Quando o Hospital Real de Granada pegou fogo, em julho de 1549, um homem entrou no edifício a arder e tirou os doentes às costas, quase sozinho; as camas e a roupa, atirou-as pelas janelas. Correu pela cidade a voz de que tinha morrido no fogo. Saiu, conta o seu primeiro biógrafo, apenas com as sobrancelhas chamuscadas.

Anos antes, Granada tinha-o fechado naquele mesmo hospital, por louco.

A primeira biografia, de Francisco de Castro, Granada, 1585: «fue de nacion portoguesa, de vn pueblo llamado Mõtemayor el nueuo, que es enel obispado de Euora»; e, aos oito anos, «sin sabello ellos, fue lleuado por vn clerigo» (Biblioteca Digital de Andalucía, domínio público).
FIG. 02A primeira biografia, de Francisco de Castro, Granada, 1585: «fue de nacion portoguesa, de vn pueblo llamado Mõtemayor el nueuo, que es enel obispado de Euora»; e, aos oito anos, «sin sabello ellos, fue lleuado por vn clerigo» (Biblioteca Digital de Andalucía, domínio público).

Chamava-se João. O biógrafo, Francisco de Castro, foi reitor do hospital que esse homem fundou e escreveu a partir do caderno de um companheiro que fora testemunha. Diz que era «de nação portuguesa», de uma vila chamada «Montemayor el Nuevo», no bispado de Évora, filho de pais medianos, nem ricos nem de todo pobres. A tradição chama-lhe João Cidade e dá-o por nascido em 1495.

Pintura da igreja de São João de Deus, em Montemor-o-Novo, começada em 1625; por baixo da sacristia guarda a cripta que a tradição dá como o lugar onde ele nasceu. A partir de uma fotografia real de GualdimG (CC BY-SA 4.0); figura genérica, não retrato.
FIG. 03Pintura da igreja de São João de Deus, em Montemor-o-Novo, começada em 1625; por baixo da sacristia guarda a cripta que a tradição dá como o lugar onde ele nasceu. A partir de uma fotografia real de GualdimG (CC BY-SA 4.0); figura genérica, não retrato.

Aos oito anos, um clérigo levou-o dos pais para Oropesa, em Castela, «sem o saberem eles». É tudo o que Castro diz. Porque foi levado, ninguém o escreveu, e as hipóteses que depois se fizeram não têm documento.

Pintura do regresso a Montemor: já ninguém o conhecia, até que um tio velho o reconheceu pelas feições e lhe contou que a mãe morrera e que o pai se fizera frade em Lisboa, conta Castro (evocação; figuras genéricas, não retratos).
FIG. 04Pintura do regresso a Montemor: já ninguém o conhecia, até que um tio velho o reconheceu pelas feições e lhe contou que a mãe morrera e que o pai se fizera frade em Lisboa, conta Castro (evocação; figuras genéricas, não retratos).

Em Oropesa guardou gado. Depois foi soldado duas vezes, ao serviço do conde de Oropesa: em Fuenterrabía, cercada pelo rei de França, e a caminho de Viena, na guerra do imperador contra os turcos. No regresso, foi a Montemor.

Pintura das obras das muralhas do rei de Portugal em Ceuta, onde, conta Castro, trabalhou para sustentar com o jornal de cada dia a família de um cavaleiro português desterrado (evocação; figuras genéricas, não retratos).
FIG. 05Pintura das obras das muralhas do rei de Portugal em Ceuta, onde, conta Castro, trabalhou para sustentar com o jornal de cada dia a família de um cavaleiro português desterrado (evocação; figuras genéricas, não retratos).

Já ninguém o conhecia. Perguntou pelos pais, e foi um tio velho que o reconheceu, pelas feições do rosto e pelos sinais que dava deles. Contou-lhe que a mãe morrera poucos dias depois de o levarem e que o pai se fizera frade franciscano, em Lisboa.

Castro, fol. 23: dois homens honrados da cidade levaram-no «al hospital real, que es do recogen y curã los locos de la ciudad» (Biblioteca Digital de Andalucía, domínio público).
FIG. 06Castro, fol. 23: dois homens honrados da cidade levaram-no «al hospital real, que es do recogen y curã los locos de la ciudad» (Biblioteca Digital de Andalucía, domínio público).

Não ficou. Na mesma Ceuta que os portugueses tinham tomado em 1415, trabalhou nas obras das muralhas do rei de Portugal para sustentar a família de um cavaleiro português ali desterrado, que caíra doente e na miséria; dava-lhes, todas as noites, a jorna. Depois vendeu livros devotos e estampas de terra em terra, e acabou em Granada, com uma tenda junto à Porta de Elvira.

Pintura do cortejo fúnebre da imperatriz Isabel de Portugal, filha de D. Manuel I, a passar diante do Hospital Real de Granada em 1539: foi isso, conta Castro, que o decidiu a sair (evocação, não vista do lugar; figuras genéricas, não retratos).
FIG. 07Pintura do cortejo fúnebre da imperatriz Isabel de Portugal, filha de D. Manuel I, a passar diante do Hospital Real de Granada em 1539: foi isso, conta Castro, que o decidiu a sair (evocação, não vista do lugar; figuras genéricas, não retratos).

Por volta de 1539, num 20 de janeiro, dia de São Sebastião, foi ouvir pregar João de Ávila na ermida dos Mártires. Saiu de lá, escreve Castro, «como fora de si», aos gritos. Rasgou com as mãos e com os dentes os livros de cavalaria que tinha na tenda e deu de graça as vidas de santos. Os rapazes corriam atrás dele: «ao louco, ao louco».

Gravura de C. Neel e C. Galle, que a Biblioteca Nacional data de entre 1630 e 1650: João de Deus, já beato, ampara um doente, com uma enfermaria ao fundo (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).
FIG. 08Gravura de C. Neel e C. Galle, que a Biblioteca Nacional data de entre 1630 e 1650: João de Deus, já beato, ampara um doente, com uma enfermaria ao fundo (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).

A cidade tomou-o por louco. Dois homens honrados tiraram-no do meio da gente e levaram-no ao Hospital Real, «onde recolhem e curam os loucos da cidade». Ali, conta Castro, ataram-lhe os pés e as mãos e açoitaram-no, que era a principal cura que então se dava aos loucos. Ao ver castigar os outros doentes, pedia a Deus que um dia lhe desse um hospital.

Pintura do rio Genil num inverno de grandes cheias: entrou na corrente para tirar lenha para o lume dos pobres e, conta Castro, para socorrer um rapaz que o rio levava, sem o conseguir salvar; do frio desse dia agravou-se a doença de que morreu (evocação; figura genérica, não retrato).
FIG. 09Pintura do rio Genil num inverno de grandes cheias: entrou na corrente para tirar lenha para o lume dos pobres e, conta Castro, para socorrer um rapaz que o rio levava, sem o conseguir salvar; do frio desse dia agravou-se a doença de que morreu (evocação; figura genérica, não retrato).

Foi à porta desse hospital que a vida lhe mudou outra vez. Em 1539, já melhor e a servir na casa, viu passar o cortejo que levava o corpo da imperatriz, mulher de Carlos V, para a Capela Real de Granada. A imperatriz era Isabel de Portugal, filha de D. Manuel I. Castro escreve que foi isso que o decidiu a sair, e o mordomo deu-lhe uma cédula assinada, para que ninguém o voltasse a internar julgando-o ainda doente.

A gravura mais antiga que se lhe conhece, diz o tradutor da Ordem: um homem ajoelhado, de mãos postas, com cajado de pastor, na primeira edição de Castro, Granada, 1585 (Biblioteca Digital de Andalucía, domínio público).
FIG. 10A gravura mais antiga que se lhe conhece, diz o tradutor da Ordem: um homem ajoelhado, de mãos postas, com cajado de pastor, na primeira edição de Castro, Granada, 1585 (Biblioteca Digital de Andalucía, domínio público).

A primeira casa que abriu para doentes ficava na Rua Lucena, em Granada, e depressa se encheu. Pedia esmola pelas ruas com um grito: «Fazei bem, irmãos, a vós mesmos». Um bispo de passagem, Castro diz que o de Tui, perguntou-lhe o nome e disse-lhe que se chamasse João de Deus. Numa carta, ele próprio descreve o que tinha em casa: toda a espécie de doentes, «tolhidos, aleijados, leprosos, mudos, loucos, paralíticos, tinhosos, e outros muito velhos e muitos meninos», mais de cento e dez pessoas, e dívidas de mais de duzentos ducados. Em 1547 comprou um antigo convento na encosta dos Gomérez, levou para lá os doentes e chegou a sustentar cerca de duzentas pessoas, contando quem as servia.

Página de rosto da primeira biografia, escrita por Francisco de Castro, reitor do hospital de João de Deus em Granada, e impressa em 1585, trinta e cinco anos depois da morte dele (Biblioteca Digital de Andalucía, domínio público).
FIG. 11Página de rosto da primeira biografia, escrita por Francisco de Castro, reitor do hospital de João de Deus em Granada, e impressa em 1585, trinta e cinco anos depois da morte dele (Biblioteca Digital de Andalucía, domínio público).

Foi esse homem que, em julho de 1549, entrou no Hospital Real a arder.

Estampa devota de cerca de 1783, feita no convento da Ordem em Lisboa por um religioso da Ordem, Fr. Joaquim de Jesus Maria Ortigão, e dedicada aos reis (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).
FIG. 12Estampa devota de cerca de 1783, feita no convento da Ordem em Lisboa por um religioso da Ordem, Fr. Joaquim de Jesus Maria Ortigão, e dedicada aos reis (Biblioteca Nacional de Portugal, domínio público).

O fim veio pelo rio Genil. Num inverno de grandes cheias, já doente, entrou no rio para tirar lenha para o lume dos pobres. Um rapaz foi arrastado pela corrente, e ele entrou mais fundo para o socorrer; não o conseguiu salvar, conta Castro. Do frio desse dia agravou-se a doença. Morreu em Granada a 8 de março de 1550, em casa da família Pisa, sua benfeitora, aos cinquenta e cinco anos, doze deles gastos a servir os pobres. Segundo Castro, morreu de joelhos, abraçado a um crucifixo.

Os companheiros continuaram a obra. Em 1572, uma bula de Pio V aprovou a congregação dos irmãos de João de Deus. Em 1886, Leão XIII declarou-o padroeiro dos hospitais e dos doentes; em 1930, Pio XI, padroeiro dos enfermeiros. Hoje, a Ordem Hospitaleira de São João de Deus trabalha em cerca de cinquenta países, nos cinco continentes, com cerca de quatrocentos centros.

Portugal guardou-lhe o nome. A Ordem entrou no reino em 1606, por Montemor-o-Novo, e ali começou a erguer, em 1625, a igreja onde fica a cripta onde a tradição diz que ele nasceu. Esse berço também se discute: em 1576, a resposta de uma vila de Castela, Casarrubios del Monte, a um inquérito de Filipe II pôs «Juan de Dios, el que fundó el hospital famoso de Granada» entre as pessoas notáveis da terra, enquanto o primeiro biógrafo e o processo de beatificação o dão como natural de Montemor. A questão continua em aberto.

Em 1645, por alvará de D. João IV, os irmãos de São João de Deus ficaram a cargo dos Reais Hospitais Militares da guerra da Restauração, ao longo da fronteira. O nome ficou na toponímia de terras da raia, de Chaves a Castro Marim.

Entre os loucos do Hospital Real, conta Castro, pedia um hospital onde pudesse recolher «os pobres desamparados e faltos de juízo». Quando a Ordem voltou a Portugal, a primeira casa que firmou foi no Telhal, perto de Sintra, em 1893. Era para doentes mentais.

Fontes17 referências
  • Francisco de Castro, Historia de la vida y sanctas obras de Iuan de Dios, y de la institucion de su orden y principio de su hospital, Granada, Antonio de Librixa, 1585 (primeira edição digitalizada, Biblioteca Digital de Andalucía).
  • Francisco de Castro, History of the Life and Holy Works of John of God, tradução inglesa de Benedict O'Grady, OH, com notas.
  • José Luis Martínez Gil, OH, «Sobre el nacimiento y procedencia de San Juan de Dios y su obra», Hispania Sacra, 2006 (com a transcrição das Relaciones topográficas de Casarrubios del Monte, de Luis de Granada e das informações da beatificação).
  • Carmen Fernández Ramírez, Comedia de la santa vida de Juan de Dios (ms. 14767), trabalho de fim de grau, Universidad de Sevilla.
  • «Hospitaleiros de São João de Deus (Ordem Hospitaleira de São João de Deus)», Dicionário de História Religiosa de Portugal, na Enciclopédia do Centro de Estudos de História Religiosa, Universidade Católica Portuguesa.
  • Ordem Hospitaleira de São João de Deus, Província Portuguesa, «O Fundador», e as cartas de São João de Deus em tradução portuguesa (segunda carta a Gutierre Lasso, primeira carta à duquesa de Sessa).
  • Ordem Hospitaleira de São João de Deus, Cúria Geral, «A Ordem» e «São João de Deus»; site do Capítulo Geral da Ordem; estatística oficial da Ordem.
  • Instituto São João de Deus, páginas do ISJD Telhal e do ISJD Montemor-o-Novo.
  • Património Cultural, ficha «Conjunto da Igreja e cripta de São João de Deus», Montemor-o-Novo.
  • Arquivos da Universidade de Évora, «Convento de São João de Deus de Montemor-o-Novo».
  • Augusto Moutinho Borges, «Reais Hospitais Militares em Portugal», Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
  • Câmara Municipal de Elvas, «Hospital Militar, Convento de São João de Deus».
  • Aires Gameiro, «Irmãos de S. João de Deus», Aprender Madeira.
  • Inmaculada Arias de Saavedra, «Exequias granadinas por reinas hispano-portuguesas», Repositorio de la Universidad Autónoma de Madrid.
  • Martínez Pinna, artigo sobre o incêndio do Hospital Real de Granada, revista Clío.
  • Medalha Prodigioza do Caritativo Patriar. S. João de D.s, estampa, Lisboa (Biblioteca Nacional Digital, domínio público).
  • Ospedale Isola Tiberina, «Chi siamo»; Wikipedia, «Ospedale Fatebenefratelli Isola Tiberina, Gemelli Isola» (italiano), «San Juan de Dios» e «Isabel de Portugal» (castelhano).