Pela escotilha, o almirante via tudo. No convés do navio em chamas, mulheres erguiam ao ar os filhos pequenos, a implorar piedade.
Quem olhava por aquela fresta era Vasco da Gama, o filho de Sines. O mesmo homem que abrira à Europa o caminho marítimo para a Índia.
A glória e o fogo vieram do mesmo homem, e do mesmo mar. Portugal recorda-o como o maior dos seus navegadores; um escrivão que ia a bordo recordou-o, até ao fim dos seus dias, por aquela manhã ao largo da Índia. E a vila que o gerou, essa, nunca o quis guardar.

Vasco da Gama nasceu em Sines, vila da costa alentejana, no final da década de 1460, filho de Estêvão da Gama, alcaide-mor da terra, e de Isabel Sodré. Ainda menino, recebeu a primeira tonsura, com os irmãos, na própria Igreja Matriz de São Salvador. Era um rapaz daquela vila, prometido desde cedo à Ordem de Santiago, que então senhoreava Sines.
Em 1498 dobrou o cabo da Boa Esperança e alcançou Calecute. Abriu à Europa a rota marítima para a Índia, um feito que mudou o mundo e lhe granjeou a gratidão do rei. Na véspera de Natal de 1499, D. Manuel I prometeu-lhe a recompensa que o navegador haveria de reclamar até morrer: o senhorio da sua própria vila de Sines.

Três anos volvidos, regressou ao Índico. Já não como descobridor, mas de armas na mão. Dois anos antes, a feitoria portuguesa de Calecute fora assaltada e mais de meia centena de homens mortos; D. Manuel I mandava agora Vasco da Gama vingar esses mortos e submeter Calecute pela força.
Mas o navio que primeiro encontrou nada tinha a ver com aquela guerra. A 29 de setembro de 1502, as naus avistaram ao largo o «Mirí», que voltava de Meca carregado de peregrinos muçulmanos no regresso da peregrinação. Levava a bordo, segundo o escrivão Tomé Lopes, que tudo presenciou, mais de duzentos homens, sem contar as mulheres e as crianças, que eram muitas.

O navio não se rendeu. Defendeu-se durante cerca de cinco dias, com as poucas armas e as pedras que tinha. Tomé Lopes, escrivão de uma das naus da armada, escreveria mais tarde que daquele dia se haveria de lembrar toda a vida.
Foi então que sucedeu o que abre esta história. Da escotilha, Vasco da Gama observava tudo. As mães, escreveu o escrivão, «tomavam nos braços seus filhinhos» e erguiam-nos no ar, para que ele se condoesse «daqueles inocentes»; os homens acenavam que se queriam resgatar a todo o custo. E não era oferta vã. O próprio Tomé Lopes calculou que só a riqueza daquele navio chegaria para resgatar todos os cristãos cativos no reino de Fez, e ainda sobraria muito para o rei.

O resgate foi recusado. O almirante mandou lançar fogo à nau. Ardeu «com quantas pessoas se achavam dentro», escreveu Tomé Lopes na «Navegação às Índias Orientais», o relato que deixou da viagem, «com muita crueldade e sem comiseração alguma». Quantos ali morreram ao certo, não se sabe: as contas vão dos mais de duzentos homens que o escrivão registou às quatrocentas almas de outras crónicas. Estas palavras não são de um historiador de hoje. São as de um português que ali esteve, em 1502, e que não as conseguiu esquecer.
Vasco da Gama voltou coberto de honras. Em 1503 ou 1504, de regresso a Portugal, começou a erguer um grande solar na sua Sines, a casa do homem que partira menino e tornara senhor do mar. Viria a ser conde da Vidigueira e almirante dos mares da Índia.
A vila, porém, nunca chegou a ser sua. Sines pertencia à Ordem de Santiago, e o mestre, D. Jorge de Lencastre, recusou cedê-la por princípio: abdicar de uma vila da Ordem seria abrir a porta a que o rei dispusesse das outras. Pouco importava que o próprio Gama fosse cavaleiro dessa mesma Ordem. E a 21 de março de 1507, uma ordem régia obrigou-o a suspender as obras e a abandonar Sines. A casa ficou por acabar. O título que lhe coube foi o de outra terra, a Vidigueira. Morreu vice-rei da Índia, em Cochim, na véspera de Natal de 1524, na mesma quadra em que, vinte e cinco anos antes, lhe haviam prometido a vila que nunca foi sua.
Hoje, Sines chama-lhe «o seu mais famoso filho». Guarda-lhe o castelo, uma casa-museu, a igreja onde foi tonsurado, uma estátua erguida em 1970 e um monumento novo, inaugurado em 2022. A vila que o expulsou continua a moldá-lo em bronze.
Das mulheres que ergueram os filhos pela escotilha não ficou estátua, nem nome. Ficou uma linha, escrita por um escrivão para que não se esquecesse. O que abriu um mundo e o que olhou pela escotilha eram o mesmo homem.