Uma lápide de mármore, na fortaleza de Sagres, diz que foi ali que o Infante D. Henrique fundou a famosa escola de cosmografia.
Nenhum documento do tempo dele menciona a Escola de Sagres.
A pedra foi assente por ordem de D. Maria II. O auto da colocação é de 1840. Nela lê-se o que o Infante teria levantado naquele promontório, à sua custa: o palácio da sua habitação, a famosa escola de cosmografia, o observatório astronómico e as oficinas de construção naval.

E não é só a pedra. Em 1960, para as Comemorações Henriquinas, os Monumentos Nacionais refizeram parte da fortaleza à semelhança da imagem mais antiga que se conhece do sítio, um desenho do tempo do ataque do corsário Drake. O inventário do Estado português escreve que a intervenção procurou «uma falsa autenticidade».
O lugar foi sendo feito à medida da história que se contava sobre ele. E a história tem uma origem: a primeira frase que diz que houve ali uma escola foi escrita em Inglaterra, em 1625, cento e sessenta e cinco anos depois de o Infante morrer. Esta é a história dessa frase, e da razão por que gente muito inteligente acreditou nela durante quatrocentos anos.

Procurou-se nos papéis do Infante, nos cronistas que o conheceram e nos que escreveram logo a seguir. A escola não está lá. O que está documentado é mais pequeno.
Em 1443, o Infante pediu ao irmão, o regente D. Pedro, autorização para criar uma vila no promontório, num lugar a que chamavam Terçanabal. Já tinha casas em Lagos e na Raposeira, a poucos quilómetros dali. Deixou escrito para que servia a vila: um sítio onde quem passasse pudesse encontrar mantimentos, ou esperar por tempo que lhe permitisse dobrar o cabo. Zurara, o cronista mais próximo dele no tempo, viu as primeiras muralhas a subir e descreveu exatamente isso: uma vila de apoio a quem passava do Mediterrâneo para o Atlântico. João de Barros acrescenta um pormenor: um cartógrafo mandado vir de fora para ensinar os homens do Infante a ler e a fazer cartas de marear. Mas não escreve a palavra escola, nem fala de Sagres.

Depois há o testamento, a peça que costuma ser esquecida e a que mais diz. Foi ditado naquela vila. Nele o Infante discrimina, uma a uma, as fundações que quer ver sustentadas depois de morto: capelanias, missas, a igreja de Santa Catarina fora da vila e a capela de Santa Maria dentro dela, um lente de teologia com doze marcos de prata por ano. É um homem a arrumar contas com aquilo que lhe importava. Não há uma palavra sobre uma escola náutica, nem sobre cartógrafos, nem sobre um observatório.
Ficaram assim duas listas do mesmo sítio. A dele está no testamento. A outra está na parede.

A escola veio de outro lado: de uma cadeia de frases, e cada elo tem nome e tem data.
Em 1567, Damião de Góis escreveu que o Infante era dado ao estudo das letras, sobretudo da astrologia e da cosmografia, e que se mudara para Sagres para observar as estrelas, porque ali o céu era mais claro. Em 1625, em Inglaterra, Samuel Purchas pegou numa passagem de Barros sobre aquele cartógrafo e escreveu, pela primeira vez que se conhece, que havia ali uma escola. Barros não diz isso. Purchas leu-o como se dissesse. E Ribeiro dos Santos tomou o céu mais claro de Góis e pôs lá um observatório astronómico, o primeiro que houvera em Portugal, escreveu ele. É esse o observatório que está na pedra.

Até 1840 não havia em Sagres uma pedra, uma inscrição, que lembrasse o Infante. Nesse ano houve. Mármore, dez palmos e meio por cinco e meio, sobre a porta interior da entrada principal; no alto, em meio relevo, o escudo de armas dele entre uma esfera armilar e um navio à vela; em baixo, dois painéis, o texto em latim num, em português no outro. A 24 de julho de 1840, o secretário da câmara da vizinha vila do Bispo lavrou o auto da colocação, com o governador da praça e o capelão presentes. E a pedra data-se a si própria: trezentos e setenta e nove anos depois da morte do Infante.
Em 1843, a revista O Panorama dedicou a Sagres um artigo ilustrado, e chamou «nobre e grandemente nacional» ao pensamento de erguer ali a pedra. Diz que fora assente no próprio lugar que o Infante escolhera para estabelecer «a famosa eschola de mathematicas e navegação, donde sahiram os nossos primeiros navegadores». Quatro parágrafos abaixo, no mesmo artigo, escreve-se outra coisa: que «quanto ás casas ou paços onde morou o infante e tivera as escholas, não se encontram vestigios certos». E dá a razão: os livros da câmara de Sagres tinham ardido quando o concelho foi anexado ao de Vila do Bispo. A afirmação e a admissão saíram no mesmo artigo, em 1843, trinta e quatro anos antes de a dúvida ser levantada em voz alta na Academia.

E continuou a crescer. Em 1876, o britânico Richard Henry Major deu a escola por indiscutível, e explicou a falta de ruínas no sítio onde ela deveria estar: perdera-se tudo no terramoto de 1755. Em 1877, na Academia Real das Ciências, o marquês de Sousa e Holstein fez notar que os cronistas não mencionam escola nenhuma, e que o Infante também não a refere no testamento onde descreve tudo o que fundou. Não foi mais longe do que as fontes o levavam. Em 1891, Oliveira Martins fixou a versão que ficou na memória de toda a gente: a escola de náutica e cartografia, uma biblioteca com os livros que D. Pedro trouxera da Europa, duas igrejas, uns estaleiros, um arsenal. As duas igrejas estão mesmo no testamento. O resto tinha-se juntado ao longo de séculos.
A explicação corrente é a de Teixeira da Mota: a lenda cresceu nos séculos XVIII e XIX, exatamente quando as academias científicas se multiplicavam pelo mundo. Aqueles homens olharam para o século XV e viram lá aquilo que tinham à volta. Se os descobrimentos tinham sido uma revolução técnica, então era porque havia uma instituição a fazê-la.

O lugar acabou por ser lido da mesma maneira. No terreiro há um grande círculo de pedra, quarenta e oito fiadas dispostas em raios, que veio ao de cima por acaso há pouco mais de um século e a que logo chamaram rosa dos ventos, ligando-o à escola náutica que ali teria funcionado. A ficha oficial da fortaleza escreve hoje que essa escola foi «alegadamente» fundada ali, e dá uma segunda hipótese para o círculo: um enorme relógio de sol do século XVI, décadas depois de o Infante estar enterrado. Antes de uma intervenção de requalificação fez-se ali uma sondagem arqueológica, e aguardam-se os relatórios técnicos.
Para a historiografia de hoje, a Escola de Sagres é sobretudo um símbolo: da aprendizagem que os marinheiros foram tirando à experiência, viagem após viagem, voltando e dizendo o que tinham visto, e de que saiu a base da navegação astronómica dos séculos seguintes.
A escola eram esses marinheiros.
A lápide continua embutida na parede, sobre a porta da entrada principal. Passa-se por baixo dela para entrar.
Fontes6 referências
- Pere Roca-Bruzzo, «La escuela de Sagres: la construcción de un mito historiográfico», Nuevas de Indias. Anuario del CEAC, IV (2019), pp. 81-111. Universitat Autònoma de Barcelona. O único estudo dedicado exclusivamente à construção deste mito, cronista a cronista.
- Luísa Gama, «Escola de Sagres», Navegações Portuguesas, Centro Virtual Camões (Camões, I.P.). O portal encontra-se em manutenção; o texto foi lido na cópia preservada pelo Arquivo.pt, o arquivo nacional da web.
- Testamento do Infante D. Henrique, transcrição do texto integral. É uma transcrição em linha e não uma edição crítica; o argumento que dela se retira é o mesmo que o marquês de Sousa e Holstein apresentou em 1877.
- O Panorama, n.º 71, 6 de maio de 1843, 2.ª série, vol. II, pp. 137 e 140. Fac-símile do acervo da Hemeroteca Digital de Lisboa (Câmara Municipal de Lisboa). As transcrições de 1843 e o texto da inscrição da lápide estão nas páginas digitalizadas.
- Museus e Monumentos de Portugal e Fortaleza de Sagres, páginas institucionais da fortaleza (nota histórica, mapa interativo elemento a elemento, e a notícia da sondagem arqueológica na rosa dos ventos).
- Património Cultural, ficha de inventário «Torre e muralhas de Sagres», nota histórico-artística e acervo fotográfico.