Para levar água a Lisboa, um engenheiro atravessou um vale de sessenta metros de fundo com um só arco.
É o maior arco de pedra em ogiva do mundo. E quase toda a gente, na altura, achou que era um erro.
O Aqueduto das Águas Livres e a travessia de Alcântara
O arco faz parte do Aqueduto das Águas Livres, a obra que trouxe água potável a uma Lisboa sedenta no século XVIII. A sua face mais conhecida, a travessia do Vale de Alcântara, cruza o vale em trinta e cinco arcos, ao longo de novecentos e quarenta e um metros. Nenhum aqueduto da Antiguidade tinha atravessado um desnível assim sem empilhar dois ou três andares de arcos uns sobre os outros. Este cruza-o com uma só fila. Foi a mais cara, a mais criticada e a mais arriscada de todas as decisões da obra. E é, ainda hoje, a que continua no mesmo sítio onde já estava no dia em que o terramoto de 1755 deitou a cidade abaixo à sua volta.

Quem mandou construir o aqueduto e como foi pago
A ideia era antiga: Lisboa nunca tivera água que lhe chegasse. Foi D. João V, o mesmo rei que ergueu o palácio-convento de Mafra, quem mandou finalmente resolver o problema, na década de 1730. Pagou-o a cidade. Durante mais de setenta anos, os lisboetas suportaram um imposto lançado sobre bens de primeira necessidade, a carne, o vinho e o azeite: era o «real de água», e foi ele que financiou, pedra a pedra, o aqueduto.
O traçado geral, dos mananciais até junto da cidade, coube ao engenheiro Manuel da Maia, que o desenhou segundo a tradição de Vitrúvio, com sólidos arcos de volta redonda. Mas havia um obstáculo que os tratados antigos não resolviam: o Vale de Alcântara. E esse foi entregue a um engenheiro militar, Custódio Vieira.

O maior arco de pedra em ogiva do mundo
O problema de Vieira era a altura. Vencer um vale tão fundo de uma só vez era coisa que nenhum construtor tinha ousado. Os grandes exemplos da Antiguidade resolviam-no empilhando arcadas umas sobre as outras: Segóvia e Tarragona, que nem chegam aos trinta metros, usam dois andares de arcos; o Pont du Gard, em França, cujo maior arco não atinge os cinquenta metros, usa três. Ninguém se aproximara sequer daquele desafio com menos de três andares sobrepostos.
Vieira decidiu atravessar os mais de sessenta metros do Vale de Alcântara num só andar. Para o conseguir, foi buscar uma forma que a arquitetura erudita tinha banido desde o Renascimento: o arco quebrado, a ogiva do tempo dos góticos. Ressuscitou-a por engenharia, para ganhar aquela altura sem multiplicar andares. O maior desses arcos ergue-se a sessenta e cinco metros do fundo do vale. É, até hoje, o mais alto arco de pedra em ogiva do mundo.

A obra mais criticada: o custo e o ferro
A ousadia teve um preço, e o preço fez-se ouvir. A solução de Vieira foi muito criticada no seu tempo, e a crítica caía sobretudo no dinheiro. A 16 de janeiro de 1745, o superintendente da obra, Cláudio Gorgel do Amaral, escreveu ao rei a protestar contra o custo daquela arcada. Havia, dizia ele, caminhos mais baratos e mais seguros para meter a água na cidade. E deixou um número que ainda hoje impressiona: só o ferro usado para segurar os arcos, por causa da enorme altura a que estavam, tinha passado dos duzentos mil cruzados.
Não era uma queixa desarrazoada. Era, de facto, uma obra caríssima. A água acabaria por chegar às primeiras fontes de Lisboa, entre elas o Chafariz do Rato, em 1748; a arcada de Alcântara estava pronta desde 1744. Onze anos antes do dia que ninguém esperava.

O aqueduto e o terramoto de 1755
Esse dia foi 1 de novembro de 1755. Pela manhã, a terra abriu-se e Lisboa caiu. Igrejas, palácios e bairros inteiros vieram ao chão; ao tremor seguiram-se o incêndio e o mar. E a arcada de Alcântara ficou de pé. Não saiu incólume, ao contrário do que a lenda costuma repetir: caíram três dos torreões que coroam os arcos do vale, e o arco da Rua das Amoreiras ficou com muitas pedras fora do lugar. Mas a estrutura aguentou. E aguentou apesar de a arcada assentar precisamente sobre uma falha sísmica, a do próprio Vale de Alcântara.
Porque é que o aqueduto não caiu
Porquê? Não há uma resposta única e provada, mas as que existem apontam todas para a maneira como a obra foi feita. Já em 1856 o major Chelmicki, que a estudou, atribuía a resistência ao subsolo basáltico em que assenta. Os engenheiros do Museu da Água acrescentam-lhe a técnica de Custódio Vieira: os arcos em ogiva, reforçados com ferro, sobre aquele solo. Ou seja, ao que tudo indica, o mesmo ferro que em 1745 lhe tinham censurado como esbanjamento foi uma das razões por que a obra não veio abaixo.

E a água continuou a correr. Enquanto a cidade se reerguia das ruínas, o aqueduto que o imposto de setenta anos tinha pago seguiu a levar água a Lisboa, todos os dias, como se nada tivesse acontecido.
Custódio Vieira morreu por volta de 1744, no ano em que a arcada ficou pronta. Não chegou a ver o dia que lhe daria razão.
Não estava a construir contra um terramoto. Estava a construir contra a altura. O ferro que meteu para aguentar os arcos, o mesmo que lhe apontaram como desperdício, acabou por segurar a obra contra uma coisa que, em 1745, ninguém estava sequer a imaginar.