Pela escotilha, o almirante via tudo. No convés do navio em chamas, mulheres erguiam ao ar os filhos pequenos, a implorar piedade.

Quem olhava por aquela fresta era Vasco da Gama, o filho de Sines. O mesmo homem que abrira à Europa o caminho marítimo para a Índia.

A glória e o fogo vieram do mesmo homem, e do mesmo mar. Portugal recorda-o como o maior dos seus navegadores; um escrivão que ia a bordo recordou-o, até ao fim dos seus dias, por aquela manhã ao largo da Índia. E a vila que o gerou, essa, nunca o quis guardar.

«O almirante via o que se passava por uma escotilha.» Da abertura, Vasco da Gama observava o navio de peregrinos. Palavras do escrivão Tomé Lopes, testemunha ocular, 1502.
FIG. 02«O almirante via o que se passava por uma escotilha.» Da abertura, Vasco da Gama observava o navio de peregrinos. Palavras do escrivão Tomé Lopes, testemunha ocular, 1502.

Vasco da Gama nasceu em Sines, vila da costa alentejana, no final da década de 1460, filho de Estêvão da Gama, alcaide-mor da terra, e de Isabel Sodré. Ainda menino, recebeu a primeira tonsura, com os irmãos, na própria Igreja Matriz de São Salvador. Era um rapaz daquela vila, prometido desde cedo à Ordem de Santiago, que então senhoreava Sines.

Em 1498 dobrou o cabo da Boa Esperança e alcançou Calecute. Abriu à Europa a rota marítima para a Índia, um feito que mudou o mundo e lhe granjeou a gratidão do rei. Na véspera de Natal de 1499, D. Manuel I prometeu-lhe a recompensa que o navegador haveria de reclamar até morrer: o senhorio da sua própria vila de Sines.

O «Mirí», navio de peregrinos muçulmanos de regresso de Meca, posto a arder ao largo da Índia, em 1502. Quantos ali morreram, as fontes não acordam: entre mais de duzentos e quatrocentos.
FIG. 03O «Mirí», navio de peregrinos muçulmanos de regresso de Meca, posto a arder ao largo da Índia, em 1502. Quantos ali morreram, as fontes não acordam: entre mais de duzentos e quatrocentos.

Três anos volvidos, regressou ao Índico. Já não como descobridor, mas de armas na mão. Dois anos antes, a feitoria portuguesa de Calecute fora assaltada e mais de meia centena de homens mortos; D. Manuel I mandava agora Vasco da Gama vingar esses mortos e submeter Calecute pela força.

Mas o navio que primeiro encontrou nada tinha a ver com aquela guerra. A 29 de setembro de 1502, as naus avistaram ao largo o «Mirí», que voltava de Meca carregado de peregrinos muçulmanos no regresso da peregrinação. Levava a bordo, segundo o escrivão Tomé Lopes, que tudo presenciou, mais de duzentos homens, sem contar as mulheres e as crianças, que eram muitas.

O solar que Vasco da Gama mandou erguer em Sines, por volta de 1503. Uma ordem régia de 1507 obrigou-o a suspender as obras e a partir. A casa ficou por acabar.
FIG. 04O solar que Vasco da Gama mandou erguer em Sines, por volta de 1503. Uma ordem régia de 1507 obrigou-o a suspender as obras e a partir. A casa ficou por acabar.

O navio não se rendeu. Defendeu-se durante cerca de cinco dias, com as poucas armas e as pedras que tinha. Tomé Lopes, escrivão de uma das naus da armada, escreveria mais tarde que daquele dia se haveria de lembrar toda a vida.

Foi então que sucedeu o que abre esta história. Da escotilha, Vasco da Gama observava tudo. As mães, escreveu o escrivão, «tomavam nos braços seus filhinhos» e erguiam-nos no ar, para que ele se condoesse «daqueles inocentes»; os homens acenavam que se queriam resgatar a todo o custo. E não era oferta vã. O próprio Tomé Lopes calculou que só a riqueza daquele navio chegaria para resgatar todos os cristãos cativos no reino de Fez, e ainda sobraria muito para o rei.

Hoje Sines chama-lhe «o seu mais famoso filho»: um castelo, uma casa-museu, uma estátua de 1970 e um monumento de 2022. A vila que o expulsou continua a moldá-lo em bronze.
FIG. 05Hoje Sines chama-lhe «o seu mais famoso filho»: um castelo, uma casa-museu, uma estátua de 1970 e um monumento de 2022. A vila que o expulsou continua a moldá-lo em bronze.

O resgate foi recusado. O almirante mandou lançar fogo à nau. Ardeu «com quantas pessoas se achavam dentro», escreveu Tomé Lopes na «Navegação às Índias Orientais», o relato que deixou da viagem, «com muita crueldade e sem comiseração alguma». Quantos ali morreram ao certo, não se sabe: as contas vão dos mais de duzentos homens que o escrivão registou às quatrocentas almas de outras crónicas. Estas palavras não são de um historiador de hoje. São as de um português que ali esteve, em 1502, e que não as conseguiu esquecer.

Vasco da Gama voltou coberto de honras. Em 1503 ou 1504, de regresso a Portugal, começou a erguer um grande solar na sua Sines, a casa do homem que partira menino e tornara senhor do mar. Viria a ser conde da Vidigueira e almirante dos mares da Índia.

A vila, porém, nunca chegou a ser sua. Sines pertencia à Ordem de Santiago, e o mestre, D. Jorge de Lencastre, recusou cedê-la por princípio: abdicar de uma vila da Ordem seria abrir a porta a que o rei dispusesse das outras. Pouco importava que o próprio Gama fosse cavaleiro dessa mesma Ordem. E a 21 de março de 1507, uma ordem régia obrigou-o a suspender as obras e a abandonar Sines. A casa ficou por acabar. O título que lhe coube foi o de outra terra, a Vidigueira. Morreu vice-rei da Índia, em Cochim, na véspera de Natal de 1524, na mesma quadra em que, vinte e cinco anos antes, lhe haviam prometido a vila que nunca foi sua.

Hoje, Sines chama-lhe «o seu mais famoso filho». Guarda-lhe o castelo, uma casa-museu, a igreja onde foi tonsurado, uma estátua erguida em 1970 e um monumento novo, inaugurado em 2022. A vila que o expulsou continua a moldá-lo em bronze.

Das mulheres que ergueram os filhos pela escotilha não ficou estátua, nem nome. Ficou uma linha, escrita por um escrivão para que não se esquecesse. O que abriu um mundo e o que olhou pela escotilha eram o mesmo homem.