Há um nome gravado em quase todas as craveiras e paquímetros do mundo: a pequena escala que desliza junto à régua principal e permite ler frações de milímetro. Quase ninguém repara que é um nome. Chama-se nónio. E o homem que lhe deu o nome morreu esquecido pelo mundo que a sua matemática tinha tornado possível.

Pedro Nunes nasceu em 1502 em Alcácer do Sal e estudou em Salamanca, formado também em medicina, antes de perceber que o seu verdadeiro instrumento eram os números. Tornou-se cosmógrafo do reino em 1529 e, em 1547, o primeiro Cosmógrafo-Mor de Portugal, cargo que exerceria até à morte. Foi também aio de príncipes: educou os infantes D. Luís e D. Henrique a partir de 1531, e mais tarde o neto do rei e futuro monarca, D. Sebastião. Durante quase duas décadas, de 1544 a 1562, ocupou a cátedra de matemática da Universidade de Coimbra.

Um sistema de arcos concêntricos, gravado num quadrante, que media ângulos como ninguém antes.
FIG. 02Um sistema de arcos concêntricos, gravado num quadrante, que media ângulos como ninguém antes.

A ciência que ali ensinava não nascia de especulação de gabinete. Nascia, como notam os seus estudiosos, do contacto direto com as dificuldades reais de marinheiros e artífices.

A curva que todo o navio traçava sem saber — e que ninguém sabia desenhar antes de Mercator.
FIG. 03A curva que todo o navio traçava sem saber — e que ninguém sabia desenhar antes de Mercator.

Foi desse contacto que saiu o nónio: um sistema de arcos concêntricos gravados num quadrante ou astrolábio, cada um dividido num número de partes ligeiramente diferente do vizinho, que permitia aos navegadores medir ângulos, e portanto alturas de astros, com uma precisão até então impossível. Descreveu-o em 1542, na obra De Crepusculis. Mais tarde, quando Pierre Vernier aperfeiçoou o princípio noutra escala, o nome de Nunes ficou-lhe colado: em várias línguas europeias, a peça continua a chamar-se «nonius». É esse o nome que hoje dorme, por reconhecer, em qualquer oficina do mundo.

Todos os pilotos da expansão navegavam sobre ela, décadas antes de haver forma de a desenhar.
FIG. 04Todos os pilotos da expansão navegavam sobre ela, décadas antes de haver forma de a desenhar.

Mas a obra mais funda de Pedro Nunes mede-se em graus de bússola, não em milímetros. Sobre a curvatura da Terra, um navio que mantém sempre o mesmo rumo não segue o caminho mais curto entre dois pontos: segue uma curva que se enrola em espiral, lenta, na direção do polo. É a chamada loxodrómica, ou linha de rumo, e Nunes foi o primeiro a compreendê-la e a explicá-la matematicamente, por volta de 1537. Todos os pilotos da expansão portuguesa navegavam sobre ela, sem o saberem, décadas antes de haver forma de a desenhar.

A ciência do reino nascia do contacto direto com marinheiros e artífices, não da especulação de gabinete.
FIG. 05A ciência do reino nascia do contacto direto com marinheiros e artífices, não da especulação de gabinete.

Havia, porém, um problema que nem Nunes resolveu: essa curva só se torna uma linha reta, traçável num mapa plano, na projeção que o cartógrafo flamengo Gerardus Mercator publicaria em 1569, décadas depois de Nunes ter fechado a conta. A matemática chegou primeiro; o instrumento que a tornaria útil a qualquer piloto só viria décadas depois.

Determinou que o crepúsculo termina quando o Sol está dezoito graus abaixo do horizonte — definição ainda hoje em uso.
FIG. 06Determinou que o crepúsculo termina quando o Sol está dezoito graus abaixo do horizonte — definição ainda hoje em uso.

Do outro lado da Europa, o jesuíta Cristóvão Clávio, um dos artífices da reforma do calendário gregoriano, chamou a Nunes «homem de agudíssimo engenho, inferior a nenhum na matemática do nosso tempo», e usava o seu livro sobre crepúsculos nas próprias aulas. Foi nesse mesmo livro, o De Crepusculis de 1542, que Nunes determinou que o crepúsculo começa e acaba quando o Sol está dezoito graus abaixo do horizonte: a mesma definição de crepúsculo astronómico ainda hoje em uso.

Da sua ascendência, dizem as fontes apenas o que se pode dizer com prudência: era, muito provavelmente, de família cristã-nova, de possível origem judaica. A ele, o prestígio protegeu-o em vida. Nunca foi incomodado pela Inquisição. Aos seus netos, a proteção não chegou: décadas depois da sua morte, o Santo Ofício deteve-os, interrogou-os e condenou-os sob acusação de judaísmo. Nunes morreu a 11 de agosto de 1578, em Coimbra, uma semana depois de o seu antigo aluno, D. Sebastião, ter desaparecido nas areias de Alcácer-Quibir, à frente de um exército que o reino nunca mais recuperaria.

Portugal ainda lhe reconheceu alguma coisa: entre 1947 e 1957, o seu retrato circulou no país inteiro, impresso na nota de cem escudos. As pessoas pagavam com o rosto de um homem cujo nome, décadas mais tarde, deixaram de reconhecer.

Os manuais guardam os nomes dos navegadores que abriram caminhos sobre os mares. Esqueceram o professor de Coimbra cuja matemática lhes explicava, com décadas de avanço, por que razão o rumo do seu próprio navio se curvava. Da próxima vez que alguém pegar numa craveira e fizer deslizar a pequena escala até casar dois números, terá nas mãos, sem saber, o nome de Pedro Nunes.