Há em Lisboa, na igreja de São Roque, uma capela que foi construída em Roma. Lá a armaram, lá o Papa lhe sagrou o altar, lá a foi ver antes do embarque. Depois desmontaram-na, encaixotaram-na e meteram-na em três navios.
É uma das capelas laterais da igreja, a de São João Baptista. Os três quadros, o Batismo de Cristo, o Pentecostes e a Anunciação, são feitos em mosaico, como o chão, e de longe passam por pinturas. À volta há lápis-lazúli, ágata, alabastro, ametista, pórfiro, mármore de Carrara; as oito colunas têm os fustes revestidos de lápis-lazúli. Quando a restauraram, entre 2010 e 2012, encontraram-lhe marcas nos metais e nos parafusos. E o historiador António Filipe Pimentel vê nela o testemunho solitário da Basílica Patriarcal, a sumptuosa igreja que D. João V fez construir no Paço da Ribeira e que o terramoto de 1755 arrasou.

A história começa com uma carta. A 26 de outubro de 1742, o padre João Baptista Carbone, jesuíta italiano que tratava das obras de arte de D. João V, escreveu para Roma a Manuel Pereira de Sampaio, que lá representava o rei. Pedia uma capela de mosaico, a melhor possível, desenhada pelo melhor arquiteto que houvesse em Roma. Fazê-la lá foi escolha do rei. Em Roma, explica Pimentel, estavam os melhores arquitetos e artífices do tempo, e a cidade era uma montra diante das cortes da Europa católica. Roma deu dois arquitetos. Nicola Salvi era o da Fontana di Trevi. Luigi Vanvitelli acabava de ser nomeado arquiteto de São Pedro e havia de fazer, anos mais tarde, o palácio real de Caserta.

Lisboa também desenhou. Em fevereiro de 1743, o arquiteto da corte, João Frederico Ludovice, alemão de origem e o mesmo de Mafra, escreveu para Roma as suas advertências: nada de «caprichos pitorescos», porque aquela havia de ser uma capela de arquitetura nobre, séria e rica. Seguiu-se o que Pimentel chama uma «violenta controvérsia», carta a carta. Em março de 1744, Lisboa mandou para Roma um projeto alternativo de Ludovice, com ordem para que se executasse. Daí a expressão de Pimentel, obra «luso-italiana»: desenhada em Roma, dirigida a partir de Lisboa.

Em Roma, entretanto, a capela crescia à vista de todos. Em agosto de 1743, o representante português escrevia que «já concorre bastante gente por conta da curiosidade do Paiz», e que o Papa lhe mandara dizer que a queria ver antes de ser embarcada.

O Papa era Bento XIV, o mesmo que, anos depois, deixou Mafra guardar livros proibidos. Em setembro de 1744, Lisboa soube que ele queria sagrar o altar da nova capela e pediu que o altar viesse depois encaixotado, com toda a decência. A 15 de dezembro, na igreja de Santo António dos Portugueses, Bento XIV sagrou-o, numa cerimónia de mais de três horas: uma das mais solenes do pontificado, escreveu o representante português.

A capela, essa, ainda não estava acabada. Os quadros saíam da oficina de mosaico da Fábrica de São Pedro, em Roma: Agostino Masucci pintou os modelos, Mattia Moretti e os seus companheiros passaram-nos a mosaico. Os vidros fundiu-os Alessio Mattioli, a quem um estudo químico destes mosaicos chama o mais célebre vidreiro de Roma. Cada mudança de cor é uma tessela.

Em abril de 1747, a capela foi armada e mostrada numa exposição, com outras encomendas portuguesas. A 23 de abril, o Papa foi vê-la.

Para a levar, o representante português fretara navios em Veneza. No verão de 1747, os artífices que a haviam de montar partiram para Civitavecchia, onde os esperavam três navios. Em setembro, os três chegavam a Lisboa com os materiais da capela e a gente para a armar.

Como se manda uma capela por mar? Desmontada, em caixas, com os metais marcados. As marcas que o restauro encontrou nos metais e nos parafusos serviam para isso: para que, em Lisboa, tudo encaixasse no seu lugar com precisão. Os que vieram com ela voltaram depois para Roma, todos menos o escultor Alessandro Giusti. Esse ficou: trabalhou em Mafra e lá fundou uma escola de escultura.

A 12 de outubro de 1747, D. João V viu em Lisboa os painéis, o modelo da capela e o frontal do altar, e mostrou-se satisfeito, com alguma reserva quanto aos painéis. Em novembro começaram as obras em São Roque. O preço já ia além do que se esperava: em junho, Carbone escrevera para Roma que «nunca aqui se cuidou» que as encomendas custassem tanto. O historiador de arte Jörg Garms escreveu que é talvez a capela mais rica alguma vez construída.
D. João V morreu a 31 de julho de 1750, sem a ver aberta. A capela abriu pela primeira vez em janeiro de 1751, ainda com pinturas provisórias no lugar de mosaicos, e só ficou completa em 1752. Ludovice, o arquiteto que a corrigira a partir de Lisboa, morreu em janeiro desse ano, sem a ver acabada.
Em 1755, o terramoto fez de Lisboa um montão de escombros. São Roque ficou de pé, «quase incólume», escreve Pimentel, e a capela com ela. Os jesuítas, donos da igreja, foram expulsos do reino pela Coroa em 1759; em 1768, a igreja passou, com os seus bens, para a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que ainda hoje a guarda. O tesouro feito para a capela, 298 peças de ourivesaria, paramentos, rendas, livros e móveis, foi classificado tesouro nacional em 2026, e continua ao lado dela, no Museu de São Roque.
Da Basílica Patriarcal de D. João V, escreve Pimentel, o terramoto deixou pouco mais que pó. Para ver o que ficou dela, é preciso subir ao Bairro Alto, entrar em São Roque e parar na primeira capela do lado do Evangelho: a que veio de Roma em três navios.
Fontes10 referências
- Sousa Viterbo e R. Vicente d'Almeida, A capella de S. João Baptista erecta na egreja de S. Roque, Lisboa, 1900, com a transcrição da correspondência entre Lisboa e Roma conservada na Biblioteca da Ajuda (archive.org).
- António Filipe Pimentel (coord.), A Encomenda Prodigiosa. Da Patriarcal à Capela Real de São João Batista, roteiro da exposição, Museu Nacional de Arte Antiga e Museu de São Roque, 2013 (Estudo Geral, Universidade de Coimbra).
- Museu de São Roque, Santa Casa da Misericórdia de Lisboa: páginas da igreja e da capela de São João Baptista, e «Há um novo Tesouro na Cidade!»; página da capela de 2018 (Arquivo.pt).
- Decreto n.º 7/2026, Diário da República, 16 de fevereiro de 2026.
- PÚBLICO, «A capela de D. João V é mais portuguesa do que pensávamos», 30 de abril de 2012; e PÚBLICO, notícia sobre a classificação do tesouro, 23 de agosto de 2025.
- Mensagem de Lisboa, reportagem sobre o tesouro da Capela de São João Batista, 10 de janeiro de 2025.
- Agência Ecclesia, notícia sobre o restauro da Capela de São João Baptista, 2012.
- Dizionario Biografico degli Italiani, «Vanvitelli, Luigi» (Treccani).
- Muralha e outros, estudo dos vidros dos mosaicos da capela, Journal of Raman Spectroscopy, 2015.
- Junta de Freguesia da Misericórdia, «Igreja de S. Roque»; e-cultura, «Igreja de São Roque».
