Em japonês havia um «eu» que era só para o rei.

O padre intérprete de «Shōgun», o romance de James Clavell, foi inspirado no homem que pôs essa palavra por escrito: João Rodrigues, de Sernancelhe, que chegou ao Japão com cerca de quinze anos e serviu de intérprete diante do regente Hideyoshi.

Esse «eu» está numa gramática impressa em Nagasáqui há mais de quatrocentos anos. «Chinga, id est, Maru», escreveu ele, «Eu el Rey, soomente pera o Rey.» O rei daquela linha era o imperador, a quem os portugueses de então chamavam «Rey de Iapão».

Depois vêm os outros, pelo menos dezassete. Uns eram para homens com alguma superioridade, outros usava-os a «gente bayxa», outros serviam «pera escritura, raro pera pratica». Havia um «eu» «pera velhos, e rapados» e outro «pera Religiosos, e rapados». E havia «Vagami. Midzucara. Varaua»: «Eu pera molheres».

Evocação pintada da imprensa de tipos móveis que os jesuítas fixaram no colégio de Nagasáqui em 1597. Dela saiu, entre 1604 e 1608, a «Arte da Lingoa de Iapam», com o nome do padre João Rodrigues na página de rosto: a mais antiga gramática do japonês que chegou até nós. Figuras genéricas de época, não retratos.
FIG. 02Evocação pintada da imprensa de tipos móveis que os jesuítas fixaram no colégio de Nagasáqui em 1597. Dela saiu, entre 1604 e 1608, a «Arte da Lingoa de Iapam», com o nome do padre João Rodrigues na página de rosto: a mais antiga gramática do japonês que chegou até nós. Figuras genéricas de época, não retratos.

No prólogo, explicou porquê. O que distinguia aquela língua de todas as de que havia notícia eram os respeitos e as cortesias entranhados em quase todos os modos de falar, «de modo que se não pode aprender sem juntamente se aprender a falar com honra, & cortesia». A terceira parte do livro já nem segue a gramática latina: ensina a escrever cartas ao rei, a um fidalgo, a um superior, a um inferior, a religiosos.

O livro chama-se «Arte da Lingoa de Iapam». Saiu da tipografia dos jesuítas em Nagasáqui entre 1604 e 1608, está escrito em português e tem na página de rosto o nome do padre João Rodrigues. É a mais antiga gramática do japonês que chegou até nós. Antes dela, padres da Companhia tinham escrito pelo menos três gramáticas elementares, que correram em manuscrito e de que não se conhece nenhum exemplar; no Japão, a gramática fazia-se então em notas para entender os textos clássicos, sobretudo poemas.

Rodrigues tinha a fala de Miyaco, a capital, a que hoje chamamos Quioto, pela melhor. Ainda assim, escreveu que a gente da capital tinha «algum defeito» na pronúncia de certas sílabas, e que as trocava umas pelas outras. Um dos exemplos que deu foi a palavra que quer dizer água.

Evocação pintada de um poço num bairro de Miyaco, a atual Quioto, por volta de 1600. Rodrigues tinha a fala da capital pela melhor, mas escreveu que a gente de lá tinha «algum defeito» na pronúncia de certas sílabas, e que as trocava umas pelas outras. Figuras genéricas de época, não retratos.
FIG. 03Evocação pintada de um poço num bairro de Miyaco, a atual Quioto, por volta de 1600. Rodrigues tinha a fala da capital pela melhor, mas escreveu que a gente de lá tinha «algum defeito» na pronúncia de certas sílabas, e que as trocava umas pelas outras. Figuras genéricas de época, não retratos.

Nascera em Sernancelhe, na diocese de Lamego, em 1561 ou 1562, e saiu de Portugal ainda rapaz, para não voltar a vê-lo. Chegou a Nagasáqui em 1577, ao que se sabe sem ter andado na escola.

Aprendeu a língua no Japão, no colégio que a Companhia tinha em Funai, com um irmão japonês chamado Paulo Yōhō. Yōhō passava dos setenta anos, era um escritor celebrado entre os jesuítas e trabalhava a verter textos clássicos para o japonês falado.

Em 1580, Rodrigues entrou no noviciado da Companhia em Usuki, no Bungo, um dos senhorios de Kyushu, a cujo senhor os portugueses chamavam rei. Foi a esse rei do Bungo que, décadas antes, Fernão Mendes Pinto levara uma embaixada do vice-rei da Índia, como já aqui contámos.

Evocação pintada de uma lição no colégio da Companhia em Funai, a atual Ōita, por volta de 1580. João Rodrigues chegara a Nagasáqui em 1577, com cerca de quinze anos, e aprendeu a língua com o irmão japonês Paulo Yōhō, que passava dos setenta anos. Figuras genéricas de época, não retratos.
FIG. 04Evocação pintada de uma lição no colégio da Companhia em Funai, a atual Ōita, por volta de 1580. João Rodrigues chegara a Nagasáqui em 1577, com cerca de quinze anos, e aprendeu a língua com o irmão japonês Paulo Yōhō, que passava dos setenta anos. Figuras genéricas de época, não retratos.

Rodrigues ficou conhecido por «Tçuzu», que era como os portugueses escreviam a palavra japonesa para intérprete.

Em 1591, outra embaixada do vice-rei da Índia: o visitador Alessandro Valignano levou-a ao regente Toyotomi Hideyoshi, no palácio de Jurakudai, em Quioto. O intérprete foi Rodrigues, que teria uns trinta anos. Hideyoshi tinha ordenado em 1587 a expulsão dos padres; ficou tão impressionado com a fluência do jovem jesuíta que o isentou do édito e passou a favorecê-lo como intermediário.

Foi ordenado padre em Macau, em 1596, e voltou ao Japão. No ano seguinte, quando Hideyoshi mandou sair de Nagasáqui todos os padres, deixou-o ficar.

Evocação pintada de João Rodrigues a escrever, no Japão, no início do século XVII. A «Arte» está escrita em português, com o japonês em letra latina, numa escrita feita inteiramente pelo som. Figura genérica de época, não retrato.
FIG. 05Evocação pintada de João Rodrigues a escrever, no Japão, no início do século XVII. A «Arte» está escrita em português, com o japonês em letra latina, numa escrita feita inteiramente pelo som. Figura genérica de época, não retrato.

Tokugawa Ieyasu, o fundador do xogunato Tokugawa, também confiou nele e nomeou-o seu agente comercial em Nagasáqui. Era por ele que tinham de passar os negócios dos mercadores portugueses.

Em 1610, ao fim de mais de trinta anos no Japão, Rodrigues teve de o deixar e partiu para Macau. As fontes não dizem o mesmo sobre quem o fez sair nem porquê: uma liga a saída ao caso da nau «Nossa Senhora da Graça», que o próprio capitão, sobre quem pesava uma ordem de prisão, fez ir pelos ares diante de Nagasáqui; outra, à inveja e a denúncias em Nagasáqui.

Em novembro de 1614, Tokugawa Ieyasu ordenou a expulsão dos missionários, e os jesuítas do Japão passaram para o Colégio da Madre de Deus, em Macau. Foi aí que Rodrigues publicou, em 1620, uma versão abreviada da gramática, a «Arte Breve». Morreu lá, em 1633.

Pintura das Ruínas de São Paulo, em Macau, como estão hoje: a fachada da igreja da Madre de Deus, dos jesuítas, construída entre 1602 e 1640 e destruída, com o colégio ao lado, por um incêndio em 1835. Os jesuítas da província do Japão passaram para esse colégio depois de 1614, e foi aí o centro da atividade de João Rodrigues nos anos que lhe restavam. Rodrigues morreu em 1633; a igreja só ficou acabada depois. A partir de uma fotografia real de shankar s. (CC BY 2.0).
FIG. 06Pintura das Ruínas de São Paulo, em Macau, como estão hoje: a fachada da igreja da Madre de Deus, dos jesuítas, construída entre 1602 e 1640 e destruída, com o colégio ao lado, por um incêndio em 1835. Os jesuítas da província do Japão passaram para esse colégio depois de 1614, e foi aí o centro da atividade de João Rodrigues nos anos que lhe restavam. Rodrigues morreu em 1633; a igreja só ficou acabada depois. A partir de uma fotografia real de shankar s. (CC BY 2.0).

Mais de três séculos depois, a gramática de Nagasáqui passou para japonês.

Em 1955, o filólogo Doi Tadao publicou em Tóquio a tradução anotada, com o título «Nihon Daibunten», a gramática grande do Japão. A breve é, no Japão, a «Nihon Shōbunten», a pequena.

Também em 1955, na revista «Kokugogaku», o filólogo Morita Takeshi estudava a maneira como os jesuítas tinham escrito o japonês em letra latina: uma escrita feita inteiramente pelo som. E escrevia que, pelas descrições da «Arte», se sabe que a gente de Quioto já confundia as sílabas de que Rodrigues falava.

Evocação pintada de um filólogo japonês nos anos cinquenta. Em 1955, Doi Tadao publicou em Tóquio a tradução anotada da gramática, «Nihon Daibunten», a gramática grande do Japão. No mesmo ano, na revista «Kokugogaku», Morita Takeshi escrevia que, pelas descrições da «Arte», se sabe que a gente de Quioto já confundia as sílabas de que Rodrigues falava. Figura genérica, não retrato.
FIG. 07Evocação pintada de um filólogo japonês nos anos cinquenta. Em 1955, Doi Tadao publicou em Tóquio a tradução anotada da gramática, «Nihon Daibunten», a gramática grande do Japão. No mesmo ano, na revista «Kokugogaku», Morita Takeshi escrevia que, pelas descrições da «Arte», se sabe que a gente de Quioto já confundia as sílabas de que Rodrigues falava. Figura genérica, não retrato.

No fim do século XVII, a diferença entre esses sons tinha desaparecido da fala de Quioto e da do Japão oriental. Ficou em algumas terras de Kyushu, na boca dos mais velhos; entre essas terras, dois distritos da prefeitura de Ōita, a mesma onde fica Funai, onde Paulo Yōhō ensinara a língua a Rodrigues.

A água, que a transcrição dos jesuítas escrevia «midzu», diz-se hoje, em japonês, «mizu».

Rodrigues mandava imitar a fala de Quioto, menos naquilo a que chamava o defeito da gente de lá, que dizia umas sílabas por outras. Deu um exemplo:

«Mizu, por, Midzu»

Fontes18 referências
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  • Salvador Valera-Paterna e Gonzalo San Emeterio Cabañes, «Reading Sino-Japanese Chronologies in the Jesuit Mission: João Rodrigues Tsūzu and his Tratado do Modo de Contar os Tempos», Culture & History Digital Journal, CSIC, 2026, licença CC BY 4.0. Paulo Yōhō, a embaixada de 1591, a isenção do édito de 1587, Ieyasu e a saída de 1610, o estado atual da questão do dicionário, o tratado do tempo e a nota sobre «Shōgun». cultureandhistory.revistas.csic.es
  • Morita Takeshi, «The Roman Transcription of the Christian Materials with a Focus on Vocabulario da Lingoa de Iapam and Rodrigues' Arte da Lingoa de Iapam», publicado em Kokugogaku, volume 20, 1955, na tradução inglesa de Mark Irwin, Language in Japan, volume 1, número 1, 2024. A escrita dos jesuítas como escrita pelo som, a confusão das sílabas em Quioto, os desvios contados na «Arte» e a tradução japonesa do dicionário em 1980. jstage.jst.go.jp
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  • Connor Youngberg, «Syllable Weakening in Kagoshima Japanese», em European Approaches to Japanese Language and Linguistics, Edizioni Ca' Foscari, 2020. A distinção no dialeto tradicional de Kagoshima. edizionicafoscari.unive.it
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  • CiNii Books, catálogo do Instituto Nacional de Informática do Japão: as edições de «Nihon Daibunten» (1955 e 1992) e de «Nihon Shōbunten» (1989 e 1993). ci.nii.ac.jp
  • Biblioteca da Universidade de Niigata, registo do fac-símile de 1976 da «Arte», feito a partir do exemplar da Bodleiana. opac.lib.niigata-u.ac.jp
  • Instituto Cultural de Macau, Centro Histórico de Macau, «Ruínas de São Paulo»: a igreja da Madre de Deus e o Colégio de São Paulo. wh.mo
  • Câmara Municipal de Sernancelhe, notícia sobre a edição de «A Arte do Chá» (2020), com citações da introdução de Rui Manuel Loureiro, lida no Arquivo.pt. arquivo.pt
  • Jisho, dicionário japonês-inglês baseado no JMdict: a entrada de 水, «mizu». jisho.org