado britânico chegou, por um momento, a traduzi-lo: «Lion Mountains». Foi, nota Hair, quase a única tentativa de lhe mudar o som.
A serra é a cadeia de montes que rodeia o porto de Freetown. Na língua franca do país, o krio, ainda se diz «sabi» por «saber», uma palavra que veio, por caminhos antigos, do português. E cerca de cinco séculos depois das caravelas, a 27 de abril de 1961, o país que ali nasceu tornou-se independente com o nome dela.

Dos mais de quinze nomes que o escrivão contou, ponto por ponto, numa casa de Lagos, há um que hoje se escreve no mapa com o tamanho de um país. Escreve-se de outra maneira. Mas quem o diz em voz alta ainda diz, quase sílaba a sílaba, o que disseram os homens das duas caravelas ao ver aquela serra: Leoa.
Fontes17 referências
- Alvise Cadamosto, Navegações de Luiz de Cadamosto… a que se ajuntou a Viagem de Pedro de Cintra, em Collecção de Noticias para a Historia e Geografia das Nações Ultramarinas, t. II, Lisboa, Academia Real das Sciencias, 1812 (archive.org).
- Paesi novamente retrovati, Vicenza, 1507 (archive.org); fac-símile da edição de 1508 (archive.org).
- Giovanni Battista Ramusio, Delle Navigationi et Viaggi, vol. I, Veneza, 1588 (archive.org).
- Duarte Pacheco Pereira, Esmeraldo de Situ Orbis, ed. Raphael Eduardo de Azevedo Basto, Lisboa, Imprensa Nacional, 1892 (archive.org; Biblioteca Nacional Digital).
- Duarte Pacheco Pereira, Principio do Esmeraldo de situ orbis, manuscrito, Biblioteca Nacional de Portugal, cód. 888 (Biblioteca Nacional Digital).
- G. H. T. Kimble (trad. e ed.), Esmeraldo de Situ Orbis, Londres, Hakluyt Society, 1937 (archive.org).
- Planisfério dito «de Cantino», 1502, Biblioteca Estense, Módena (Wikimedia Commons, domínio público).
- Alida C. Metcalf, «Who Cares Who Made the Map? La Carta del Cantino and its anonymous maker», Rice University Research Repository.
- Instituto Camões, Navegações Portuguesas, «Sintra, Pedro de» (arquivo.pt).
- Andreas Massing, «Mapping the Malagueta Coast», History in Africa, Cambridge University Press.
- P. E. H. Hair, «The spelling and connotation of the toponym "Sierra Leone"», Sierra Leone Studies (resumo em AfricaBib).
- Dizionario Biografico degli Italiani, «Da Mosto, Alvise» (Treccani).
- Encyclopaedia Britannica, «Sierra Leone», «Pedro de Sintra», «Robertsport».
- APiCS Online, Atlas of Pidgin and Creole Language Structures, caps. «Savvy» e «Pequenino».
- Wikipedia, «Sierra Leone», «Krio language».
- AYV News (Freetown), «Pedro da Çintra did not name Sierra Leone».
- Sierra Leone Heritage, «Sapi-Portuguese Saltcellar» (British Museum).
