O chão do Palácio de Mafra parece feito de osso. Não é só uma imagem: morreram mais de mil homens a levantá-lo, e quase ninguém sabe os seus nomes. Quem hoje sobe a escadaria tem diante de si o maior edifício que os reis de Portugal mandaram erguer: cerca de mil e duzentas divisões, mais de quatro mil e setecentas portas e janelas, uma basílica ao centro e duas torres de sessenta metros. E, no entanto, o que celebra a glória de um rei é, visto de perto, o memorial de um povo que a História mal sabe nomear.
Tudo começou com uma promessa. Em 1711, D. João V fez voto de erguer um convento se a rainha, Maria Ana de Áustria, lhe desse descendência. O herdeiro tão pedido nasceu mulher: a Infanta Maria Bárbara, futura rainha de Espanha. Cumpriu-se o voto por uma menina. A 17 de Novembro de 1717, perante o rei, a corte e o Cardeal-Patriarca, lançou-se a primeira pedra de um convento pensado, no início, para treze frades. Cresceria até acolher trezentos.
O rei tinha com que pagar. Reinava sobre o ouro do Brasil, e à Coroa cabia o quinto, a quinta parte de tudo o que saía das minas de Minas Gerais. Foi esse ouro que ergueu Mafra. Custou tanto que chegou a ameaçar as finanças do reino, mas a riqueza que entrava pelo Tejo permitia sonhar sem medida.

E sem medida foi o estaleiro. No auge, por volta de 1730, trabalhavam ali cerca de 45 mil homens, e há quem fale em 52 mil no pico das obras: pedreiros, canteiros, alveneiros, carpinteiros, ferreiros, chamados de todo o país. A maioria vivia a nordeste da vila, num arraial de barracões erguidos à pressa a que se chamou, pela madeira de que eram feitos, a Ilha da Madeira. Tinha cavalariças, casas de pedra para os mestres e uma capela, também de tábuas. Uma cidade inteira nascida só para levantar outra.
Nem todos vieram por vontade. Muitos foram arrancados às suas terras e às suas famílias, e ao lado dos operários trabalhavam soldados: em 1731, quando o número já descera para pouco mais de quinze mil, mais de seis mil eram militares. Eram, em boa parte, tempos de trabalho coagido, de homens reduzidos a uma condição vizinha da servidão por causa de uma obra que era do gosto de um só.

E morria-se. Os registos da construção contam 1383 operários mortos, e os historiadores tomam o número por baixo. Caíam dos andaimes, ficavam debaixo da pedra que arrastavam, ardiam nas febres do arraial. O rei não os esqueceu de todo: à família de cada morto mandou dar três mil réis de esmola, uma mortalha, uma sepultura e cinco missas pela alma.
> Era quanto valia, na contabilidade do reino, a vida de um homem que ajudara a erguer a maior basílica do país: três mil réis, um hábito e cinco missas.

Para a obra, porém, o dinheiro nunca faltou. Os dois carrilhões das torres, com noventa e dois sinos e mais de duzentas toneladas de bronze, foram mandados fundir à Flandres, a Antuérpia e a Liège, pelas mãos dos melhores mestres da Europa. Conta a tradição que, ao saber do preço altíssimo, o rei o achou barato e mandou fazer dois. Verdadeira ou não, a anedota diz tudo sobre a distância que ia entre quem encomendava os sinos e quem carregava a pedra.
A 22 de Outubro de 1730, dia do seu quadragésimo primeiro aniversário, D. João V assistiu à sagração da basílica, com festas que se prolongaram por dias. As obras ainda continuariam por mais de duas décadas. Só pararam de vez por volta de 1755, quando o terramoto arrasou Lisboa e os braços de Mafra fizeram falta na capital em ruínas.

Durante quase dois séculos, os mortos de Mafra não passaram de uma linha numa conta antiga. Até que, em 1982, José Saramago lhes devolveu o rosto. Em Memorial do Convento, o ex-soldado maneta Baltasar Sete-Sóis e a vidente Blimunda atravessam o estaleiro a par dos grandes da corte, e o escritor que viria a ganhar o Nobel ergueu, sobre a mesma pedra, um segundo monumento: desta vez aos que nunca tiveram nome nos livros.
> Mafra guarda duas verdades. Uma é de pedra lavrada, ouro e sinos, e canta um rei. A outra está por baixo, sem inscrição: mil trezentos e oitenta e três homens, pelo menos, que pagaram com a vida uma promessa que não era sua.