Diante do rei D. João V, um padre acendeu uma chama sob um frágil globo de papel, e a coisa subiu sozinha até ao teto da sala do paço real de Lisboa, junto à Casa da Índia. Entre os que a viram erguer-se estava um homem que viria a ser papa. Aconteceu a 8 de agosto de 1709.
Bartolomeu Lourenço de Gusmão nascera no Brasil colonial, em Santos, em dezembro de 1685. Estudou na Universidade de Coimbra, onde se doutorou em Direito Canónico, e em 1709 dirigiu ao rei uma petição a anunciar ter descoberto um «instrumento para se andar pelo ar». A 19 de abril desse ano, D. João V concedeu-lhe, por alvará régio, o privilégio sobre a invenção, com apoio financeiro: um documento que, dizem alguns historiadores, foi das primeiras patentes de uma máquina voadora alguma vez registadas; um documento desse pedido conserva-se ainda hoje na Biblioteca Joanina de Coimbra.

Ao longo de agosto de 1709, Gusmão realizou perante a corte uma série de ensaios com pequenos balões de papel, erguidos pelo ar aquecido de uma chama na base. As fontes não concordam no calendário exato desses dias, mas concordam todas na sessão que os encerrou, na sala do paço junto à Casa da Índia, no Terreiro do Paço. A sala terá ficado em silêncio quando a chama pegou: o globo de papel encheu-se, hesitou, e subiu, devagar, até perto do teto, a uns quatro metros do chão, antes de descer suavemente. Assistiam à cena o rei D. João V, a rainha D. Maria Ana de Áustria e a corte reunida, e entre eles o núncio apostólico, o cardeal Michelangelo Conti, que anos mais tarde seria eleito papa Inocêncio XIII, e que relatou ao Vaticano o que vira. O episódio não é reconstrução tardia: ficou registado por testemunhas contemporâneas. Os historiadores contam cinco testemunhos documentados, entre eles o cronista José Soares da Silva, na sua Gazeta em Forma de Carta.

Setenta e quatro anos antes de os irmãos Montgolfier subirem aos céus de França, em 1783, e ficarem nos manuais como os pais do voo, um padre luso-brasileiro já fizera subir, diante de um rei e de um futuro papa, uma pequena esfera de papel.

E, no entanto, quando se pensa em Gusmão, a imagem que vem à cabeça não é essa. É outra: a «Passarola», uma nau voadora em forma de ave, gravada em estampas de época, com asas, mastros e uma tripulação a bordo. Essa máquina grandiosa nunca foi construída. Nunca voou. O que subiu ao teto do paço, em 1709, foi sempre um simples globo de papel, nunca um veículo capaz de transportar um homem. Há quem defenda que as próprias gravuras fantasiosas terão sido um engano deliberado, para esconder de olhos curiosos o verdadeiro princípio físico por trás da subida: o ar quente, mais leve, a erguer o que o envolve. Foi sobretudo a literatura, e em particular o romance Memorial do Convento (1982), de José Saramago, que fixou na imaginação portuguesa essa Passarola tripulada, poética e nunca real.

A verdade documentada era mais pequena do que a lenda, e por isso mesmo mais notável. Mas foi a lenda, mais bonita, que ficou; e foi ela que sepultou o facto.
A ousadia não lhe trouxe bom nome: chamaram-lhe, em tom de troça, «o Voador». Os anos seguintes não lhe foram fáceis. Gusmão foi alvo de suspeição do Santo Ofício. A natureza exata da acusação permanece incerta, mas o receio bastou. Em 1724, temendo a Inquisição, fugiu para Espanha. Morreu na noite de 18 para 19 de novembro desse ano, em Toledo, com trinta e oito anos, doente, longe de casa e na pobreza, num hospital de caridade.
D. João V, o mesmo rei que assistira ao pequeno balão subir em 1709, faria dois anos depois o voto que ergueria o colossal Palácio-Convento de Mafra, um monumento de pedra que o país nunca esqueceu.
Hoje, fora de círculos especializados, Bartolomeu de Gusmão está em grande parte esquecido. Os Montgolfier ficaram nos manuais como os pais do balão. Portugal guardou o desenho de uma nau que nunca voou, e esqueceu o pequeno globo de papel que, um dia de agosto, realmente subiu.