Há em Lisboa, na igreja de São Roque, uma capela que foi construída em Roma. Lá a armaram, lá o Papa lhe sagrou o altar, lá a foi ver antes do embarque. Depois desmontaram-na, encaixotaram-na e meteram-na em três navios.

É uma das capelas laterais da igreja, a de São João Baptista. Os três quadros, o Batismo de Cristo, o Pentecostes e a Anunciação, são feitos em mosaico, como o chão, e de longe passam por pinturas. À volta há lápis-lazúli, ágata, alabastro, ametista, pórfiro, mármore de Carrara; as oito colunas têm os fustes revestidos de lápis-lazúli. Quando a restauraram, entre 2010 e 2012, encontraram-lhe marcas nos metais e nos parafusos. E o historiador António Filipe Pimentel vê nela o testemunho solitário da Basílica Patriarcal, a sumptuosa igreja que D. João V fez construir no Paço da Ribeira e que o terramoto de 1755 arrasou.

Pintura da Capela de São João Baptista, na igreja de São Roque, em Lisboa, tal como ficou depois de completa, em 1752, a partir de uma fotografia real de Daniel Villafruela (CC BY-SA 3.0) (figura genérica, não retrato).
FIG. 02Pintura da Capela de São João Baptista, na igreja de São Roque, em Lisboa, tal como ficou depois de completa, em 1752, a partir de uma fotografia real de Daniel Villafruela (CC BY-SA 3.0) (figura genérica, não retrato).

A história começa com uma carta. A 26 de outubro de 1742, o padre João Baptista Carbone, jesuíta italiano que tratava das obras de arte de D. João V, escreveu para Roma a Manuel Pereira de Sampaio, que lá representava o rei. Pedia uma capela de mosaico, a melhor possível, desenhada pelo melhor arquiteto que houvesse em Roma. Fazê-la lá foi escolha do rei. Em Roma, explica Pimentel, estavam os melhores arquitetos e artífices do tempo, e a cidade era uma montra diante das cortes da Europa católica. Roma deu dois arquitetos. Nicola Salvi era o da Fontana di Trevi. Luigi Vanvitelli acabava de ser nomeado arquiteto de São Pedro e havia de fazer, anos mais tarde, o palácio real de Caserta.

D. João V numa gravura de G. F. L. Debrie de 1743, um ano depois da carta que pediu a Roma «huma Capella de Mosaico, o melhor que fosse possivel» (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).
FIG. 03D. João V numa gravura de G. F. L. Debrie de 1743, um ano depois da carta que pediu a Roma «huma Capella de Mosaico, o melhor que fosse possivel» (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).

Lisboa também desenhou. Em fevereiro de 1743, o arquiteto da corte, João Frederico Ludovice, alemão de origem e o mesmo de Mafra, escreveu para Roma as suas advertências: nada de «caprichos pitorescos», porque aquela havia de ser uma capela de arquitetura nobre, séria e rica. Seguiu-se o que Pimentel chama uma «violenta controvérsia», carta a carta. Em março de 1744, Lisboa mandou para Roma um projeto alternativo de Ludovice, com ordem para que se executasse. Daí a expressão de Pimentel, obra «luso-italiana»: desenhada em Roma, dirigida a partir de Lisboa.

A Piazza del Popolo, em Roma, numa gravura de Morel e Ruga do fim do século XVIII: segundo os documentos publicados por Sousa Viterbo, a capela foi construída num terreno alugado junto a esta praça (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).
FIG. 04A Piazza del Popolo, em Roma, numa gravura de Morel e Ruga do fim do século XVIII: segundo os documentos publicados por Sousa Viterbo, a capela foi construída num terreno alugado junto a esta praça (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).

Em Roma, entretanto, a capela crescia à vista de todos. Em agosto de 1743, o representante português escrevia que «já concorre bastante gente por conta da curiosidade do Paiz», e que o Papa lhe mandara dizer que a queria ver antes de ser embarcada.

A página de Sousa Viterbo que regista os dois arquitetos, Nicola Salvi e Luigi Vanvitelli, a sagração do altar pelo Papa Bento XIV a 15 de dezembro de 1744 e a visita do Papa à capela armada a 23 de abril de 1747 (Sousa Viterbo e R. Vicente d'Almeida, 1900; Internet Archive, domínio público).
FIG. 05A página de Sousa Viterbo que regista os dois arquitetos, Nicola Salvi e Luigi Vanvitelli, a sagração do altar pelo Papa Bento XIV a 15 de dezembro de 1744 e a visita do Papa à capela armada a 23 de abril de 1747 (Sousa Viterbo e R. Vicente d'Almeida, 1900; Internet Archive, domínio público).

O Papa era Bento XIV, o mesmo que, anos depois, deixou Mafra guardar livros proibidos. Em setembro de 1744, Lisboa soube que ele queria sagrar o altar da nova capela e pediu que o altar viesse depois encaixotado, com toda a decência. A 15 de dezembro, na igreja de Santo António dos Portugueses, Bento XIV sagrou-o, numa cerimónia de mais de três horas: uma das mais solenes do pontificado, escreveu o representante português.

Evocação pintada da visita do Papa Bento XIV à capela armada em Roma, a 23 de abril de 1747, antes de ser desmontada, a partir de uma fotografia real de Daniel Villafruela (CC BY-SA 3.0) (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 06Evocação pintada da visita do Papa Bento XIV à capela armada em Roma, a 23 de abril de 1747, antes de ser desmontada, a partir de uma fotografia real de Daniel Villafruela (CC BY-SA 3.0) (figuras genéricas, não retratos).

A capela, essa, ainda não estava acabada. Os quadros saíam da oficina de mosaico da Fábrica de São Pedro, em Roma: Agostino Masucci pintou os modelos, Mattia Moretti e os seus companheiros passaram-nos a mosaico. Os vidros fundiu-os Alessio Mattioli, a quem um estudo químico destes mosaicos chama o mais célebre vidreiro de Roma. Cada mudança de cor é uma tessela.

Pintura da capela a ser desmontada e encaixotada em Roma, em 1747: as peças de metal levavam marcas, tal como os parafusos, para tudo voltar a encaixar no seu lugar, como o restauro de 2010–2012 pôde observar (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 07Pintura da capela a ser desmontada e encaixotada em Roma, em 1747: as peças de metal levavam marcas, tal como os parafusos, para tudo voltar a encaixar no seu lugar, como o restauro de 2010–2012 pôde observar (figuras genéricas, não retratos).

Em abril de 1747, a capela foi armada e mostrada numa exposição, com outras encomendas portuguesas. A 23 de abril, o Papa foi vê-la.

As cartas de 1747, transcritas por Sousa Viterbo: os navios «nolejado (fretado) em Veneza», a visita do Papa marcada para 23 de abril e «toda a gente que devia embarcar nos tres navios» (Sousa Viterbo e R. Vicente d'Almeida, 1900; Internet Archive, domínio público).
FIG. 08As cartas de 1747, transcritas por Sousa Viterbo: os navios «nolejado (fretado) em Veneza», a visita do Papa marcada para 23 de abril e «toda a gente que devia embarcar nos tres navios» (Sousa Viterbo e R. Vicente d'Almeida, 1900; Internet Archive, domínio público).

Para a levar, o representante português fretara navios em Veneza. No verão de 1747, os artífices que a haviam de montar partiram para Civitavecchia, onde os esperavam três navios. Em setembro, os três chegavam a Lisboa com os materiais da capela e a gente para a armar.

Pintura da chegada a Lisboa, em setembro de 1747, dos três navios que traziam a capela desmontada e os artífices que a vinham montar (figuras genéricas, não retratos).
FIG. 09Pintura da chegada a Lisboa, em setembro de 1747, dos três navios que traziam a capela desmontada e os artífices que a vinham montar (figuras genéricas, não retratos).

Como se manda uma capela por mar? Desmontada, em caixas, com os metais marcados. As marcas que o restauro encontrou nos metais e nos parafusos serviam para isso: para que, em Lisboa, tudo encaixasse no seu lugar com precisão. Os que vieram com ela voltaram depois para Roma, todos menos o escultor Alessandro Giusti. Esse ficou: trabalhou em Mafra e lá fundou uma escola de escultura.

A Capela de São João Baptista em São Roque numa litografia de Monteiro, com figuras de Leberthais, impressa em 1847 (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).
FIG. 10A Capela de São João Baptista em São Roque numa litografia de Monteiro, com figuras de Leberthais, impressa em 1847 (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).

A 12 de outubro de 1747, D. João V viu em Lisboa os painéis, o modelo da capela e o frontal do altar, e mostrou-se satisfeito, com alguma reserva quanto aos painéis. Em novembro começaram as obras em São Roque. O preço já ia além do que se esperava: em junho, Carbone escrevera para Roma que «nunca aqui se cuidou» que as encomendas custassem tanto. O historiador de arte Jörg Garms escreveu que é talvez a capela mais rica alguma vez construída.

D. João V morreu a 31 de julho de 1750, sem a ver aberta. A capela abriu pela primeira vez em janeiro de 1751, ainda com pinturas provisórias no lugar de mosaicos, e só ficou completa em 1752. Ludovice, o arquiteto que a corrigira a partir de Lisboa, morreu em janeiro desse ano, sem a ver acabada.

Em 1755, o terramoto fez de Lisboa um montão de escombros. São Roque ficou de pé, «quase incólume», escreve Pimentel, e a capela com ela. Os jesuítas, donos da igreja, foram expulsos do reino pela Coroa em 1759; em 1768, a igreja passou, com os seus bens, para a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que ainda hoje a guarda. O tesouro feito para a capela, 298 peças de ourivesaria, paramentos, rendas, livros e móveis, foi classificado tesouro nacional em 2026, e continua ao lado dela, no Museu de São Roque.

Da Basílica Patriarcal de D. João V, escreve Pimentel, o terramoto deixou pouco mais que pó. Para ver o que ficou dela, é preciso subir ao Bairro Alto, entrar em São Roque e parar na primeira capela do lado do Evangelho: a que veio de Roma em três navios.

Fontes10 referências
  • Sousa Viterbo e R. Vicente d'Almeida, A capella de S. João Baptista erecta na egreja de S. Roque, Lisboa, 1900, com a transcrição da correspondência entre Lisboa e Roma conservada na Biblioteca da Ajuda (archive.org).
  • António Filipe Pimentel (coord.), A Encomenda Prodigiosa. Da Patriarcal à Capela Real de São João Batista, roteiro da exposição, Museu Nacional de Arte Antiga e Museu de São Roque, 2013 (Estudo Geral, Universidade de Coimbra).
  • Museu de São Roque, Santa Casa da Misericórdia de Lisboa: páginas da igreja e da capela de São João Baptista, e «Há um novo Tesouro na Cidade!»; página da capela de 2018 (Arquivo.pt).
  • Decreto n.º 7/2026, Diário da República, 16 de fevereiro de 2026.
  • PÚBLICO, «A capela de D. João V é mais portuguesa do que pensávamos», 30 de abril de 2012; e PÚBLICO, notícia sobre a classificação do tesouro, 23 de agosto de 2025.
  • Mensagem de Lisboa, reportagem sobre o tesouro da Capela de São João Batista, 10 de janeiro de 2025.
  • Agência Ecclesia, notícia sobre o restauro da Capela de São João Baptista, 2012.
  • Dizionario Biografico degli Italiani, «Vanvitelli, Luigi» (Treccani).
  • Muralha e outros, estudo dos vidros dos mosaicos da capela, Journal of Raman Spectroscopy, 2015.
  • Junta de Freguesia da Misericórdia, «Igreja de S. Roque»; e-cultura, «Igreja de São Roque».