Numa oficina de Portalegre há tecedeiras que chegam a dar dez mil pontos de lã num quadrado de dez centímetros de lado. E tecem pelo avesso: enquanto trabalham, não veem o direito daquilo que estão a fazer.

Só veem a tapeçaria inteira quando sai do tear.

O que sai daqueles teares está pendurado no Tribunal de Contas, em Lisboa. E, conta a própria casa, no Tribunal de Justiça Europeu, no Luxemburgo, e no Supreme Court of New South Wales, na Austrália.

O que é o ponto de Portalegre

Dez mil pontos num quadrado de dez centímetros só encontram comparação na tapeçaria chinesa em seda, escrevem os autores do volume coletivo que a Universidade de Évora publicou este ano. E vem de uma única diferença. Num tear, os fios esticados de cima a baixo são a teia; o fio que passa por eles, e que dá a cor e o desenho, é a trama. Na tapeçaria de sempre, teia e trama cruzam-se. Aqui, a trama envolve a teia e cobre-a por completo. E a trama é feita de oito cabos de lã, tirados de uma paleta de mais de sete mil cores, e é por isso que um único ponto pode conter fios de oito tons diferentes. Não é tecer um desenho. É pintar com lã.

O trabalho faz-se em teares verticais, começado pela base e visto do avesso: enquanto tece, a tecedeira não vê a frente do desenho. Pintura. figura ilustrativa, não retrato de nenhuma tecedeira identificada.
FIG. 02O trabalho faz-se em teares verticais, começado pela base e visto do avesso: enquanto tece, a tecedeira não vê a frente do desenho. Pintura. figura ilustrativa, não retrato de nenhuma tecedeira identificada.

Chama-se ponto de Portalegre. Foi inventado nos anos vinte por um estudante português numa escola têxtil francesa, e ficou cerca de vinte anos à espera de servir para alguma coisa. O país onde havia de servir mandava então tecer as tapeçarias em França e na Flandres, e já tinha falhado a tentativa de as fazer em casa: o marquês de Pombal, de cujos marcos de granito no Douro já aqui falámos, quis incentivar a manufatura nacional com duas fábricas de tapeçaria. Nenhuma vingou.

1946: Guy Fino e a Manufactura de Tapeçarias de Portalegre

Portalegre era terra de lanifícios, de lã e de teares. Em 1946, dois amigos abriram lá uma firma a que deram o nome de Tapetes de Portalegre: Guy Fino, que vinha de dentro da indústria dos lanifícios, e Manuel Celestino Peixeiro. O propósito não era tapeçaria de parede. Era fazer reviver os tapetes de ponto de nó.

Foi então que o pai de Celestino entrou na conversa. Manuel do Carmo Peixeiro era diplomado em engenharia têxtil pela Escola Nacional de Artes Industriais de Roubaix, instituição que no início do século XX se tornara uma espécie de universidade do têxtil. Anos antes, enquanto ali estudava, tinha inventado um ponto. Desafiou os dois jovens a fazer o que ninguém tinha feito com aquele ponto: uma tapeçaria para pendurar na parede.

O mostruário de cores da Manufactura, exposto no Museu da Tapeçaria de Portalegre – Guy Fino: a paleta da casa passa das sete mil cores de lã. Pintura a partir de fotografia real do mostruário, de Daniel Silva (Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0); a pintura derivada é partilhada sob a mesma licença, CC BY-SA 4.0.
FIG. 03O mostruário de cores da Manufactura, exposto no Museu da Tapeçaria de Portalegre – Guy Fino: a paleta da casa passa das sete mil cores de lã. Pintura a partir de fotografia real do mostruário, de Daniel Silva (Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0); a pintura derivada é partilhada sob a mesma licença, CC BY-SA 4.0.

O primeiro desenho que aqueles teares traduziram veio de dentro da própria cidade. Era de João Tavares, pintor e aguarelista, que tinha sido professor de Guy Fino e de Celestino no Liceu de Portalegre. E foi ele quem ensinou o ponto às primeiras tecedeiras. A primeira tapeçaria saiu dos teares no final dos anos quarenta.

1952: a tapeçaria portuguesa ao lado da francesa

Faltava convencer alguém. Em 1952 chegou a Portugal a grande exposição A Tapeçaria Francesa, da Idade Média ao Presente, e Guy Fino aproveitou a ocasião para um gesto que não é de quem teme comparações. Expôs no Secretariado Nacional da Informação duas grandes tapeçarias de Portalegre, tecidas sobre cartões de Guilherme Camarinha, e pendurou ao lado de cada uma o quadro original de que tinha saído. Quem entrasse podia ir com os olhos do original à cópia tecida, sem dar um passo.

As encomendas que se seguiram foram sobretudo públicas: as tapeçarias seguiam para o SNI, e o Ministério das Obras Públicas mandava-as fazer para tribunais e edifícios do Estado. Nove obras concebidas por Almada Negreiros saíram dos teares de Portalegre, e duas delas, Número e O Contador, estão no Tribunal de Contas.

Numa escola têxtil de Roubaix, nos anos vinte, um estudante português inventou um ponto em que a trama envolve a teia em vez de a cruzar. Pintura. evocação pintada de Manuel do Carmo Peixeiro, não retrato nem fotografia.
FIG. 04Numa escola têxtil de Roubaix, nos anos vinte, um estudante português inventou um ponto em que a trama envolve a teia em vez de a cruzar. Pintura. evocação pintada de Manuel do Carmo Peixeiro, não retrato nem fotografia.

Jean Lurçat e a Bienal de Lausanne

O resto está em papel de arquivo. Numa carta de 1961 lê-se que Jean Lurçat, renovador da tapeçaria francesa e presidente do Centro Internacional de Tapeçaria Antiga e Moderna, manifestou o desejo de que Número figurasse na primeira Bienal de Tapeçaria de Lausanne. Há mais correspondência assinada por ele, incluindo um convite de 1963 para a bienal seguinte. Em Lausanne, conta uma carta de 1962, a tapeçaria teve «lugar honroso» e levantou «discussão bastante forte, tanto no meio artístico, como no meio técnico quanto à parte da tecelagem». A discussão correu nos dois meios, e no técnico foi sobre como aquilo tinha sido feito.

Até 2014 tinham saído daqueles teares cerca de 3400 tapeçarias, a partir de mais de 2500 cartões originais, num total aproximado de 12 700 metros quadrados. É mais de um hectare de pano feito à mão, ponto por ponto. Mais de duzentos pintores, portugueses e estrangeiros, têm obra tecida em Portalegre, de Vieira da Silva a Júlio Pomar, de Maria Keil a Joana Vasconcelos. Arpad Szenes chamou Portalegre a uma das suas. Os CTT possuem mais de uma dezena delas e dedicaram à Manufactura uma emissão de selos.

Visitar o Museu da Tapeçaria de Portalegre – Guy Fino

A Manufactura completou este ano oitenta anos de teares a trabalhar, dirigida por Vera Fino, filha de Guy Fino. O museu que guarda as obras abriu há vinte e cinco anos, numa antiga casa nobre com portal setecentista.

Em 1952, Guy Fino expôs no SNI duas tapeçarias de Portalegre e pendurou ao lado de cada uma o quadro original de que tinha saído, convidando à comparação. Pintura. cena ilustrativa. As obras representadas são inventadas.
FIG. 05Em 1952, Guy Fino expôs no SNI duas tapeçarias de Portalegre e pendurou ao lado de cada uma o quadro original de que tinha saído, convidando à comparação. Pintura. cena ilustrativa. As obras representadas são inventadas.

O ponto que hoje se tece ali já não é o que João Tavares ensinou às primeiras tecedeiras. Elas foram-no aperfeiçoando, encontrando soluções, inventando truques. O ponto original media dois milímetros quadrados e dava dois mil e quinhentos pontos naquele quadrado de dez centímetros. As tecedeiras aprenderam a desmontar o ponto e a remontá-lo mais fino, a multiplicá-lo no espaço onde antes cabia um só, e chegaram aos dez mil. Quadruplicaram o ponto que o inventor lhes deixou.

Os dez mil pontos num quadrado de dez centímetros nunca foram do inventor. São delas.

As tecedeiras e quem assina uma tapeçaria

O registo guarda-lhes o nome de vez em quando. Gisela Figueiredo Ladeira e Maria Helena Figueiredo foram fotografadas aos teares em 2010. Fernanda Fortunato, encarregada de produção, é a trabalhadora mais antiga da casa e teve contacto direto com muitos dos artistas que por ali passaram. Foi Cesaltina Ciríaco, mulher de Guy Fino, quem escolheu as cores da tapeçaria Bailarina, e essa escolha é parte fundamental do trabalho. De resto, vale a tradição europeia: uma tapeçaria é assinada apenas pelo artista que fez o cartão. Como reconhecer o contributo de quem desenha e de quem tece é questão que o estudo de Évora deixa em aberto.

Oeiras, 1962: o inventor do ponto escreve a Almada Negreiros para lhe dar os parabéns por uma página de jornal dedicada ao pintor. Morreu no ano seguinte. Pintura. evocação, não retrato.
FIG. 06Oeiras, 1962: o inventor do ponto escreve a Almada Negreiros para lhe dar os parabéns por uma página de jornal dedicada ao pintor. Morreu no ano seguinte. Pintura. evocação, não retrato.

Manuel do Carmo Peixeiro nasceu em 1893, o mesmo ano de Almada Negreiros. Morreu em 1963.

A carta de 1962 a Almada Negreiros

No ano anterior, de Oeiras, escreveu ao pintor. A carta ficou guardada no arquivo de Almada. Usou papel timbrado «Pro Arte / Delegação de Portalegre», e o motivo era pequeno: tinha lido no Diário de Notícias uma página dedicada a Almada e quis dar os parabéns. Desejou-lhe «uma vida muitíssimo longa» e que continuasse «sempre de espírito jovem e espalhando ARTE por toda a parte». E acrescentou: «Assim não se envelhece!»

Escreveu aquilo a propósito da arte de outro homem. Acabou por ser a descrição mais exata que alguém deixou do que aconteceu ao ponto dele. O direito inteiro, ele não chegou a vê-lo: mais de duzentos pintores, mais de um hectare de lã tecida por mãos que trabalham pelo avesso, obra espalhada por todos os continentes.