Meteu-se numa nau para Lisboa porque tinha lá mulher e filhos. Nunca chegou a Lisboa.
A nau parou a meio do Atlântico para tomar água, numa ilha onde não morava ninguém. Ele ficou escondido em terra e deixou-a partir. Trezentos anos depois seria a ilha de Napoleão, que ali chegou em 1815 e morreu em Longwood em 1821, a mil e novecentos quilómetros da costa de África, sem nada à volta.
A casa onde viveu escavou-a ele numa ribanceira, com os quatro dedos que lhe restavam na mão esquerda e com o coto da direita.
Tinha perdido a mão em Goa, quatro anos antes.
Chamava-se Fernão Lopes. Afonso de Albuquerque tomara Goa em 1510; pouco depois partiu para Malaca, e na ausência dele alguns portugueses passaram-se para o Hidalcão, o sultão de Bijapur. Chamavam-lhes arrenegados.
Fernão Lopes foi um deles: fez-se muçulmano.

Na Sexta-Feira Santa de abril de 1512, João Machado juntou os portugueses que serviam daquele lado e propôs-lhes que voltassem todos à cidade a pedir perdão. Todos aceitaram menos um. Gaspar Correia, que era secretário de Albuquerque, escreveu-lhe a resposta em discurso direto:
«Vós outros andais entre estes mouros por desastres de vossas fortunas, mas eu […] de minha própria vontade me vim meter na seita de Mafamede, e já outra vez me saí e me tornei para ela. Pelo que entre cristãos não posso viver.»
Machado ofereceu-lhe casa, para sempre. Ele não quis, e ficou.
Em outubro de 1512, retomada Goa, os arrenegados foram levados à picota com baraços ao pescoço e as mãos atadas atrás. O pregão dizia de quem era aquela justiça: «Justiça que manda fazer ElRey nosso senhor, que manda bascamar estes homens, porque foram traidores a sua lei e a seu Rei; e a morte lhes é perdoada por amor do Hidalcão.»
Levou três dias. No primeiro, os algozes arrancaram-lhes as barbas e as sobrancelhas. No segundo cortaram-lhes as orelhas rentes e os narizes, e devolveram-nos à prisão sem os curar. No terceiro, a mão direita e o polegar da esquerda, e só então lhes trataram as feridas.

Mais de metade morreu na prisão. Os que ficaram foram soltos para irem onde quisessem, e Correia escreve que todos desapareceram.
Menos dois, de quem ele guardou notícia. Um ficou em Cochim, e passaram a chamar-lhe Pedro Anes das Mãos: servia nos hospitais e enterrava mortos que levava às costas, homens da terra que morriam desamparados.
O outro era Fernão Lopes.
Jerónimo Osório, em 1571, conta setenta homens naquela traição e regista os mesmos cortes.
Numa carta a el-rei guardada nas Gavetas da Torre do Tombo, o governador explica-se pela própria mão. O rei mandara-lhe dar seguro e perdão aos que se lançavam com os mouros, e Albuquerque responde que assim fez. Depois escreve:

«Se a lei o permitisse, em conselho seria eu de lhes não darem seguro, porque eles, como lá são, arrependem-se logo e sabem que têm o seguro certo cada vez que o mandarem pedir. E portanto mui desavergonhadamente vão e vêm por esta estrada, caminho dos mouros.»
O perdão real chegou-lhe antes de dezembro de 1515, quando Albuquerque morreu. Foi então que se meteu na nau, e Correia diz porquê: tinha mulher e filhos em Lisboa.
Santa Helena caía no caminho de regresso da Carreira da Índia, depois do Cabo, e era ali que as naus faziam aguada. Deram por ele em falta, procuraram-no, não o acharam. Deixaram-lhe um quarto de pipa cheio de biscoito, talhadas de carne, peixe seco, sal, fogo, e roupas velhas que cada um deu. E uma carta: que desse sinais de si, se era morto ou vivo.
Quando a nau se afastou, saiu do mato. Acendeu o fogo para que não se apagasse. Procurou pedras, bateu umas nas outras, viu que feriam fogo, e guardou-as. Cavou a lapa e tapava-lhe a boca com tojos.
Chegou depois outra nau, e ele escondeu-se. Os que desembarcaram acharam a lapa, a cama de palha e os carvões do fogo. Julgaram primeiro que fossem negros fugidos. Foi pelo modo como o fato estava assentado que perceberam que era português. Tomaram água, não mexeram em nada, e deixaram-lhe biscoito, queijos e uma segunda carta: que não se escondesse, que ninguém lhe faria mal.

Ao largarem as velas caiu um galo ao mar, e as ondas trouxeram-no a terra. Ele recolheu-o e deu-lhe do arroz que lhe tinham deixado. O galo passou a acompanhá-lo para onde ia, e de noite recolhia-se com ele à cova. Ficou com ele muitos anos.
Correia escreve que ele esteve na ilha mais de dez anos sem ninguém nunca o ver, porque se escondia.
Com o tempo começou a aparecer, e as naus davam-lhe coisas para plantar e semear. Tudo se criou, e tudo se fez bravo do mato. Em abril de 1536 o navegador castelhano Andrés de Urdaneta esteve em Santa Helena e registou um eremita português e mais nenhuma gente. Anotou também abóboras, laranjas, romãs, porcos e cabras.
Foi contado ao Rei que havia ali um homem a viver assim, como homem selvagem, e o Rei mandou rogar-lhe que fosse ao Reino por sua vontade.
Ele foi, e foi antes de 1530. Desembarcou escondido, em casa do capitão da nau, e ia de noite falar com o Rei e com a Rainha. Ofereceram-lhe ermidas e casas de frades onde ficasse. Não aceitou nada. Pediu licença ao Rei, foi a Roma e confessou-se ao Papa, que folgou de o ver. Trouxe de lá cartas para o Rei. As cartas eram para o tornarem a mandar à ilha.

Correia não diz qual rei nem qual papa. E sobre a mulher e os filhos, que são a razão por que ele embarcara, a crónica cala-se: nomeia-os uma vez, à partida, e nunca mais lhes toca.
Na ilha tinha ficado um moço javanês fugido, que esteve com ele muitos anos. Foi esse moço que o entregou. Pero Gomes Teixeira, que fora ouvidor-geral na Índia, chegou numa nau e meteu tantos medos ao rapaz que ele foi mostrar onde o outro se escondia.
Ao ver-se achado, Fernão Lopes fez grandes prantos: julgava que o queriam levar. Pero Gomes falou muito com ele, garantiu-lhe que o não levaria, e deu-lhe muitas coisas, que ele não queria. E rogou-lhe com muita insistência uma só: que levasse o moço.
Pero Gomes levou o moço, e deixou-lhe um papel assinado: pedia por mercê a todos os capitães que ali chegassem que não lhe fizessem força para o levarem ao Reino contra a sua vontade, dava-lhe seguro em nome do Rei, e jurava-lho. A partir daí não se escondeu mais. Falava com todos e dava do que nascia na ilha. Morreu lá; Correia escreve que em 1546, e outras contas dão 1545.
Nas mesmas Gavetas há um papel anónimo de duas folhas, em mau estado, datado com dúvida de 1530. É uma lista de recomendações a el-rei, item a item. Que os capitães de Goa, de Malaca e de Ormuz sirvam sem tempo certo, assentes na terra com as mulheres. Que Bengala precisa de fortaleza. Que Samatra precisa de fortaleza, porque de dentro de França tinham ido navios direitos a ela.

E, entre esse item e o seguinte, que é sobre os capitães-mores: mande povoar a ilha de Santa Helena, porque povoada será grande descanso para as naus que vêm da Índia, e dá trigo muito bom, e galinhas, e há ali sal como salitre e uma goma como incenso.
O item acaba assim: «Fernam Lopez ermitam me rogou que lembrase a Vossa Alteza que lhe mandase o Jao que lhe ca ficara.»
Se o moço voltou, não está em papel nenhum que se conheça.
Recusou a casa de João Machado. Recusou as ermidas e as casas de frades. Recusou o que Pero Gomes lhe quis dar. E pediu o moço, duas vezes.
Fontes7 referências
- CORREIA, Gaspar, Lendas da Índia, Tomo II, Colecção de Monumentos Inéditos para a História das Conquistas dos Portugueses, publicada de ordem da Academia Real das Sciencias de Lisboa sob a direção de Rodrigo José de Lima Felner, 1858-1866. Capítulo XXV, p. 213 (Goa, a Sexta-Feira Santa de 1512, e o discurso direto) e capítulo XXXIX, pp. 316-318 (o castigo, a ilha, a lapa, o galo, a horta, a viagem ao Reino, o moço javanês, Pero Gomes Teixeira e o papel assinado). Exemplar digitalizado no Internet Archive. Correia foi um dos secretários de Afonso de Albuquerque.
- AS GAVETAS DA TORRE DO TOMBO, vol. V (Gaveta XV, maços 16-24), introdução de António da Silva Rego, Centro de Estudos Históricos Ultramarinos, Lisboa, 1965. Documento 3616 (Gav. XV, 19-11), «Informações acerca das fortalezas da Índia», 1530 (?), pp. 248-251, de onde vem o item sobre povoar Santa Helena e o recado de Fernão Lopes; e documento 3697 (Gav. XV, 21-18), carta de Afonso de Albuquerque a el-rei sobre o seguro e o perdão, p. 492. Fac-símile no Repositório da Universidade de Lisboa, Centro de História da Faculdade de Letras.
- LIVERMORE, Harold, «Santa Helena, A Forgotten Portuguese Discovery», in Estudos em Homenagem a Luís António de Oliveira Ramos, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2004, pp. 623-631. Reúne e confronta os testemunhos que não são Correia: Andrés de Urdaneta (abril de 1536), Jerónimo Osório (1571), João Bermudes (Relação, Lisboa, 1565), Duarte Lopes na versão de Pigafetta (Roma, 1591), os dois documentos das Gavetas e a cartografia contemporânea. É de aqui que vêm o argumento do mapa Cantino, o relato de Tomé Lopes de 30 de julho de 1503, o Livro de Valentim Fernandes e a demonstração de que Defoe não podia ter conhecido Correia.
- MURTEIRA, André, «ilha de Santa Helena», Enciclopédia Virtual da Expansão Portuguesa, CHAM, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2009. A função da ilha na Carreira da Índia, a assimetria dos alísios, a introdução de gado e árvores de fruto, Cavendish em 1588. Bibliografia própria: Anthony Disney, «The Portuguese and Saint Helena» (2001); André Murteira, «Combates luso-neerlandeses em Santa Helena, 1597-1625», Anais de História de Além-Mar (2006); João Vidago, Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa (1976).
- DIREÇÃO CULTURAL DA MARINHA, Museu de Marinha, «Cinco desconhecidos da maritimidade portuguesa», 30 de maio de 2025. Daqui vem a identificação do rei e do papa como D. João III e Clemente VII.
- FONDATION NAPOLÉON, «A close-up on Napoleon's death», para a data e o lugar da morte de Napoleão.
- AZZAM, Abdul Rahman, The Other Exile: The Remarkable Story of Fernão Lopes, the Island of St Helena and a Paradise Lost, Icon Books, Londres, 2017; edição portuguesa, O Outro Exílio, Editorial Presença, 2018. A biografia moderna. A tese que apresenta sobre a origem do biografado é identificada pelas recensões como especulação.
