No piso de cima da maior biblioteca europeia do século XVIII há cerca de oitocentos livros que a Igreja mandou proibir e, lá fora, queimar. Em Mafra, ninguém os queimou. Estão ali, intactos, há mais de dois séculos, escondidos à vista de todos.

A exceção tem data e assinatura. Em 1754, o Papa Bento XIV concedeu ao convento de Mafra uma bula rara que o autorizava a guardar obras condenadas pelo Index, a lista negra com que a Igreja proibia, desde 1559, tudo o que considerasse perigoso para a fé. Era um privilégio quase impensável: os mesmos livros que podiam entregar um leitor às mãos da Inquisição podiam, aqui, ficar nas prateleiras. Entre 1540 e 1794, calcula o historiador Henry Charles Lea, os tribunais do Santo Ofício de Lisboa, Porto, Coimbra e Évora condenaram mil cento e setenta e cinco pessoas só por consultarem livros proibidos. Em Mafra, os frades franciscanos guardavam-nos às centenas, com a bênção do próprio Papa.

Galileu, Copérnico, Descartes, Voltaire, Kant: o Index condenou-os, e Mafra guardou-os às centenas, com a bênção do Papa.
FIG. 02Galileu, Copérnico, Descartes, Voltaire, Kant: o Index condenou-os, e Mafra guardou-os às centenas, com a bênção do Papa.

E guardavam-nos à vista, mas disfarçados. As obras proibidas ocupam ainda hoje três estantes do piso superior, a 49, a 50 e a 51, sob um rótulo de propósito banal: "Miscelânia vária". Quem passa não desconfia. Por trás da etiqueta inócua está aquilo a que a casa chama a maior coleção de livros censurados pela Inquisição.

Duas colónias de morcegos vivem por trás das estantes. São eles, e não uma máquina, os guardiões da biblioteca.
FIG. 03Duas colónias de morcegos vivem por trás das estantes. São eles, e não uma máquina, os guardiões da biblioteca.

Boa parte do que ali se proíbe é, no fundo, a história do pensamento moderno. O Index condenou Galileu e Copérnico por dizerem que a Terra girava à volta do Sol, e ainda Descartes, Espinosa, Voltaire, Rousseau e Kant. Quase todos perderam apenas os livros. Um deles perdeu muito mais.

Ao cair da noite saem e comem os insetos que, de outro modo, devorariam o papel. Fazem-no há séculos.
FIG. 04Ao cair da noite saem e comem os insetos que, de outro modo, devorariam o papel. Fazem-no há séculos.

Giordano Bruno, frade dominicano, sustentava que o universo era infinito e cheio de outros mundos. Roma prendeu-o e julgou-o durante cerca de sete anos, sem nunca o demover. A 17 de fevereiro de 1600, levaram-no nu à praça do Campo de' Fiori, com uma mordaça de couro a prender-lhe a língua para que não falasse à multidão, e queimaram-no vivo. Conta-se que voltou a cara quando lhe aproximaram um crucifixo, e que dissera aos juízes que talvez sentissem mais medo ao ditar a sentença do que ele ao ouvi-la. Três anos depois, toda a sua obra entrou no Index. Parte dela está hoje nestas estantes.

O Index só foi abolido em 1966. Os livros que quis apagar continuam aqui, intactos.
FIG. 05O Index só foi abolido em 1966. Os livros que quis apagar continuam aqui, intactos.

E não é só de ciência que se faz a lista. Mafra guarda também um fundo de magia, astrologia e alquimia: páginas de Cornélio Agripa, de Paracelso e de Robert Fludd, e o estranho Livro Mudo, um tratado de alquimia feito quase só de imagens, sem texto, que prometia ensinar a transformar uma gota de orvalho em ouro a quem o soubesse ler.

Entre as peças mais raras estão um Alcorão traduzido para latim em 1543, uma Bíblia Políglota Complutense de 1514, com o texto em latim, grego, hebraico e aramaico, e folhas de Gil Vicente que a Inquisição leu, riscou e cortou em 1561, deixando na página a própria mão da censura.

A sala está à altura do que esconde: mil metros quadrados, trinta mil volumes, a maior livraria de uma só divisão que a Europa ergueu no século XVIII. E guarda um último segredo, mais vivo: ao anoitecer, duas colónias de morcegos saem de trás das estantes e comem os insetos que, de outro modo, devorariam o papel. São eles, e não uma máquina qualquer, que há séculos protegem os livros proibidos de Mafra.

O Index só foi abolido em 1966, quatro séculos depois de ter nascido. Os homens que o desafiaram morreram, uns na fogueira, outros no esquecimento; os livros que ele quis apagar continuam aqui, intactos, à espera de quem ainda os queira ler.