«Fernão, mentes? Minto!» É uma piada que quase toda a gente conhece. E o nome é de um homem que existiu.

Em outubro de 1582, historiadores da Companhia de Jesus foram a Almada entrevistá-lo. Não iam desmenti-lo. Iam escrever o que ele lhes dissesse.

Chamava-se Fernão Mendes Pinto, tinha mais de setenta anos e vivia numa quinta no Pragal, em frente de Lisboa. Morreu no verão de 1583.

Do mesmo homem ficaram dois registos. Um é uma anedota. O outro é a lista das pessoas que, enquanto ele foi vivo, foram buscar o que ele sabia. João de Barros é uma delas.

E fica uma pergunta no meio disto: enquanto lhe batiam à porta, ele estava a escrever. Para quem?

Não se conhece retrato de Fernão Mendes Pinto. Esta é uma evocação pintada: um homem com mais de setenta anos, na quinta do Pragal onde viveu os últimos anos, em frente de Lisboa. Não é fotografia nem semelhança.
FIG. 02Não se conhece retrato de Fernão Mendes Pinto. Esta é uma evocação pintada: um homem com mais de setenta anos, na quinta do Pragal onde viveu os últimos anos, em frente de Lisboa. Não é fotografia nem semelhança.

Os vinte e um anos no Oriente

Tinha passado vinte e um anos no Oriente, pela Índia, pela Etiópia, pela China, pela Tartária, por Samatra. O que lá lhe aconteceu, escreveu-o ele próprio, e cabe em dois números:

Treze vezes cativo. Dezassete vezes vendido.

(O livro contradiz-se: no primeiro capítulo diz dezassete, no último diz dezasseis. O número de cativeiros é o mesmo nos dois. Fica o número que escreveu primeiro.)

Partiu de Lisboa a 11 de março de 1537 e desembarcou em Diu a 5 de setembro do mesmo ano. Foi mercador. Foi soldado, e Arnaldo Saraiva acrescenta à lista a prática de pirata. Foi embaixador do vice-rei da Índia junto do rei do Bungo, no Japão. E foi noviço da Companhia de Jesus. Entrou em 1554 e, à entrada, desfez-se de boa parte da fortuna: quatro a cinco mil cruzados para a missão do Japão, dois mil enviados a Portugal, para os irmãos.

A encosta de Almada vista de Lisboa, do outro lado do Tejo. Foi deste lado que ele se instalou, numa quinta no Pragal, depois de vinte e um anos no Oriente, e foi ali que morreu, a 8 de julho de 1583. Pintura a partir de uma fotografia real de Mark Ahsmann (Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0), que mostra o lugar hoje; a pintura derivada segue a mesma licença.
FIG. 03A encosta de Almada vista de Lisboa, do outro lado do Tejo. Foi deste lado que ele se instalou, numa quinta no Pragal, depois de vinte e um anos no Oriente, e foi ali que morreu, a 8 de julho de 1583. Pintura a partir de uma fotografia real de Mark Ahsmann (Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0), que mostra o lugar hoje; a pintura derivada segue a mesma licença.

Saiu da Companhia ao fim de poucos anos. Daí em diante o seu nome não volta a aparecer nas cartas dos jesuítas, e as que o nomeavam deixam de ser reeditadas. Porquê, e por decisão de quem, não consta dos documentos que se conhecem: o que existe é o silêncio, e é só isso que se pode dizer dele.

O regresso a Lisboa, em 1558

Voltou a Lisboa a 22 de setembro de 1558. Governava o reino a rainha D. Catarina, que o remeteu ao oficial encarregado daqueles assuntos, a quem o próprio relato não dá nome. Segundo esse relato, o oficial guardou-lhe os papéis quatro anos e meio, ao fim dos quais Mendes Pinto não tirou deles «outro fruito senão os trabalhos & pesadumes que passey no requerimento». Mas aqui há uma ressalva, e vem de quem leu os documentos: Afonso Xavier Canosa Rodríguez adverte que deste capítulo não se deduz que ficasse sem meios nem afastado dos círculos do poder. Tinha bens, e continuou a ser recebido.

A quinta no Pragal e a vila de Almada

Instalou-se no Pragal. Casou com uma mulher bastante mais nova, que lhe sobreviveu quarenta anos, e teve filhos. Não sabemos como se chamavam. As fontes guardam os nomes dos homens que lhe bateram à porta. Dos que viviam do lado de dentro, não guardam nenhum. Foi juiz da vila de Almada pelo menos duas vezes, em 1572 e em 1577, e foi eleito mamposteiro dos hospitais de São Lázaro, em Cacilhas, e de Santa Maria, em Almada, em 1573, e reeleito em 1578. Os documentos dessas duas eleições ainda existem, no Arquivo Histórico da Misericórdia de Almada. Para ser mamposteiro era preciso ter sido juiz, e era preciso ter bens.

Foi naquela quinta que escreveu a Peregrinação.

Quem o quisesse ouvir tinha de atravessar o Tejo: a quinta ficava do outro lado, no Pragal. E iam todos perguntar-lhe. Pintura. cena de época ilustrativa, não é o registo de uma travessia documentada.
FIG. 04Quem o quisesse ouvir tinha de atravessar o Tejo: a quinta ficava do outro lado, no Pragal. E iam todos perguntar-lhe. Pintura. cena de época ilustrativa, não é o registo de uma travessia documentada.

E é nesses anos que lhe batem à porta.

Quem o procurava: João de Barros e as Décadas da Ásia

Em 1569, o jesuíta Cipriano Soares, professor em Lisboa e em Coimbra, escreve numa carta que João de Barros estava a fazer a matéria do Japão para as Décadas da Ásia «pela informação dele», e regista que Mendes Pinto tem «uma memória felicíssima». Em 1571, o embaixador do grão-duque da Toscana procura-o em Portugal, com instruções de Egnatio Danti, o matemático que fazia mapas e um globo para Cosimo de Medici; o resumo da geografia da Ásia que escreve à mão em resposta fica inédito durante mais de quatro séculos. Entre 1581 e 1583 é consultado pelo rei Filipe I, que lhe concede uma tença, em documento de 15 de janeiro de 1583. E em outubro de 1582, aqueles historiadores, em Almada.

Iam todos perguntar-lhe.

Para quem foi escrita a Peregrinação

E o livro diz, logo no primeiro capítulo, para quem estava a ser escrito. Diz que é uma «rude & tosca escritura, que por erança deixo a meus filhos, porque só para elles he minha tenção escreuella».

O livro diz, logo no primeiro capítulo, para quem estava a ser escrito: «rude & tosca escritura, que por erança deixo a meus filhos». Não era para publicar. Era para os filhos, numa casa do Pragal, para saberem quem tinha sido o pai. Não sabemos os nomes deles. Pintura. evocação, não retrato nem semelhança.
FIG. 05O livro diz, logo no primeiro capítulo, para quem estava a ser escrito: «rude & tosca escritura, que por erança deixo a meus filhos». Não era para publicar. Era para os filhos, numa casa do Pragal, para saberem quem tinha sido o pai. Não sabemos os nomes deles. Pintura. evocação, não retrato nem semelhança.

Não era para publicar. Era para os filhos, numa casa do Pragal, para saberem quem tinha sido o pai.

1614: o livro impresso trinta e um anos depois da morte

Foi impressa em Lisboa em 1614, por Pedro Crasbeeck, trinta e um anos depois da morte do autor. Já aqui contámos a história de outro livro escrito na Ásia portuguesa do mesmo século, os Colóquios de Garcia de Orta, impressos em Goa em 1563.

E a primeira edição já traz no prólogo ao leitor um pedido: que estime a memória do autor e que defenda «este seu retrato de quem o quiser manchar, negando, ou duvidando das cousas que nelle diz».

A dúvida tem a idade do livro. Não foi inventada depois.

Lisboa, 1614: a «Peregrinação» sai do prelo de Pedro Crasbeeck, trinta e um anos depois da morte do autor. Pintura. cena de oficina ilustrativa. As folhas aparecem viradas do avesso de propósito: a pintura não reproduz nenhuma página da edição de 1614.
FIG. 06Lisboa, 1614: a «Peregrinação» sai do prelo de Pedro Crasbeeck, trinta e um anos depois da morte do autor. Pintura. cena de oficina ilustrativa. As folhas aparecem viradas do avesso de propósito: a pintura não reproduz nenhuma página da edição de 1614.

O livro correu a Europa: castelhano em 1620, francês em 1628, neerlandês em 1652, inglês em 1653, alemão em 1671.

O que a investigação diz hoje sobre a Peregrinação

Arnaldo Saraiva faz notar uma coisa incómoda. A mistura de história e de «estória» que gerou o trocadilho é a mesma que garantiu ao livro o êxito imediato e internacional. Vieram os dois da mesma porta. Quanto ao que lá está escrito, a leitura continua em aberto, e não é uma só: Rebecca Catz leu-o como sátira, outros como relatório geográfico, outros como obra de memórias. Ana Paula Laborinho, da Faculdade de Letras de Lisboa, diz que a investigação histórica «tem vindo a confirmar muitas das informações que ele presta na obra». O mesmo Arnaldo Saraiva assinalou, num texto de 2010, que o nome de Fernão Mendes Pinto não comparece na História de Portugal de 2009 coordenada por Rui Ramos.

Fernão Mendes Pinto em Almada, hoje

Almada ficou com ele. Há um monumento no Pragal, do escultor António Duarte: mostra-o de pé, com um rolo de papel na mão esquerda. Há uma Rua Fernão Mendes Pinto. Há uma Escola Secundária Fernão Mendes Pinto. A terra que o elegeu juiz escolheu lembrá-lo a segurar papel.

Enquanto foi vivo, o que lhe faziam eram perguntas. João de Barros perguntou-lhe pelo Japão. Florença perguntou-lhe pela geografia da Ásia. O rei mandou consultá-lo. E em outubro de 1582, numa quinta do Pragal, historiadores da Companhia de Jesus foram perguntar-lhe outra vez, e escreveram o que ele respondeu.

Ainda hoje lhe fazemos uma pergunta. É a piada: «Fernão, mentes?»

E quem responde somos nós, no lugar dele.