D. João de Castro cortou com a própria mão uma trança da barba e mandou-a à Câmara de Goa como penhor de um empréstimo.
Oito anos antes, no porto de Moçambique, o mesmo homem percebeu porque é que as agulhas de marear não se entendiam umas com as outras: ao lado delas estava uma peça de artilharia, e o ferro puxava-as.

A trança foi em 1546. Castro governava o Estado da Índia e estava em Diu, que acabara de resistir ao segundo cerco do exército do rei de Cambaia. Nesse cerco morreu-lhe o filho, D. Fernando. A fortaleza estava arrasada, era preciso levantá-la de novo antes do verão, e não havia dinheiro.

Escreveu à Câmara de Goa a pedir um empréstimo. Na carta de 23 de novembro, tal como o biógrafo Jacinto Freire de Andrade a imprimiu em 1651 (o original não se conhece), pede vinte mil pardaus, jura pagá-los antes de um ano e conta que mandara desenterrar o filho para empenhar os ossos, e que não fora possível tirá-lo da terra. Não lhe ficava outro penhor senão as próprias barbas. Não tinha ouro, nem prata, nem móveis, nem bens de raiz, «somente huma verdade secca, e breve».

Gaspar Correia, que estava na Índia e escreveu a crónica desses anos, conta o gesto com outro pormenor: Castro cortou por sua mão uma parte da barba, por baixo, fez dela uma trança e mandou-a a Goa por Diogo Rodrigues de Azevedo. Os vereadores, juntos em câmara, ficaram «muy espantados». Juntaram entre si mais de vinte mil pardaus e mandaram-nos para Diu com a trança e com recado de que o governador devia ter escusado tamanho penhor.

Quando o dinheiro chegou, conta Correia, Castro já não precisava dele. António Moniz, que ele mandara patrulhar a costa, tinha tomado uma nau de Meca carregada de ouro. Castro devolveu o dinheiro de Goa sem lhe tocar, e cada um recebeu o que emprestara. Ficou apenas com o penhor. Morreu em Goa a 6 de junho de 1548 e, conta o biógrafo, no escritório acharam a guedelha da barba que tinha empenhado.

É esta a história que ficou. A do ferro que puxava as agulhas ficou escrita noutro sítio, e esperou séculos pela imprensa. As crónicas fizeram de Castro o soldado e o governador. O resto estava em três roteiros de navegação, diários de bordo escritos dia a dia. O primeiro, o de Lisboa a Goa, só saiu dos prelos em 1882, a partir de cópias. Nenhuma das que sobreviveram é da mão dele.

Esse primeiro roteiro é de 1538. Castro, que ainda não governava nada, seguia para a Índia sem posto: tinha recusado a capitania de Ormuz e ia incumbido de fazer observações de náutica e de cosmografia. Levava um instrumento de sombras inventado pelo matemático Pedro Nunes, de quem já aqui falámos. Servia para medir a variação da agulha, o desvio entre o norte para onde a agulha aponta e o norte verdadeiro, a que hoje se chama declinação magnética. Mediu-a dezenas de vezes entre Lisboa e Goa, e registou cada medição no roteiro.

A dúvida começou cedo. A 17 de abril, poucos dias depois da partida, a latitude que calculou não batia com a do piloto. Escreveu que aquilo o deixou «muito triste». Desconfiou dos instrumentos, das regras e de si próprio, por esta ordem, e mandou o Doutor Luís Nunes, que seguia com ele, refazer as contas à parte.

A 29 de maio, já no Atlântico Sul, foi a vez da agulha. Uma medição deu um valor que ele próprio classificou de «impossível». Suspeitou da agulhinha do instrumento, que na véspera mandara endireitar. Nas semanas seguintes, os números estranhos voltaram, uma e outra vez.

A armada chegou a Moçambique no fim de julho. A 5 de agosto, no porto, Castro mandou vir várias agulhas para as comparar com o instrumento. Achou-as tão desencontradas, escreve, «que foy cousa espantosa, porque onde hua fazia o leste, a outra mostraua o norte». Andou «muito suspensso» até perceber a causa: no lugar onde queria fazer as operações estava um berço, uma pequena peça de artilharia, e o ferro do berço «chamaua a ssy as agulhas».

Voltou atrás no roteiro. Uma medição de 30 de junho e várias outras feitas ao largo do Brasil tinham saído erradas pela mesma razão: tinham sido tiradas perto de uma peça de artilharia, de âncoras ou de outro ferro, enquanto ele andava por toda a nau à procura de um lugar conveniente.
Nesse mesmo 5 de agosto escreveu ao rei, D. João III. Contava que trabalhara quanto pudera para entender «meudamente a variação das agulhas de que os pilotos tamto se aqueixão», e afirmava ter alcançado nessa matéria um «segredo» que até ali ninguém soubera nem imaginara. A carta não diz que segredo era. O roteiro, nesse dia, regista o berço.
Em dezembro, na costa entre Goa e Diu, a agulha voltou a desviar-se sem causa à vista. Junto a Baçaim, deu valores muito diferentes em dois lugares quase vizinhos. Castro repetiu as operações muitas vezes, com o Doutor Luís Nunes presente, e os números não se mexeram. «Certamente que he cousa muito forte», escreveu, que em tão pouco caminho a agulha mudasse tanto. Só lhe achou uma explicação: tinha feito as medições muito perto de terra, onde tinha por vizinho «hum rochedo e penedia». Talvez aqueles penedos fossem «da especia e natureza do manhete», isto é, de pedra-íman, e puxassem para si o ferro da agulha. Se tinha razão, desta vez o ferro que desviava a agulha não era uma peça nem uma âncora. Era a própria costa.
Em 2018, P. B. Kotzé, ao escrever a história do Observatório Magnético de Hermanus, na África do Sul, foi ao roteiro de 1538 buscar o valor da agulha à altura do Cabo. As medições feitas a bordo, escreve, indicam cerca de seis graus para leste do norte verdadeiro. No artigo, essas medições antecedem em mais de meio século a primeira medição registada em terra sul-africana.
Tirou-as um homem que, onze dias depois de largar de Belém, já escrevia no roteiro: «ora desconfiando nos estromentos, ora das regras, ora de eu saber mal obrar».
Fontes11 referências
- D. João de Castro, Roteiro de Lisboa a Goa, anotado por João de Andrade Corvo, Lisboa, Academia Real das Sciencias, 1882. archive.org
- D. João de Castro, Primeiro roteiro da costa da India, desde Goa até Dio, ed. Diogo Köpke, Porto, 1843. archive.org
- D. João de Castro, Roteiro em que se contem a viagem que fizeram os Portuguezes no anno de 1541… atee Soez, Paris, 1833. archive.org
- Elaine Sanceau (ed.), Cartas de D. João de Castro, Lisboa, 1954, Biblioteca Nacional de Portugal. bndigital.bnportugal.gov.pt
- Gaspar Correia, Lendas da Índia, tomo IV, ed. Rodrigo José de Lima Felner, Lisboa, Academia Real das Sciencias, 1864. archive.org
- Jacinto Freire de Andrade, Vida de D. João de Castro, quarto viso-rei da Índia, 1651 (Biblioteca Nacional de Portugal, bndigital.bnportugal.gov.pt); edição da Academia, Lisboa, 1835. archive.org
- Artur José Ruando Rangel, O magnetismo terrestre no roteiro de Lisboa a Goa: as experiências de D. João de Castro, dissertação de mestrado, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2008. repositorio.ulisboa.pt
- Roger Lee de Jesus, «As 'Tábuas dos Roteiros da Índia' de D. João de Castro da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra: novos dados», Boletim da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra 51 (2021). doi.org
- P. B. Kotzé, «The Hermanus Magnetic Observatory: a historical perspective of geomagnetism in southern Africa», History of Geo- and Space Sciences 9 (2018). doi.org
- Roteiro da costa do norte de Goa até Dio, cópia manuscrita do século XVII, Biblioteca Nacional de Portugal. bndigital.bnportugal.gov.pt
- Roteiro da viagem que D. João de Castro fez a primeira vez que foi à Índia no ano de 1538, cópia manuscrita anterior a 1578, Biblioteca Nacional de Portugal. bndigital.bnportugal.gov.pt
