Fernão de Magalhães estava a encher arcas de mantimentos quando o homem que D. Manuel I mandara travar a viagem lhe entrou em casa.
Era 18 de julho de 1519, em Sevilha, dois meses antes de a armada partir. O homem chamava-se Sebastião Álvares e era o feitor do rei de Portugal em Andaluzia.
Álvares disse-lhe então que os principais castelhanos da cidade, falando dele, o tinham por homem vil e de mau sangue, e que era «avido por treedor»: tido por traidor, por ir contra o estado do seu rei.
Magalhães respondeu-lhe que já não podia fazer outra coisa, pela sua honra, senão seguir o seu caminho.
Falaram muito. Álvares resumiu a conversa numa linha: «O que se falou foy tanto que se nom pode escrever.»

A carta em que ele contou tudo isto ao seu rei está no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, no Corpo Cronológico. Não foi escrita para responder à pergunta que, cinco séculos depois, havia de pôr dois países a discutir.
Em março de 2019, a Real Academia de la Historia, academia do Estado espanhol, publicou um relatório de treze pontos numerados sobre aquela viagem. A última linha diz: «es incontestable la plena y exclusiva españolidad de la empresa.»
A carta de Álvares foi escrita para travar a viagem. E, mais abaixo, descreve o mapa da armada. Falta ainda um homem que não era de nenhum dos dois reinos.
Como é que um capitão português foi parar a Sevilha?

Magalhães partira para o Oriente em 1505, na armada do primeiro vice-rei da Índia, D. Francisco de Almeida. Ficou lá oito anos, esteve em Goa em 1510 e em Malaca em 1511. Voltou, foi ferido numa perna em Azamor, e correu contra ele uma acusação de ter vendido gado do saque. Entre 1514 e 1516 fez à Coroa pelo menos dois pedidos de reconhecimento dos serviços. Ambos foram recusados.
Foi depois disso que se mudou, renunciando publicamente à sua condição de súbdito de D. Manuel. Chegou a Sevilha a 20 de outubro de 1517, e a 22 de março de 1518 assinava a capitulação com Carlos I de Espanha.
Só que Castela também não o tinha por castelhano. Antes da partida, ele e o cosmógrafo Rui Faleiro receberam o hábito da Ordem de Santiago, para contornar as proibições de naturalização que ali vigoravam. E as próprias capitulações que assinou com o rei de Espanha chamam-lhe «caballero natural del reino de Portugal»: é o relatório de 2019 que o recorda.
O Tratado de Tordesilhas, de 1494, não fixara contrameridiano nenhum, e entre os técnicos portugueses não havia acordo sobre de que lado da linha ficava Maluco.

Há, na mesma carta, um parágrafo que não é sobre nenhum reino.
Álvares regista que Magalhães lhe dissera que, se o rei o mandasse voltar, voltaria, e sem certeza nenhuma de recompensa. E que, se mercê não houvesse, lá estava «essa serra d Ossa e sete varas de pardo cõ hũas contas de bugalhos»: a serra dos eremitérios alentejanos, sete varas de burel e um rosário de contas de bugalho. Um hábito, e mais nada.
O feitor que fora enviado para o demover fecha o parágrafo a dar-lhe razão. Pareceu-lhe, escreve, que o coração do homem «estava na verdade do que conpria a sua honrra e conçyençia».
Mais abaixo, Álvares passa às informações práticas.

Escreve que viu as terras de Maluco assentadas «na poma e carta, que ca fez o filho de Reynell, a qual nom era acabada quando caa seu pay veo por ele; e seu pay acabou tudo; e pos estas terras de Maluco». E acrescenta que «por este padram se fazem todallas cartas», e que quem as faz é Diogo Ribeiro.
O filho era Jorge Reinel. O pai era Pedro Reinel, cartógrafo em Lisboa ao serviço da Casa da Mina e da Índia. O historiador Rui Loureiro, que estudou as fontes do projeto, chama-lhes «indubitavelmente os cartógrafos essenciais».
Loureiro nota que o gesto do pai parece fazer menos sentido: fora a Sevilha buscar o filho para o levar de volta, e em vez disso acabou o mapa e pôs-lhe as ilhas das especiarias. A única explicação que lhe encontra, e dá-a como hipótese, são fortes laços de amizade e solidariedade para com Magalhães.
Álvares fecha o assunto com um desejo. Que praza a Deus todo-poderoso, escreve ao seu rei, «que tall veajem façam como os Corte Reaes». Já falámos aqui dos dois irmãos Corte-Real que partiram de Lisboa para o Atlântico Norte, um à procura do outro, e não voltaram.

O relatório de 2019 também não nasceu sozinho. A Real Academia escreve que o emitiu «a petición de parte»; segundo o SOL, quem o pediu foi o diretor do ABC, que falara de «estupefação e vergonha». E o próprio texto diz ao que vem: evitar que as comemorações se tornem «una fuente de disidencias» entre os dois países vizinhos.
Há quem lhe dê razão de fora. O historiador britânico Felipe Fernández-Armesto, que não é de nenhum dos dois países, respondeu ao SOL que o texto «é consistente com os factos»: Portugal rejeitou a proposta, Magalhães transferiu a lealdade para Castela. E acrescentou: «Não devemos atribuir a nós próprios o mérito pelas conquistas do passado tal como não nos devemos culpar pelas suas falhas.»
Do lado português, a resposta não contestou os factos: contestou uma omissão. Manuela Mendonça, presidente da Academia Portuguesa da História, disse que não podia concordar com o relatório «por ele omitir o essencial da vida de Fernão de Magalhães»: a aprendizagem feita em Portugal e os oito anos na Índia.
Para o historiador João Paulo Oliveira e Costa, Magalhães «foi um produto do esforço então quase centenário dos portugueses de exploração dos mares». E disse também isto: «Considero que esta polémica é um grande disparate. Nem Portugal nem a Espanha precisam de manipular a História para se afirmarem como estados modernos.»

A armada saiu de Sanlúcar de Barrameda a 20 de setembro de 1519: cinco navios, mais de duas centenas de homens. Magalhães morreu a 27 de abril de 1521, na ilha de Mactão. A 6 de setembro de 1522 entrou em Sanlúcar um único navio, a Victoria, comandado por Juan Sebastián Elcano, com dezoito homens.
Falta o homem que não era de nenhum dos dois reinos. Figura em trinta e cinco dos cerca de mil dias que o relato cobre.
No testamento que fez em Sevilha a 24 de agosto de 1519, Magalhães declarou o seu escravo Henrique livre a partir do dia da sua morte, e deixou-lhe dez mil maravedis. Morto Magalhães, o capitão que assumiu o comando, Duarte Barbosa, disse-lhe que continuaria escravo. A 1 de maio de 1521, conta Pigafetta, os homens que desembarcaram para um banquete foram mortos, e Henrique foi o único que escapou. Depois disso não há mais registo dele.
Há quem sustente que Henrique, tendo regressado à terra onde nascera, terá sido o primeiro homem a fechar o círculo. A pergunta não tem resposta, e não por falta de quem a procure: as duas fontes de primeira mão dizem coisas diferentes. Pigafetta, que ia a bordo, escreve que era de Samatra. O testamento diz que era natural de Malaca. Hoje reclamam-no a Malásia, as Filipinas e a Indonésia.

Em julho de 1519, o reino de Portugal mandou um homem a Sevilha para que aquela viagem não se fizesse.
Em 2021, Portugal e Espanha submeteram em conjunto à UNESCO um acervo de documentos sobre aquela viagem, inscritos em 2023 no Registo da Memória do Mundo sob um título com os dois nomes: Fernão de Magalhães e Juan Sebastián Elcano. Mostram, diz o registo, «a relação complementar entre os portugueses e os espanhóis».
Sebastião Álvares escreveu a sua carta para que a viagem não se fizesse.
Fontes
Fontes principais: o Informe de la Real Academia de la Historia sobre la Primera Circunnavegación a la tierra (Madrid, 1 de março de 2019); Rui Manuel Loureiro, «As fontes do projecto de navegação de Fernão de Magalhães», Abriu 8 (2019), pp. 35-67; José Ramos-Coelho, Alguns documentos do Archivo Nacional da Torre do Tombo ácerca das navegações e conquistas portuguezas (1892), pp. 431-435; F. H. H. Guillemard, The Life of Ferdinand Magellan (1890), apêndice II; Pedro Cerdeira, «Magalhães, Fernão de (c. 1480-?)», CHAM / FCSH-NOVA; Rommel A. Curaming, «Historical versus Practical Pasts? Enrique de Malacca in Malaysia's Historical Imagination», História da Historiografia 16 (41), 2023; Fernão de Magalhães, pioneiro da globalização, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (2022); o registo da Memória do Mundo da UNESCO; e as peças do SAPO/SOL e do Observador de março de 2019.
