As autoridades de Faro chegaram a pedir que se queimassem umas cabanas na praia. Quem lá vivia tinha saído da cidade para ficar longe do fisco, e não tencionava voltar.
Mais de um século depois, daquela mesma praia largou um barco de pesca. Ia para o Rio de Janeiro.
Conta-se em Olhão que, em 1808, um punhado de olhanenses atravessou o Atlântico num caíque para levar uma notícia ao príncipe regente. Falta-lhe um pormenor. Os documentos contam-na de outra maneira, e a dos documentos é melhor.
Como nasceu Olhão: a nascente e as cabanas de pescadores
Olhão começou como não começam as vilas. Não houve foral, não houve fundador, não houve senhor. Houve uma nascente: um grande olho de água doce que brotava em plena praia, a uma légua de Faro, defronte da barra que abria a ria ao mar. Por volta de 1680, uns pescadores começaram a levantar ali cabanas. Eram poucas: não passavam de trinta.
Vinham de Faro, e vinham por uma razão que o historiador António Rosa Mendes resume sem cerimónia: eram homens «frigidos de tributos, cardados pelo fisco», para quem quanto mais longe ficasse a administração, melhor. A câmara da cidade percebeu o que aquilo era e reagiu como sabia: pediu que se mandassem queimar as cabanas de Olhão.
Não se queimaram. E o povoado cresceu. Em 1758, o prior da terra contava 787 fogos e 2440 almas, gente, escrevia ele, «toda marítima e com o contínuo exercício de pescar». Em 1808 seriam já uns cinco mil.

Ao mesmo tempo, Olhão ia fazendo outra coisa: ia saindo de Faro pela escrita. Em 1695, a desanexação da freguesia. Em 1765, um alvará que autorizava os seus marítimos a separarem-se da confraria da cidade, num despacho de secura administrativa: «Hei por bem fazer-lhes mercê de que possam separar-se.»
Papel a papel, aquela gente ia-se pondo fora do alcance da cidade de onde tinha fugido.
A ocupação francesa do Algarve em 1808
Entre fevereiro e março de 1808, um destacamento francês às ordens do general Maurin ocupou o Algarve. Maurin instalou-se em Faro. A 21 de maio, o bispo D. Francisco Gomes de Avelar fez publicar uma pastoral que lembrava aos diocesanos que a lei da Igreja manda «sujeitar-nos a quem governa com uma perfeita sujeição e obediência». Era a doutrina corrente do tempo: obedecia-se a quem governava. E quem governava, naquele maio, era Maurin.
A revolta de 16 de junho de 1808
A 16 de junho, rebentou uma revolta popular. Começou onde ninguém a esperava: em Olhão.
Três dias depois alastrava à cidade. As autoridades, portuguesas e francesas, tentaram sufocá-la e não conseguiram. Nenhum documento diz que Olhão expulsou sozinho os franceses do Algarve. Certo é que ali começou, e antes de o verão ir a meio os ocupantes tinham deixado o reino do Algarve.

Sabemos como aquilo se viveu por dentro graças a um homem chamado João da Rosa, escrivão do Compromisso Marítimo. No livro do tombo da confraria, entre a contabilidade e os assentos, deixou escrita uma Lembrança para ficar em memória dos valorosos marítimos deste Lugar de Olhão. É um documento raríssimo. Num tempo de analfabetismo quase total, é um relato do levantamento feito por uma mão do próprio povo, a do escrivão da confraria. Um relato que fala dos «dias todos que estivemos alevantados contra os franceses» e que remata, com uma satisfação que ainda hoje se ouve, que se deitaram as tropas «fora deste Reino do Algarve, ficando livre desta maldita nação».
A viagem do caíque Bom Sucesso ao Rio de Janeiro
A 6 de julho de 1808, um caíque largou de Olhão com proa ao Brasil. Ia atrás de uma corte que, no inverno anterior, tinha atravessado aquele mesmo oceano em fuga, depois de dormir a última noite no palácio de Mafra. Convém saber o que é um caíque. É um barco de pesca da ria e da costa, feito para trabalhar à vista de terra, entre bancos de areia e canais de maré. Não é um navio de alto mar. Um caíque conhece o fundo. Sabe onde a água muda de cor, onde a maré vaza, a que horas se entra a barra. Nada disso serve para nada em pleno Atlântico.
Nele iam dezassete homens de Olhão. A lista dos nomes conservou-se, e vale a pena lê-la em voz alta: o mestre e proprietário Manuel Martins Garrocho, o piloto Manuel de Oliveira Nobre, e depois Domingos do Ó Borrego, José da Cruz Charrão, António dos Santos Palma, João do Munho, Joaquim do Ó, Pedro Ninil. Nomes de gente do mar, de uma terra que, mais de um século antes, não passava de trinta cabanas.
Diz a tradição da terra que Oliveira Nobre foi sem cartas de marear, guiando-se por estima e pela leitura das correntes. Os documentos não o confirmam, e a história não precisa disso para ser o que é.
O barco chamava-se Bom Sucesso.

Seguem-se mais de setenta dias de que nada sabemos.
Nenhum deles deixou escrito o que foi aquilo: um casco de pesca da ria, feito para a costa, entregue ao Atlântico durante semanas. A água a contar-se por dias. Noites em que o mar levanta e não há barra onde entrar, nem cabo, nem farol, nem nada a que um pescador da ria pudesse chamar um sítio conhecido.
A 22 de setembro, o caíque entrou na baía de Guanabara.
Resta saber porquê.
A versão que hoje se conta é a de uns pescadores que decidiram, por sua conta e risco, ir dizer ao príncipe regente que os franceses tinham partido.

O papel diz outra coisa. Oficialmente, aquilo era um correio: o caíque ia incumbido pela Junta Governativa do Algarve de levar à corte a notícia da expulsão dos ocupantes. Não foi um rasgo espontâneo. Foi uma missão decidida por um órgão de governo.
Missão oficial ou iniciativa própria: o que dizem os documentos
Nenhum documento diz o que aqueles dezassete homens esperavam trazer de volta.
Mas o papel não precisava de dizer o essencial, porque estava ali, de pé, no cais do Rio de Janeiro. Uma notícia cabe em qualquer porão. O que aquele caíque descarregou no cais do Rio de Janeiro foram olhanenses: dezassete homens queimados de sol e de sal, que meteram um barco de pesca no Atlântico durante mais de dois meses para o vir dizer em pessoa.
Eles próprios eram o argumento.
A 15 de novembro de 1808, o príncipe regente assinou um alvará. Nele reconhecia aos «fiéis vassalos habitadores do Lugar do Olhão» o patriotismo e a lealdade com que, a 16 de junho, se resolveram a sacudir «o pesado e intolerável jugo Francês», dando «o sinal da Restauração da sua liberdade». E ordenava que aquele lugar se chamasse, dali em diante, Vila de Olhão da Restauração, gozando de «todos os privilégios, liberdades, franquezas, honras e isenções de que gozam as Vilas mais notáveis do Reino».

O alvará de 1808 e a Vila de Olhão da Restauração
A tripulação foi recompensada com dinheiro, hábitos da Ordem de Cristo e postos honorários. E permitiu-se aos habitantes usarem uma medalha, gravada com uma única letra, O, e com uma legenda: «Viva a Restauração e o Príncipe Regente nosso Senhor».
O aglomerado de cabanas que a cidade quisera ver arder tinha agora, a uma légua da câmara que o pedira, os privilégios das vilas mais notáveis do reino. E tinha-os onde aquela gente, havia mais de um século, aprendera que era preciso tê-los: por escrito.
Hoje há um caíque atracado no cais de Olhão. É uma réplica; do original não se sabe o fim.
Faro tinha pedido que se deitasse fogo àquelas cabanas. Do Rio de Janeiro veio um papel assinado pelo príncipe regente.
Foram levar um recado. Vieram buscar um nome.
Fontes6 referências
- MENDES, António Rosa, «O levantamento popular de Olhão contra os franceses», Promontoria n.º 6 (2008), Universidade do Algarve
- Wikipédia: Viagem do Caíque Bom Sucesso
- Wikipédia: Revolta de Olhão
- Wikipédia: Olhão
- Heráldica Cívica: Município de Olhão
- Postal: «Olhanenses expulsaram as tropas de Napoleão do Algarve»
