Em Beja mostra-se uma janela gradeada como quem mostra uma prova. Foi dali, diz a tradição, que uma freira via passar o oficial francês.

A janela está no Museu Rainha D. Leonor, instalado no antigo Convento de Nossa Senhora da Conceição, e chama-se Janela de Mértola, ou Janela de Mariana. Foi daí, segundo a tradição, que nasceram a paixão e o abandono contados num pequeno livro publicado em Paris, em 1669, sem nome de autor, e que se tornaria um sucesso imediato.

É uma bela imagem. E tudo o que a liga a essa história é uma nota manuscrita, sem assinatura e sem data, encontrada num exemplar do livro.

Não se trata de saber se Mariana Alcoforado escreveu, ou não, as Lettres Portugaises. Trata-se de saber como um nome se prende a um livro, o que sobrevive ao argumento que o devia ter desfeito, e o que uma cidade faz quando fica com um caso que nunca vai fechar.

Convém dizer, antes de mais, uma coisa: a mulher a quem o nome pertence não é uma invenção. Nasceu em Beja a 22 de abril de 1640, entrou na clausura ainda criança, por decisão da família, e foi porteira, escrivã e vigária do convento. Morreu na mesma cidade a 28 de julho de 1723, cinquenta e cinco anos depois de o oficial francês ter deixado Portugal. Passou a vida a trabalhar dentro de uma instituição, não a escrever cartas de amor. O resto desta história é o livro, a nota que lhe atribuiu esse nome, e a disputa sobre quem o escreveu.

Um livro sem autor

Em janeiro de 1669, o livreiro parisiense Claude Barbin publicou um pequeno volume intitulado Lettres Portugaises Traduites en François. Não trazia nome de autor. Apresentava-se, no aviso que abre o livro, como uma tradução obtida com esforço: «J'ai trouvé les moyens, avec beaucoup de soin et de peine, de recouvrer une copie correcte de la traduction de cinq Lettres portugaises»: encontrei os meios, com muito cuidado e trabalho, de recuperar uma cópia correta da tradução de cinco cartas portuguesas. Barbin não dizia de onde vinha o original nem quem o traduzira. É a moldura ficcional com que o livro se apresenta ao mundo: um editor que encontrou uma tradução, não um autor que assina um livro.

As cinco cartas dizem-se escritas por uma religiosa portuguesa a um oficial francês que a abandonara. O sucesso foi imediato: nos sete meses seguintes saíram cinco edições. Em 1671, Madame de Sévigné já usava a palavra como categoria: uma portugaise era uma carta «terna», cheia de «uma loucura, uma paixão que nada pode desculpar senão o próprio amor». O efeito na língua foi duradouro: dois anos depois de publicado, o livro cujo autor ninguém conhecia já tinha dado o seu título a um substantivo comum, usado em francês corrente para qualquer carta de amor apaixonada.

A terceira edição, publicada em Haia em 1690, foi a primeira a nomear o destinatário das cartas: o conde de Chamilly.

Cento e quarenta e um anos sem nome

Durante mais de um século, ninguém atribuiu as cartas a ninguém. Nenhuma das fontes lidas regista uma edição do século XVII ou do início do XVIII que desse um nome à autora. O livro circulou ao longo de todo esse tempo sem que ninguém lhe pusesse uma assinatura.

A Janela de Mértola, também chamada Janela de Mariana Alcoforado, preservada no Museu Rainha D. Leonor, em Beja. Pintura a partir de uma fotografia real da própria janela.
FIG. 02A Janela de Mértola, também chamada Janela de Mariana Alcoforado, preservada no Museu Rainha D. Leonor, em Beja. Pintura a partir de uma fotografia real da própria janela.

A ausência de nome não é um detalhe menor desta história. É o facto central. Um livro pode ser um sucesso europeu, pode entrar na língua como expressão comum, e continuar, cento e quarenta e um anos depois de publicado, sem que ninguém saiba, ou diga saber, quem o escreveu.

A nota de 1810

Foi a 5 de janeiro de 1810 que isso mudou. O erudito francês Jean-François Boissonade revelou, no jornal parisiense Journal de l'Empire, que possuía um exemplar da edição de 1669 das Lettres Portugaises com uma nota manuscrita. A letra, escreveu ele próprio, não lhe era conhecida: «d'une écriture qui m'est inconnue». A nota dizia: «la religieuse qui a écrit ces lettres se nommait Mariana Alcoforado»: a religiosa que escreveu estas cartas chamava-se Mariana Alcoforado.

A nota não é um documento de arquivo. Não é uma assinatura na primeira edição. Não é sequer uma nota datada. É uma frase escrita à mão, por uma pessoa que Boissonade não identifica e cuja letra ele próprio diz desconhecer, num exemplar que lhe chegou às mãos por caminhos que nenhuma fonte esclarece. Poderia ter sido escrita pouco depois da primeira edição. Poderia ter sido escrita mais de um século depois. Ninguém sabe.

E, no entanto, foi esta nota (anónima, sem data, de proveniência nunca esclarecida) que fixou o nome com que esta história é contada há mais de dois séculos.

A freira que existiu mesmo

A nota de Boissonade dava um nome e um local: Beja, sem qualquer data. Décadas mais tarde, o investigador português Luciano Cordeiro foi aos arquivos apurar se esse nome correspondia a alguém real. Publicou os resultados em Soror Marianna, a Freira Portugueza (Lisboa, Livraria Ferin, 1888, com 335 páginas; segunda edição «illustrada, correcta e augmentada sobre novos documentos», 1891). Segundo a bibliografia que o cita, Cordeiro afirma ter visto, nos registos do Convento de Nossa Senhora da Conceição de Beja, o termo de batismo de uma religiosa chamada Mariana Alcoforado, nascida em 1640.

Um termo de batismo dá uma data de nascimento, não uma data de morte. Essa vem de outro lado: o próprio Museu Rainha D. Leonor e as obras de referência que retomam o caso (a Wikipédia em português e em francês, a Britannica, a Larousse) situam a morte a 28 de julho de 1723, na mesma cidade. Foi religiosa da Ordem de Santa Clara, no Convento de Nossa Senhora da Conceição, onde ocupou, ao longo da vida, os cargos de porteira, escrivã e vigária. O registo de óbito conventual, segundo a transcrição que dele se conhece, nota que fez, ao longo de trinta anos, penitências rigorosas, e que suportou grandes doenças com paciência: uma frase burocrática de convento, escrita para arquivo, não para ser lida por ninguém fora dele.

O elo entre o livro e o nome é uma única linha manuscrita, anónima e sem data, num exemplar da edição de 1669. Boissonade escreveu que não reconhecia a letra. Evocação pintada;.
FIG. 03O elo entre o livro e o nome é uma única linha manuscrita, anónima e sem data, num exemplar da edição de 1669. Boissonade escreveu que não reconhecia a letra. Evocação pintada;.

Sobre a idade com que entrou no convento e a idade com que professou, as fontes divergem: o próprio museu de Beja fala em onze e dezasseis anos; outra obra de referência fala em cerca de doze; a Encyclopedia.com chega a sugerir que a idade poderá ter sido apresentada como dezasseis quando seria doze, para cumprir o mínimo canónico da época. Não há, entre as fontes lidas, consenso suficiente para fixar um número. O que é seguro é que entrou na clausura ainda criança, por decisão da família, uma prática comum na época.

Sobre o oficial francês: Noël Bouton, futuro marquês de Chamilly, é figura historicamente documentada. Serviu em Portugal entre 1663 e 1668, sob o comando de Frederico de Schomberg, durante a Guerra da Restauração contra Espanha. Chegaria mais tarde a marechal de França. É, tal como Mariana, uma pessoa real, independentemente de qualquer carta.

O privilégio de 1668

Há um terceiro documento nesta história, mais antigo do que a nota de Boissonade em mais de um século, e menos citado do que ela.

Em 1668, um ano antes de o livro sair, foi concedido a Claude Barbin o privilégio régio de impressão: a licença que, sob o sistema de censura e controlo editorial da época, era necessária para publicar. Esse privilégio nomeia a participação de um diplomata e escritor francês, Gabriel-Joseph de Lavergne, conde de Guilleragues (nascido em Bordéus em 1628, morto em Constantinopla em 1685), então secretário do príncipe de Conti e, mais tarde, embaixador de Luís XIV junto do Império Otomano. A linguagem do documento, segundo o que ficou registado, é ambígua: não diz claramente se Guilleragues era o autor das cartas ou apenas o seu tradutor.

É este documento, e não apenas a análise literária, que está na origem da tese moderna sobre a autoria. Em 1926, o investigador Frederick Charles Green, de Cambridge, propôs, a partir do estudo desse privilégio, que Guilleragues não era tradutor, mas autor. Não foi a primeira vez que o privilégio foi lido; foi a primeira vez que foi lido assim.

O privilégio de 1668 não é, por si só, uma prova fechada. É um elo de uma cadeia mais longa, que a filologia do século XX viria a completar por outra via: a da análise do próprio texto.

Green, Spitzer, Rougeot, Deloffre: a tese que se impôs

A tese de Green foi reforçada, entre 1953 e 1962, por três outros investigadores: Leo Spitzer, em 1953; Jacques Rougeot, em 1961; e Frédéric Deloffre, em 1962, por via da análise estilística e do confronto com outros escritos de Guilleragues. É esta convergência, mais do que qualquer documento isolado, que a crítica académica costuma citar: foi com Deloffre e Rougeot que a atribuição a Guilleragues passou a ser considerada definitivamente estabelecida.

O livro sem autor foi um sucesso imediato: cinco edições em sete meses. Em francês, uma «portugaise» passou a designar qualquer carta de amor apaixonada. Evocação pintada de uma leitura em voz alta num salão de Paris;.
FIG. 04O livro sem autor foi um sucesso imediato: cinco edições em sete meses. Em francês, uma «portugaise» passou a designar qualquer carta de amor apaixonada. Evocação pintada de uma leitura em voz alta num salão de Paris;.

Hoje, a leitura maioritária entre especialistas é que as Lettres Portugaises são obra de ficção escrita de raiz por Guilleragues, e não uma tradução de originais portugueses. Um estudioso da obra, Maurice Lever, resume assim: são «uma obra de ficção devida ao próprio conde de Guilleragues, e não uma tradução do português».

Mas a questão não está unanimemente fechada. Segundo o levantamento do debate feito pelas obras de referência, alguns investigadores (nomeadamente E. J. Kauffman, F. Weitz e os Lassalle) mantêm-se sem posição declarada sobre a autoria. E o escritor Philippe Sollers defendeu publicamente a autenticidade das cartas ainda em 2009, contra a corrente maioritária.

Não há, em nenhuma das fontes académicas lidas, registo de que Guilleragues alguma vez tenha estado em Portugal. A ausência de registo não é o mesmo que a certeza de que nunca lá esteve: é apenas o estado do que se sabe.

O original que nunca apareceu

Há um último facto, silencioso, que atravessa toda esta história: em três séculos e meio, nunca surgiu um manuscrito, um rascunho ou uma cópia das cartas em língua portuguesa. Todo o registo textual, desde a primeira edição de 1669, existe apenas em francês.

Esta ausência não prova, por si só, que as cartas sejam ficção: a ausência de um documento nunca prova nada de forma definitiva, apenas descreve o estado do arquivo. O que se pode dizer com segurança é que o testemunho mais antigo que sobrevive do texto, em qualquer língua, é a edição francesa de 1669.

O convento, o museu, a cidade

O Convento de Nossa Senhora da Conceição, em Beja, foi fundado em 1459 pelos infantes D. Fernando e D. Brites, pais do rei D. Manuel I. Ao longo dos séculos seguintes foi sendo ampliado e decorado, e conserva hoje um vasto conjunto de talha, azulejo e pintura dos estilos gótico, manuelino e barroco. Em 1927, o edifício passou a acolher o Museu Regional de Beja, hoje Museu Rainha D. Leonor. É aí, no Largo da Conceição, que se conserva a Janela de Mértola, também chamada Janela de Mariana Alcoforado, apresentada pela câmara municipal como o lugar onde a religiosa terá sentido, pela primeira vez, os efeitos da paixão pelo cavaleiro francês.

O museu está atualmente fechado para obras de requalificação, financiadas em parte pelo Plano de Recuperação e Resiliência. As obras decorrem desde 2023; um novo concurso público, lançado em janeiro de 2026, elevou o valor da intervenção para 682 mil euros, depois de um calendário anterior ter previsto o fim dos trabalhos para junho de 2026. Até ao momento, o museu continua encerrado, e a reabertura está prevista para 2026, sem que nenhuma fonte dê uma data exata: um calendário que já derrapou mais do que uma vez.

O privilégio régio de 1668 nomeia Guilleragues em linguagem ambígua. A leitura maioritária dos investigadores, desde 1926, é que ele escreveu as cartas em vez de as traduzir. Evocação pintada; não é um retrato. Criada por IA.
FIG. 05O privilégio régio de 1668 nomeia Guilleragues em linguagem ambígua. A leitura maioritária dos investigadores, desde 1926, é que ele escreveu as cartas em vez de as traduzir. Evocação pintada; não é um retrato. Criada por IA.

A cidade, entretanto, não deixou o nome esperar pelo museu. Em 2019, Beja assinalou os 350 anos da primeira edição das Lettres Portugaises com um congresso internacional e com a segunda edição do Festival B, com o subtítulo «Beja, Cidade de Mariana Alcoforado»: um festival de música e criação artística dedicado, nas palavras da imprensa que o noticiou, ao «imaginário romântico da "mítica" freira». É uma identidade cultural construída de forma deliberada e contínua, não um acidente de sinalética.

Presumível

No sítio oficial da Câmara Municipal de Beja, a frase que apresenta o Museu Rainha D. Leonor ao visitante diz, sobre Mariana Alcoforado, exatamente isto: «presumível autora das Cartas Portuguesas».

É uma palavra cuidadosamente escolhida. A cidade não afirma que ela escreveu as cartas: a filologia, maioritariamente, lê o contrário. Também não risca o nome, nem retira a janela do que o museu conserva.

A cidade não resolveu o caso, e é provável que nunca o resolva. Continua, ainda assim, a guardar a janela.

Fontes

Institucional

- Museu Regional de Beja, ficha sobre Soror Mariana Alcoforado (consultada via Arquivo.pt, snapshot de 2009): museuregionaldebeja.net/sorormarianaalcoforado.htm - Câmara Municipal de Beja, Museu Rainha D. Leonor: cm-beja.pt/pt/3465/museu-regional-de-beja---museu-rainha-d-leonor.aspx - Câmara Municipal de Beja, Janela de Mariana Alcoforado: cm-beja.pt/pt/menu/580/janela-de-mariana-alcoforado.aspx

Enciclopédias e obras de referência

Noël Bouton, futuro marquês de Chamilly, serviu em Portugal entre 1663 e 1668, na Guerra da Restauração. Oficiais franceses ao serviço português no Alentejo — evocação pintada da época.
FIG. 06Noël Bouton, futuro marquês de Chamilly, serviu em Portugal entre 1663 e 1668, na Guerra da Restauração. Oficiais franceses ao serviço português no Alentejo — evocação pintada da época.

- Encyclopædia Universalis, «Lettres de la Religieuse Portugaise» - Larousse, «Lettres portugaises» e «Gabriel Joseph de Lavergne comte de Guilleragues» - Britannica, «Gabriel-Joseph de Lavergne, viscount of Guilleragues» - Wikipédia (PT, FR, EN), verbetes «Mariana Alcoforado», «Lettres portugaises», «Letters of a Portuguese Nun» - Encyclopedia.com, «Alcoforado, Mariana (1640-1723)»

Académico

- Dalhousie University (Initiales), nota sobre a atribuição de 1962 a Deloffre e Rougeot - Swarthmore CLICnet, edição das Lettres Portugaises, com o aviso ao leitor da edição de 1669

Bibliografia citada, não lida em texto corrido

- Luciano Cordeiro, Soror Marianna, a Freira Portugueza (Lisboa, Livraria Ferin, 1.ª ed. 1888, 2.ª ed. 1891): existência, edições e conteúdo confirmados por fichas bibliográficas independentes e por uma fonte secundária especializada (Escritoras em Português) que cita a página do termo de batismo.

Imprensa (estado atual do museu)

- ODigital/SAPO, 13 de janeiro de 2026, sobre o novo concurso público de 682 mil euros - Correio Alentejo, sobre a reabertura prevista para o segundo semestre de 2026 - Observador, 19 de agosto de 2025, sobre as obras financiadas pelo PRR

Imprensa (Festival B, 2019)

- Diário do Alentejo e Observador, sobre a segunda edição do Festival B e os 350 anos da primeira edição das cartas

Notas de honestidade

- A nota de 1810 não tem data nem caligrafia identificadas. Este texto não especula sobre quem a escreveu nem sobre quando foi escrita: é exatamente essa incerteza que torna tão frágil o elo entre o livro e o nome. - Não tivemos acesso ao livro de Luciano Cordeiro em texto corrido. O que se afirma sobre o seu conteúdo vem de fichas bibliográficas e de uma fonte secundária especializada, e é sempre atribuído a ele, nunca tratado como se tivéssemos lido o original. - A idade de entrada e de profissão de Mariana Alcoforado não é fixada, porque as fontes discordam entre si (onze/dezasseis anos, segundo o museu de Beja; cerca de doze, segundo outra fonte de referência) e nenhuma delas é um registo de arquivo lido diretamente por nós. - A ausência de um original em português não é apresentada como prova de que as cartas são ficção. É um facto do registo documental, não uma conclusão nossa. - Não encontrámos, em nenhuma fonte lida, confirmação independente de uma alegada disputa judicial sobre a autoria das cartas, mencionada de passagem, sem data verificável por nós, por uma única fonte secundária. Não foi usada. - Não afirmamos que Guilleragues nunca esteve em Portugal. Nenhuma fonte lida o documenta lá; a ausência de registo não é o mesmo que a certeza da ausência, e é assim que este texto o trata.