Garcia de Orta descreveu a cólera com um rigor que a Europa não voltaria a ter durante séculos, e fez, em Goa, a primeira autópsia de que há registo na Índia.
Doze anos depois de morrer em paz, a sua própria pátria mandou desenterrar-lhe os ossos para os queimar.

Filho de mercadores judeus espanhóis forçados a converter-se ao cristianismo em 1497, nasceu em Castelo de Vide por volta de 1501, já classificado, como toda a família, como cristão-novo. Tornou-se um dos maiores nomes esquecidos da ciência portuguesa: o homem que fundou, sozinho, na outra ponta do império, a medicina tropical europeia. Porque haveria, então, o seu próprio país de desenterrar um homem que a Inquisição nunca incomodara em vida?

Estudou medicina, artes e filosofia em Salamanca e em Alcalá de Henares, regressou a Portugal e foi médico de D. João III, que em 1533 o elegeu para uma cadeira de filosofia natural em Lisboa. Podia ter ficado. A 12 de março de 1534 embarcou no Tejo, físico-mor da armada do capitão Martim Afonso de Sousa, rumo à Índia Portuguesa. Chegou a Goa em 1538 e, em poucos anos, tinha fama de um dos melhores médicos da cidade.

Foi lá que escreveu o livro. Publicados em Goa a 10 de abril de 1563, os «Colóquios dos Simples e Drogas e Coisas Medicinais da Índia» tomam a forma de um diálogo entre Orta e um colega imaginário, Ruano, ao longo de quase 60 capítulos sobre plantas, drogas e doenças da Ásia que a Europa mal conhecia. Pela boca de Ruano, Orta desafiava a autoridade dos clássicos: «Não me ponhais medo com Dioscórides nem Galeno, porque não hei de dizer senão a verdade, e o que sei.» Confiava mais na planta que tinha diante dos olhos do que em qualquer livro grego. Nove anos antes, em 1554, o vice-rei D. Pedro Mascarenhas arrendara-lhe a ilha (ou ilhas) de Bombaim, onde construiu uma casa senhorial que os britânicos ampliariam mais tarde, dando origem ao que se tornaria o Bombay Castle. É considerado o primeiro residente europeu de Bombaim.

Morreu em Goa em 1568, de morte natural, sem nunca ter sido incomodado pela Inquisição em vida. Essa paz escondia um segredo, e o segredo já custara caro à família: o cunhado, numa confissão feita depois da morte de Orta, revelou que este continuara, em privado, a observar preceitos da lei judaica. A irmã, Catarina de Orta, que partilhara com ele essa fé escondida, foi presa como judaizante e queimada viva num auto de fé em Goa, em 1569, um ano depois da morte do irmão.

Doze anos depois de o próprio Garcia de Orta ter morrido em paz, a Inquisição de Goa foi buscá-lo também: condenou-o postumamente por judaísmo, os restos foram exumados da Sé de Goa e queimados publicamente, num auto de fé em 1580, juntamente, segundo uma das fontes, com uma efígie sua.
Ainda em vida de Orta, em 1567, o naturalista flamengo Carolus Clusius traduzira os «Colóquios» para latim; a obra circulava havia treze anos como referência sobre plantas medicinais nas mãos de naturalistas de Antuérpia a Roma.
Hoje, em Lisboa, uma estátua de bronze de Garcia de Orta, obra do escultor Martins Correia, ergue-se desde 1958, inaugurada durante um congresso internacional de medicina tropical. Segura, na mão direita, um ramo; na esquerda, um exemplar dos «Colóquios». Perto do Parque das Nações há um jardim com o seu nome, aberto em 1998; em Almada, um hospital; no Porto, uma escola. Puderam desenterrar-lhe o corpo e queimá-lo, treze anos depois de o livro já lhes ter escapado.