Todos os anos, a 10 de Junho, o país pousa flores sobre um túmulo de pedra lavrada no Mosteiro dos Jerónimos. Ali, diz a inscrição, repousa Luís Vaz de Camões, o homem que deu a Portugal a sua voz. Há, porém, um pormenor que raramente se diz em voz alta no meio dos discursos desse dia: com grande probabilidade, não é ele que ali está.
Camões é, para Portugal, o que Shakespeare é para a Inglaterra ou Cervantes para Espanha: o autor de Os Lusíadas, o poema épico de 1572 que transformou as navegações numa lenda nacional, e a figura em torno da qual o país escolheu, séculos mais tarde, celebrar-se a si próprio. O 10 de Junho, Dia de Portugal, é o dia da sua morte. Toda a nação se reconhece nele. E, no entanto, do homem de carne e osso quase tudo se perdeu.
Comecemos pelo fim. Camões morreu em Lisboa a 10 de Junho de 1580. A data é uma das poucas certezas da sua biografia, e sabemo-la por uma razão prosaica: depois da sua morte, a mãe herdou a pequena pensão que o rei lhe concedera, e os recibos ficaram guardados na Torre do Tombo. Quase tudo o resto (quando nasceu, onde nasceu, de que morreu) ficou sem resposta.
Nem o ano do nascimento se sabe ao certo. Aceita-se, por convenção, cerca de 1524, mas as propostas variam, e o lugar é disputado entre Lisboa, Coimbra, Santarém, Alenquer e até o Porto. O maior poeta da língua não tem certidão de nascimento.

A vida que mediou foi a de um soldado e de um exilado. Perdeu o olho direito numa ação naval ao largo de Ceuta, no Estreito de Gibraltar; os retratos antigos mostram-no quase sempre de perfil, a esconder a falta. Em Março de 1553 embarcou para o Oriente no São Bento e chegou a Goa no ano seguinte. Andou pela Índia e pelo Mar Vermelho, e em Macau exerceu o cargo de provedor dos defuntos e ausentes, um título que, visto daqui, soa a presságio.
Conta-se que terá sobrevivido a um naufrágio na foz do Mekong, salvando a nado apenas a si próprio e ao manuscrito de Os Lusíadas. A cena é célebre e vem, em boa parte, do próprio poema. A donzela chinesa, Dinamene, que a tradição diz ter morrido nessas águas, é hoje tida pelos estudiosos como invenção posterior, talvez a corruptela de uma palavra mal lida.
Regressou pobre. Diogo do Couto, que o encontrou em Moçambique, deixou escrito que o poeta vivia da caridade dos amigos, retido por dívidas que não conseguia pagar. Chegou a Cascais a 7 de Abril de 1570, a bordo do Santa Clara. Dois anos depois publicava Os Lusíadas, e D. Sebastião premiava-o com uma pensão de quinze mil réis por ano, quantia honrosa, mas paga com atraso, e curta de mais para o resgatar do aperto.

Os últimos anos passou-os num quarto alugado, perto da Igreja de Santa Ana, em Lisboa. A tradição quer que tenha morrido na miséria, sem um pano com que se cobrir, enquanto a peste varria a cidade em 1580. Alguns historiadores moderam o quadro: tinha um escravo, de nome Jau, e meios de subsistência documentados, e há quem aponte a doença, e não a fome, como causa do fim. Ficará algures entre os dois. Certo é que partiu sem ruído, no mesmo ano em que Portugal perdia a independência para Castela.
> Diz a lenda que terá murmurado, no fim, que morria com a pátria, "Portugal acabará comigo". Nenhuma fonte da época regista tais palavras.
São acrescento de gerações posteriores, ávidas de um epitáfio à altura do mito. Mas a coincidência das datas deu-lhes força: o poeta e o reino independente apagaram-se quase ao mesmo tempo.

Foi sepultado em campa rasa. Onde, ao certo, ninguém sabe. Uns dizem que na Igreja de Santa Ana, junto à casa da mãe; outros, no cemitério dos pobres de um hospital. Não houve pedra, não houve nome. O homem que tornara Portugal imortal entrou na terra como entravam os indigentes, sem marca que o distinguisse dos outros.
E aqui começa a segunda morte. Em 1755, o terramoto que arrasou Lisboa abateu-se também sobre a Igreja de Santa Ana. O templo ficou em ruínas e foi depois remendado, com obras que reviraram o chão onde os mortos jaziam. Se ainda restavam ossos de Camões debaixo daquelas lajes, ficaram baralhados com os de toda a gente. A cidade que o poeta cantara engolira-lhe a sepultura.
Passou-se mais de um século. Em 1880, no terceiro centenário da morte, Portugal quis finalmente honrar o homem que o tornara eterno. Recolheram-se uns ossos no que restava de Santa Ana e levaram-se, em cortejo solene, para o túmulo monumental dos Jerónimos, ao lado de Vasco da Gama. O problema é que a própria comissão encarregada da trasladação confessou as suas dúvidas: já não era possível distinguir a sepultura do poeta de qualquer outra. Recolheu-se o que se pôde, e chamou-se-lhe Camões.

É por isso que, ainda hoje, os especialistas repetem com prudência uma frase incómoda: com grande probabilidade, os ossos que descansam nos Jerónimos pertencem a outra pessoa. O monumento é verdadeiro. A inscrição é verdadeira. O nome é verdadeiro. Só o conteúdo é incerto.
A 10 de Junho voltam as flores ao mármore dos Jerónimos. Lá dentro, alguém repousa. Quanto a saber se é ele, o tempo levou a resposta.